{"id":1385,"date":"2019-03-19T10:58:37","date_gmt":"2019-03-19T13:58:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/?p=1385"},"modified":"2019-03-19T11:02:00","modified_gmt":"2019-03-19T14:02:00","slug":"silva-luiz-fernando-da-pensamento-social-brasileiro-marxismo-academico-entre-1960-e-1980-sao-paulo-coracoes-e-mentes-2003-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/en\/2019\/03\/19\/silva-luiz-fernando-da-pensamento-social-brasileiro-marxismo-academico-entre-1960-e-1980-sao-paulo-coracoes-e-mentes-2003-2\/","title":{"rendered":"SILVA, Luiz Fernando da. Pensamento social brasileiro: Marxismo acad\u00eamico entre 1960 e 1980. S\u00e3o Paulo: Cora\u00e7\u00f5es e Mentes, 2003."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Lu\u00eds Gustavo Dutra Barcelos<\/strong> <span style=\"font-size: 10pt;\">(ODELA)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para que consigam desvendar da melhor forma o que est\u00e1 na ess\u00eancia do seu objeto de estudo, \u00e9 recorrente que pesquisadores busquem aplicar a melhor metodologia cient\u00edfica em suas pesquisas, analisando os debates que foram feitos no passado por outros cientistas, assim, n\u00e3o partindo do zero para a produ\u00e7\u00e3o de seus estudos e aceitando que caminhos importantes j\u00e1 foram percorridos. Luiz Fernando da Silva, atualmente professor na Universidade Estadual Paulista (UNESP), \u00e9 um pesquisador pol\u00edtico-social que al\u00e9m de atuar na pol\u00edtica, militando no Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), partilha da import\u00e2ncia da reflex\u00e3o acerca das elabora\u00e7\u00f5es daqueles que j\u00e1 buscaram interpretar o Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro \u201cPensamento social brasileiro: Marxismo acad\u00eamico entre 1960 e 1980\u201d (2003), \u00e9 um dos esfor\u00e7os de Silva para compreender os principais debates que perpassaram a intelectualidade brasileira no passado. As duas d\u00e9cadas analisadas no livro s\u00e3o posteriores ao deslocamento, muito significativo, sofrido pelo pensamento social brasileiro, que de um enfoque sobre a cultura nacional, predominante no pensamento acad\u00eamico at\u00e9 a d\u00e9cada de 1950, se volta para temas como a condi\u00e7\u00e3o de vida do brasileiro, o desenvolvimento e a industrializa\u00e7\u00e3o, que passaram a ser centrais. A obra tratada tem como foco principal, o pensamento daqueles acad\u00eamicos que disputaram o porqu\u00ea do n\u00e3o desenvolvimento brasileiro, a partir de uma metodologia marxista, originada no grupo de estudos d\u2019O Capital na USP, entre os anos de 1958 a 1964. Considerando que n\u00e3o s\u00e3o poucos os debates apresentados na obra, como exemplo as discuss\u00e3o sobre desenvolvimento, depend\u00eancia, hist\u00f3ria, metodologia e Estado, a resenha a seguir se debru\u00e7ar\u00e1 principalmente nas pol\u00eamicas surgidas sobre o Estado, deixando assim o texto n\u00e3o t\u00e3o extenso caso fosse apresentar todos os debates, e focando tamb\u00e9m no tema de pesquisa do autor da resenha, como do pr\u00f3prio Observat\u00f3rio em que o texto est\u00e1 sendo publicado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Haja visto a apresenta\u00e7\u00e3o do livro de Luiz da Silva, a problem\u00e1tica do desenvolvimento e da industrializa\u00e7\u00e3o passa a ganhar evid\u00eancia na d\u00e9cada de 1950 sob os olhares nacionalistas, principalmente a partir das an\u00e1lises do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB), que al\u00e9m de colocar o problema como uma quest\u00e3o de na\u00e7\u00e3o, propunha a resolu\u00e7\u00e3o do n\u00e3o-desenvolvimento a partir da industrializa\u00e7\u00e3o e planifica\u00e7\u00e3o estatal. Os intelectuais marxistas que participaram do semin\u00e1rio d\u2019O Capital da USP (1958-1964) Ruth Cardoso, Fernando A. Novais, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Michel L\u00f6wy, Oct\u00e1vio Ianni e Paul Singer, tamb\u00e9m entraram na discuss\u00e3o sobre o capitalismo brasileiro, propondo uma perspectiva alternativa