{"id":1336,"date":"2019-02-04T09:07:27","date_gmt":"2019-02-04T11:07:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/?p=1336"},"modified":"2019-02-04T09:21:24","modified_gmt":"2019-02-04T11:21:24","slug":"pensando-os-pensadores-ii-pierucci-e-as-ciladas-da-diferenca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/2019\/02\/04\/pensando-os-pensadores-ii-pierucci-e-as-ciladas-da-diferenca\/","title":{"rendered":"Pensando os pensadores (II): Pierucci e as \u201cCiladas da Diferen\u00e7a\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Steici dos Santos <\/strong><span style=\"font-size: 10pt;\">(ODELA)*<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f4nio Fl\u00e1vio Pierucci, nascido na regi\u00e3o metropolitana de Ribeir\u00e3o Preto, estado de S\u00e3o Paulo, em 1945 e falecido no mesmo estado em 2012, foi fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo. O autor ingressou no Semin\u00e1rio da Arquidiocese de S\u00e3o Paulo aos 11 anos. Formou-se em Filosofia em 1964 na Arquidiocese, posteriormente graduou-se em Teologia pela PUC-SP, ap\u00f3s abandonar a carreira eclesi\u00e1stica, a Igreja Cat\u00f3lica e o doutorado em teologia dogm\u00e1tica na Pontif\u00edcia Universidade Gregoriana de Roma em 1970, o autor se graduou em filosofia (PUC-SP), titulou-se mestre em Ci\u00eancias Sociais (PUC-SP) e em 1985 doutor em Sociologia pela USP, onde obteve, tamb\u00e9m, a livre-doc\u00eancia e foi professor titular e chefe do Departamento de Sociologia at\u00e9 seu falecimento. Suas obras fundamentadas em Weber e Gramsci versar\u00e3o a religi\u00e3o, assim como seus trabalhos de conclus\u00e3o de cursos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, o autor nos deixou, tamb\u00e9m, uma grande contribui\u00e7\u00e3o com a obra \u201cCiladas da Diferen\u00e7a\u201d, onde trataremos neste texto o cap\u00edtulo I, que leva o nome do livro, \u201cCiladas da Diferen\u00e7a\u201d, tamb\u00e9m. O texto, que n\u00e3o traz um debate acerca da religi\u00e3o, aponta, assim como diz o t\u00edtulo a discuss\u00e3o a respeito das diferen\u00e7as. O autor basicamente nos aponta como as diferen\u00e7as podem ser utilizadas no discurso tanto pela esquerda pol\u00edtica, quanto pela direita pol\u00edtica. Evidenciando o erro que ca\u00edmos ao apontarmos as diferen\u00e7as como diferen\u00e7as enquanto, simultaneamente, se reivindica a igualdade. O autor abre o cap\u00edtulo com uma s\u00e9rie de frases com cunho preconceituoso, em termos gerais. O que em um primeiro momento pode causar certo espanto, mas ao mesmo tempo certa familiaridade. O autor nos revela que, ainda que as frases pudessem ser atuais (1999, quando da publica\u00e7\u00e3o da obra), elas retratam \u201co conservador ingl\u00eas na segunda metade dos anos 40\u201d (PIERUCCI, 1999, p. 16), frases essas apresentadas na obra de Hans J. Eysenck.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda na apresenta\u00e7\u00e3o o autor nos traz duas perguntas simples, mas que nos levam a refletir: somos todos diferentes? A resposta para essa pergunta \u00e9 sim! A segunda pergunta: queremos ser diferentes? Sim, temos o direito a diferen\u00e7a. \u00c9 esse debate das diferen\u00e7as que permeia a obra. Nas pequenas p\u00e1ginas de apresenta\u00e7\u00e3o o autor j\u00e1 deixa claro seu posicionamento: ele admite a exist\u00eancia das diferen\u00e7as e as aceita. Essa observa\u00e7\u00e3o se faz importante, pois em um primeiro momento (em uma leitura desatenta), o debate parece um tanto cr\u00edtico, e \u00e9. Mas em um sentido positivo, que trataremos no decorrer deste texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda a respeito das frases enunciadas na abertura do primeiro cap\u00edtulo o autor aponta que isso demonstra mais que uma conserva\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas uma conserva\u00e7\u00e3o social. Nesse espa\u00e7o, as direitas constituem e se difundem no campo metapol\u00edtico das rela\u00e7\u00f5es sociais quotidianas, dos modos e dos estilos de vida e luta cultural. O autor resgata autores de grande import\u00e2ncia para a discuss\u00e3o, mas n\u00e3o pelo ponto de vista da diferen\u00e7a, mas pelo ponto de vista da igualdade. Pois, para ele \u00e9 preciso revisitar esses autores para compreender, ent\u00e3o