{"id":1135,"date":"2022-04-14T19:40:30","date_gmt":"2022-04-14T22:40:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/neparc\/?p=1135"},"modified":"2022-04-14T21:33:15","modified_gmt":"2022-04-15T00:33:15","slug":"por-que-precisamos-de-uma-casa-de-estudantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/neparc\/por-que-precisamos-de-uma-casa-de-estudantes\/","title":{"rendered":"Por que n\u00f3s precisamos de uma casa de estudantes"},"content":{"rendered":"<div class='booster-block booster-read-block'>\n                <div class=\"twp-read-time\">\n                \t<i class=\"booster-icon twp-clock\"><\/i> <span>Read Time:<\/span>15 Minute, 16 Second                <\/div>\n\n            <\/div>\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">Raquel da Silva Silveira<a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">Lara Werner<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">\u00c2ngela Cristina Bastos Lummertz<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">Anilton Junior de Lara Nunes<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">e a turma da disciplina de<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">Psicologia de Direitos Humanos, Direito Ambiental e Inclus\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right has-small-font-size\">Universidade Federal do Rio Grande do Sul<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por que a universidade precisa de uma casa de estudantes ind\u00edgenas, para al\u00e9m da necessidade de perman\u00eancia ao longo da forma\u00e7\u00e3o ap\u00f3s o ingresso por cotas? Esta pergunta foi compartilhada em uma roda da disciplina eletiva <em>Psicologia, direitos humanos, direito ambiental e inclus\u00e3o, <\/em>ofertada temporalmente no primeiro semestre de 2022.&nbsp; O questionamento\/provoca\u00e7\u00e3o veio da visita que fizemos \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, ainda em frente ao Museu da UFRGS, pelo direito de terem uma Casa de Estudantes Ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Era uma quinta feira pela manh\u00e3, 10 de mar\u00e7o, quando trocamos o espa\u00e7o virtual do Modelo de Ensino Remoto Emergencial (ERE) por uma aula \u2018pr\u00e1tica\u2019. Nesta turma temos estudantes de diferentes cursos e, ao discutirmos teoricamente essas tem\u00e1ticas, conclu\u00edmos que a rua \u00e9 o espa\u00e7o onde precisamos estar. Direitos Humanos s\u00e3o uma constru\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, feita de lutas e resist\u00eancia contra as formas de opress\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o.&nbsp; Como ensinar e aprender apenas com os livros e os v\u00eddeos produzidos por outras pessoas? Sim, isso \u00e9 fundamental na universidade, mas h\u00e1 saberes que s\u00f3 constru\u00edmos com o corpo todo. A psic\u00f3loga Raquel Guerreiro (2021) diz que \u00e9 preciso ter \u201cum corpo todo de escuta\u201d. Assim, com nossos corpos sedentos do encontro presencial, depois de dois anos de aulas virtuais por causa da pandemia de Covid-19, decidimos experimentar o direito achado na rua. Naquele contexto, o direito lutado na rua.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Est\u00e1vamos em um grupo diverso, de diferentes gera\u00e7\u00f5es, nem todas mulheres, nem todas brancas, nem todas sem defici\u00eancia, por\u00e9m com uma vida confort\u00e1vel, seja pela branquitude, seja pela classe social. Est\u00e1vamos atentas de que a retomada da Casa de Estudantes Ind\u00edgenas diz respeito a todas as pessoas, sejam elas conscientes ou n\u00e3o de sua racializa\u00e7\u00e3o, de sua classe social, de seus acessos e privil\u00e9gios. As pessoas brancas tamb\u00e9m t\u00eam ra\u00e7a\/cor, e se beneficiam dos privil\u00e9gios da branquitude. As pessoas herdeiras e ricas t\u00eam interesses de sua classe social, e se beneficiam da