Steici dos Santos (ODELA)*

José Murilo de Carvalho, nascido em 8 de setembro de 1939, é historiador e cientista político brasileiro, natural de Andrelândia, MG, ocupa desde 2004 a Cadeira nº 5 da Academia Brasileira de Letras. Atualmente é professor do Departamento de História da UFRJ e já foi professor visitante em diferentes instituições nacionais e internacionais como a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade de São Paulo, Universidade de Leiden, Universidade de Stanford, University of Notre Dame, entre outras Universidades onde atuou, também, como membro, pesquisador, etc. (ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 2004).

José Murilo possui bacharelado em Sociologia e Política pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas, mestrado em Ciência Política pela Universidade de Stanford, especialização em Metodologia de Pesquisa pela Universidade de Michigan e dois pós-doutorados: um no Departamento de História da Universidade de Stanford e outro pela Universidade de Londres. Além da carreira docente, Carvalho possui um extenso currículo com participações em diferentes atividades: cargos de direção, participação em colegiados e comissões. (ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS, 2004).

O autor dedica-se, em especial, ao estudo do Brasil Imperial e, atualmente, a cidadania. Dentre as diversas obras do autor, estão: Os bestializados (1987), Teatro de Sombras: a política imperial (1988), A formação das almas (1990), Pontos e bordados: escritos de história e política (1998), Cidadania no Brasil: o longo caminho (2002) e, por fim, que escolhemos para uma breve apresentação do capítulo 1, A construção da Ordem: a elite política imperial (1980). As obras de 1980 e 1988 possuem edições mais recentes e se apresentam em um único volume: A construção da ordem/Teatro de sombras. No capítulo 1 da obra A construção da Ordem: a elite política imperial (2006), intitulado Elites políticas e construção do Estado, o autor resgata a formação do Estado brasileiro enquanto ex-colônia, para tanto José Murilo remonta o período de expansão europeia (colonização, em especial no território brasileiro) e considera o fato de existir distinção na formação dos Estados colonizadores e colonizados.

O autor nos apresenta o debate teórico acerca das elites políticas remontando as ideias de Mosca e Pareto que, conforme José Murilo, possuem uma contribuição mais rica que a discussão que ele denomina do “quem governa”, apresentada na maioria dos trabalhos que versam sobre as elites e que, com o tempo, caíram em uma grande indefinição. Além disso, a abordagem usual deixa de lado o governo e o sentido da ação da elite. No entanto, nem Mosca e nem Pareto respondem precisamente sobre o surgimento dessas elites. Por isso, o esforço de Carvalho, como nos apresenta Perissinotto (1997), “Em A construção da ordem, Carvalho analisa a formação da elite política imperial e as suas transformações no decorrer do período […]” (PERISSINOTTO, 1997, p. 203). Desta forma, o autor se propõe a discutir a formação das elites políticas e do Estado enquanto instituição por excelência.

A partir desse objetivo o autor apresenta algumas comparações e retoma os processos históricos pelos quais passaram os países que foram colonizadores e colônias. Neste capítulo o autor apresenta a diferença na formação entre as elites europeias, a americana e inglesa e, por fim, a formação das elites em países da América Latina, em especial o Brasil. As diferenças nas formações das elites se apresentam pela existência de aspectos que referem-se à composição dessa elite, à própria formação das instituições políticas e a natureza do próprio poder do Estado (CARVALHO, 2006).

A formação das elites afeta a forma de atuação e a estrutura do próprio Estado. Em países com uma burocracia maior confundia-se o poder político com cargos do governo, dominando as posições ministeriais e se fazendo representar nos parlamentos. Nas situações em que a predominância era parlamentar e partidária, o poder das elites provinha de outra forma que não através do Estado (CARVALHO, 2006). Além da burocracia do Estado, o autor faz referência ao serviço público, enquanto nos EUA, como exemplificado por José Murilo, o serviço público não era almejado e, por vezes, nem mesmo bem visto, em outros lugares era uma obrigação e com o passar do tempo virou o sustento daquele que o ocupava.

Ao trazer as características de países europeus e do EUA, o autor aborda a América Latina com atenção maior ao caso brasileiro, que é o foco da obra. Ao fazer essa abordagem José Murilo discorre sobre a diferença entre a ex-colônia espanhola e a ex-colônia portuguesa. Ao passo que a parte portuguesa se manteve unificada, a parte espanhola se fragmentou o que acarretou na formação distinta de diferentes elites. A elite brasileira apresenta uma homogeneidade ideológica e é o que o autor denomina de elite treinada, ou seja, uma elite que recebeu formação na Universidade de Coimbra, em maior número no curso de Direito. Por essa formação a maioria ocupava cargos públicos, em especial, na magistratura e no exército. Diferente da “estratégia» portuguesa, a espanhola foi de construir universidades em suas colônias, o que contribuiu para que o território não fosse unificado como na ex-colônia portuguesa, além de permitir a formação de elites locais que não fossem sua própria imagem.

O autor apresenta o debate de forma minuciosa e com profundidade, aqui buscamos levantar alguns pontos na tentativa de restar o debate das elites e da enorme contribuição de José Murilo de Carvalho em explicar a origem da mesma, em especial no Brasil, e em como o autor trabalha elas, fugindo do que ele chama de literatura do “quem governa”, como já mencionado anteriormente. Complementar a isso, entender a origem desta classe a partir da retomada do processo histórico pelo qual foram originadas, ajuda a compreender a realidade hoje e, mais do que isso, os por quês dessa realidade.

*O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (CAPES) – Código de Financiamento 001.

 

Referências

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS (Brasil). Biografia. 2004. Disponível em: https://www.academia.org.br/academicos/jose-murilo-de-carvalho/biografia. Acesso em: 22 fev. 2019.

CARVALHO, José Murilo de. A construção da ordem: a elite política imperial. Teatro de sombras: a política imperial. 2ªed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. 459 p.

PERISSINOTTO, Renato Monseff. As ambigüidades da política imperial. Revista de Sociologia e Política, Paraná, v. 5, n. 9, p. 203-208, ago. 1997.