ao do ISEB, estudando temas como depend\u00eancia, desigualdade social e democracia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor percorre as d\u00e9cadas de 1960 e 1970 para analisar os principais pensamentos sociais no Brasil, sempre os relacionando com a conjuntura pol\u00edtica, que ser\u00e1 influenciadora das condi\u00e7\u00f5es objetivas para a produ\u00e7\u00e3o intelectual, como foi com o AI-5 em 1969, que aposentou compulsoriamente os intelectuais marxistas, fazendo com que parte se exilasse em outros pa\u00edses. Aqueles acad\u00eamicos aposentados compulsoriamente que ficaram no Brasil, tiveram que se ligar mais \u00e0 sociedade e n\u00e3o ficaram apenas dentro do c\u00edrculo acad\u00eamico. A partir da\u00ed se desenvolve o Centro Brasileiro de An\u00e1lise e Planejamento (Cebrap) criado pelos integrantes do grupo d\u2019O Capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Silva passa a mostrar em sua obra que membros do grupo d\u2019O Capital, como Cardoso, Weffort e Ianni ao usarem a metodologia marxista para entenderem a realidade brasileira, significou na pr\u00e1tica, estudar a industrializa\u00e7\u00e3o brasileira tendo como perspectiva os distintos interesses das classes no desenvolvimento econ\u00f4mico. A partir do m\u00e9todo hist\u00f3rico-social que esses intelectuais passaram a utilizar, puderam concluir, por exemplo, que pela rela\u00e7\u00e3o comercial internacional que perpassa a economia brasileira, o capitalismo no Brasil n\u00e3o derivaria do feudalismo, como propagava a maioria do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e sim do escravismo moderno, inserido na divis\u00e3o internacional do trabalho desde o s\u00e9culo XVIII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O professor universit\u00e1rio dessa forma analisa que o enfoque hist\u00f3rico-social adotado pelos acad\u00eamicos marxistas se fortalece justamente a partir dos estudos d\u2019O Capital, quando esses intelectuais passaram a colocar como centro das suas pesquisas a discuss\u00e3o da consci\u00eancia de classe e das classes sociais. No estudo sobre a industrializa\u00e7\u00e3o, esses autores veriam uma depend\u00eancia presente no capitalismo brasileiro que \u00e9 parte da estrutura do pr\u00f3prio sistema, coerente com a conclus\u00e3o desses mesmos autores em ver a burguesia brasileira marcada historicamente pela associa\u00e7\u00e3o aos interesses do capital exterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro, indo na raiz da conclus\u00e3o da depend\u00eancia estrutural dos acad\u00eamicos marxistas da USP, mostra que justamente pela forma\u00e7\u00e3o que esses acad\u00eamicos tiveram no grupo do O Capital, suas produ\u00e7\u00f5es em menor ou maior grau, buscar\u00e3o fazer a rela\u00e7\u00e3o de como as disputas pol\u00edticas no Estado ou at\u00e9 mesmo na sociedade civil, perpassam a luta de classes. Dessa perspectiva de enxergar como os movimentos sociais s\u00e3o perpassados por interesses de classe a n\u00edvel mundial, que Cardoso, Ianni e Weffort, confrontando as produ\u00e7\u00f5es nacionalistas do ISEB, v\u00e3o defender por exemplo, que o desenvolvimento econ\u00f4mico de um pa\u00eds capitalista n\u00e3o depende de sua pr\u00f3pria vontade e sim, \u00e9 fruto de um movimento social que afeta a estrutura dominante internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro ainda dos estudos que os marxistas da USP fizeram sobre a depend\u00eancia estrutural que se encontraria o Brasil, Silva discute que esses estudiosos, a exemplo de Ianni (1962) que tirou como conclus\u00e3o que a classe no poder, na maior parte da exist\u00eancia do Estado capitalista no Brasil, era parte da burguesia agr\u00e1ria comercial, classe que se colocava na contram\u00e3o das necessidades de industrializa\u00e7\u00e3o do capitalismo no Brasil. Al\u00e9m da concep\u00e7\u00e3o presente no marxismo acad\u00eamico, da fraqueza da burguesia nacional, indo de encontro com o programa nacionalista burgu\u00eas. O mesmo acontecia dentro de uma perspectiva revolucion\u00e1ria no grupo \u201cPol\u00edtica Oper\u00e1ria\u201d (POLOP).