as ciladas da diferen\u00e7a. Com o intuito da discuss\u00e3o o autor coloca os direitos humanos e os direitos individuais e nos traz o comportamento da direita e da esquerda com rela\u00e7\u00e3o as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0A direita possui atitudes e discursos racistas, sexista e moralista. As diferen\u00e7as para existirem e serem aceitas como diferen\u00e7as, devem ser afirmadas como diferen\u00e7as e a direita n\u00e3o nega essas diferen\u00e7as, pelo contr\u00e1rio, aceita e afirma sua exist\u00eancia, o que nos leva a outra afirma\u00e7\u00e3o: a rejei\u00e7\u00e3o vem depois da afirma\u00e7\u00e3o enf\u00e1tica da diferen\u00e7a. A direita, al\u00e9m de perceber e aceitar as diferen\u00e7as, ela hierarquiza essas diferen\u00e7as. O racismo, como apresenta Pierucci, n\u00e3o \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o pela diferen\u00e7a, mas a obsess\u00e3o por ela. J\u00e1 para a esquerda n\u00e3o h\u00e1 uma escolha entre igualdade e diferen\u00e7a, ao contr\u00e1rio da direita que para ela h\u00e1 e sempre houve essa escolha. Como ilustra\u00e7\u00e3o o autor nos traz um caso real, o caso SEARS que ocorreu no final dos anos 1970 e in\u00edcio dos anos 1980, onde o principal embate era te\u00f3rico no campo do feminismo: igualdade <em>versus<\/em> diferen\u00e7a. O caso teve uma visibilidade ainda maior, al\u00e9m do debate feminista estar ganhando espa\u00e7o nesse mesmo per\u00edodo, mas por ter ocorrido dentro dos tribunais, o que impulsionou ainda mais a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que Pierucci nos mostra \u00e9 que o discurso da diferen\u00e7a toma o espa\u00e7o da igualdade e cada vez mais fragmentamos o que j\u00e1 est\u00e1 fragmentado. Nesse dilema o que preocupa n\u00e3o \u00e9 considerar as diferen\u00e7as, mas como elas est\u00e3o sendo consideradas, nesse sentido o autor vai trazer o que ele chama de diferen\u00e7as sens\u00edveis, que s\u00e3o justamente as diferen\u00e7as pela cor, sexo e sexualidade. Nos detemos \u00e0s diferen\u00e7as f\u00edsicas (ou biol\u00f3gicas) e deixamos de lado, muitas vezes, o car\u00e1ter social do debate. Desconsiderando assim, as diferen\u00e7as sociais, a desigualdade social e econ\u00f4mica. Al\u00e9m disso, dentro dessa disputa a direita al\u00e9m de se apropriar do discurso que a esquerda tomou pra si nos anos 1980, essa direita consegue se sair melhor que a pr\u00f3pria esquerda. Muitas vezes, revertendo o papel no debate e colocando a esquerda como a incapaz de atender a essas demandas. \u00c9 aqui que o autor se refere ao que ele chama de ciladas da diferen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra publicada em 1999 tem grande semelhan\u00e7a com o momento dos anos 1940 na Inglaterra, a qual o autor faz refer\u00eancia e, tamb\u00e9m, ao momento atual do Brasil. Desta forma a cr\u00edtica do autor \u00e9 ao que se refere na forma como vemos as diferen\u00e7as ao nos determos nas diferen\u00e7as vis\u00edveis de cor, sexo e sexualidade e deixarmos de lado o car\u00e1ter social das diferen\u00e7as. Al\u00e9m disso, a obra se faz de grande import\u00e2ncia no momento, pois nos esclarece como uma extrema-direita, atrav\u00e9s do seu discurso, consegue alcan\u00e7ar atrav\u00e9s do voto o maior cargo do poder executivo e cargos estaduais, tamb\u00e9m, de lideran\u00e7a do poder executivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">*O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordena\u00e7\u00e3o de Aperfei\u00e7oamento de Pessoal de N\u00edvel Superior &#8211; Brasil (CAPES) &#8211; C\u00f3digo de Financiamento 001.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">PIERUCCI, Ant\u00f4nio Fl\u00e1vio. Ciladas da Diferen\u00e7a. S\u00e3o Paulo: Curso de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da USP: Ed. 34, 1999. 224 p.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Steici dos Santos (ODELA)* Ant\u00f4nio Fl\u00e1vio Pierucci, nascido na regi\u00e3o metropolitana de Ribeir\u00e3o Preto, estado de S\u00e3o Paulo, em 1945 e falecido no mesmo estado em 2012, foi fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo. O autor ingressou no Semin\u00e1rio da Arquidiocese de S\u00e3o Paulo aos 11 anos. 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