31 de Agosto de 2026 | ELEIÇÕES 2026, O DIFUSO ACONTECIMENTO PÚBLICO DAS DEMOCRACIAS

Nesse tempo de eleições - o maior e mais belo acontecimento público da democracia -, é preciso pensar em compromissos relacionados à comunicação pública; a comunicação que nutre a democracia ao viabilizar relações, debates, visibilidade, transparência e a circulação de informações. A comunicação pública assim definida parece se aproximar de uma dimensão utópica quando acompanhamos os acontecimentos políticos nacionais traiçoeiros da corrupção e mentiras; o exercício permanente da produção de desinformação, e o diálogo social validado apenas em impressões e opiniões que desqualificam a interpretação da realidade e desvalorizam as pessoas.  O Observatório da Comunicação Pública acompanha de perto esse processo.

Desde 2018, a ingerência digital influenciou diretamente o eleitor e as eleições brasileiras, em diferentes perspectivas que foram tecnologicamente ampliadas e podem decidir estrategicamente a vitória eleitoral.  O eleitor passou a ser agente ativo de suas opções políticas comunicando-se diretamente com os candidatos, valorizando e degradando os adversários. A sofisticação de dispositivos e linguagens digitais associada à estética das redes digitais tem retirado da política a sua singularidade histórica deformando-a devido, especialmente, a dois processos induzidos pela direita (porque esta não apenas utiliza da tecnologia posta, mas cria e se constrói com as possibilidades que a plataformização permite). A individualização dos partidos e programas sobrepõe os interesses privados ao interesse público, maculando os princípios da democracia no descompromisso dos atores políticos com a verdade e a realidade e, portanto, com a falta de ética e pudor político. O medo e o ódio tornam-se aliados da diferença (do outro que não pertence ao mesmo grupo), enquanto padrões de vaidade e paixões são monetizados e os influenciadores tornam-se atratores no fornecimento de fórmulas mágicas. Assim, o político também investe na sua influência individualizada e tudo isso interfere no voto, mais do que o seu próprio pensamento ideológico.

2026 é o ano eleitoral em que todas essas questões virão à tona devido à sedimentação de posições polarizadas com os adversários transformados em inimigos e pelo domínio facilitado da linguagem e dos conteúdos administrados pela inteligência artificial. A estética futurista digital incita eleitores a, individualmente, participarem das campanhas e a seguir o rastro ufanista de seus candidatos ou a degradação do adversário pela mentira e bricolagens. No Brasil, o avanço da tecnologia digital coincide com acontecimentos que mudaram a configuração da democracia e a agenda de pesquisa político-comunicacional. A partir de 2013, as grandes manifestações de rua mostraram ao país as feições da extrema direita organizada, na esteira de uma nova ordem internacional. A partir disso vivenciamos acontecimentos que modificaram a percepção política sobre o país e seus cidadãos: a cassação da presidenta Dilma Rousseff (2016); a prisão, liberação e eleição do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2022); o golpe configurado no domingo da vergonha nacional (8/1/2023) com o julgamento e prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e integrantes do seu governo e partido (2025).
O Brasil, no entanto, usufrui de uma sobrevivência democrática, ainda no enfrentamento com a extrema direita e seus tentáculos internacionais; com a ameaça de interferência norte-americana (com tarifas, sanções à corte suprema, reuniões com influencers, defesa de plataformas que desrespeitam nossas leis e tratados, mobilização digital e a circulação de desinformação). A tensão em relação às eleições brasileiras está nas recentes eleições do Chile, Colômbia e Peru que são exemplos do sucesso das campanhas digitais que reforçaram a performance da extrema direita, especialmente em temas sensíveis como segurança pública e imigração.

Hipoteticamente, pode-se afirmar que essas eleições trazem como a única e complexa novidade a existência de um paradoxo relacionado à comunicação eleitoral configurado nas evidências de que nunca houve tantos instrumentos capazes de traduzir discursos e viabilizar estratégias publicitárias e, simultaneamente, tão pouca comunicação real e informação crível são difundidas. Sobre isso, dois exemplos e três perguntas. Desde junho as pesquisas mostram os eleitores atribuindo praticamente os mesmos percentuais destinados aos candidatos presidenciais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A dita imprensa e as plataformas e redes estão repletas de informações, de julgamentos, de acusações de tribunais relacionadas a Bolsonaro e ao filho de Lula, mas os números não se movem. Os eleitores estão lendo apenas o mínimo em suas redes e nada os demoverá? O segundo exemplo é o percentual de 74% de “indecisos ou não sabem”, na escolha para governadora ou governadores do Rio Grande do Sul. Não há informações ou propaganda suficientes que possam auxiliar na escolha e decisão do voto?  Por último, será que falta comunicação, ou há uma intoxicação coletiva que leva mais à apatia e à indiferença do que a polarização ou diálogo?

Ao OBCOMP cabe entender, divulgar e criticar os desafios da comunicação pública (Estado, sociedade, imprensa) identificando o modo com que essa comunicação está sendo desenvolvida. A comunicação sobre as eleições é de máxima responsabilidade das instituições do Estado e também dos partidos e dos políticos.  Podemos afirmar que somos reféns da comunicação digital, mas podemos defender, também, que ela permite o exercício público da comunicação e a qualificação da democracia, mesmo que aos poucos a cultura individualizada e os projetos privados adquiram maior capacidade para distorcer o debate e a comunicação pública. 

 

Porto Alegre, 3 de agosto de 2026

 

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