{"id":5717,"date":"2022-05-23T20:07:00","date_gmt":"2022-05-23T20:07:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/?p=5717"},"modified":"2022-10-26T19:23:59","modified_gmt":"2022-10-26T19:23:59","slug":"a-geopolitica-russa-e-seu-sentimento-de-inseguranca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/a-geopolitica-russa-e-seu-sentimento-de-inseguranca\/","title":{"rendered":"A geopol\u00edtica russa e seu sentimento de inseguran\u00e7a"},"content":{"rendered":"<h5 style=\"text-align: left;\">Ao findar a Guerra Fria, em 1991, alguns termos foram muito divulgados nos debates sobre rela\u00e7\u00f5es internacionais, bem como na imprensa em geral. Talvez o termo mais conhecido seja o do <em>fim da hist\u00f3ria<\/em>, de Francis Fukuyama. O autor, utilizando-se de pensamento do filosofo Georg W. F. Hegel, n\u00e3o acreditava mais na progress\u00e3o da hist\u00f3ria por meio de mudan\u00e7as ideol\u00f3gicas ou de grandes saltos pol\u00edticos e militares, caso das conquistas de Napole\u00e3o Bonaparte contra o Antigo Regime na Europa. Com esse fim da hist\u00f3ria, para Fukuyama, sob a decad\u00eancia do embate entre Estados Unidos e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica o sistema internacional, da\u00ed resultante, n\u00e3o deveria sofrer mudan\u00e7as bruscas, mas sim paliativas.<\/h5>\n<h5>Assim, a peleja entre Estados territoriais (como se pede em geopol\u00edtica) por recursos naturais, espa\u00e7o e outros itens consagrados da pol\u00edtica internacional, deveria dar lugar a uma nova agenda global, cuja premissa seria a do meio-ambiente, dos direitos humanos, da democracia parlamentar, do livre-com\u00e9rcio e, na atualidade, do <em>green power<\/em> [1], possivelmente integrados a programas de administra\u00e7\u00e3o dos valores mundiais. E para a resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos externos haveria o emprego do <em>soft power<\/em> por meio de uma pot\u00eancia reguladora da ordem, os Estados Unidos, e do direito internacional aplicado a regimes internacionais.<\/h5>\n<h5>No campo conservador-realista, Samuel Huntington tamb\u00e9m procurou tomar posi\u00e7\u00e3o no debate ao lan\u00e7ar seu igualmente famoso C<em>hoque de Civiliza\u00e7\u00f5es<\/em>, que deveria ser a t\u00f4nica dos conflitos internacionais de alta intensidade que, em parte, substituiria impasses e guerras de proje\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas e da geopol\u00edtica. Conflitos por valores e culturas poderiam substituir os antigos de colora\u00e7\u00e3o territorial ou material. De alguma forma, os dois professores combinavam em um ponto: o de diminuir a relativa import\u00e2ncia do Estado territorial.<\/h5>\n<h5>Se as premissas demonstradas acima n\u00e3o podem ser ignoradas, de igual modo, n\u00e3o h\u00e1 como dar as costas ao fato de que a velha geopol\u00edtica n\u00e3o foi esgotada, sobretudo por aquele grupo de Estados denominados grandes pot\u00eancias, do qual fazem parte R\u00fassia, Estados Unidos e China. No caso do Kremlin, ficou patente que o desaparecimento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica foi interpretado como trag\u00e9dia pol\u00edtica incalcul\u00e1vel para o poder russo, cuja desejada recupera\u00e7\u00e3o n\u00e3o ocorrer\u00e1 sem sofrimento da Europa, caso da Ucr\u00e2nia ou da \u00c1sia Central, Ge\u00f3rgia e outros.