18 de Agosto de 2025

Michel Carvalho - O diálogo pertinente entre comunicação pública e oratória

Imagem: Banco de imagens

 

Vivemos a era da opinião, em que todos se sentem empoderados para comentar sobre os diversos campos da vida social, da política aos negócios, do esporte à cultura, e até mesmo acerca da intimidade alheia. No atual debate público, quem se sobressai costuma empregar um discurso performático, que se preocupa mais com a estética utilizada e os afetos mobilizados, e menos com a qualidade dos argumentos. Com isso, discussões importantes sobre o bem comum acabam resumidas a vídeos engraçados ou a cortes de podcasts. E o que a comunicação pública pode fazer para reverter esse cenário? De forma objetiva, qualquer iniciativa nesse campo passa pela educação cidadã e a promoção de atividades que busquem qualificar o debate público, como a criação de cursos de oratória com foco na participação política.

A oratória como exercício de falar em público remete à Antiguidade, na metade do século V a.C, na Sicília (Itália), onde surgiu o primeiro manual sobre a técnica de discursar. Outras publicações surgiram nos anos seguintes, sendo a mais famosa, a Retórica, de Aristóteles. Ao longo do tempo, oratória e retórica foram tratadas ora como sinônimos; ora como instâncias diferentes, sendo a primeira mais ligada à linguagem; e a segunda indo além dessa esfera. Para a nossa discussão, o que importa é pensar sobre como expor argumentos com o objetivo de persuadir se tornou historicamente algo associado ao uso mal-intencionado das palavras, ou seja, à enganação ou à manipulação das ideias, comum aos discursos político, religioso e publicitário.

Por outro lado, a visão depreciativa da oratória e da retórica desconsidera que é possível ser persuasivo, convencer multidões, fazendo uso de argumentos baseados em evidências e fatos comprovados. Como ressalta Viktorovitch (2024), a técnica retórica se relaciona à arte de apresentar pensamentos da maneira mais pertinente possível, a fim de facilitar a aceitação dos interlocutores. É verdade que hoje, com a eclosão de influenciadores digitais, o que mais se observa são pessoas antiéticas buscando monetizar com a persuasão de seguidores com objetivos escusos. Apesar desse dilema do ecossistema digital, o cidadão, com habilidades comunicativas, poderá representar sua comunidade com mais propriedade e com maior poder de convencimento.

Citelli (2005) assinala que persuadir é resultado de certa organização do discurso que o constitui como verdadeiro para o destinatário, ou seja, o que se diz precisa ser plausível, possível e provável para fazer algum sentido para a sociedade. É justamente nesse aspecto que atua a oratória com foco na participação política. Ao questionar se falar em público é questão de dom ou habilidade, Blikstein (2017) garante que todos, independente de classe social, idade, gênero, podem desenvolver, com conhecimento e prática, técnicas de comunicação oral. Evidentemente, não podemos esquecer dos casos excepcionais de glossofobia (medo de falar em público), condição que produz ansiedade intensa antes de uma apresentação ou durante ela, sendo que, muitas vezes, inclui sintomas, como palpitações, sudorese, bloqueio mental e tremores.

A Escola do Parlamento da Câmara Municipal de Barueri, na região metropolitana de São Paulo, promoveu entre maio e julho deste ano, o curso “Oratória para Atuação Cidadã”*, com o objetivo de desenvolver habilidades comunicativas para qualificar a participação dos cidadãos em fóruns de discussão na internet, audiências públicas e reuniões com autoridades políticas. Entre os inscritos, servidores do Legislativo e do Executivo, além de representantes de entidades da sociedade civil, lideranças comunitárias e estudantes. Ao longo da formação, os participantes conheceram, entre outros conteúdos, as técnicas retóricas de Aristóteles, as etapas da persuasão, a estrutura do storytelling, os modos de refutação e as estratégias discursivas para participação política. A atividade final do curso consistiu na apresentação, no plenário da Câmara, de um projeto de lei de interesse coletivo, de autoria dos próprios estudantes, com a presença de pessoas da comunidade.

A experiência da Câmara de Barueri reforça a ideia de que os cidadãos não nascem prontos, isto é, precisam ser forjados por algum processo de letramento político que, minimamente, contribua para desenvolver a competência democrática, que inclui a defesa de um ponto de vista. Sem dúvida, esse processo depende do desejo do sujeito em se capacitar para o debate acerca da coisa pública, seja como potencial representante nas esferas institucionalizadas de poder ou como agente cidadão. A oratória com foco na participação política qualifica o engajamento cívico, ao desenvolver conhecimentos, habilidades, atitudes e valores democráticos, como a igualdade, a liberdade, o pluralismo, a solidariedade, o diálogo, a ética, a compreensão sobre direitos e obrigações e, sobretudo, a certeza de que a política é a via institucional para a mediação de conflitos sociais.

De fato, a comunicação pública tem relação direta com a educação cidadã, ao contribuir para a qualificação do debate público, seja ofertando informação de qualidade, seja estimulando a participação política. Nesse sentido, popularizar a oratória ajuda nesse processo de aproximação entre Estado e população, afinal, comunicar com propósito é fundamental para o exercício de uma cidadania ativa e crítica. O morador de um bairro, por exemplo, que sabe fazer uma intervenção numa audiência pública de saúde ou que questiona a fala de um prefeito com eloquência pode acabar provocando uma mudança na própria instituição pública, que deve aperfeiçoar seus processos organizacionais para atender melhor esse cidadão, dotado do saber retórico e consciente de seu papel na sociedade.

(*) O autor foi o facilitador de aprendizagem do referido curso. 

 

Referências:

ARISTÓTELES. Retórica. Madrid: Editorial Gredos, 1999.

BLIKSTEIN, Izidoro. Falar em público e convencer: técnicas e habilidades. São Paulo: Contexto, 2017.

CITELLI, Adilson. Linguagem e persuasão. 16 ed. São Paulo: Ática, 2005.

VIKTOROVITCH, Clément. O poder da retórica: como convencer e decodificar o discurso. Petrópolis: Vozes, 2024. 

 

Michel Carvalho

Doutor em Ciências Humanas e Sociais (UFABC), mestre em Ciências da Comunicação (USP), pesquisador do Grupo Mediações Educomunicativas (MECOM/USP), diretor regional da ABCPública em São Paulo e membro do Conselho Consultivo da Associação Paulista de Escolas do Legislativo e de Contas (APEL).

 

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