
Dos verbetes da Jaqueline Tittoni e seu Núcleo
Paola Zordan
Ouvindo as músicas Belchior, Legião Urbana, Chico César, Alice Coltrane, aúdio Era uma Vez das Invisibilidades
As palavras que me tocam
(Helena)
E o amor que nos fortalece
(grupo das Oliveiras com Iracema)
HABITAR
Habitamos livros e imagens. Muitos.
Adenso se referendar todos que o isolamento me fez morar?
As dificuldades de uma casa
Apanho
Mas quem me bate diz que apenas “revidou”
dores
Sempre maiores que as do corpo
Porque o que a casa exige
Aniquila o corpo
Limpeza é um tipo de abuso?
Falta de respostas acho que sim.
Não tenho saudades do trânsito. Do ir e vir. Do pegar,
buscar, levar. Maior alívio.
Sonho com quadrados e bolinhas em tela – vivo num
quadrado dentro de um monitor que só faz cansar os olhos
Imperativos do olhar: tudo o que nos edifica
Edifícios que se tornam nossas casas.
Instituto de Artes
Santa Casa
Faculdade de Educação
Mais de uma casa é não ter casa alguma.
De onde mesmo tu é?
Praticamente nasci na Arquitetura – mas não projeto nada –
vim de um namoro de Faculdade. Vida de Campus Centro.
Onde estamos? Em casa.
Mulher-casa – os trabalhos de Louise Bourgeois
P.S 1: Descubro que desde que me fiz doutora já vivo
isolada e confinada há muito tempo. Estranhamentos
relatados agora são a vida ascética acadêmica doméstica.
P.S.2: Por tudo o que sei, e talvez seja pouco, Bom Jesus é
uma cidade quase fantasma. Passei, mas não fiquei.


MORTE
onde se vive, também se morre
“a casa é o túmulo da vida” – minha vó
contava que sua mãe, Sinhá dizia
e isso foi antes da febre espanhola
escutar a febre, falar dos lutos
A primeira coisa que se perde de quem morre é a voz. Ou o cheiro. Depende. Ainda a ouço perguntando pelo filho.
Choro, quando lembro daquele domingo, que ela disse que me amava. Ela, oposto de minhas mães, que há muito se foram. Ela ficou por anos e anos e anos a meu lado.
Não sentir o corpo da própria mãe esfriar deve doer muito. “Já está num saco, ninguém pode chegar perto”- ele falou para quem do mesmo útero também saiu. Velório é um parto as avessas.
Mas não houve.
O cheiro da minha vó, a filha da Sinhá, minha madrinha, vinte e três anos depois de sua morte, ainda sinto. Ficou em meu corpo?
Proteção forte de lavanda osmarin na porta de casa. Nesse corpo doença não entra. Mesmo assim, eguns pedem passagem e a vassoura trabalha sem parar.
– Já mandou embora aquele exun?
– Filha, não confunda Exu com Egun.
– Eu não acredito nisso, mãe. Só no Espírito Santo, em Jesus e no Nosso Senhor Deus Pai.
Como responder questões que não exigem respostas?
OBS: Acrescente-se, nos INUMERÁVEIS, Neura Maria Michielin Zordan, costureira, 77 anos, falecida por COVID-19 no Hospital Divina Providência em 2 de agosto
“A casa de santo tem muito a ensinar para a Universidade” 1
PARAR
A maior das dificuldades.
Pararam as aulas, mas não os alunos. Parada, nunca trabalhei tanto. Parades, somos acessos até para almas desencarnadas. Paredes, nos doamos demais. Excessos. Usei a obra NÓS. Voltam as aulas. O tempo para preparar uma aula a ser gravada com todas referencias o mais precisas possível toma o triplo do que era preparar uma aula onde todos estariam juntos e o exposto seria costurado coletivamente.
Alguém parou? O pessoal que trabalha na área da Saúde está exausto.
Escrevi, com V. aquela baiana arretada que chegou pelo encontro com Amor em Fragmentos, dissertação da Marilu, o artigo Parar Pandêmico: Educação e Vida. Meu bolsista editou dois vídeos sob minha coordenação. Terminei o projeto Lições de má-educação, consegui publicar, eita luta burocrática. Escrevi o trabalho
para aquele congresso, virou artigo, apareceu o FRAGIL. Dois capítulos para o Métodos de Transcriação. Ranço de relatório, xô.
“A Universidade segue”, escreve Diego Castro em seu verbete. Mesmo capenga, com uma chama se apagando, seguimos. Mesmo com a autonomia farseada. Mesmo no risco de nos empresariarmos para poder continuar respirando.
Cinquenta e seis páginas em espaço um foram digitadas num surto de registros infelizes chamado Diário da Pandemia.
Cento e doze páginas foram usadas para escrever a Última Carta para o espírito desencarnado de Caio Fernando Abreu. A melhor parte foi fazer uma colagem com as cartas.
E Sandra, a demônia das Escrileituras, adoece. Primeiro uma vitória, não se trata do vírus. Depois, conhecemos a síndrome. Os rins se vão. Úlceras sangram. O coração quase para. Muitos acometimentos, dias incontáveis de CTI. Hoje, não respira sozinha. Quem, afinal, pode respirar?
Termino de ler e comentar a tese tramada pelo Anderson, quatrocentas e trinta e nove páginas em torno de tecer e desenhar. Tudo está na trama. Há um tramado caósmico, caóptico, tudo se junta, estamos juntas.
Conto. Em agosto, para uma aposta que sabia quase perdida, escrevi em 29 páginas sem cronograma e citações diretas, um novo projeto de pesquisa, afrocentrado, com ilekês, orixás e palavras em iorubá. Falta muita coisa. Mas corri, porque sem uma bolsa de produtividade viver assim, no mais das horas contadas para trabalho, sem descansos, não é algo que se justifique. Faço isso sempre, porque as respostas mostram o quanto não me ajusto e no que posso melhorar para sobreviver nessa máquina de muitos cavalos que são essas universidades pelas quais transcorrem mulheres que pensam, lêem e escrevem.
Não tenho saudades do trânsito. Do ir e vir. Do pegar, buscar, levar. Ogum até pode ser meu guia, mas quem subiu com Oxumaré na cabeça não nasceu para motorista.
Chego, quase no fim, mas não. Recebi a resposta do “julgamento”. Não fosse meu corpo guerreiro de Iansã, juro que morria – de acordo com os importantes pareceristas trata-se de um projeto “não adequado” com “conteúdo fraco” e “pouca inserção nacional e internacional”. Não dizem que se trata de uma velha, mas acusam a autora ter se doutorado “há dezesseis anos” e apresentar uma produção “irrelevante”. O que estamos fazendo!? Sorte que bater cabeça faz a gente perder o ego. Porém, toda injustiça precisa ser reparada, especialmente quando assumimos afrocentralidades intelectuais e entregamos ao que foi silenciado conhecimentos que a Universidade por séculos zelou. E para tanto, precisamos de um novo verbete, reparador: CURA
1 – Fala de Lucia Regina Brito Pereira no IV Seminário de Educação para Relações Étnico- Raciais da UFRGS, em 18 de dezembro de 2019, promovido pelo Departamento de Educação e Desenvolvimento Social da Pró-Reitoria de Extensão.
ATENÇÃO: Qualquer relação com Ana Mendieta (1948 + 1985) não é coincidência, é pura e assumida precursão.