Preservando a memória digital do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS através do arquivamento da web

Bruno Grigoletti Laitano
Mestrando em História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul

O Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IFCH/UFRGS) foi inaugurado na década de 1970, momento em que os cursos de humanidades deixaram a região central de Porto Alegre e passaram por um processo de reorganização. Atualmente, é formado por quatro cursos de graduação – História, Filosofia, Ciências Sociais e Políticas Públicas, o mais recente -, e por programas de pós-graduação muito bem-conceituados.

Corredores do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (IFCH/UFRGS), localizado no Campus do Vale. Foto: Ramon Moser/Secretaria de Comunicação Social da UFRGS

A história do Instituto, bem como dos cursos que abriga, tem sido preservada por uma equipe do Núcleo de Pesquisa em História (NPH). Documentos que remontam aos tempos da antiga Faculdade de Filosofia da UFRGS, arquivos produzidos após a reforma universitária que deu origem ao IFCH, ementas de disciplinas e regimentos internos são algumas das fontes que constituem o acervo ainda em construção. No entanto, apesar da grande diversidade de registros preservados, o arquivamento do site do Instituto, no ar desde 1998, não figura entre os objetivos do projeto. O histórico desta página, seus diferentes aspectos visuais e transformações da interface também dizem respeito à história do IFCH. Preservá-la, portanto, é manter viva a memória recente desta instituição.
O layout da página do IFCH passou por várias mudanças. A partir da coleta de capturas realizadas pela Wayback Machine, uma ferramenta do Internet Archive, construímos uma tabela que demonstra essas modificações em função do tempo – do ano de 1998, data da primeira captura, ao ano de 2019. Consultamos quatro endereços distintos: ufrgs.br/ifch, ufrgs.br/ifch/home.php, ufrgs.br/ifch/index.php e ufrgs.br/ifch/index.php/br/home. Captamos 13 versões – isto é, treze interfaces diferentes: 1998, 1999a, 1999b, 2001, 2003, 2005a, 2005b, 2006, 2009, 2010, 2012, 2013 e 2019. Dentre as 226 capturas do endereço ufrgs.br/ifch produzidas pela ferramenta, diga-se de passagem, 8 links estão quebrados. Outras 4 capturas incluem o código do antigo servidor da UFRGS – orion.ufrgs.br -, que foi removido em algum momento após o mês de abril de 1999, o segundo ano de vida da página. A versão de 2013, que sobreviveu por aproximadamente seis anos, foi a mais duradoura das interfaces.
A ferramenta utilizada, ainda que tenha possibilitado a reunião de tantos registros acerca do passado digital do Instituto, possui certas limitações. Uma delas é a escassez de capturas em determinados anos ou meses. Há períodos em que apenas dois links foram preservados, um problema que afeta especialmente as versões mais antigas do site. Diferentemente de iniciativas como o Arquivo.pt, uma plataforma de preservação densa da web portuguesa, a proposta do Internet Archive é o arquivamento da web mundial – isto é, de uma gigantesca diversidade de domínios. A amplitude dos seus objetivos resulta em disparidades entre o número de registros relativos às regiões sob o radar dos robôs da Wayback Machine.

Como aponta Moisés Rockembach (2019, p. 133. Grifos originais), “a quase totalidade de iniciativas de arquivamento da web encontra-se em países do hemisfério norte, o que naturalmente traz o enfoque na preservação de conteúdos web de países dessa região do globo”. Nesse sentido, uma das intenções do Núcleo de Pesquisa em Arquivamento da Web e Preservação Digital (NUAWEB) é a criação de um serviço que privilegie o domínio brasileiro, tensionando esta assimetria.
Outro problema diz respeito à intensidade do arquivamento da página do IFCH. Há certos aspectos das páginas que não puderam ser capturados pelo crawler, razão pela qual existem lacunas em algumas interfaces. “Este sistema funciona como um backup limitado, pois é possível acessar a página web que por algum motivo não se encontra disponível, entretanto algumas funções da página pesquisada e mesmo a navegação entre os hiperlinks pode ser comprometida no uso do armazenamento em cache” (PAVÃO; ROCKEMBACH, 2018, p. 173). Isso também corresponde a falhas na própria arquitetura do site, que nem sempre está de acordo com pré-requisitos exigidos pela ferramenta e suas operações de coleta. Caso alguém esteja interessado em acessar documentos .pdf que outrora estiveram disponíveis para download na página, por exemplo, saiba que nem sempre o serviço os terá preservado, mas há ocasiões em que esses arquivos ainda sobrevivem entre os servidores do Internet Archive.
Esperamos que este trabalho, ainda que preliminar, auxilie pesquisadores interessados na história do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, promova a curiosidade acerca da identidade visual da página do IFCH em um passado não tão distante, e que sirva, também, como um ponto de reflexão sobre a efemeridade da web e a necessidade de preservá-la.

Confira a tabela       
Página do IFCH, 1998-2019

Links em destaque

a) A primeira página do IFCH;

b) Boletim informativo de boas-vindas aos calouros de 1999;

c) A atual página do IFCH;

 

Referências

PAVÃO, Caterina Marta Groposo; ROCKEMBACH, Moisés. Políticas e tecnologias de preservação digital no arquivamento da web. Revista Ibero-americana de Ciência da Informação, Brasília, v. 11, n. 1, p. 168-182, jan. /abr. 2018. Disponível em: <http://bit.ly/375fMBp>. Acesso em: 14 nov. 2019.

ROCKEMBACH, Moisés. Arquivamento da Web no contexto das Humanidades Digitais: da produção à preservação da informação digital. Liinc em Revista, Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, p. 131-139, mai. 2019. Disponível em: <http://bit.ly/2O50YKe>. Acesso em: 11 nov. 2019.