Steici dos Santos (ODELA)*

Antônio Flávio Pierucci, nascido na região metropolitana de Ribeirão Preto, estado de São Paulo, em 1945 e falecido no mesmo estado em 2012, foi filósofo e sociólogo. O autor ingressou no Seminário da Arquidiocese de São Paulo aos 11 anos. Formou-se em Filosofia em 1964 na Arquidiocese, posteriormente graduou-se em Teologia pela PUC-SP, após abandonar a carreira eclesiástica, a Igreja Católica e o doutorado em teologia dogmática na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma em 1970, o autor se graduou em filosofia (PUC-SP), titulou-se mestre em Ciências Sociais (PUC-SP) e em 1985 doutor em Sociologia pela USP, onde obteve, também, a livre-docência e foi professor titular e chefe do Departamento de Sociologia até seu falecimento. Suas obras fundamentadas em Weber e Gramsci versarão a religião, assim como seus trabalhos de conclusão de cursos.

No entanto, o autor nos deixou, também, uma grande contribuição com a obra “Ciladas da Diferença”, onde trataremos neste texto o capítulo I, que leva o nome do livro, “Ciladas da Diferença”, também. O texto, que não traz um debate acerca da religião, aponta, assim como diz o título a discussão a respeito das diferenças. O autor basicamente nos aponta como as diferenças podem ser utilizadas no discurso tanto pela esquerda política, quanto pela direita política. Evidenciando o erro que caímos ao apontarmos as diferenças como diferenças enquanto, simultaneamente, se reivindica a igualdade. O autor abre o capítulo com uma série de frases com cunho preconceituoso, em termos gerais. O que em um primeiro momento pode causar certo espanto, mas ao mesmo tempo certa familiaridade. O autor nos revela que, ainda que as frases pudessem ser atuais (1999, quando da publicação da obra), elas retratam “o conservador inglês na segunda metade dos anos 40” (PIERUCCI, 1999, p. 16), frases essas apresentadas na obra de Hans J. Eysenck.

Ainda na apresentação o autor nos traz duas perguntas simples, mas que nos levam a refletir: somos todos diferentes? A resposta para essa pergunta é sim! A segunda pergunta: queremos ser diferentes? Sim, temos o direito a diferença. É esse debate das diferenças que permeia a obra. Nas pequenas páginas de apresentação o autor já deixa claro seu posicionamento: ele admite a existência das diferenças e as aceita. Essa observação se faz importante, pois em um primeiro momento (em uma leitura desatenta), o debate parece um tanto crítico, e é. Mas em um sentido positivo, que trataremos no decorrer deste texto.

Ainda a respeito das frases enunciadas na abertura do primeiro capítulo o autor aponta que isso demonstra mais que uma conservação política, mas uma conservação social. Nesse espaço, as direitas constituem e se difundem no campo metapolítico das relações sociais quotidianas, dos modos e dos estilos de vida e luta cultural. O autor resgata autores de grande importância para a discussão, mas não pelo ponto de vista da diferença, mas pelo ponto de vista da igualdade. Pois, para ele é preciso revisitar esses autores para compreender, então as ciladas da diferença. Com o intuito da discussão o autor coloca os direitos humanos e os direitos individuais e nos traz o comportamento da direita e da esquerda com relação as diferenças.

 A direita possui atitudes e discursos racistas, sexista e moralista. As diferenças para existirem e serem aceitas como diferenças, devem ser afirmadas como diferenças e a direita não nega essas diferenças, pelo contrário, aceita e afirma sua existência, o que nos leva a outra afirmação: a rejeição vem depois da afirmação enfática da diferença. A direita, além de perceber e aceitar as diferenças, ela hierarquiza essas diferenças. O racismo, como apresenta Pierucci, não é a rejeição pela diferença, mas a obsessão por ela. Já para a esquerda não há uma escolha entre igualdade e diferença, ao contrário da direita que para ela há e sempre houve essa escolha. Como ilustração o autor nos traz um caso real, o caso SEARS que ocorreu no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, onde o principal embate era teórico no campo do feminismo: igualdade versus diferença. O caso teve uma visibilidade ainda maior, além do debate feminista estar ganhando espaço nesse mesmo período, mas por ter ocorrido dentro dos tribunais, o que impulsionou ainda mais a discussão.

O que Pierucci nos mostra é que o discurso da diferença toma o espaço da igualdade e cada vez mais fragmentamos o que já está fragmentado. Nesse dilema o que preocupa não é considerar as diferenças, mas como elas estão sendo consideradas, nesse sentido o autor vai trazer o que ele chama de diferenças sensíveis, que são justamente as diferenças pela cor, sexo e sexualidade. Nos detemos às diferenças físicas (ou biológicas) e deixamos de lado, muitas vezes, o caráter social do debate. Desconsiderando assim, as diferenças sociais, a desigualdade social e econômica. Além disso, dentro dessa disputa a direita além de se apropriar do discurso que a esquerda tomou pra si nos anos 1980, essa direita consegue se sair melhor que a própria esquerda. Muitas vezes, revertendo o papel no debate e colocando a esquerda como a incapaz de atender a essas demandas. É aqui que o autor se refere ao que ele chama de ciladas da diferença.

A obra publicada em 1999 tem grande semelhança com o momento dos anos 1940 na Inglaterra, a qual o autor faz referência e, também, ao momento atual do Brasil. Desta forma a crítica do autor é ao que se refere na forma como vemos as diferenças ao nos determos nas diferenças visíveis de cor, sexo e sexualidade e deixarmos de lado o caráter social das diferenças. Além disso, a obra se faz de grande importância no momento, pois nos esclarece como uma extrema-direita, através do seu discurso, consegue alcançar através do voto o maior cargo do poder executivo e cargos estaduais, também, de liderança do poder executivo.

*O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

 

Referências

PIERUCCI, Antônio Flávio. Ciladas da Diferença. São Paulo: Curso de Pós-Graduação em Sociologia da USP: Ed. 34, 1999. 224 p.