O impacto da catástrofe das águas que invadem o Rio Grande do Sul e destroem moradias, expulsam moradores, arrastam objetos, ceifam vida e espalham doenças, também impactam o nosso modo de pensar a vida, a economia, a política e a comunicação. A destruição provocada pelas águas paradas e aquelas que continuam a escorrer das nuvens não têm desvios e quem não está sendo expulso por elas é atingido por sua falta nas torneiras que secaram e na luz que apaga. A hecatombe que desequilibra o modo de viver de milhares de pessoas e animais expõe a responsabilidade dos políticos e aciona o movimento solidário de centenas de pessoas que trabalham ininterruptamente no resgate e acomodação de flagelados em abrigos, onde são alimentados, recebem roupas e cuidados de saúde. O país inteiro participa da tragédia pela comunicação nas redes, por discursos e imagens que ocupam as telas e do rádio.
Essa sucinta descrição define um acontecimento público configurado por dezenas de eventos ambientais, sociais, econômicos e políticos que atingem, direta e indiretamente toda a sociedade e as instituições públicas e privadas. A catástrofe gaúcha é um acontecimento público na medida em que aciona os poderes republicanos que têm alguma responsabilidade sobre a existência e consequências da tragédia; recupera as certezas da ciência que explica, principalmente, as mudanças climáticas e a geografia; designa os meios de comunicação convencionais e redes sociais como responsáveis pela visibilidade da tragédia , e tudo isto interligado pelo fazer do jornalismo instigado a cumprir seu papel de informar e criticar privilegiando o interesse público. Desde o primeiro movimento das águas foi possível observar e participar da tragédia que entrou por todas as mídias, ininterruptamente, provocando emoções, saberes, ações de cidadania e atos políticos por todo o país.
A hecatombe gaúcha é acontecimento público que permite refletir sobre o conceito ‘comunicação pública’ que abrange a comunicação política, governamental, a comunicação midiática e jornalística, permitindo identificar a configuração do ‘paradoxo político-comunicacional’ (inerente à ação de atores políticos) e presente nos discursos e atos políticos que, simultaneamente, anunciam acolhimento e soluções ao estado e aos desabrigados e investem na sua imagem pública. É possível identificar nos discursos de dirigentes de governo e políticos, a disputa política e, consequentemente, a busca de opiniões favoráveis à sua ação que incidem na sua imagem em nos percentuais de (des)aprovação. Para cada manifestação política e científica concorre a publicação de informações privadas e deturpadas que visam minar o ator político em oposição, seu partido e a sua ação, assim como negar as certezas científicas que explicam a tragédia gaúcha. O objetivo provável das perversas fakenews neste momento é impedir que o inimigo declarado obtenha índices favoráveis à sua ação, mesmo que seja em benefício da vida contra a morte. Na chamada polarização política do país, os gabinetes do ódio encontram mais um argumento para exercitar sua perversidade contrariando a dor da tragédia e aumentam as feridas causadas pelas águas.
Nessa direção, a catástrofe gaúcha contém questões complexas relacionadas à comunicação pública de órgãos estatais, mídias, jornalismo, instituições científicas, sociedade organizada e o mercado até a insólita comunicação privada contrária ao interesse público (porque mente e distorce informações) mas é veiculada pelas redes sociais. Uma destas questões é o jornalismo que, assim como em Brumadinho, Mariana, Pantanal, Pandemia e Boate Kiss, por exemplo, recupera a sua natureza, aproximando cidadãos com a realidade e a verdade do acontecimento. Sites e redes investem na reportagem, no trabalho de jornalistas, fotógrafos, radialistas, videomakers e alteram o próprio tempo e design das mídias praticando a reportagem, em nome do interesse público. O trabalho ininterrupto de emissoras de rádio, da televisão e dos veículos impressos mostram o poder e a importância dessas mídias ditas “convencionais” que possibilitam o confronto com a disseminação de mentiras e fakenews. Em jogo, milhares de vida que dependem de informações corretas.
Cabe ainda, apontar a dimensão mercadológica viabilizada por um acontecimento público das dimensões da catástrofe gaúcha, quando transformado em ‘espetáculo político-midiático’, que é a sua ‘partição’. Assim como os políticos terão seu naco de responsabilidade e projeção, muitas empresas associarão seus atos de benemerência e doações a suas marcas, assim como os índices de audiência de rádios e tvs e patrocínios, naturalmente aumentarão graças ao jornalismo exercido. As celebridades midiáticas, culturais, políticas e econômicas se encaixam na tragédia e obtêm visibilidade, utilizando e contribuindo a seu modo para amenizar a situação dos desabrigados com doações.
Desde o dia 29 de abril, as chuvas inundam o Rio Grande do Sul e as águas trazem à tona o grande quebra-cabeça político-ambiental que é esta catástrofe; a perversa especulação imobiliária que afasta as pessoas mais pobres de lugares seguros; a fragilidade da tecnologia quando esbarra em decisões políticas e mostra que a manutenção de equipamentos poderia ter diminuído a grandiosidade da tragédia; a importância da ciência e o aumento do negacionismo; o descolamento e o poder das “redes do mal” sobre qualquer verdade ou realidade; a ampliação do debate sobre o compromisso dos governantes com a comunicação pública para além do exercício da política e da disputa político-eleitoral. Em meio a essa paisagem, associações, grupos da sociedade organizada, universitários, profissionais e pesquisadores engajados na luta pelo direito à informação e contra as fakenews,tentamamplificar esse debate público com o engajamento de novos grupos, em nome da cidadania.
Porto Alegre, 20 de maio de 2024.
Imagem da capa: “Porto Alegre, maio 2024”. Foto Eduardo Tavares, jornalista e fotógrafo.
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