<\/h5>\n<h5>N\u00e3o seria cr\u00edvel observar o conflito entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia sem levar em conta a movimenta\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica na qual Moscou procura se apresentar como pot\u00eancia ascendente e, para tanto, utilizar de seu temor de <em>seguran\u00e7a nacional ampliada<\/em> para marcar terreno. Nesse ponto, demarcado na Ucr\u00e2nia, a R\u00fassia deixa clara sua vis\u00e3o e que n\u00e3o permitir\u00e1 a presen\u00e7a de for\u00e7as multinacionais, da OTAN, ou de emprego de agentes e institui\u00e7\u00f5es de composi\u00e7\u00e3o liberal, cosmopolita, portando valores considerados contr\u00e1rios aos interesses russos.<\/h5>\n<h5>Eis um problema. Na composi\u00e7\u00e3o do poder russo, sua seguran\u00e7a nacional ampliada n\u00e3o \u00e9 somente demarcada pela fronteira conhecida como o \u201cestrangeiro pr\u00f3ximo\u201d, Ucr\u00e2nia e Bielorr\u00fassia em primeiro plano; mas tamb\u00e9m por pa\u00edses que se confundem com aquilo que pode ser chamado de esp\u00edrito ou g\u00eanese do que \u00e9 ser russo. A ideia de que for\u00e7as ocidentais penetram na Ucr\u00e2nia, no decorrer do atual s\u00e9culo, promovendo a nova agenda, constrange a R\u00fassia, visto que aquelas sugest\u00f5es podem provocar efeitos considerados refrat\u00e1rios \u00e0 elite dirigente do pa\u00eds, da qual o presidente Vladmir Putin \u00e9 a personagem mais conhecida. O efeito mais temido seria a desestabiliza\u00e7\u00e3o do poder russo.<\/h5>\n<h5>Isto porque Kiev tem sido vista como campo de prova para a movimenta\u00e7\u00e3o de grupos favor\u00e1veis ao programa pol\u00edtico, econ\u00f4mico e cultural da Uni\u00e3o Europeia, mais aberto, por\u00e9m conflitante com a posi\u00e7\u00e3o representada por Moscou. O avan\u00e7o ocidental na Pra\u00e7a Maidan (<em>Euromaidan<\/em>), em 2014, e a r\u00e1pida entrada de for\u00e7as russas na Crimeia, como contrarresposta, s\u00e3o exemplares para indicar o temor de inseguran\u00e7a traduzido pela R\u00fassia em face do processo de liberaliza\u00e7\u00e3o de seu estrangeiro pr\u00f3ximo e sua tentativa (real ou n\u00e3o) de entrar na Alian\u00e7a Atl\u00e2ntica.<\/h5>\n<h5>A vincula\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia, em primeiro lugar, a projetos ocidentais de expans\u00e3o, j\u00e1 seria indica\u00e7\u00e3o de que haveria disputa geopol\u00edtica na Europa Oriental entre Estados Unidos, com aux\u00edlio material de algumas pot\u00eancias da OTAN, e R\u00fassia pela preemin\u00eancia regional. A guerra atual tamb\u00e9m pode levar \u00e0 outra observa\u00e7\u00e3o, bem complexa para o momento: qual \u00e9 o papel do direito internacional, dos tratados e das soberanias nacionais? Por que a Ucr\u00e2nia, por exemplo, n\u00e3o poderia se filiar a institui\u00e7\u00f5es e valores considerados modernos?<\/h5>\n<h5>No \u00e2mbito da pol\u00edtica do poder, na qual a geopol\u00edtica \u00e9 integrante, a rela\u00e7\u00e3o com o direito \u00e9 dificultada pelo fato de a primeira n\u00e3o ser desenvolvida pelo ideal ou pela virtude, mas sim pela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as existente entre pot\u00eancias. Por isso, a Ucr\u00e2nia passa por situa\u00e7\u00e3o paradoxal, resultado das peculiaridades positivas da geopol\u00edtica ucraniana. Por que a Ucr\u00e2nia \u00e9 paradoxal? Pelo motivo de sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, sua g\u00eanese cultural an\u00e1loga \u00e0 russa, por sua economia com aspecto progressiva, e por ser passagem de uma rede intrincada de gasodutos em dire\u00e7\u00e3o para bom n\u00famero de Estados europeus.<\/h5>\n<h5>De fato, a Ucr\u00e2nia se tornou prisioneira de sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica, praticamente interligada aos interesses mais complexos da R\u00fassia que emergem a partir de particularidades culturais, pol\u00edticas e log\u00edsticas. Pelo territ\u00f3rio ucraniano passam 80% da energia consumida no continente \u2013 g\u00e1s natural e petr\u00f3leo proveniente de jazidas russas ou adjacentes. \u00c9 claro que na qualidade de \u201chub energ\u00e9tico\u201d o papel de Kiev \u00e9 fundamental para a locomo\u00e7\u00e3o russa no que tange \u00e0 proje\u00e7\u00e3o de poder de Moscou na Europa Oriental.