acumula\u00e7\u00e3o de capital, a qual se baseia na explora\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de vida de outros seres. Em uma sociedade hierarquizada, desigual e violenta como a brasileira, a viv\u00eancia de uma vida digna com os direitos humanos garantidos se viabiliza \u00e0s custas de normalizar a aus\u00eancia de acesso e de perman\u00eancia de outras pessoas \u00e0s conquistas dos direitos humanos essenciais. Independente das condi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o h\u00e1 como dizer que a causa ind\u00edgena n\u00e3o \u00e9 de toda a sociedade, de toda a universidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embaixo da grande \u00e1rvore, lonas pretas e algumas barracas improvisadas abrigavam um coletivo de pessoas ind\u00edgenas, majoritariamente da etnia Kanhgang. <em>Fogs<\/em> (pessoas brancas na l\u00edngua kanhgang) tamb\u00e9m se somavam ao espa\u00e7o, quase todos(as) jovens. As camisetas dos movimentos estudantis de ensino m\u00e9dio e universit\u00e1rio coloriam a juventude engajada e solid\u00e1ria. Chegamos com uma pequena contribui\u00e7\u00e3o para o caf\u00e9 da manh\u00e3, pois as redes sociais divulgavam a necessidade de alimentos n\u00e3o perec\u00edveis e itens de limpeza.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem nos recebeu primeiro foi a kuj\u00e1 Iracema R\u00e3-Nga Nascimento,&nbsp; reconhecida pela UFRGS como Mestra de Not\u00f3rio Saber. Seu cocar colorido e um sorriso largo aqueceu nossos cora\u00e7\u00f5es. Debaixo da lona preta, um grupo de estudantes kanhgangs tomava caf\u00e9 numa mesa improvisada. Depois do cumprimento de bom dia, entregamos as nossas contribui\u00e7\u00f5es e imediatamente a mestra Iracema nos perguntou: <em>j\u00e1 tomaram caf\u00e9?<\/em> Um gesto de comunh\u00e3o e partilha se anunciava. Agradecemos o convite, pois j\u00e1 t\u00ednhamos tomado caf\u00e9 em nossas casas protegidas, est\u00e1vamos ali para aprender, para aprender como se faz a resist\u00eancia. <em>Em que podemos ajudar?<\/em>, perguntamos,&nbsp; <em>precisamos de \u00e1gua<\/em>, foi a resposta. Havia muitas garrafas de \u00e1gua vazias que precisavam ser cheias, mas para isso era necess\u00e1rio um carro. A professora presente tinha ido de carro, e foi poss\u00edvel um pequeno mutir\u00e3o para buscar um local para encher os gal\u00f5es de \u00e1gua. Ali n\u00e3o havia \u00e1gua encanada, n\u00e3o havia luz, mas havia um povo, um desejo, uma mobiliza\u00e7\u00e3o por direitos. Com aquele encontro firmamos nosso compromisso acad\u00eamico e estendemos a sua compreens\u00e3o para o que \u00e9, tamb\u00e9m, social.&nbsp; Essa luta n\u00e3o \u00e9 &#8211; ou n\u00e3o deveria ser &#8211; apenas de estudantes ind\u00edgenas por pol\u00edticas p\u00fablicas que garantam o direito \u00e0 moradia e perman\u00eancia na universidade. Entendemos que \u00e9 uma pauta urgente em nossa sociedade, pois hoje a popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, juntamente com a popula\u00e7\u00e3o negra, \u00e9 a mais amea\u00e7ada, aquela que os anseios capitalistas e colonialistas querem exterminar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A reivindica\u00e7\u00e3o por uma casa de estudantes ind\u00edgenas n\u00e3o \u00e9 nova. A demanda vem sendo explicitada h\u00e1 alguns anos e se fundamenta, principalmente, na necessidade das mulheres poderem estar com os seus filhos, filhas, filhes. A maioria das estudantes ind\u00edgenas que s\u00e3o m\u00e3es v\u00eam de aldeias distantes da cidade de Porto Alegre. Al\u00e9m disso, o modo de vida comunit\u00e1rio dos povos ind\u00edgenas n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel de ser preservado no modelo individualista da Casa de Estudantes (CEU) n\u00e3o ind\u00edgenas. Somado a isso, viv\u00eancias de viol\u00eancias racistas tamb\u00e9m se fazem presentes na CEU. Em 2016 