DATA:
16/09/2026
AUTORIA:
Claudia Andujar
Nesse segundo semestre de 2026, o foco da galeria recai sobre o trabalho da fotógrafa artista Claudia Andujar (1931), mais especificamente a série Sonhos (1974-2003) composta por 18 imagens fotográficas. Sonhos faz parte do livro A Vulnerabilidade do Ser (Andujar, 2005), espécie de síntese da obra fotográfica de Claudia Andujar, com peso acentuado na saga dos índios Yanomami que vivem na Amazônia brasileira. Na série Sonhos a artista atualiza imagens de seu vasto arquivo, construído em mais de 20 anos de convívio com os índios Yanomami, em releituras que fazem coabitar imagens de diferentes temporalidades, criando assim novas e potentes configurações que, ao mesmo tempo em que sintetizam, abrem novos caminhos de leitura da saga Yanomami e da própria artista.
Suíça de nascimento e brasileira por opção (adquiriu cidadania brasileira em 1975), teve como primeira expressão visual a pintura abstrata. Quando chegou ao Brasil, década de 1950, passou a utilizar a fotografia como forma de aproximação e compreensão do povo brasileiro. A fotografia de Andujar, utilizada como forma de expressão pessoal na busca de entender o outro ao mesmo tempo em que se busca nesse outro, ganhou corpo e visibilidade primeiro no fotojornalismo e depois numa fotografia de cunho expressivo com grande carga conceitual, estabelecendo um percurso artístico com uma poética voltada a questões sociais e existenciais e ao mesmo tempo com uma preocupação técnica e estética onde o invisível da cultura e religiosidade Yanomami se fizesse presente. Seu primeiro e permanente foco de interesse foram os índios, dedicando-se desde o início de seu exercício artístico/fotográfico à causa Yanomami.
Claudia Andujar transitou com desenvoltura entre o fotojornalismo e a fotografia experimental, esbatendo as fronteiras entre arte e documentação - na busca do documento, a alma sensível da artista fez desse pretexto um trampolim para um mergulho profundo na floresta, na alma de seus habitantes e em si mesma. Seu trabalho, com fundo documental, ganha expansões, seja pelo modo conceitual com que trabalha com a técnica fotográfica, seja nas releituras que frequentemente faz dessas imagens.
Quando chegou ao Brasil, Claudia Andujar, antes dedicada à pintura, assumiu a fotografia como forma de expressão (começou a fotografar no final dos anos 1950). Não porque buscasse uma nova forma de se exprimir que substituísse a pintura, mas como uma forma de “[...] desvendar o país, meu novo lar e seu entorno, os países ‘latino-indígenas’. Enfronhei-me a desvendar suas raízes, suas humanidades [...]”, diz a artista em depoimento a pesquisadora Simonetta Persichetti (Persichetti, 2008:). A fotografia entra na vida da então pintora Claudia Andujar, como forma de contato e entendimento do país adotado como lar, de uma necessidade de registrar uma nova vivência, afirmando seu interesse pela diversidade; aos poucos a pintura é posta de lado. Autodidata, aprendia conforme as necessidades técnicas e expressivas da fotografia apareciam.
Nesse período, fez intensas viagens pelo país e seu entorno realizando suas primeiras incursões naquela que seria sua temática preferida, a fotografia de grupos indígenas (leme de sua vida a partir do encontro com os índios Yanomami), sempre com enfoque humanístico. Começa por realizar imagens de indígenas na Bolívia e depois, incentivada por Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro, a quem conheceu por meio de amigos comuns, Claudia Andujar começou a fotografar os índios brasileiros. Iniciou com os Karajá, na região do Araguaia, no Brasil Central, onde permaneceu por dois meses. Tentou vender esse primeiro trabalho para a revista O Cruzeiro, mas não obteve sucesso. A reportagem acabou sendo publicada pela revista Life, Estados Unidos, inaugurando sua entrada no fotojornalismo.
O grande encontro com os índios e a exacerbação de sua expressão fotográfica se deu no início dos anos 1970, quando colaborou em um número especial da revista Realidade (1966-1976), para a qual já havia realizado inúmeras pautas desde 1965, fotografou os índios Aharaibus (Yanomami), no alto do Rio Negro, na fronteira entre o Brasil e a Venezuela. A edição foi um sucesso e as imagens dos índios que a pauta vedava por razões políticas (vivia-se no Brasil a ditadura militar que advogava uma política desenvolvimentista de integração nacional a qualquer custo, vitimando com isso a floresta e seus habitantes), acabou impressa em inúmeras páginas, sendo o rosto de uma menina índia a capa da revista de outubro de 1971 (figura 1).
Figura 1. Claudia Andujar. A última chance dos últimos guerreiros. Realidade, outubro de 1971. Fotografia.
Fonte: Fotografia em Revista, Abril Cultural, 2010.
Realidade, outubro de 1971.
