{"id":2058,"date":"2020-04-23T16:48:58","date_gmt":"2020-04-23T19:48:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/?p=2058"},"modified":"2020-04-23T16:49:35","modified_gmt":"2020-04-23T19:49:35","slug":"o-coronavirus-e-os-alinhamentos-politico-economicos-no-brasil-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/es\/2020\/04\/23\/o-coronavirus-e-os-alinhamentos-politico-economicos-no-brasil-3\/","title":{"rendered":"O Coronav\u00edrus e os alinhamentos pol\u00edtico-econ\u00f4micos no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Artur Holzschuh Frantz<\/em> (ODELA)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O presente texto tem por proposta apresentar uma breve an\u00e1lise das conjunturas nacional e internacional em meio \u00e0 pandemia do Coronav\u00edrus. O enfoque central \u00e9 dado \u00e0 luta de classes e aos alinhamentos pol\u00edticos e econ\u00f4micos observados na sociedade e no Estado brasileiros. Dessa forma, ser\u00e3o apresentadas inicialmente as informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas sobre a doen\u00e7a e a pandemia, bem como os n\u00fameros mais atualizados de pessoas infectadas e de v\u00edtimas fatais no Brasil e no mundo, a fim de embasar a an\u00e1lise que segue. Esta buscar\u00e1 avaliar de que forma as fra\u00e7\u00f5es burguesas, grupos pol\u00edticos hegem\u00f4nicos e demais setores sociais t\u00eam se posicionado frente \u00e0 crise, buscando alinh\u00e1-los aos dois grupos de maior destaque no debate nacional: a direita tradicional e a fac\u00e7\u00e3o bolsonarista. Por fim, ser\u00e1 realizado um esfor\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o de cen\u00e1rios, visando a pontuar os principais efeitos da pandemia para o modelo socioecon\u00f4mico capitalista neoliberal no Brasil e no exterior, e avaliando as poss\u00edveis sa\u00eddas para a crise, sejam elas progressistas ou reacion\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mais recente varia\u00e7\u00e3o do v\u00edrus Sars-CoV-2, popularmente conhecido como Novo Coronav\u00edrus ou COVID-19, teve origem nos mercados de animais vivos no Sul da China, mais especificamente na cidade de Wuhan. Apesar dos esfor\u00e7os bem-sucedidos do governo chin\u00eas em conter a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus pelo pa\u00eds, a doen\u00e7a espalhou-se em quest\u00e3o de semanas para outros pa\u00edses do Leste e Sudeste da \u00c1sia e posteriormente para o Oriente M\u00e9dio, Europa e ent\u00e3o para a Am\u00e9rica e a \u00c1frica. O que parecia ser apenas uma epidemia localizada, rapidamente tornou-se uma pandemia em fun\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas do v\u00edrus e do seu modo de transmiss\u00e3o (SAAD FILHO, 2020). O Coronav\u00edrus \u00e9 transmitido pelas secre\u00e7\u00f5es da face, como saliva e muco, que podem ser transmitidas por contato direto ou por superf\u00edcies infectadas, com posterior toque nos olhos, nariz ou boca. Nos casos em que h\u00e1 a apari\u00e7\u00e3o de sintomas, estes s\u00f3 ocorrem uma ou duas semanas ap\u00f3s a contra\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Al\u00e9m disso, diversos casos de contamina\u00e7\u00e3o s\u00e3o assintom\u00e1ticos, assim muitas pessoas transmitem a doen\u00e7a a outros sem saber que elas pr\u00f3prias est\u00e3o doentes. Atualmente, j\u00e1 foram registrados mais de 2,5 milh\u00f5es de casos no mundo, com cerca de 175.000 mortes decorrentes de problemas respirat\u00f3rios causados pelo v\u00edrus, que ataca o transporte de gases pelas hem\u00e1cias, comprometendo a capacidade pulmonar dos afetados (WORLDOMETER, 2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, o