houve o espancamento de um estudante ind\u00edgena por outros estudantes na entrada da resid\u00eancia estudantil, ao visitar um parente. Esses s\u00e3o alguns dos argumentos importantes no pedido por esse espa\u00e7o. A assistente social e mestranda Kanhgang Ang\u00e9lica Domingos (Ninhpryg), ativista da ocupa\u00e7\u00e3o, ensina em suas falas e escritas que os povos kanhgangs gostam de estar juntos, de dar risadas, de sentar ao redor do fogo pra tomar um chimarr\u00e3o e deixar as crian\u00e7as correrem e brincarem. Essas viv\u00eancias s\u00e3o consideradas \u201cbarulhentas\u201d pelos modos de vida individualista e excessivamente \u201cs\u00e9rios\u201d que a universidade produz. A reivindica\u00e7\u00e3o pelo direito de uma moradia em que as culturas ind\u00edgenas sejam mantidas \u00e9, muitas vezes, lida como se fosse um privil\u00e9gio, mas Ang\u00e9lica nos provoca ao dizer que a casa dos(as) estudantes ind\u00edgenas \u00e9 para somar, n\u00e3o para separar. Ela afirma a perspectiva da complementaridade da sua cultura, ou seja, podemos conviver juntas e aprender coletivamente. Outro ensinamento importante \u00e9 sobre a necessidade de uma conviv\u00eancia intergeracional, em todos os espa\u00e7os da vida. Crian\u00e7as, pessoas adultas e idosas devem estar juntas, aprendendo na conviv\u00eancia cotidiana. (DOMINGOS, 2016).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois desse pequeno relato do que aprendemos naquele encontro, agora queremos convidar voc\u00eas, que nos l\u00eaem, a pensar se esta luta \u00e9 somente de estudantes ind\u00edgenas. Sabemos que as universidades p\u00fablicas tiveram seus recursos financeiros fortemente abalados pela emenda constitucional n\u00b0 95, com o congelamento do seu or\u00e7amento por 20 exerc\u00edcios financeiros\/anos. Ficou estabelecido um limite individualizado para cada ano fiscal, dificultando a possibilidade de crescimento coletivo da UFRGS. Para a constru\u00e7\u00e3o de uma Casa de Estudante Ind\u00edgena ser\u00e1 necess\u00e1rio investimento financeiro. Quanto aos recursos, para al\u00e9m da burocracia financeira e das disputas por recursos internos, nos perguntamos se em conjunto com o coletivo ind\u00edgena n\u00e3o podemos pensar formas colaborativas de construir essa casa. Ser\u00e1 que a universidade n\u00e3o tem recursos pessoais e intelectuais, incluindo toda a comunidade estudantil, para contribuir nessa constru\u00e7\u00e3o? Mas suspendamos, por um momento, essa quest\u00e3o, pois se trata de decis\u00e3o pol\u00edtica sobre como alocar os recursos escassos, o que significa disputas de poder acirradas. Sim, temos ci\u00eancia disso. Entretanto \u00e9 urgente dialogarmos, nos debru\u00e7armos sobre essa demanda, principalmente numa disciplina que tematiza Direitos Humanos e Direito Ambiental. Ent\u00e3o a pergunta inicial retorna: <strong>por que precisamos de uma casa de estudantes ind\u00edgenas na UFRGS?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 preciso reconhecer que a moradia n\u00e3o \u00e9 uma realidade igualit\u00e1ria para as pessoas que vivem em nosso pa\u00eds. A luta por territ\u00f3rio \u00e9 antiga, violenta e profundamente desigual. Daniel Munduruku, Ailton Krenak, Eliane Potiguara e uma mir\u00edade de intelectuais ind\u00edgenas t\u00eam possibilitado \u00e0 sociedade brasileira reflex\u00f5es te\u00f3rico-pr\u00e1ticas, pol\u00edticas e filos\u00f3ficas profundamente implicadas com a nossa sobreviv\u00eancia no planeta. Aliado a isso, as proposi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas ensinam formas de vida coletivas e colaborativas que promovem o bem viver e a sa\u00fade de modo integral e integrado. E talvez exatamente sobre esse aspecto urge um dos maiores aprendizados, o reconhecimento das ontologias pol\u00edticas dos territ\u00f3rios, ou seja, a dimens\u00e3o da pr\u00f3pria vida, as