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Felizardo, aquém e além dos modernos

Felizardo, aquém e além dos modernos

Felizardo, aquém e além dos modernos

DATA: 20/11/2023

AUTORIA: Luiz Carlos Rosa Felizardo

BIO: Luiz Carlos Rosa Felizardo, nasceu em 1949 na cidade de Porto Alegre, RS, onde reside. Durante a Faculdade de Arquitetura, iniciada em 1968 na UFRGS, começou a trabalhar profissionalmente como fotógrafo de publicidade. Em seguida, passa a fotografar a paisagem urbana, rural e natural do seu estado natal. O fotógrafo utilizou em suas fotografias câmeras de grande formato, seguindo a tradição da fotografia moderna americana. Suas imagens em preto e branco, de grande nitidez, apresentam uma rica gama de tons de cinza e redesenham a paisagem. Durante um ano viveu nos Estados Unidos na cidade de Prescott (foi bolsista Capes e da Comissão Fullbright). No período Norte Americano, teve como mentor o fotógrafo Frederick Sommer (1905-1999). Em 1990 é agraciado com uma Bolsa da Fundação Vitae para desenvolver trabalho de pesquisa acerca de seu mentor nos Estados Unidos. Luiz Felizardo participou de inúmeras exposições entre mostras coletivas e individuais no Brasil e exterior, Masp, MAM, Margs são alguns exemplos. A obra de Felizardo está presente nas coleções em museus no México, em Cuba, na Argentina, nos Estados Unidos, além de coleções privadas no Brasil, nos EUA e na Europa. São de sua autoria os livros “O Relógio de Ver” e “IMAGO". Além de fotógrafo artista, Luiz Felizardo realiza em seus escritos uma arguta crítica fotográfica. 


Numa noite quente de julho de 2023, visitei o fotógrafo Luiz Carlos Felizardo (1949, RS) no seu apartamento em Porto Alegre. Fui recebida por Isabel, sua esposa, e ele. Já a entrada o encantamento do espaço me capturou. Obras de arte fotográficas espalham-se pelas paredes e o meu olhar, inebriado, tudo percorria. Felizardo trabalhava em seu computador junto com Marco Antônio Filho, artista e fotógrafo, quem atualmente o auxilia na organização de seu vasto material fotográfico. Me sentei ao lado deles, começamos a conversar e um campo mágico criado por afetos não sabidos foi nos conectando. Via nas imagens que se sucediam todas as referências¹ que me encantaram e encantam e que, de certa maneira, formaram também o meu olhar. Felizardo, como poucos, antenado ao espírito do tempo, soube transformar a bagagem Moderna recebida em um olhar original sobre o mundo que o cerca. Diria detectar nas imagens vistas algo de aspecto surrealista e profundamente existencial com ecos de um grande silêncio e vazio. Seus campos, vistas, formas, objetos e cidades me fizeram lembrar de Eugene Atget (1857-1927), fotógrafo francês do final do século XIX e início do século XX. As imagens captadas por Atget retratam uma Paris e arredores silenciosa e vazia onde a figura humana é quase sempre ausente e, o comum, o ordinário paradoxalmente ganham uma espécie de aura na afronta que fazem a modernidade através do gesto de escolha do fotógrafo. Seu trabalho, para muitos artistas e fotógrafos do seu tempo, como Man Ray, Berenice Abbot, entre outros, detém o germe do surrealismo vindouro.

Faço esse paralelo com Atget por encontrar nas imagens aqui selecionadas de Felizardo, o mesmo eco e vazio que perpassa o trabalho do primeiro fotógrafo dito surrealista. A percepção sutil das coisas em sua crueza existencial é captada por Felizardo com a mesma mestria documental de seu antecessor francês. Nesse jogo perpetrado pelo olhar, objeto e ambiente tornam-se independentes da presença humana tornada supérflua, desnecessária. O que era apenas documento, surge num novo patamar de existência permitindo que toda a poesia da forma se esbalde em tons de cinza, preto e branco e, como um velho piano cansado das antigas melodias, resolve improvisar. Citando Walter Benjamin, ao se referir à Atget, que também foi ator, “limpou a máscara e se dedicou a desmascarar também a realidade” (Benjamin, 2012: 106), realidade sempre subjetiva e mutável. Me parece que na inflexão e curvatura que aqui faço no trabalho de Luiz Felizardo, é essa desmistificação o que se pode observar nesse intrigante mundo imagético a nós ofertado. Não importa a localização espaço temporal do que é fotografado, importa o que nos é proposto através da imagem, que nos quer outros através da experiência do olhar.

À título de provocação, abro o portfólio de Luiz Felizardo com a imagem de um casal que se olha, imagem essa que se espelha no vidro onde um deles se apoia. O casal parece alheio ao que os cerca. Aparentemente enamorados, sugerem enxergar apenas aquilo que se reflete no olhar do outro, si mesmo. Ainda provocando, fecho o portfólio com a imagem do galgo. O animal, num corte intempestivo, faz lembrar a imagem de Ouroboros, criatura mitológica, espécie de serpente que segundo interpretações, rompe com a evolução linear e evoca a roda da existência, símbolo solar na maioria das tradições. No Budismo, por exemplo, Ouroboros significa o olhar para si como forma de evoluir espiritualmente, marcado pela ausência de início e fim². Ou seja, Felizardo nos convida a sair da mesmice, nos fala do outro, da diferença, do ruído a ser buscado no silêncio e da presença a ser buscada no vazio. Seu gesto, para mim de inspiração surrealista, busca nos indicar um caminho de reconexão num mundo povoado pela ausência, onde o Tempo regurgita incessantemente, o passado e o presente. Essas imagens são lugares de espera.

¹Me refiro à Fotografia Moderna Americana que preza na tomada de imagens a nitidez, utilizando abertura de diafragma mínimas. Tais imagens, na maioria das vezes, são realizadas com equipamentos de médio e grande formato. As temáticas clássicas perdem espaço e a cidade e os objetos ordinários passam a ser temas da fotografia. Alguns exemplos de fotógrafos que não se esgotam: Ansel Adams, Eduard Weston, Paul Strand.

²Significado de Ouroboros - Dicionário de Símbolos (dicionariodesimbolos.com.br) 13 de novembro de 2023. Texto não paginado.

Referências

Benjamin, Walter. Pequena História da Fotografia. Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política. Lisboa: Relógio D’Água, 2012.

 

Por Sandra Gonçalves - artista visual, doutora, professora e pesquisadora da UFRGS - Coordenadora da Galeria OBCOMP


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