n\u00famero de casos confirmados j\u00e1 passa de 40.000, com cerca de 2.500 \u00f3bitos relacionados diretamente ao COVID-19. No entanto, em fun\u00e7\u00e3o do n\u00famero reduzido de testes realizados e do significativo aumento de casos e falecimentos ligados a outras doen\u00e7as similares, como insufici\u00eancia respirat\u00f3ria grave, levantam suspeitas de que esses n\u00fameros possam ser, na realidade, muito superiores aos divulgados at\u00e9 o momento. A chegada da doen\u00e7a ao pa\u00eds deu origem ao debate nas altas inst\u00e2ncias do Estado e na sociedade com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma mais adequada de mitigar o impacto da pandemia. Por um lado, a chamada direita tradicional, representada inicialmente pelo ex-Ministro da Sa\u00fade Henrique Mandetta, juntamente com a maioria da oposi\u00e7\u00e3o ao governo e os setores mais progressistas da sociedade, defenderam o isolamento social completo, conforme proposto pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade e sendo esta a op\u00e7\u00e3o escolhida pelas na\u00e7\u00f5es que tiveram maior sucesso na conten\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Por outro lado, grupos e indiv\u00edduos mais diretamente ligados ao Presidente Jair Bolsonaro, aqui tratada como a fac\u00e7\u00e3o bolsonarista, sustentaram a ideia de um \u201cisolamento vertical\u201d, no qual seriam isolados apenas idosos e demais pessoas que componham grupos de risco, apostando em medicamentos n\u00e3o testados como a Hidroxicloroquina para o tratamento cl\u00ednico da popula\u00e7\u00e3o que seria inevitavelmente contaminada. Essa divis\u00e3o espalhou-se por toda a sociedade brasileira, desde as classes mais baixas at\u00e9 as fra\u00e7\u00f5es burguesas hegem\u00f4nicas, contrastando projetos que propunham a valoriza\u00e7\u00e3o da vida ou a manuten\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica (VALLE; DEL PASSO, 2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um embate pol\u00edtico, econ\u00f4mico, sanit\u00e1rio e moral<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa an\u00e1lise recente, Valle e Del Passo (2020) apresentam, de forma bastante direta e did\u00e1tica, a forma como os principais grupos pol\u00edticos e econ\u00f4micos do Brasil t\u00eam se posicionado para responder \u00e0 crise. Utilizando-se do conceito de fra\u00e7\u00f5es de classe, que tem suas origens de forma mais clara na obra de Poulantzas (1977), os autores buscam analisar as alian\u00e7as formadas entre as diversas fra\u00e7\u00f5es burguesas e destas com os setores populares. A distin\u00e7\u00e3o das fra\u00e7\u00f5es de classe \u00e9 relevante, neste ponto, para que a burguesia n\u00e3o seja vista como um bloco monol\u00edtico que tem um s\u00f3 interesse. Por mais que os setores da burguesia costumem convergir quanto \u00e0 necessidade de trabalharem para a manuten\u00e7\u00e3o do sistema socioecon\u00f4mico capitalista, h\u00e1 importantes diferen\u00e7as com rela\u00e7\u00e3o aos meios que devem ser utilizados para atingir esse objetivo, e estas geram disputas nos n\u00edveis pol\u00edtico, econ\u00f4mico e ideol\u00f3gico. Dessa forma, a fim de realizar a an\u00e1lise das respostas \u00e0 pandemia, \u00e9 essencial que se possa diferenciar as fra\u00e7\u00f5es burguesas no Brasil, de acordo com Bugiato (2018), tanto pela sua posi\u00e7\u00e3o no ciclo de reprodu\u00e7\u00e3o do capital (comercial, industrial, banc\u00e1ria), pela concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o deste capital (grande ou m\u00e9dio, monopolista ou n\u00e3o monopolista), e pela sua rela\u00e7\u00e3o com o capital estrangeiro e o imperialismo (nacional, interna ou compradora).