ontologias relacionais, aquelas \u201cem que nada (nem humanos nem n\u00e3o-humanos) preexiste \u00e0s rela\u00e7\u00f5es que nos constituem. Todos existimos porque existe tudo\u201d (ESCOBAR, 2015). N\u00e3o se trata, portanto, apenas de um lugar para morar, mas de territ\u00f3rios multidimensionais de exist\u00eancia para exist\u00eancias de significados multidimensionais, uma mirada ampla que contempla dignidade, autonomia e identidade de modo t\u00e3o pragm\u00e1tico quanto espiritual, v\u00edvido, encarnado e tamb\u00e9m <em>encantado<\/em> &#8211; composto por m\u00faltiplos cantos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A entrada de estudantes ind\u00edgenas na universidade &#8211; e tamb\u00e9m negros(as), quilombolas, pessoas com defici\u00eancia, migrantes e refugiados(as) &#8211;&nbsp; possibilita uma troca de saberes fundamentais ao nosso tempo. O Brasil \u00e9 uma terra de mais de duzentas etnias, mais de trezentas l\u00ednguas, o que significa uma riqueza cultural e epistemol\u00f3gica capaz de balan\u00e7ar os alicerces do pensamento ocidental branco. Nessa dire\u00e7\u00e3o, Kabengele Munanga (2009) tra\u00e7a uma analogia entre a vida biol\u00f3gica (natureza) e a vida social\/cultural (humana), afirmando a centralidade da diversidade para que a vida possa sobreviver e prosperar.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A reserva de vagas para estudantes ind\u00edgenas \u00e9 uma conquista importante para o acesso \u00e0 universidade p\u00fablica desses povos historicamente marginalizados e exclu\u00eddos desse espa\u00e7o de saber-poder e deve inserir-se em uma perspectiva, sobretudo, de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Contudo, as pol\u00edticas de perman\u00eancia na universidade precisam avan\u00e7ar numa perspectiva mais coletiva, digna, justa e solid\u00e1ria que garantam a viv\u00eancia de suas culturas. A universidade precisa fortalecer seus espa\u00e7os de amplia\u00e7\u00e3o, soma e multiplica\u00e7\u00e3o de saberes. Precisa potencializar um ambiente no qual os diversos conhecimentos se entrela\u00e7am para o enfrentamento das hist\u00f3ricas desigualdades e injusti\u00e7as da nossa sociedade. A UFRGS j\u00e1 \u00e9 um espa\u00e7o rico de produ\u00e7\u00e3o de conhecimentos e se democratizou com as a\u00e7\u00f5es afirmativas. A artesania de um ambiente multicultural \u00e9 feita por pessoas diversas. Por isso mesmo, s\u00e3o fundamentais&nbsp; pol\u00edticas p\u00fablicas que ampliem os acessos e garantam a perman\u00eancia de estudantes cotistas e ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma vez, no espa\u00e7o coletivo de discuss\u00e3o sobre a reserva de vagas ind\u00edgenas nos cursos da universidade, em que as lideran\u00e7as ind\u00edgenas se re\u00fanem com a universidade para escolherem os cursos que s\u00e3o necess\u00e1rios para as suas comunidades (REF), escutamos de um cacique que a sua comunidade n\u00e3o tinha interesse em vagas do curso de psicologia. O seu argumento era de que a psicologia ia levar a doen\u00e7a para a aldeia. Num misto de surpresa e tristeza, as psic\u00f3logas e professoras brancas presentes entenderam o recado: como as nossas teorias estrangeiras, individualistas e capitalistas do mundo poderiam compreender a produ\u00e7\u00e3o de subjetividade presente nos povos ind\u00edgenas? Teriam os curr\u00edculos da psicologia conhecimentos compat\u00edveis com os modos de vida dos povos ind\u00edgenas? Por sorte algumas mulheres ind\u00edgenas n\u00e3o desistiram de apostar no curso de psicologia. Rejane Kanhgang, a primeira psic\u00f3loga ind\u00edgena, e agora mestranda em psicologia social e institucional nos ensina:<\/p>\n\n\n\n<p>Como falar de uma psicologia europ\u00e9ia ocidental para um povo que acredita no sobrenatural, que cultiva seus ritos, seus banhos de ervas? Aqueles que aprenderam a sobreviver em um mundo onde ver\/ouvir vozes \u00e9 tido como louco, ao contr\u00e1rio de todo seu aprendizado onde este tipo de contato mostra sua conex\u00e3o com outros mundos, sentir-se vivo, abra\u00e7ar uma \u00e1rvore, pedir permiss\u00e3o \u00e0 m\u00e3e terra, aos rios. Buscamos levar o conhecimento de nosso povo para dentro da universidade (CARVALHO, 2020, p. 55).