{"id":6015,"date":"2023-09-04T16:55:11","date_gmt":"2023-09-04T16:55:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/?p=6015"},"modified":"2023-09-04T17:12:21","modified_gmt":"2023-09-04T17:12:21","slug":"brics-uma-sigla-envolta-em-fantasias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/brics-uma-sigla-envolta-em-fantasias\/","title":{"rendered":"BRICS+: uma sigla envolta em fantasias"},"content":{"rendered":"<h5><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mapa-brics-.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6017 alignnone\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mapa-brics-.png\" alt=\"\" width=\"6460\" height=\"3403\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mapa-brics-.png 6460w, https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mapa-brics--300x158.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mapa-brics--1024x539.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mapa-brics--768x405.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mapa-brics--1536x809.png 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/nerint\/wp-content\/uploads\/2023\/09\/mapa-brics--2048x1079.png 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 6460px) 100vw, 6460px\" \/><\/a><\/h5>\n<h5>O BRICS constitui uma sigla muito admirada, mas, tamb\u00e9m, bastante criticada, curiosamente com a repeti\u00e7\u00e3o dos mesmos clich\u00eas, mas com imagem invertida. Os liberal-globalistas manifestam temor diante do que consideram um \u201cbloco\u201d anti-Ocidental amea\u00e7ador, enquanto a narrativa social-desenvolvimentista pensa exatamente a mesma coisa. Estat\u00edsticas impactantes s\u00e3o mostradas como evid\u00eancia de um avan\u00e7o irrevers\u00edvel e avassalador do \u201cOriente\u201d, enquanto outros temem a forma\u00e7\u00e3o de uma coaliz\u00e3o militar voltada contra a Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN). Mas ao mesmo tempo a m\u00eddia do G-7 e dos que a reproduzem no Sul Geopol\u00edtico, desqualifica as credenciais pol\u00edticas e econ\u00f4micas do grupo \u201crival\u201d. Mas afinal, onde se encontra o eixo explicativo?<\/h5>\n<h5>Embora ambos afirmem que o BRICS constitui um \u201cBloco\u201d, os primeiros destacam debilidades e incoer\u00eancias, enquanto os segundos ressaltam a performance quantitativa e a mudan\u00e7a sist\u00eamica que projeta. Todavia, o BRICS n\u00e3o \u00e9 nem pretende ser um \u201cBloco\u201d, pois se trata de uma esp\u00e9cie de Clube, F\u00f3rum ou Associa\u00e7\u00e3o. O argumento liberal-globalista de que os pa\u00edses n\u00e3o s\u00e3o compat\u00edveis por serem muito diferentes, projeta o racioc\u00ednio de que o BRICS almejaria ser um advers\u00e1rio de mesmo perfil que o G-7. Uma t\u00edpica falta de compreens\u00e3o do \u201coutro\u201d.<\/h5>\n<h5>O G-7, ainda que n\u00e3o possua uma inst\u00e2ncia decis\u00f3ria e impositiva, \u00e9 composto por um l\u00edder inconteste (EUA) e \u201cvassalos\u201d, que foram derrotados ou enfraquecidos na Segunda Guerra Mundial (Alemanha, Jap\u00e3o, It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Reino Unido e Canad\u00e1). Al\u00e9m disso, compartilham homogeneamente o mesmo modelo econ\u00f4mico e de governan\u00e7a pol\u00edtica democr\u00e1tico-liberal. J\u00e1 no BRICS, embora a China seja a maior economia, nenhum dos demais membros \u00e9 subordinado a ela, inclusive havendo rivalidade latente com a \u00cdndia e a R\u00fassia. Os regimes pol\u00edticos s\u00e3o significativamente diferenciados, assim como a estrutura econ\u00f4mica, grau de desenvolvimento e de interven\u00e7\u00e3o estatal. Ent\u00e3o, o que os aproximou?<\/h5>\n<h5>O acr\u00f4nimo BRIC foi cunhado em 2001 pelo economista Jim O\u2019Neill, da consultoria de investimentos Goldman Sachs, de Nova Iorque, em um relat\u00f3rio que expunha aos clientes o mercado promissor que tais na\u00e7\u00f5es representariam futuramente. Ou seja, Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia e China sequer criaram a sigla, que representou apenas uma involunt\u00e1ria publicidade gratuita durante a fase euf\u00f3rica da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal. Anos depois, as crescentes dificuldades econ\u00f4micas internacionais, que desembocariam na crise financeira de 2008 nos EUA (sub-prime) e propagada \u00e0 zona Euro e ao mercado mundial, propiciaram as condi\u00e7\u00f5es para um encontro informal, \u00e0 margem da Assembleia Geral da ONU, novamente na Big Apple.