<\/h5>\n<h5>No aspecto cultural, \u00e9 reparado que a admiss\u00e3o da Ucr\u00e2nia na Uni\u00e3o Europeia perturbaria minimamente a R\u00fassia naquilo que ela pensa ser valores fundamentais da eslavofilia, mas n\u00e3o seria dram\u00e1tico em excesso, uma vez que dinheiro \u00e9 sempre bem-vindo. Contudo, o passo mais delicado que o vizinho poderia fazer seria pedir entrada na OTAN em confronto ao peso exercido por Moscou no estrangeiro pr\u00f3ximo, sendo a Ucr\u00e2nia \u00e1rea mais sens\u00edvel para a concep\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica russa que pensa, no longo prazo, estabelecer conex\u00e3o denominada eurasianismo, tendo na R\u00fassia o centro de gravidade e com irradia\u00e7\u00e3o no leste europeu, beirando a Alemanha e abarcando o centro asi\u00e1tico, no Cazaquist\u00e3o, por exemplo.<\/h5>\n<h5>Em virtude das quest\u00f5es expostas acima h\u00e1 como vislumbrar a guerra atual na Europa Oriental n\u00e3o apenas como express\u00e3o de um sistema internacional em desajuste, mas igualmente como desdobramento de proje\u00e7\u00f5es geopol\u00edticas, cujos pontos nervosos ainda est\u00e3o em ebuli\u00e7\u00e3o e n\u00e3o totalmente esgotados pelas pot\u00eancias em tela \u2013 talvez nem o fa\u00e7a no futuro pr\u00f3ximo. Conhecer a natureza da pol\u00edtica internacional, sem anseios de realiza\u00e7\u00f5es virtuosas, poderia ser o primeiro passo para se conseguir concerto internacional com alguma razoabilidade. Nisso, o direito e o dever ser n\u00e3o tem garantia de vingar, pois assuntos de seguran\u00e7a ainda tem lugar de ser para R\u00fassia, Estados Unidos, China ou Estados europeus.<\/h5>\n<hr \/>\n<h5 style=\"text-align: left;\">NOTAS:<\/h5>\n<h5 style=\"text-align: left;\">[1] Dentro do <em>green power<\/em> h\u00e1 esfor\u00e7os para substituir a energia nuclear e dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, bem como do carv\u00e3o mineral, em benef\u00edcio de combust\u00edveis renov\u00e1vel. Tal inten\u00e7\u00e3o \u00e9 parte dos esfor\u00e7os para \u201cdescarbonizar\u201d a economia internacional. A Uni\u00e3o Europeia tem sido intensa na apresenta\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas para isso.<\/h5>\n<hr \/>\n<h5><a href=\"https:\/\/doi.org\/10.22456\/2238-6912.121431\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-4579 alignleft\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/wp-content\/uploads\/2020\/04\/AUSTRAL.png\" alt=\"\" width=\"94\" height=\"64\" \/><\/a><\/h5>\n<p style=\"text-align: left;\">HAGE, Jos\u00e9 Alexandre Altahyde. AN\u00c1LISE ESTRAT\u00c9GICA NERINT. <strong>AUSTRAL: Revista Brasileira de Estrat\u00e9gia e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/strong>, Porto Alegre, RS, v. 10, n. 21, Jan.\/Jun. 2022. ISSN 2238-6912. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.22456\/2238-6912.126529\">https:\/\/doi.org\/10.22456\/2238-6912.126529<\/a>.<\/p>\n<hr \/>\n<p><!-- \/wp:tadv\/classic-paragraph --><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao findar a Guerra Fria, em 1991, alguns termos foram muito divulgados nos debates sobre rela\u00e7\u00f5es internacionais, bem como na imprensa em geral. Talvez o termo mais conhecido seja o do fim da hist\u00f3ria, de Francis Fukuyama. O autor, utilizando-se de pensamento do filosofo Georg W. F. 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