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No n\u00edvel pol\u00edtico, \u00e9 poss\u00edvel observar a divis\u00e3o entre a direita tradicional e a fac\u00e7\u00e3o bolsonarista inclusive no plano partid\u00e1rio. De um lado, a direita tradicional articula-se em torno de figuras como Jo\u00e3o D\u00f3ria e Rodrigo Maia e seus partidos, o PSDB e o DEM, respectivamente. Por outro, os bolsonaristas, sem estrutura partid\u00e1ria bem definida, est\u00e3o distribu\u00eddos entre o PSL, o PRB e o NOVO, al\u00e9m de comporem parte das bancadas evang\u00e9lica e agropecu\u00e1ria, representando outras legendas. Al\u00e9m disso, \u00e9 poss\u00edvel observar ainda uma discord\u00e2ncia clara que se organiza em torno dos n\u00edveis de governo, colocando em choque o governo federal bolsonarista e os governos estaduais, os quais formam uma esp\u00e9cie de coaliz\u00e3o entre essa direita tradicional e outros grupos mais progressistas, como \u00e9 o caso de Fl\u00e1vio Dino, governador do Maranh\u00e3o. Tal divis\u00e3o manifesta-se, sobretudo, no debate sobre as medidas sanit\u00e1rias a serem adotadas, colocando a direita tradicional e seus aliados na defesa do isolamento social amplo, indo de encontro \u00e0 proposta bolsonarista de isolamento vertical e manuten\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica (VALLE; DEL PASSO, 2020). Para os fins desta an\u00e1lise, contudo, importa principalmente compreender quais s\u00e3o as fra\u00e7\u00f5es de classe que d\u00e3o suporte a cada um desses projetos e por que, com o objetivo de buscar compreender se a situa\u00e7\u00e3o dada \u00e9 est\u00e1tica ou se h\u00e1 perspectiva de altera\u00e7\u00f5es no cen\u00e1rio observado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A fac\u00e7\u00e3o bolsonarista encontra seu apoio principalmente nas fra\u00e7\u00f5es burguesas comercial e de servi\u00e7os, na burguesia industrial e nas federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es do grande agroneg\u00f3cio. Dentre estas, a fra\u00e7\u00e3o relacionada ao com\u00e9rcio e aos servi\u00e7os aparenta ser a mais comprometida com a oposi\u00e7\u00e3o ao isolamento social total e \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mico. Isso ocorre tanto em fun\u00e7\u00e3o do alinhamento ideol\u00f3gico entre algumas grandes redes de lojas e o governo, quanto pela falta de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das unidades pequenas e m\u00e9dias (VALLE; DEL PASSO, 2020). Estas \u00faltimas veem seu futuro especialmente amea\u00e7ado pela previs\u00e3o de receitas baixas ou nulas, em um setor que depende do r\u00e1pido fluxo de moeda e do esvaziamento de estoques, em fun\u00e7\u00e3o da inexist\u00eancia de uma poupan\u00e7a ou grande valor em caixa para cobrir os custos fixos das lojas (OLIVEIRA, 2020). Restam, portanto, partes da fra\u00e7\u00e3o industrial e do agroneg\u00f3cio, fra\u00e7\u00f5es estas que est\u00e3o divididas na polariza\u00e7\u00e3o, importando entender os motivos que levam a isso e se h\u00e1 possibilidades de altera\u00e7\u00e3o nesse alinhamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A direita tradicional, por sua vez, \u00e9 apoiada pela fra\u00e7\u00e3o detentora do capital banc\u00e1rio nacional, pela burguesia financeira associada ao exterior, pela ind\u00fastria automotiva e de alimentos, al\u00e9m das redes de supermercados, pequenos e m\u00e9dios produtores rurais e o setor de telecomunica\u00e7\u00f5es. A maioria destas fra\u00e7\u00f5es aparenta estar comprometida com o isolamento social por diversos motivos, seja pela manuten\u00e7\u00e3o do abastecimento das