<\/h5>\n<h5>O di\u00e1logo pol\u00edtico ad hoc dos Ministros de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores discutiu temas comuns \u00e0 agenda de todos, sendo seguido por outro em Ekaterinburgo, R\u00fassia, em 2008. O comunicado conjunto ressaltou o multilateralismo e o Direito Internacional como bases de promo\u00e7\u00e3o da paz, e a reforma do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, incluindo sua amplia\u00e7\u00e3o com a incorpora\u00e7\u00e3o do Brasil e da \u00cdndia. Um ano depois, no mesmo local, houve a I C\u00fapula, com os Chefes de Estado. Posteriormente, a \u00c1frica do Sul foi integrada ao Grupo.<\/h5>\n<h5>A preocupa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica dos Estados-Membro era articular-se politicamente para evitar que, mais uma vez, o d\u00f3lar fosse utilizado como instrumento para os Estados Unidos superarem a crise, transferindo seus custos aos demais pa\u00edses. Washington pedia mais apoio financeiro dos gigantes emergentes (particularmente da China) para refor\u00e7ar o FMI, o Banco Mundial e a OMC. Mas o BRICS condicionou sua maior participa\u00e7\u00e3o \u00e0 reforma dessas organiza\u00e7\u00f5es em seus prop\u00f3sitos e uma gest\u00e3o que fosse compartilhada com os emergentes. Todavia, apesar das promessas, nada mudou. Assim, o grupo foi criando mecanismos comerciais alternativos, institui\u00e7\u00f5es financeiras e um Banco de Desenvolvimento, tudo como resposta \u00e0 falta de respostas do G-7 e da OCDE.<\/h5>\n<h5>Aqui h\u00e1 certa confus\u00e3o, pois muitas pessoas confundem iniciativas puramente chinesas, como a Nova Rota da Seda e OBOR (corredores log\u00edsticos de desenvolvimento econ\u00f4mico), como sendo parte da pol\u00edtica do BRICS. Ou as da Uni\u00e3o Econ\u00f4mica Eurasi\u00e1tica (UEE), iniciativa articulada pela R\u00fassia com algumas rep\u00fablicas ex-sovi\u00e9ticas visando coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, que foi piv\u00f4 da crise ucraniana de 2014. E existe, ainda, a Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai (OCX), criada em 1996 pela China, R\u00fassia e rep\u00fablicas da \u00c1sia Central, que depois receberam ades\u00e3o da \u00cdndia e do Paquist\u00e3o. Agora o Ir\u00e3 se tornou membro e para 2024 j\u00e1 foi aprovado o ingresso da Mong\u00f3lia e Belarus. Trata-se de uma Organiza\u00e7\u00e3o com preocupa\u00e7\u00f5es principalmente securit\u00e1rias, que trata da luta comum contra o terrorismo, o narcotr\u00e1fico, o separatismo, o extremismo e busca a estabilidade em torno da \u00c1sia Central.<\/h5>\n<h5>Ao contr\u00e1rio do G-7 e da OCDE, que tendem \u00e0 homogeneidade e n\u00e3o permitem alternativas econ\u00f4micas ao liberalismo pol\u00edtico e econ\u00f4mico, o BRICS se articula em torno daquelas agendas comuns a seus membros, guardando autonomia e especificidades de cada um. Atua por consenso, n\u00e3o havendo um l\u00edder, e v\u00e1rios dos seus programas atendem a pa\u00edses n\u00e3o membros. Mas seu protagonismo cresceu tamb\u00e9m no plano multilateral, como polo gravitacional de na\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas que almejam um sistema mundial multipolar, no qual obtenham margem de manobra.<\/h5>\n<h5>Essa dimens\u00e3o pol\u00edtica parecia ser uma grande utopia, frente ao poder diplom\u00e1tico-militar das pot\u00eancias norte-atl\u00e2nticas, e a claudicante performance econ\u00f4mica do Brasil e da \u00c1frica do Sul indicariam sua inviabilidade como polo de desenvolvimento. Todavia, como diz o prov\u00e9rbio \u00e1rabe, \u201cenquanto os c\u00e3es ladram, a caravana passa\u201d. Tr\u00eas momentos sequenciais e interligados marcaram a emerg\u00eancia de uma nova realidade \u00e0 luz do dia: o Governo Trump, a Pandemia Covid-19 e a Guerra Russo-Ucraniana. Os dois primeiros ainda carecem de uma reflex\u00e3o mais profunda e ousada pelo establishment acad\u00eamico politicamente correto.