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Acreditamos que a casa dos(as) estudantes ind\u00edgenas \u00e9 importante para toda a comunidade acad\u00eamica da UFRGS, pois ser\u00e1 um espa\u00e7o de trocas e aprendizagens por uma sociedade mais democr\u00e1tica e dial\u00f3gica. Quantos de n\u00f3s, estudantes, teremos a oportunidade de resgatarmos conhecimentos ancestrais que nos s\u00e3o familiares de alguma forma, que nos mobilizam e muitas vezes nos afetam sobremaneira, posto que est\u00e3o gravados em nossas mem\u00f3rias afetivas, oriundo das conta\u00e7\u00f5es de hist\u00f3rias sobre nossas av\u00f3s e bisav\u00f3s? Reconhecer e resgatar tal ancestralidade n\u00e3o seriam, portanto, movimentos intr\u00ednsecos \u00e0 constitui\u00e7\u00e3o dos direitos humanos epist\u00eamicos, uma vez que<em> lembrar<\/em>, <em>intuir<\/em>, <em>perceber <\/em>e <em>inferir<\/em>, para al\u00e9m de serem considerados direitos intranspon\u00edveis ou inegoci\u00e1veis, s\u00e3o, sobretudo, inalien\u00e1veis (DEM\u00c9TRIO; BENSUSAN, 2019)?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Retomamos as palavras de Mirian Krexu sobre a import\u00e2ncia dos povos ind\u00edgenas na constru\u00e7\u00e3o do nosso pa\u00eds e a d\u00edvida hist\u00f3rica que a sociedade brasileira insiste em negar:<\/p>\n\n\n\n<p>O ind\u00edgena n\u00e3o \u00e9 aquele que voc\u00ea conhece dos antigos livros de hist\u00f3ria, porque n\u00e3o foi ele que escreveu o livro ent\u00e3o nem sempre a sua vers\u00e3o \u00e9 contada. Ele n\u00e3o est\u00e1 apenas na aldeia tentando sobreviver, ele est\u00e1 na cidade, na universidade, no mercado de trabalho, na arte, na televis\u00e3o, porque o Brasil todo \u00e9 terra ind\u00edgena. Sabe aquela hist\u00f3ria de que \u201csua bisav\u00f3 foi pega no la\u00e7o ?\u201d Isso quer dizer que talvez seu bisav\u00f4 tenha sido um sequestrador, ent\u00e3o acho que voc\u00ea deveria ter mais orgulho do sangue ind\u00edgena que corre em suas veias. A m\u00e3e do Brasil \u00e9 ind\u00edgena (KREXU, 2021).<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A possibilidade de vivenciar, por pouco tempo que seja, o modo de luta e resist\u00eancia de estudantes ind\u00edgenas nos faz conscientes de que s\u00e3o reivindica\u00e7\u00f5es essenciais e que h\u00e1 muito ainda a ser dito e feito por n\u00f3s, que viemos de uma situa\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio, e que esse desafio nos est\u00e1 posto. Que possamos ent\u00e3o cumprir o que foi prometido \u00e0 kuj\u00e1 Iracema R\u00e3-Nga Nascimento quando nos despedimos, que possamos falar sobre as causas ind\u00edgenas, divulg\u00e1-las, para que as pol\u00edticas de inclus\u00e3o j\u00e1 existentes, sejam de fato efetivadas. Ou seria dizer: que as pol\u00edticas de exclus\u00e3o deixem, por fim, de operar sistemicamente?<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por fim, manifestamos nosso apoio ao coletivo ind\u00edgena que, em a\u00e7\u00e3o direta e emergencial na tarde de quarta-feira, 30 de mar\u00e7o de 2022, ap\u00f3s uma madrugada de intenso temporal, retomaram o espa\u00e7o da Creche da UFRGS situado no campus Sa\u00fade, ocupando e fundando a Casa de Estudantes Ind\u00edgenas, h\u00e1 tantos anos esperada. Celeridade para a garantia de direitos fundamentais \u00e9 condi\u00e7\u00e3o fundante de pr\u00e1ticas em Direitos Humanos, responsabilidade de toda e qualquer institui\u00e7\u00e3o comprometida com a democracia e a justi\u00e7a social. No mesmo dia, os jornais da cidade anunciavam que o movimento de retomada ind\u00edgena conquistou o compromisso da institui\u00e7\u00e3o de ensino de transformar a casa onde antes funcionava a creche da universidade para ser a moradia estudantil ind\u00edgena (SANDER, 2022).