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na elabora\u00e7\u00e3o te\u00f3rica sobre o Estado, Ianni e Cardoso (1965) v\u00e3o ser pioneiros dentro do marxismo, como Silva demonstra, ao opinarem que o Estado no Brasil era um Estado populista, e que tinha o papel principal de mistificar sua natureza de classe, como tamb\u00e9m teria o papel constante de manter a acumula\u00e7\u00e3o do capital da burguesia. J\u00e1 o pensamento de Weffort ir\u00e1 se preocupar fundamentalmente em saber quem estava na lideran\u00e7a das principais mudan\u00e7as passadas pelo capitalismo brasileiro, principalmente da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e da industrializa\u00e7\u00e3o. De tal preocupa\u00e7\u00e3o, Weffort teria chegado \u00e0 conclus\u00e3o de que o capitalismo brasileiro passava por uma \u201ccrise de hegemonia\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Silva nos mostra no decorrer do texto o argumento de Weffort (1966) que pelo processo de industrializa\u00e7\u00e3o no Brasil ter tido como principal est\u00edmulo o Estado, isso faria com que essa institui\u00e7\u00e3o ganhasse a confian\u00e7a e expectativa por parte das massas populares, que passam a legitimar o aparelho estatal, refor\u00e7ando o mito do Estado favor\u00e1vel a todo povo, sendo indiferente quanto \u00e0s disputas de classes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor do livro mostra que, por outro lado, Ianni e Cardoso v\u00e3o conceber o golpe militar de 1964 como uma forma de reafirmar a depend\u00eancia estrutural do capitalismo brasileiro e a posi\u00e7\u00e3o de subservi\u00eancia ocupada pela burguesia nacional. Diferente da posi\u00e7\u00e3o de Singer (1968), que analisa a crise econ\u00f4mica brasileira enquanto mais conjuntural do que verdadeiramente presa \u00e0 estrutura. Na opini\u00e3o do intelectual poder-se-ia retornar o caminho do crescimento econ\u00f4mico a partir de apenas de uma nova pol\u00edtica econ\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do deslocamento que o escritor do livro j\u00e1 havia analisado na metodologia te\u00f3rica de diversos pensadores, o professor da UNESP acaba por observar a mudan\u00e7a ocorrida em Cardoso, (1968) que passa a analisar a burguesia brasileira n\u00e3o como incapaz ou fraca, mas que justamente teria se aliado \u00e0 burguesia estrangeira pelo seu interesse de classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dentro do enfoque marxista da depend\u00eancia estrutural, Silva debate duas concep\u00e7\u00f5es principais dos acad\u00eamicos brasileiros sobre o Estado brasileiro ap\u00f3s o golpe de 1964. Quando a maioria dos pensadores o caracterizavam como burocr\u00e1tico autorit\u00e1rio, deixando espa\u00e7o para reflex\u00f5es sobre a possibilidade de conquistas por dentro do Estado, o mesmo n\u00e3o vai acontecer no pensamento de Ianni (1967), que classificaria o Estado militar como fascista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguindo com o debate sobre as formas com que os pensadores sociais brasileiros passaram a refletir a realidade, percebe-se que ao caracterizarem o Estado militar como autorit\u00e1rio burocr\u00e1tico e n\u00e3o fascista, rompe-se com a epistemologia instrumentalista, hegem\u00f4nica na an\u00e1lise sobre o Estado entre os marxistas brasileiros at\u00e9 ent\u00e3o. Silva, ao exemplificar essa mudan\u00e7a entre os pensadores sociais, vai apontar a interpreta\u00e7\u00e3o feita por Cardoso e Faletto, que compreendem o golpe militar de 1964 como a passagem de um regime democr\u00e1tico corporativo para um regime militar autorit\u00e1rio corporativo, em que o poder do Estado concentrar-se-ia tanto nas For\u00e7as Armadas como na burocracia p\u00fablica. Nesses agentes que se garantiria a autonomia das for\u00e7as pol\u00edticas, em raz\u00e3o de que essa \u201ctecnobucrocracia\u201d n\u00e3o representaria simplesmente os interesses da classe dominante, como argumentam os instrumentalistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda no debate sobre as elabora\u00e7\u00f5es dos seminaristas que fizeram parte do grupo d\u2019O Capital, o livro evidencia algumas diferen\u00e7as que surgiram entre seus membros, como foi o caso de Cardoso que passa a opinar como \u201ccatastrofista\u201d, quem acharia que no capitalismo perif\u00e9rico haveria uma constante tens\u00e3o entre socialismo ou fascismo, como o caso de Ianni. Cardoso argumenta que mediante os interesses de classe, seria poss\u00edvel um desenvolvimento econ\u00f4mico mesmo na periferia (em conjunto com a depend\u00eancia), como era o caso do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Silva passa a refletir sobre o deslocamento da metodologia utilizada pelos pensadores que integravam o semin\u00e1rio d\u2019O Capital da USP, e que mudaria sua forma de analisar os fen\u00f4menos sociais na d\u00e9cada de 1970. Principalmente para Weffort e Cardoso, o enfoque \u201chist\u00f3rico-estrutural\u201d passa a se tornar obsoleto para analisar os temas institucionais. Durante o livro \u00e9 discutido ent\u00e3o, que Cardoso em \u201cModelo pol\u00edtico brasileiro e outros ensaios\u201d (1972) passa a defender a exist\u00eancia de certa \u201cautonomia\u201d nos processos pol\u00edticos diante dos \u201ccondicionamentos estruturais\u201d. Como \u00e9 visto pelas palavras de Luiz da Silva, Cardoso nos anos 1970 ao estudar objetos pr\u00f3prios que a tradi\u00e7\u00e3o gramsciana se debru\u00e7ou, como sociedade civil, democracia e Estado enquanto espa\u00e7o onde as contradi\u00e7\u00f5es de classe se manifestam, o pensador social passa a incorporar avalia\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias dessa teoria tamb\u00e9m, como foi o caso da incorpora\u00e7\u00e3o da ideia de \u201ccrise de hegemonia\u201d, elaborado por Gramsci. Das novas conclus\u00f5es de Cardoso, torna-se n\u00edtido tamb\u00e9m a influ\u00eancia do pensamento de Nico Poulantzas (1936 &#8211; 1979) nas suas ideias, isso porque vai ser pensador grego que dentro do campo do marxismo, defendeu o Estado n\u00e3o meramente como um instrumento da classe dominante, ainda que preso as limita\u00e7\u00f5es que o sistema capitalismo imp\u00f5em, concebe o Estado com uma \u201cautonomia relativa\u201d frente a divis\u00e3o econ\u00f4mica da sociedade, podendo nesse campo, ter pol\u00edticas contradit\u00f3rias com a da classe dominante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O autor do livro mostra ao leitor que diferentemente da maioria dos marxistas acad\u00eamicos da USP, n\u00e3o foram todos esses que seguiram os passos de Cardoso e Weffort, que passaram a defender as for\u00e7as pol\u00edticas sobre as estruturais. Como foi o caso de Ianni (1982), mesmo analisando objetos como movimentos sociais, greves e Estado, manteve-se firme \u00e0 perspectiva hist\u00f3rico-estrutural, pr\u00f3pria do marxismo. \u00c9 visto que Ianni, no final da d\u00e9cada de 70, passa a entrar em confronto com as elabora\u00e7\u00f5es principalmente de Cardoso, mantendo firme sua concep\u00e7\u00e3o de classe social e proletariado como sujeitos que ocupam certos pap\u00e9is espec\u00edficos na sociedade, n\u00e3o ganhando a maleabilidade proposta por Poulantzas. Ianni defende que, al\u00e9m da classe oper\u00e1ria ser ainda a \u00fanica classe produtora de mais-valia na sociedade capitalista, ainda \u00e9 ela a \u00fanica classe com a capacidade revolucion\u00e1ria, faltando apenas consci\u00eancia de classe para passar de classe em si (proletariado alienado) para classe para si (proletariado consciente, apropriado da teoria socialista revolucion\u00e1ria e organizado num partido pol\u00edtico oper\u00e1rio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro pensador que vai entrar na pol\u00eamica sobre o m\u00e9todo de caracteriza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, ser\u00e1 Giannotti (1984). Para esse autor, que tamb\u00e9m se aproximou das elabora\u00e7\u00f5es de Cardoso e rejeitou as afirma\u00e7\u00f5es de Ianni, o Estado no capitalismo contempor\u00e2neo