Nesse trabalho da fotógrafa artista já é possível vislumbrar seu engajamento político nas questões das minorias, aliado a uma intensão artística que se percebe nos valores estéticos presentes nas imagens. A câmera fotográfica foi utilizada por Claudia Andujar como um instrumento para dar voz aos marginalizados e entendê-los, ao mesmo tempo em que conhecia a si própria (no outro). É importante ressaltar que a documentação fotográfica jornalística de Claudia Andujar não foi submissa a uma estética vinculada de modo decisivo ao realismo fotográfico, onde imagem e referente dialogam numa relação especular. Sem abandonar a necessária relação com um referente real, exigida nesse tipo de fazer, Claudia Andujar ampliou as possibilidades fotográficas em sua busca de tradução do indizível do real na imagem.
Após sua última fotorreportagem na revista Realidade, sobre a Amazônia, Claudia Andujar se afastou do fotojornalismo e passou a se dedicar a projetos autorais, o que a levou de volta as terras Yanomami. Durante a década de 1970, passou longos períodos na floresta convivendo com os índios Yanomami; fotografava na tentativa de compreender e conhecer seus ritos, seus mito, a relação que esses estabeleciam com o cosmo. Claudia Andujar buscava fotografar o imaterial, o invisível, o indizível e as sensações da alma do índio e da floresta. Para tanto, desenvolveu estratégias técnicas que possibilitassem resultados estéticos que traduzissem esse imaterial. Lançou mão de filtros, filmes infravermelhos, subexposições e superposição de imagens, passava algumas vezes vaselina nas lentes das objetivas, “queimava” partes de filmes na tentativa de revelar o que o simples referente material não mostrava. Por vezes o ângulo de tomada, o uso criativo dos controles de exposição, a fragmentação dos corpos se tornava suficiente para essa tradução, como se pode observar na imagem a seguir (figura 2).
Figura 2. Claudia Andujar. Fotografia.
Fonte: A Vulnerabilidade do Ser, Cosac Naify, 2005.
Em 1978 lança dois livros, um sobre a Amazônia, produzido junto com o seu então marido, o fotógrafo norte-americano George Love, obra com resultados visuais e experimentações estéticas que fugiam aos padrões de sua época no Brasil. O outro livro, Yanomami, a artista realizou sozinha. Ele é o resultado de sua íntima e intensa convivência com a cultura Yanomami. Após esses trabalhos vieram inúmeros outros livros e exposições.
Classificada naquilo que André Rouillé (2009) chama de Fotografia expressiva, e qualificada como artista, Claudia Andujar realiza na série Sonhos o que se pode chamar de fotografia expandida – aquela que se desapega da referência determinante do real, apresentando novos horizontes reflexivos. Por meio de fotomontagens, feitas a partir de transparências de fotografias coloridas e em preto e branco, oriundas de seu arquivo, Andujar realiza sobreposições e hibridações, criando novas imagens, próximas a abstração. A artista busca, através da técnica que elabora, apresentar e ampliar aquilo que a simples representação mimética do real não dá conta: o espiritual e o invisível na imagem, a relação indissociável entre o índio e a floresta, seus rituais e sua mitologia. O modo pelo qual a artista realiza seu intento abre espaço para a presença da Imagem-Cristal (Fatorelli, 2003), uma fissura no real e de uma Fotografia Menor (Gonçalves, 2009), uma imagem política e conceitual. Potentes e nômades essas imagens levam seus leitores também a sonhar ao trasbordar as fronteiras entre a ficção e a realidade. As imagens da série Sonhos, com origem nos rituais xamânicos dos Yanomami - mas não apenas neles - e dentro do compromisso de defesa da causa Yanomami da artista, fogem da ditadura do referente, da verdade fotográfica abrindo horizontes mágicos e intensos. Vamos a elas. Optei por não colocar legendas nas imagens, como nos sonhos e devaneios o tempo está suspenso e a geografia flutua. Todavia, foram realizadas entre as décadas de 70 e 80 do século XX e transformadas em livro em 2022.
Sandra Gonçalves - artista visual, doutora, professora e pesquisadora da UFRGS - Coordenadora da Galeria OBCOMP
Notas
Andujar, Maureen (2005). A Vulnerabilidade do Ser. São Paulo: Cosac. ISBN: 85-7503-395-6.
Andujar, Maureen (1978). Yanomami. São Paulo: Praxis: 978-85-86707-45-2.
Brandão, Eduardo& Machado, Álvaro (2005). “Ritual e Reconstrução”. A Vulnerabilidade do Ser. São Paulo: Cosac Naify. ISBN: 85-7503-395-6. : 170-175.
Fatorelli, Antônio (2003). Fotografia e viagem. Entre a natureza e o artifício. Rio de Janeiro, RJ: Relume Dumara. ISBN: 85-7316-323-2.
Gonçalves, Sandra M L P. “Por uma Fotografia Menor no Jornalismo Diário Contemporâneo”. Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação | E-compós, Brasília, v.12, n.2, maio/ago. 2009. E-ISSN 1808-2599 [Consult. 2015-12-14] Disponível em URL: http://www.compos.org.br/seer/index.php/e-compos/article/view/393/364
Persichetti, Simonetta (2008). Claudia Andujar. São Paulo: Lazuli Editora. ISBN: 978-85-7865-003-2.
Rouillé, André (2009). A fotografia. Entre documento e arte contemporânea. São Paulo, SP: SENAC. ISBN: 978-7359-876-6.
https://revistausina.com/2022/12/12/claudia-andujar/

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