Luiza Damigo
Rede Sementes da Agroecologia – ReSA

Conservação da agrobiodiversidade e a defesa das sementes crioulas. Esta é a bandeira sob a qual mais de 25 instituições, movimentos e coletivos do estado do Paraná se organizam desde 2015, quando a Rede Sementes da Agroecologia (ReSA) se enraíza enquanto rede. De forma descentralizada, informal, com respeito aos diversos processos culturais e de organização local, a ReSA apresenta alguns dos caminhos percorridos pelas sementes no estado, plantadas em diferentes e férteis solos.

A inspiração de constituição da rede veio da campanha “Patrimônio dos Povos a Serviço da Humanidade”, lançada pela Via Campesina no Fórum Mundial Social de 2003. A campanha tinha o importante objetivo de articular ações territoriais para garantir a soberania alimentar dos povos. Essa garantia, de continuidade da vida, vinha a partir da proteção do bem mais fundamental: a própria semente.

Reconhecer as famílias guardiãs, resgatar variedades em extinção ou perdidas, criar e fortalecer espaços para conservação das espécies e troca de experiências – como as casas e bancos comunitários de sementes, fomentar o melhoramento e variedades adaptadas aos sistemas agroecológicos, incidir politicamente e dialogar com a sociedade civil foram algumas das ações postas em prática pela ReSA desde então.

A missão da rede é articular as diversas iniciativas de conservação, melhoramento, produção, comercialização e troca de sementes,  trabalhando pela manutenção do direito de camponesas e camponeses, famílias agricultoras, povos indígenas e comunidades tradicionais, que tenham compromisso com o fortalecimento da Agroecologia nos territórios, no acesso e preservação de suas sementes. As ações caminham em direção ao fortalecimento e inserção nos espaços de luta política.

A ReSA compreende que sementes são todas as formas de vida utilizadas para a multiplicação de uma espécie, ou seja, grãos, tubérculos, ovos e animais, são considerados sementes e fundamentais para a manutenção da biodiversidade e a produção de alimentos. Neste sentido, as sementes são patrimônio da humanidade e direito fundamental para a manutenção da vida.

Figura 1 – Diversos tipos de sementes
Fonte: Acervo pessoal da autora

O lugar de culminância das diferentes rotas percorridas pelas sementes e de quem as semeia são as festas e feiras do estado. Elas são o momento político mais expressivo da Rede, pois possibilitam o forte diálogo com a sociedade, a troca de saberes e experiências, de conexão entre outras organizações, grupos, coletivos e pessoas das mais distintas regiões. Enquanto espaço articulador,  as festas e feiras possibilitam o acesso à informação e a unificação das lutas pelos direitos dos povos e garantia da soberania alimentar.

Em 2017 foram em torno de 15 espaços de comercialização e troca de sementes com uma circulação de 25 mil pessoas. No ano seguinte foram 23 festas e feiras, com mais de 40 mil visitantes e a presença de 700 famílias guardiãs de todo Paraná. Em 2019 serão mais de 20 festas em diversos municípios do estado e a 17ª Feira Regional de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade, realizada no município de Rebouças e organizada pelo Coletivo Triunfo.

Também em 2017 a ReSA recebe o prêmio Juliana Santilli em defesa da agrobiodiversidade, oferecido pelo Instituto Socioambiental. A premiação tem o intuito de celebrar iniciativas, individuais ou coletivas, que fazem a diferença, promovendo a ampliação, a conservação, o acesso, a distribuição ou o uso de produtos da agrobiodiversidade.

O fortalecimento de espaços como as festas e feiras, a criação de bancos de sementes comunitários, incidência política no âmbito legislativo e a implementatação de merenda escolar 100% orgânica são algumas das estratégias de ação da rede. Pautas nítidas e apresentadas na Assembleia Legislativa do Estado do Paraná, a partir de projeto de lei propostos e em tramitação na Casa.

As políticas estaduais de agroecologia e redução de agrotóxicos, tomando como referência outros estados que já aprovaram legislação específica, são vitórias a serem celebradas e replicadas nos territórios. Neste caminho, a ReSA se coloca como interlocutora necessária e imprescindível nas pautas da agrobiodiversidade paranaense, sendo extremamente representativa da sociedade civil e dos guardiões e guardiãs de nosso patrimônio genético e dos conhecimentos tradicionais associados. Enquanto Rede e através da articulação e do diálogo das diferentes iniciativas relacionadas à preservação, produção, reprodução, comercialização e troca de sementes agroecológicas, a ReSA luta para assegurar aos povos o livre acesso às sementes, como direito humano, garantindo a produção saudável de alimentos e a sua preservação para as presentes e futuras gerações.


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