passa a ser o n\u00facleo central legislador e investidor da sociedade. Silva nos mostra que, consequente com a caracteriza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o no capitalismo moderno, feita por Giannotti, a categoria valor deixaria de ser central para analisar a explora\u00e7\u00e3o do trabalho, passando o centro da disputa para as institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas j\u00e1 existentes, e que seriam ent\u00e3o os principais administradores da produ\u00e7\u00e3o, que contribuiria tamb\u00e9m para a pulveriza\u00e7\u00e3o das classes sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos anos 1970, j\u00e1 consolidado o deslocamento dos acad\u00eamicos da USP para o estudo da sociedade civil e democracia, Silva mostra que com esse movimento se colocaria em oposi\u00e7\u00e3o a sociedade civil e intelectuais enquanto sujeitos pol\u00edticos contra os chamados \u201cmitos unificadores\u201d, como na\u00e7\u00e3o, proletariado, povo e revolu\u00e7\u00e3o. Esses pesquisadores, como muito bem identifica o autor da obra, passam a se aproximar de como Laclau (1986) concebe as dimens\u00f5es pol\u00edticas, resumidas a rela\u00e7\u00f5es puramente de coopera\u00e7\u00e3o e conflito, afastando-se da compreens\u00e3o marxista por abstrair os conflitos antag\u00f4nicos de classe em suas elabora\u00e7\u00f5es e substituindo os conflitos de contradi\u00e7\u00f5es pelos conflitos de interesses, al\u00e9m de dar cada vez mais autonomia \u00e0s quest\u00f5es pol\u00edticas sobe os conflitos de classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O intelectual que esteve \u00e0 frente dessa mudan\u00e7a de enfoque, como demonstra Silva, foi justamente Cardoso, que ao observar que o capitalismo estaria se desenvolvendo no pa\u00eds, a partir da associa\u00e7\u00e3o da burguesia nacional com a burguesia estrangeira e pelo impulso causado pela interven\u00e7\u00e3o do Estado. Assim, veria que o Estado n\u00e3o estaria necessariamente sob controle de alguma classe, mas era um espa\u00e7o privilegiado de disputa quanto \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o das ideologias. Devido a essa compreens\u00e3o, vemos no livro que ser\u00e1 Cardoso tamb\u00e9m que caracterizar\u00e1 o regime como autorit\u00e1rio burocr\u00e1tico e n\u00e3o como ditatorial ou fascista (como fizera Ianni).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses regimes existentes na Am\u00e9rica Latina sob o tipo \u201cautorit\u00e1rio burocr\u00e1tico\u201d, nas palavras de Cardoso, pois como nos mostra a obra, o pensador percebia esses regimes como ainda permissivos com n\u00facleos opositores na sociedade civil, nele ainda era permitido um \u201cpluralismo pervertido\u201d, comprovando que quem detinha o controle do Estado n\u00e3o deteria o controle sobre toda a sociedade. Silva tamb\u00e9m mostra que foi o pensador uspiano que veria que a burocratiza\u00e7\u00e3o do Estado, na \u00e9poca enquanto em que escrevia, como algo parte natural da sociedade industrial de massas, este feito motivado pela tecnocratiza\u00e7\u00e3o da sociedade, enquanto que o autoritarismo estaria no DNA do Estado, da sociedade brasileira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ianni, ao contr\u00e1rio de Cardoso, defende em sua obra \u201cO colapso do populismo no Brasil\u201d (1967) que a ditadura \u00e9 a s\u00edntese da vit\u00f3ria do capitalismo dependente, ou em outras palavras, do capital imperialista. Embora, para Ianni, as ditaduras na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o eram simplesmente militares. Esses setores apenas estariam no poder representando a burguesia e cumprindo o papel de refrear qualquer movimento revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A diferen\u00e7a fundamental entre Cardoso em \u201cAutoritarismo e Democratiza\u00e7\u00e3o\u201d (1975), \u201cModelo pol\u00edtico brasileiros e outros estudos\u201d (1972) e em \u201cDepend\u00eancia e desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina\u201d (1967) ser\u00e1 a defesa