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Sobre e sob as águas de maio no Rio Grande do Sul

Sobre e sob as águas de maio no Rio Grande do Sul

Sobre e sob as águas de maio no Rio Grande do Sul

DATA: 04/07/2024

AUTORIA: Mateus Bruxel


O mês de maio de 2024 ficará marcado na história do Rio Grande do Sul como um de seus momentos climáticos mais trágicos, provocado pelo excesso de chuvas e o consequente transbordamento de seus rios. Junto a tudo isso, soma-se a inoperância do poder público que não investiu em obras preventivas que poderiam minimizar as consequências das enchentes que tomaram o estado. 

Dentro desse contexto, a Galeria escolheu apresentar um trabalho de cobertura fotográfica do evento climático. E faz isso a partir do trabalho de Mateus Bruxel, um fotojornalista gaúcho que une em seu trabalho a razão, a emoção e a estética. Ou seja, somos levados pelos olhos de Mateus a ver e sentir junto com ele acontecimentos jornalísticos de forma humanista e empática. Para além da informação, há um ganho paralelo para o observador atento às entrelinhas da imagem. O que quero dizer é que Mateus convida o observador a ser um caçador de sentido daquilo que lhe é oferecido, como ele fotógrafo. Empiricamente, isso pode acontecer através da observação de um ângulo de tomada, de um enquadramento, uso da luz, da objetiva escolhida para a tomada. Mateus pratica uma fotografia inteligente, reflexiva e acredita na sagacidade de seu leitor. Bem se vê que seu mentor não poderia ser outro senão Henri Cartier-Bresson (1908-2004), fotojornalista francês que passa à história como o criador imagético do “momento decisivo”.

A título de apresentação, conheci Mateus Bruxel (1983, Estrela, RS) em 2005 quando entrei como docente na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e tive a oportunidade de tê-lo como meu primeiro orientando de TCC. Seu trabalho de final de curso “A busca do olhar Bressoniano no fotojornalismo contemporâneo” (2006) já indicava o que caminho que ele, Mateus, viria a traçar como fotojornalista que é o da Fotografia Expressão (Rouillé, 2009), aquela fotografia que não se atem apenas à referência fotográfica, mas que vai além em busca de outros sentidos e significados tornando a fotografia pensamento e reflexão. 

Hoje, além de fotógrafo do Jornal Zero, Mateus Bruxel é um profissional multimídia que nos conta histórias. Mesmo isoladamente suas imagens narram acontecimentos complexos e quando se apresentam em conjunto narrativo extrapolam, como já pontuado aqui, o fato jornalístico enriquecendo e possibilitando a construção de sentido critico por parte dos leitores. O fotógrafo tem participado de exposições coletivas em diferentes cidades brasileiras, participou também da residência artística oferecida pelo Festival de Fotografia de Porto Alegre (FestFoto) em 2019. Por duas vezes recebeu o Prêmio Direitos Humanos de Jornalismo e foi finalista do Prêmio Esso, bem como recebeu menção honrosa no Prêmio Global por Direitos Humanos Photograpy4Humanity, apoiado pelas Nações Unidas. Mateus Bruxel desenvolve projetos fotodocumentais e de vídeo.

A partir daqui dou a palavra a Mateus Bruxel em texto e imagens com o relato Sobre e sob as águas de maio no Rio Grande do Sul.

Sandra Gonçalves - artista visual, doutora, professora e pesquisadora da UFRGS - Coordenadora da Galeria OBCOMP

 

A PALAVRA DE MATEUS BRUXEL

 

Chuvas sem precedentes atingiram centenas de cidades gaúchas, sobrecarregando as bacias dos rios Taquari, Caí, Jacuí, Pardo, Sinos e Gravataí, que invadiram e devastaram cidades e vidas. A cada dia, ao longo do mês de maio, registros extremos superaram marcas anteriores no Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre, o nível do lago Guaíba chegou a 5,3 metros e ultrapassou o registro da enchente histórica de 1941. O volume acumulado de chuva mensal também foi o maior registrado desde o início das medições, há 124 anos. No Vale do Taquari, o rio passou de 30 metros e atingiu o maior nível da história em cidades como Lajeado e Estrela.

 

Até hoje tenho uma relação afetiva com o Rio Taquari. Ele passa nos fundos da casa dos meus pais, em Estrela, cidade onde cresci. Desde criança acompanhava os movimentos do rio como algo vivo e que deve ser respeitado. As margens dele agora estão devastadas, irreconhecíveis quando olho pro rio da minha memória. E a culpa não é da água.

 

O sistema de proteção contra as cheias não evitou a inundação em Porto Alegre. A água passou pelas comportas, casas de bombas ficaram inoperantes e a capital alagou. Mais de uma centena de abrigos precisaram ser montados para acolhimento na cidade. Diques se romperam ou extravasaram e bairros inteiros ficaram submersos por semanas em Porto Alegre e em municípios vizinhos como Canoas, com mais de 150 mil pessoas diretamente afetadas. Nessa cidade, foi montado o maior abrigo do estado, com mais de 7 mil acolhidos. Estima-se que mais de 240 mil domicílios tenham sido atingidos na Região Metropolitana de Porto Alegre. 

 

Enquanto eu acompanhava resgates em Porto Alegre e cidades vizinhas para o jornal onde trabalho, estava sem conseguir falar com meus familiares que moram na margem do rio no interior do estado. Depois soube que estavam bem, mas isolados na cidade, sem energia elétrica e sem água por dias. 

 

Tem sido uma cobertura extensa, pesada e muito próxima, com dramas que jamais imaginaria. Tive que deixar o prédio onde moro por alguns dias quando meu bairro ficou sem luz e começou a alagar, por causa da inoperância de uma casa de bombas. Fotografei o alagamento no meu bairro, na minha rua. Vi meus vizinhos saindo de casa com água pela cintura na Cidade Baixa e quase até o pescoço no bairro Menino Deus.

 

A exploração inconsequente de recursos naturais, associada ao afrouxamento de políticas ambientais e à negligência de governantes diante de alertas de cientistas e ambientalistas, culminaram numa emergência climática devastadora que afeta o Rio Grande do Sul, com mais de 170 mortes e pelo menos meio milhão de pessoas deslocadas. As condições climáticas extremas destruíram vidas e meios de subsistência e, por vezes, fazem com que os sobreviventes tenham de deixar as cidades arruinadas em busca de recomeço.

 

O sobrevoo durante uma enchente costuma ser um recurso para tentar dimensionar o alcance da tragédia. Quando sobrevoei regiões alagadas nesta cobertura, a vastidão de cheia era tamanha que ficava difícil definir onde antes era o curso do rio. De cima, em algumas regiões, para onde se olhava só o que se via era água. A dimensão daquelas imagens pareciam não caber no visor da câmera, mas ficaram impressas na memória, junto com uma sensação de impotência, angústia e apreensão diante do que testemunhei. A solidariedade e a compaixão de voluntários e a resiliência de pessoas atingidas que encontrei em resgates, abrigos ou tentando voltar para casa, tirando força sabe-se lá de onde e com fé num recomeço, ofereciam acolhimento para um drama comum a todos. A ajuda ainda é muito importante e muito necessária. Se puder, ajude.

 

Mateus Bruxel, fotógrafo

@mateus_bruxel


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