&nbsp; O Brasil \u00e9 territ\u00f3rio ind\u00edgena, logo, a universidade p\u00fablica tamb\u00e9m o \u00e9. E se afirma\u00e7\u00f5es como essas, ainda que \u00f3bvias, precisam ser ditas para que sejam vistas &#8211; como outras tantas em tempos de negacionismos oriundos de pensamentos e afetos monoculturais &#8211; seu car\u00e1ter pol\u00edtico reverbera o chamado coletivo urgente, vocalizado por Geni N\u00fa\u00f1ez (2021): \u00e9 preciso reflorestar nossa exist\u00eancia!<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>CARVALHO, Rejane Nunes de. <strong>Kanhgang \u00cag My H\u00e1: Para Uma Psicologia Kaingang<\/strong>. Trabalho De Conclus\u00e3o De Curso. Instituto De Psicologia. Universidade Federal Do Rio Grande DO SUL. 2020. Dispon\u00edvel: <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/212727\/001116972.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">https:\/\/lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/212727\/001116972.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>DEM\u00c9TRIO, Fran; BENSUSAN, Hilan Nissior. O conhecimento dos outros: a defesa dos direitos humanos epist\u00eamicos. <strong>Revista do CEAM<\/strong>, Bras\u00edlia, v.5, n.1, p.110\u2013124, jan\/jul. 2019. https:\/\/doi.org\/10.5281\/zenodo.3338716<\/p>\n\n\n\n<p>DOMINGOS, Ang\u00e9lica (Ninhpryg). <strong>O Bem Viver Kaingang: Perspectivas de um modo de vida para constru\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas sociais com os coletivos ind\u00edgenas.<\/strong> UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL INSTITUTO DE PSICOLOGIA CURSO DE SERVI\u00c7O SOCIAL. Porto Alegre, 2016. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/148630\/001002875.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">https:\/\/www.lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/148630\/001002875.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>ESCOBAR, Arturo. Territorios de diferencia: la ontolog\u00eda pol\u00edtica de los \u201cderechos al territorio\u201d. <strong>Desenvolv. Meio Ambiente<\/strong>, v. 35, p. 89-100, dez. 2015. Dispon\u00edvel em &lt;<a href=\"https:\/\/revistas.ufpr.br\/made\/article\/view\/43540\">https:\/\/revistas.ufpr.br\/made\/article\/view\/43540<\/a>&gt;. Acesso em 02 abril 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>GUERREIRO, Raquel de Oliveira.<strong> Fazer um corpo todo de escuta: uma travessia existencial.<\/strong> Tese de Doutorado.&nbsp; Programa De P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o Em Psicologia Social E Institucional. Universidade Federal Do Rio Grande Do Sul. Instituto De Psicologia, Porto Alegre, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>MUNANGA, Kabengele. <strong>Rela\u00e7\u00f5es \u00c9tnico-Raciais<\/strong>. Videoaula de Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teoria Social e Rela\u00e7\u00f5es Raciais. 4\u00aa aula do curso ERER &#8211; Educa\u00e7\u00e3o para as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico raciais. UFF, 2009\/2010. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7FxJOLf6HCA\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=7FxJOLf6HCA<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00da\u00d1EZ, Geni. Monoculturas do pensamento e a import\u00e2ncia do reflorestamento do imagin\u00e1rio. <strong>ClimaCom<\/strong> \u2013 Diante dos Negacionismos [online], Campinas, ano 8, n. 21. novembro 2021. Dispon\u00edvel em: http:\/\/climacom.mudancasclimaticas.net.br\/monoculturas-do-pensamento\/<\/p>\n\n\n\n<p>KREXU, Mirian. <strong>A M\u00e3e do Brasil \u00e9 Ind\u00edgena,<\/strong> 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.xapuri.info\/resistencia-indigena\/sagrado-indigena\/a-mae-do-brasil-e-indigena\/\">https:\/\/www.xapuri.info\/resistencia-indigena\/sagrado-indigena\/a-mae-do-brasil-e-indigena\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>SANDER, ISABELLA. <strong>Creche da UFRGS ser\u00e1 transformada em casa do estudante ind\u00edgena.