ent\u00e3o, ilus\u00f3ria como bem evid\u00eancia Silva, que a burguesia n\u00e3o estava no poder, e por isso, o poder pol\u00edtico seria alheio ao poder econ\u00f4mico. J\u00e1 outro pensador da escola uspiana, Weffort, se aproximaria das elabora\u00e7\u00f5es de Ianni por concordar com a assimila\u00e7\u00e3o da burguesia nacional com a internacional, esses dois setores da burguesia teriam o regime militar como seu, e transformando a classe trabalhadora como a \u00fanica das classes que se opor\u00e1 ao regime fascista\/ditatorial. Embora houvesse concord\u00e2ncia entre ambos de que a burguesia estivesse no poder, Ianni veria o Estado como avesso a qualquer possibilidade de amplia\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. Weffort se aproximaria, nesse tema, mais das elabora\u00e7\u00f5es dos membros da Cebrap, entendendo poss\u00edvel a conquista do socialismo via instrumento institucional, ainda que mantendo a vis\u00e3o de que o espa\u00e7o priorit\u00e1rio e fundamental de luta seria na sociedade civil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do fortalecimento dos movimentos sociais, crescentes no fim da d\u00e9cada de 1970, \u00e9 salientado no livro a import\u00e2ncia que a greve oper\u00e1ria do ABC (1978) teve sobre a luta de classes no per\u00edodo. Para Ianni (1980) essa mobiliza\u00e7\u00e3o marcaria a reafirma\u00e7\u00e3o de que o proletariado industrial n\u00e3o se via satisfeito com uma futura democracia exclusiva para a classe m\u00e9dia ou burguesa, mas na defesa de uma democracia de base onde o oper\u00e1rio teria voz e voto, e concretamente como movimento t\u00e1tico, o operariado enquanto sujeito pol\u00edtico faria uma transforma\u00e7\u00e3o \u201cde baixo para cima\u201d privilegiando a sociedade civil como arena da luta de classes. A exist\u00eancia desses levantes na sociedade civil e especificamente pelo operariado, produziria tamb\u00e9m outras leituras por parte dos pensadores sociais, como ser\u00e1 o caso de Weffort, que defende ser esse momento (final da d\u00e9cada de 1970), o momento em que se evidencia a crise de hegemonia aberta no pa\u00eds, onde nem a hegemonia conservadora como a popular haviam se consolidado. Cardoso, que via com pessimismo as mobiliza\u00e7\u00f5es sociais que percorriam o final da d\u00e9cada de 1970, defende que estaria em curso no Estado brasileiro, a partir de 1974, n\u00e3o mais um regime de tipo militar, passando assim, atrav\u00e9s dos t\u00e9cnicos, pol\u00edticos e administradores do Estado, um regime do grande capital e que buscaria a hegemonia \u201coligop\u00f3lico-autorit\u00e1ria\u201d na sociedade civil. Justamente por esse pessimismo quanto \u00e0s possibilidades da sociedade civil, Cardoso girou-se quase completamente sua atividade pol\u00edtica para o campo democr\u00e1tico liberal, encontrando no PMDB seu primeiro partido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Silva debate no texto, que pela concep\u00e7\u00e3o tida por Cardoso e depois Weffort (1966) sobre o Estado, os intelectuais se afastaram cada vez mais das ideias de Marx, ainda defendidas por Ianni. Esse distanciamento se daria pela pol\u00edtica central dos acad\u00eamicos n\u00e3o se posicionarem contra o Estado capitalista e sim buscar canais de negocia\u00e7\u00e3o por dentro dele. Fruto dessa concep\u00e7\u00e3o, o autor da obra tamb\u00e9m nos mostra que ser\u00e1 Cardoso que em 1974 escreveria o Manual do Eleitor do MDB, concretizando seu apoio ao movimento institucional, que a esquerda futuramente apoiaria, e que at\u00e9 ent\u00e3o, com exce\u00e7\u00e3o do PCB, defendia o voto nulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como muito bem debatido na obra por Silva, a partir da vit\u00f3ria eleitoral que o MDB obteve em 1974, intensificou-se um movimento de distens\u00e3o crescente do autoritarismo presente no regime, come\u00e7ando pelo governo Geisel, abrindo-se no governo Figueiredo, e nos governos Tancredo Neves e Sarney promovendo a transi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia, e tornando a segunda