fam\u00edlias, pela defesa da estabilidade pol\u00edtica do pa\u00eds ou, esta \u00faltima sendo a principal, pelo desejo de que a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica chegue mais r\u00e1pido ap\u00f3s um per\u00edodo de isolamento mais severo. O capital banc\u00e1rio tem se destacado neste grupo, uma vez que foi o grande beneficiado pelas concess\u00f5es do governo federal e tem sido o respons\u00e1vel pela sustenta\u00e7\u00e3o das empresas que deixaram de obter renda e pela manuten\u00e7\u00e3o da liquidez da economia. Nesse sentido, \u00e9 tamb\u00e9m a fra\u00e7\u00e3o que tem o maior potencial de atrair partes de fra\u00e7\u00f5es que seguem aliadas ao bolsonarismo para a defesa pol\u00edtica do isolamento social, tanto pelas possibilidades de financiamento quanto pelas manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicos atestando que o fim prematuro da quarentena seria o pior cen\u00e1rio em termos econ\u00f4micos (MARTINS <em>et al<\/em>., 2020; VALLE; DEL PASSO, 2020). Com isso, seria poss\u00edvel que o bolsonarismo e o governo federal perdessem cada vez mais aliados, o que seria extremamente prejudicial para uma administra\u00e7\u00e3o que, por mais que ainda n\u00e3o esteja isolada, d\u00e1 claros sinais de desgaste, os quais podem refletir-se nas elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano, caso ocorram normalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cen\u00e1rios: entre o desej\u00e1vel e o prov\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do apresentado at\u00e9 aqui, um fato \u00e9 bastante evidente: a quase total aus\u00eancia da esquerda no debate sobre pol\u00edticas p\u00fablicas, com exce\u00e7\u00e3o dos governos locais que t\u00eam agido por conta pr\u00f3pria. Isto \u00e9 sintom\u00e1tico do que Saad-Filho (2020) aponta como sendo a posi\u00e7\u00e3o meramente defensiva que a esquerda no Brasil e no mundo tem tomado nos \u00faltimos anos, o que resulta, at\u00e9 o momento, na aus\u00eancia de um projeto pr\u00f3prio de oposi\u00e7\u00e3o, requerendo uma alian\u00e7a com a direita tradicional para combater o ultra neoliberalismo de tra\u00e7os fascistas do governo Bolsonaro. Assim, antes de iniciar a an\u00e1lise da conjuntura brasileira a partir da polariza\u00e7\u00e3o entre os dois grupos apresentados anteriormente, \u00e9 essencial pontuar a possibilidade, que talvez se converta em necessidade, da forma\u00e7\u00e3o de um projeto de oposi\u00e7\u00e3o originado na esquerda aliada ao proletariado (GEBRIM, 2020). Ainda que a alian\u00e7a aparentemente esteja distante, \u00e9 importante destacar que a popula\u00e7\u00e3o de baixa renda ser\u00e1 a mais afetada pelas consequ\u00eancias da pandemia e da crise econ\u00f4mica. Com isso, a exist\u00eancia de um projeto partindo da esquerda que seja pautado no fato de que \u201ca Economia\u201d deve servir para sustentar a vida, e n\u00e3o o contr\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1ria para que a resposta que a resposta a esta \u201cjanela hist\u00f3rica\u201d que se abriu seja de car\u00e1ter progressista e social ao inv\u00e9s de reacion\u00e1ria e conservadora (GEBRIM, 2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um fato que contribui para que o cen\u00e1rio acima seja poss\u00edvel \u00e9 a retomada da import\u00e2ncia do papel do Estado na Economia, a qual tem sido amplamente reconhecida mesmo nos pa\u00edses onde o capitalismo neoliberal \u00e9 mais enraizado (SAAD-FILHO, 2020). Em momentos de crise como este, mesmo os principais proponentes do neoliberalismo defendem posi\u00e7\u00f5es de car\u00e1ter keynesiano, as quais s\u00e3o esquecidas t\u00e3o logo a crise se