<\/strong> Grupo Zero Hora &#8211; Educa\u00e7\u00e3o e Trabalho. Porto Alegre, 30\/03\/2022.Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/educacao-e-emprego\/noticia\/2022\/03\/creche-da-ufrgs-sera-transformada-em-casa-do-estudante-indigena-cl1cl84vu008f017c36s9tak8.html\">https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/educacao-e-emprego\/noticia\/2022\/03\/creche-da-ufrgs-sera-transformada-em-casa-do-estudante-indigena-cl1cl84vu008f017c36s9tak8.html<\/a><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> Professora do Instituto de Psicologia da UFRGS<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Graduanda em Sa\u00fade Coletiva\/UFRGS<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Pedagoga, graduanda em Ci\u00eancias Sociais\/UFRGS<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> Graduando em Ci\u00eancias Jur\u00eddicas\/UFRGS<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"684\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/neparc\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Retomada-Da-Casa-do-Estudante-Indigena_0026_Deriva-Jornalismo-1024x684.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-1143\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/neparc\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Retomada-Da-Casa-do-Estudante-Indigena_0026_Deriva-Jornalismo-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/neparc\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Retomada-Da-Casa-do-Estudante-Indigena_0026_Deriva-Jornalismo-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/neparc\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Retomada-Da-Casa-do-Estudante-Indigena_0026_Deriva-Jornalismo-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/neparc\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Retomada-Da-Casa-do-Estudante-Indigena_0026_Deriva-Jornalismo-1536x1027.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/neparc\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Retomada-Da-Casa-do-Estudante-Indigena_0026_Deriva-Jornalismo-2048x1369.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: https:\/\/derivajornalismo.com.br\/post\/retomada-indigena-no-centro-de-porto-alegre-06-a-13-03-2022\/<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Texto publicado na Revista Par\u00eantese\/Jornal Matinal. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.matinaljornalismo.com.br\/parentese\/ensaio-parentese\/porque-todas-todos-e-todes-nos-precisamos-de-uma-casa-de-estudantes-indigenas-na-ufrgs\/<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n        <div class=\"booster-block booster-reactions-block\">\n            <div class=\"twp-reactions-icons\">\n                \n                <div class=\"twp-reacts-wrap\">\n                    <a react-data=\"be-react-1\" post-id=\"1135\" class=\"be-face-icons un-reacted\" href=\"javascript:void(0)\">\n                        <img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/neparc\/wp-content\/plugins\/booster-extension\/\/assets\/icon\/happy.svg\" alt=\"Happy\">\n                    <\/a>\n                    <div class=\"twp-reaction-title\">\n                        Happy                    <\/div>\n                    <div class=\"twp-count-percent\">\n                                                    <span style=\"display: none;\" class=\"twp-react-count\">0<\/span>\n     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