metade da d\u00e9cada de 1970 ainda mais favor\u00e1vel ao fortalecimento dos movimentos sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na parte final do livro, Silva passa a resumir algumas das principais diferen\u00e7as que apareceram entre os pensadores sociais brasileiros durante a d\u00e9cada de 1970. Chega \u00e0 conclus\u00e3o que tais atores intelectuais, como Ianni, Weffort e Cardoso, viam que a partir de 1964, concomitante com o distanciamento da sociedade civil frente ao Estado, a sociedade brasileira se tornou completamente capitalista. No entanto, como tamb\u00e9m o autor debate, nos anos 1970 as diferen\u00e7as acabaram aparecendo entre eles, principalmente quanto ao tema de promover a democracia e superar o autoritarismo no pa\u00eds. Cardoso, que em 1982 se torna senador pelo PMDB, acredita ser a democracia liberal a melhor forma de fazer a democracia avan\u00e7ar. Weffort, que na d\u00e9cada de 1980 se tornou secret\u00e1rio-geral do PT, via que a quest\u00e3o central deveria ser a busca da hegemonia pol\u00edtica popular dos movimentos sociais na sociedade, se opondo a l\u00f3gica de confronto de classes. O autor mostra ent\u00e3o, que ser\u00e1 Ianni (que se manteve na academia), quem dos tr\u00eas, se manter\u00e1 na perspectiva marxista nesse tema, o qual manter\u00e1 a perspectiva revolucion\u00e1ria ao manter o foco na luta de classes e ainda, levantando a bandeira da constru\u00e7\u00e3o do partido oper\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas palavras de Silva: \u201cCom exce\u00e7\u00e3o de Ianni, conceitos como imperialismo foram se deslocando para capitalismo dependente; o proletariado, para trabalhador de maneira mais gen\u00e9rica. Luta de classes, para conflito, negocia\u00e7\u00e3o e lutas sociais. Democracia n\u00e3o se contrapunha a socialismo, e este sem adjetivo (nem burguesia, nem prolet\u00e1rio) expressando a pluralidade do social\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPensamento social brasileiro: Marxismo acad\u00eamico entre 1960 e 1980\u201d tem sua relev\u00e2ncia ent\u00e3o, n\u00e3o apenas em desvendar os debates entre os pensadores uspianos tratados no texto. Silva vai al\u00e9m de um puro relato em sua obra, mas pelo contr\u00e1rio, de fato denuncia a escolha que a maioria dos intelectuais que participaram do grupo d\u2019O Capital passaram a ter a partir da d\u00e9cada de 1970. Ainda que usando um vocabul\u00e1rio marxista, esses intelectuais romperam com a base do pensamento de Karl Marx (1818 \u2013 1883), deixando de lado o conte\u00fado revolucion\u00e1rio de sua obra e passando a apostar que a mudan\u00e7a da sociedade se desenvolveria a partir de conquistas por dentro do Estado. A obra, ainda que trate de um deslocamento acontecido h\u00e1 quase 50 anos, refere-se a uma compreens\u00e3o que se tornou hegem\u00f4nica nos movimentos sociais e de esquerda, fazendo com que seja essa, a concep\u00e7\u00e3o reformista, predominante nos partidos, sindicatos e movimentos populares do Brasil atual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Gustavo Dutra Barcelos (ODELA) Para que consigam desvendar da melhor forma o que est\u00e1 na ess\u00eancia do seu objeto de estudo, \u00e9 recorrente que pesquisadores busquem aplicar a melhor metodologia cient\u00edfica em suas pesquisas, analisando os debates que foram feitos no passado por outros cientistas, assim, n\u00e3o partindo do zero para a produ\u00e7\u00e3o de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[91,109],"tags":[302,417],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1385"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1385"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1385\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1390,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1385\/revisions\/1390"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1385"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1385"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1385"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}