DATA:
27/04/2023
AUTORIA:
Sandra Gonçalves
BIO:
Sandra Gonçalves é artista visual, doutora, professora e pesquisadora da UFRGS. Sandra vive a fotografia em tempo integral, desde os anos 2000, criando imagens que vão além da referência fotográfica e ampliam seu significado original. Em termos técnicos, sua produção fotográfica pode ser considerada híbrida por ser construída tanto no processo analógico quanto digital. O Humano e o ser-no-mundo contemporâneo são o centro de suas reflexões imagéticas.
Imagens do Desassossego tem seu início concomitante ao surgimento do Covid-19. Dei esse nome a um conjunto de séries que refletem sobre questões do contemporâneo. Bestiário, uma dessas séries, surge no momento em que se dão as primeiras pesquisas na busca de uma vacina contra o vírus da covid-19 e se debruça sobre um bestiário contemporâneo. Mais do que nunca, os modos de se experimentar o mundo pareciam passar por filtros potentes que modificavam a nossa visão do agora. Tais filtro pareciam e parecem ter por função oferecer uma visão de mundo por vezes muito deturpada, firmada em crenças e não na experiência fenomenológica do estar no mundo. Deste modo, medos irracionais afloram, barreiras e muros crescem por todos as partes e passam a separar os considerados de dentro dos considerados de fora. O mundo torna-se binário, excludente com aqueles que não se encaixam, com aqueles que fogem a norma estabelecida. Os nacionalismos afloram pelo mundo inteiro, as democracias sufocam e com ela os ganhos civilizacionais também se vão. Tal modo de ser aparenta ter se adensado a partir do choque provocado pelo COVID-19. Líderes totalitários e messiânicos surgem como maestros de uma multidão aparentemente acéfala necessitada de um Grande Pai.
A irracionalidade e a tirania tomam a linha de frente e a adesão ao tirano torna-se um ponto de fuga mortal. Um suicídio moral coletivo tinge de vermelho o planeta. A Paixão e o desejo, o instinto de vida, são traídos e suplantando por Tânatos, morte. O canto da sereia aparentemente doce não o é, pelo contrário, é frio, sarcástico e calculista. A multidão delira. Então, através de imagens banais do cotidiano de pessoas comuns, de fatos históricos inexplicáveis sobrepostos a outras imagens, sobretudo imagens de caráter religioso, mítico e místico, busquei provocar um deslocamento do olhar, uma deriva do observador da imagem para chamar atenção para o agora e tentar provocar um desencaixe para quem sabe, reverter, mesmo que minimamente, o movimento entrópico que se acelera no planeta. Penso que vivemos um grande incomodo.
Conheça mais sobre a artista e sua obra:
https://www.sandragoncalves.com/ e
htttps://instagram.com/sandramlpgonçalves
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