<\/h5>\n<h5>No terceiro momento, que estamos vivenciando, as contradi\u00e7\u00f5es amadureceram. A pol\u00edtica de san\u00e7\u00f5es da \u201cComunidades Internacional\u201d (basicamente a anglosfera<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, Europa, Jap\u00e3o e Coreia do Sul, 25% do mundo) provocaram um curto-circuito econ\u00f4mico-financeiro e uma nova clivagem global. O confisco de ativos russos e a imposi\u00e7\u00e3o de medidas danosas aos interesses europeus (que aceitaram) e ao Sul Geopol\u00edtico (que n\u00e3o aceitou), fez soar o alarme. O mais not\u00e1vel foi a dr\u00e1stica mudan\u00e7a de atitude das petromonarquias \u00e1rabes pr\u00f3-Ocidentais e de grande parte da \u00c1frica, que rapidamente se tornaram assertivas, mudaram de lado e buscaram ades\u00e3o ao BRICS e \u00e0 OCX. Todos perceberam as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas contra a R\u00fassia como uma preocupante arbitrariedade, da qual um dia tamb\u00e9m poderiam ser v\u00edtimas.<\/h5>\n<h5>Apesar das tradicionais press\u00f5es, n\u00e3o foi surpresa que a C\u00fapula do BRICS em Pretoria recebeu a ades\u00e3o de pa\u00edses do mundo mu\u00e7ulmano (Ir\u00e3, Ar\u00e1bia Saudita, Emirados \u00c1rabes Unidos e Egito), a \u00c1frica foi refor\u00e7ada com Eti\u00f3pia e o hemisf\u00e9rio ocidental com a Argentina, refor\u00e7ando a posi\u00e7\u00e3o do isolado Brasil. E h\u00e1 importantes pa\u00edses numa grande lista de espera. O PIB-PPP passou de 31 para 37% (G-7 \u00e9 de 30%), 48% da superf\u00edcie e 45% da popula\u00e7\u00e3o mundial s\u00e3o dados impressionantes, mas ainda relativos. Assinala-se como mais relevante a dimens\u00e3o geopol\u00edtica da composi\u00e7\u00e3o do BRICS-11, com o ingresso de peso do Oriente M\u00e9dio e o despertar africano, al\u00e9m da dimens\u00e3o estrat\u00e9gica: a margem de manobra e o campo de negocia\u00e7\u00e3o foi alterado qualitativamente. Agora o que era especula\u00e7\u00e3o se tornou realidade concreta, todos admitem que o mundo mudou. A R\u00fassia, talvez involuntariamente, foi a catalizadora de uma nova realidade.<\/h5>\n<h5>A configura\u00e7\u00e3o de um mundo multipolar ainda depende da estrat\u00e9gia dos diversos atores. Dividir o campo advers\u00e1rio ser\u00e1 a primeira estrat\u00e9gia da anglosfera, afinal, as rivalidades do tri\u00e2ngulo China\/R\u00fassia\/\u00cdndia s\u00e3o bem conhecidas. Turquia e Indon\u00e9sia est\u00e3o em posi\u00e7\u00e3o amb\u00edgua, pois t\u00eam as qualifica\u00e7\u00f5es do BRIC original, mas o contexto geopol\u00edtico permite um jogo de barganha por certo tempo. E h\u00e1 uma crise econ\u00f4mica, tens\u00e3o militar e forte instabilidade pol\u00edtica na maioria dos pa\u00edses, alguns governos podem \u201ccair\u201d, como foi o caso do Paquist\u00e3o ou sofrerem golpes militares, como na \u00c1frica. O que os membros e candidatos do BRICS desejam n\u00e3o \u00e9 criar um bloco econ\u00f4mico, mas obter melhores oportunidades, em um mundo est\u00e1vel e de regras realmente comuns.<\/h5>\n<h5>A amplia\u00e7\u00e3o do BRICS foi um passo importante para criar um ambiente de supera\u00e7\u00e3o dos impasses mundiais atuais. Mas \u00e9 necess\u00e1rio n\u00e3o ter ilus\u00f5es sobre uma transi\u00e7\u00e3o sist\u00eamica f\u00e1cil, pois n\u00e3o se trata apenas de uma mudan\u00e7a de pa\u00edses e regras. Nenhuma pot\u00eancia entrega pacificamente sua posi\u00e7\u00e3o de vantagem estrat\u00e9gica. Al\u00e9m disso, o pr\u00f3prio modelo de sociedade est\u00e1 em crise e, mesmo dentro do BRICS, h\u00e1 diferentes propostas e muitas contradi\u00e7\u00f5es. H\u00e1 v\u00e1rios anos, em Lisboa, fui atendido por um gar\u00e7om estrangeiro e perguntei de onde era. \u00cdndia, respondeu, e o senhor? Brasil. Ent\u00e3o abriu um sorriso e disse: \u201c\u00d3timo, somos BRICS\u201d! J\u00e1 no Brasil, \u00e9 curioso como pessoas e autoridades menosprezam nossa participa\u00e7\u00e3o no \u00fanico clube em que somos da diretoria, valorizando outros em que ser\u00edamos da segunda divis\u00e3o.<\/h5>\n<hr \/>\n<h6><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Estados Unidos, Reino Unido, Canad\u00e1, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia<\/h6>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Paulo Fagundes Visentini<\/strong><br \/>\nCoordenador do NERINT e Professor da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia Pol\u00edtica\/UFRGS e em Ci\u00eancias Militares\/ECEME<\/p>\n<hr \/>\n<p><!-- \/wp:tadv\/classic-paragraph --><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O BRICS constitui uma sigla muito admirada, mas, tamb\u00e9m, bastante criticada, curiosamente com a repeti\u00e7\u00e3o dos mesmos clich\u00eas, mas com imagem invertida. 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