distancia. No entanto, em um momento em que a paralisa\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica n\u00e3o decorre, como costuma ocorrer, das contradi\u00e7\u00f5es intr\u00ednsecas ao capitalismo, a percep\u00e7\u00e3o da necessidade da participa\u00e7\u00e3o do Estado na manuten\u00e7\u00e3o de uma m\u00ednima atividade econ\u00f4mica torna-se ainda mais evidente. Quanto \u00e0s fam\u00edlias, os aux\u00edlios enviados por governos ao redor do mundo para evitar a fome e o endividamento e manter um certo n\u00edvel de consumo t\u00eam mostrado, especialmente ao proletariado, que quando as coisas n\u00e3o v\u00e3o bem \u00e9 o Estado, e n\u00e3o a iniciativa privada, que pode dar respaldo aos mais pobres (BASTOS, 2020). Em se tratando do contexto brasileiro, \u00e9 evidente que isso atua como uma for\u00e7a que incentiva a alian\u00e7a entre o proletariado e os setores progressistas e de esquerda, que defendem uma forma de governo e de Estado que atue para reduzir desigualdades e auxiliar a popula\u00e7\u00e3o que mais necessita (BASTOS, 2020; GEBRIM, 2020).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A relev\u00e2ncia do Estado, no entanto, n\u00e3o se apresentou somente para as fam\u00edlias e para os indiv\u00edduos, mas tamb\u00e9m para as empresas e bancos. Estes \u00faltimos podem ser vistos como os atores centrais em uma poss\u00edvel mudan\u00e7a nas alian\u00e7as das fra\u00e7\u00f5es burguesas apresentadas acima. Na medida em que o Banco Central se comprometeu a um pacote trilion\u00e1rio de apoio aos bancos comerciais, visando a garantir a liquidez e o cr\u00e9dito para fam\u00edlias e neg\u00f3cios, \u00e9 essencial que a burguesia banc\u00e1ria atue para sustentar a atividade econ\u00f4mica no contexto de um capitalismo t\u00e3o financeirizado (VALLE; DEL PASSO, 2020). Tendo em vista o apoio ao isolamento social manifestado pela fra\u00e7\u00e3o burguesa banc\u00e1ria nacional e pela burguesia financeira associada ao exterior, \u00e9 importante que essa posi\u00e7\u00e3o seja utilizada para pressionar os bancos p\u00fablicos, como o BNDES, a assumir a dianteira no financiamento das fra\u00e7\u00f5es que ainda est\u00e3o aliadas ao bolsonarismo. Com isso, o setor financeiro, tanto privado quanto p\u00fablico, contribuiria para a manuten\u00e7\u00e3o do consumo e da atividade econ\u00f4mico, ao mesmo tempo que poderia sustentar a recupera\u00e7\u00e3o do agroneg\u00f3cio para abastecimento e interno e para quando retornarem as exporta\u00e7\u00f5es, bem como apoiar a recupera\u00e7\u00e3o das ind\u00fastrias no pa\u00eds (CARMONA, 2017). Estas \u00faltimas, apesar de estarem alinhadas ao bolsonarismo, j\u00e1 tem solicitado aux\u00edlio ao BNDES, por interm\u00e9dio de federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es, o qual tem concedido v\u00e1rias das demandas, o que aproxima a burguesia industrial a unir-se em apoio ao isolamento social (FIERGS, 2020a; 2020b).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nesse sentido, identificam-se atualmente duas possibilidades de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s medidas sanit\u00e1rias, ou falta delas, por parte dos bolsonaristas, sendo estas as alternativas \u00e0 sa\u00edda reacion\u00e1ria e conservadora que Gebrim (2020) aponta para a \u201cjanela hist\u00f3rica\u201d que vivemos. Por um lado, h\u00e1 o cen\u00e1rio poss\u00edvel, ainda que n\u00e3o imediatamente prov\u00e1vel, da forma\u00e7\u00e3o de uma frente de oposi\u00e7\u00e3o progressista de esquerda, articulada ao proletariado afetado mais profundamente pela crise. Por outro, este mais prov\u00e1vel, \u00e9 o cen\u00e1rio de uma reorganiza\u00e7\u00e3o