Steici dos Santos (ODELA)*

Florestan Fernandes, nascido em São Paulo em 22 de julho de 1920 e falecido, também, na cidade de São Paulo em 10 de agosto de 1995, aos seus 75 anos, foi um sociólogo e político brasileiro. Além de suas obras marcantes que influenciam a academia até os dias atuais, Florestan ocupou cargo político. Foi deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores e recebeu prêmios por suas obras. Formado em Ciências Sociais pela USP, iniciou a vida docente em 1945 em uma disciplina de Sociologia II. Obteve título de mestre na Escola Livre de Sociologia e Política e, em 1951 defendeu sua tese na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Ao que tange a vida do nosso autor, este era filho de mãe solteira que exercia a função de empregada doméstica. Florestan então, desde cedo trabalhou, aos seis anos de idade começou como auxiliar em uma barbearia e posteriormente exerceu função de engraxate e garçom. Demonstrou interesse na leitura e nos estudos, também, na sua juventude.

Fernandes, considerado um dos mais importantes sociólogos brasileiros, possui uma vasta publicação, tanto em livros, quanto em artigos, tornando a tarefa de indicar uma ou duas como suas principais obras. Em suas obras, o autor dialoga com a sociologia clássica e moderna e o pensamento marxista, principalmente, como nos aponta Ianni (1996). Outra característica das obras do autor é seu teor crítico, ainda conforme Ianni (1996) Florestan Fernandes “é fundador da sociologia crítica no Brasil” (IANNI, 1996, p. 26). O autor busca suas referências em pensadores brasileiros como Sérgio Buarque de Holanda, Fernando Henrique Cardoso, Celso Furtado, Caio Prado Júnior, entre outros.

Neste texto nós atentaremos apenas para o capítulo intitulado “Desencadeamento histórico da Revolução Burguesa” da obra clássica do autor “A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica”.  Nesta obra, podemos perceber elementos políticos e econômicos. Florestan tem como objetivo compreender a sociedade brasileira, desde sua formação e o desenvolvimento do capitalismo no Brasil. A primeira e segunda parte da obra foram escritas em 1966, já os capítulos 6 e 7 entre 1974 e 1976 e sua publicação se deu em um contexto de ditadura militar no Brasil. O autor considerava seu trabalho como uma sociologia militante e não acadêmica. Nos referindo às partes do livro, a parte I e II apresentam um cunho teórico mais próximo de Weber, já a parte III é de cunho marxista.

O autor nos apresenta a formação do capitalismo dependente com uma crítica ao modelo econômico, pois a economia produzia para exportação e não para o mercado interno, fazendo assim, do mercado interno um elemento secundário. Ao que tange sua análise sociológica o autor busca conseguir uma descrição integradora e totalizadora. É nesse cenário que se dá a Revolução burguesa no Brasil de forma desnorteadora e desencadeada em uma economia colonial, periférica ou dependente. Fernandes aponta o senhor do engenho como não sendo um burguês, pois esse possuía funções de mercantilização e não de um empresário moderno. Outro ponto que por parte do autor é uma crítica a Caio Prado Júnior é que no Brasil não houve um feudalismo. Essa afirmativa é, até os dias atuais, um debate entre os estudiosos da formação do Brasil.

Florestan nos aponta a Revolução Burguesa como um elemento estrutural da sociedade brasileira e a independência teve papel fundamental, pois essa proporcionou melhora na posição do senhor de engenho como um agente econômico. Essa revolução burguesa levou a transformação capitalista, mas não a uma revolução nacional e democrática. O autor aborda então, outros elementos da sociedade brasileira, como a escravidão, a imigração e o próprio trabalho assalariado que agora, com a implementação do capitalismo e a abolição da escravidão, compõe a economia. O autor aborda a discussão de forma minuciosa no capítulo sob estudo. Outra questão importante é o comportamento da sociedade, o senhor de engenho tem um comportamento de manter seu status em uma primeira fase, posteriormente, adota um comportamento com objetivos estritamente econômicos.

Os imigrantes, que apontamos anteriormente, tiveram um papel importante, pois ao contrário do que se afirme, Florestan nos aponta que os imigrantes não trouxeram o pensamento europeu capitalista, mas trazem a organização social e rompem com o ethos aristocrático. Pois, esses imigrantes vêm com a intenção de acumular capital para uma melhora em suas condições econômicas, no entanto, esse projeto não é tão claro. Percebemos que o autor apresenta não só a implementação do capitalismo no Brasil e a própria Revolução Burguesa, mas a estrutura social que se formou com a mudança de sistema econômico. Essa interpretação nos ajuda a compreender problemas que enfrentamos ainda hoje na sociedade brasileira, pois é um comportamento reproduzido até os dias atuais. Tanto a preocupação com o mercado externo, tornando o mercado interno elemento secundário na economia, como a estrutura de classes que não mudou, pois de um lado temos uma burguesia (seja ela interna ou externa) e de outro uma população assalariada com grande desigualdade, resultado de nossa formação histórica e estrutural. Por isso, ainda hoje, a obra de Florestan Fernandes tem (e sempre terá) papel fundamental na nossa compreensão e interpretação do Brasil.

*O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

Referências

IANNI, Octávio. A Sociologia de Florestan Fernandes. Estudos Avançados, vol. 10, n. 26, p. 25-33, 1996.

FERNANDES, Florestan. A Revolução Burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica.  3. ed.  Rio de Janeiro: Guanabara, 1987. 413 p.