das fra\u00e7\u00f5es burguesas, em um contexto em que a fra\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria e financeira se coloca como mediadora entre os interesses das diferentes fra\u00e7\u00f5es da burguesia, buscando ali\u00e1-las sob um projeto de r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, ao mesmo tempo que busca o apoio da popula\u00e7\u00e3o ao dar cr\u00e9dito e empr\u00e9stimos para o consumo. Assim, fica claro que \u00e9 mais prov\u00e1vel que a resposta a esta crise, de car\u00e1ter singular e consequ\u00eancias ainda imensur\u00e1veis, seja, de fato, neoliberal, configurando um rearranjo das fra\u00e7\u00f5es burguesas dentro do bloco no poder. A fim de avaliar a progress\u00e3o dos cen\u00e1rios apresentados, \u00e9 essencial atentar, principalmente, para as futuras a\u00e7\u00f5es e declara\u00e7\u00f5es das grande federa\u00e7\u00f5es e confedera\u00e7\u00f5es da ind\u00fastria e do agroneg\u00f3cio, em especial no que se refere a sua rela\u00e7\u00e3o com os bancos e a burguesia financeira. Por fim, mas n\u00e3o menos importante, \u00e9 essencial acompanhar as respostas do proletariado e das classes m\u00e9dias aos desdobramentos da crise e \u00e0s medidas do governo, sobretudo se o componente ideol\u00f3gico ser\u00e1 suficiente para manter a ades\u00e3o que existe ao bolsonarismo ou se a oposi\u00e7\u00e3o conseguir\u00e1 apoio s\u00f3lido nas massas.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BASTOS, Pedro Paulo Zahluth. <strong>O neoliberalismo pode se recuperar da Covid-19 (pelo menos no Brasil)<\/strong>. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.cartamaior.com.br\/?\/Editoria\/Politica\/O-neoliberalismo-pode-se-recuperar-da-Covid-19-pelo-menos-no-Brasil-\/4\/47080. Acesso em: 20 abr. 2020.<\/p>\n<p>BUGIATO, Caio. Poulantzas, Estado e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. <strong>D\u00e9calages<\/strong>: An Althusser Studies Journal, Los Angeles, v. 2, n. 2, p.1-17, dez. 2018. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/scholar.oxy.edu\/cgi\/viewcontent.cgi?article=1124&amp;context=decalages&gt;. Acesso em: 30 jul. 2019.<\/p>\n<p>CARMONA, Ronaldo. A reindustrializa\u00e7\u00e3o brasileira como v\u00e9rtice de um novo projeto nacional. <strong>Princ\u00edpios<\/strong>, S\u00e3o Paulo, v. 1, n. 150, p. 1-9, out. 2017.<\/p>\n<p>FIERGS. <strong>BNDES atende a pedido da FIERGS e suspende por seis meses pagamento de parcelas de financiamentos<\/strong>. 2020a. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.fiergs.org.br\/noticia\/bndes-atende-pedido-da-fiergs-e-suspende-por-seis-meses-pagamento-de-parcelas-de. Acesso em: 20 abr. 2020.<\/p>\n<p>FIERGS. <strong>CNI apresenta 37 propostas ao governo para atenuar a crise decorrente do Coronav\u00edrus<\/strong>. 2020b. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.fiergs.org.br\/noticia\/cni-apresenta-37-propostas-ao-governo-para-atenuar-crise-decorrente-do-coronavirus. Acesso em: 20 abr. 2020.<\/p>\n<p>GEBRIM, Ricardo. <strong>Enfrentamento \u00e0 pandemia \u00e9, hoje, central para a luta de classes<\/strong>. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2020\/04\/08\/enfrentamento-a-pandemia-e-hoje-central-para-a-luta-de-classes. Acesso em: 20 abr. 2020.<\/p>\n<p>MARTINS, Ar\u00edcia et al. <strong>Interromper isolamento social antes do necess\u00e1rio \u00e9 pior ainda para a economia, diz Ita\u00fa.<\/strong> 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/valor.globo.com\/politica\/noticia\/2020\/04\/03\/mesquita-pior-cenario-para-economia-e-suspender-isolamento-sem-ouvir-autoridades-de-saude.ghtml. Acesso em: 18 abr. 2020.<\/p>\n<p>OLIVEIRA, Jo\u00e3o Jos\u00e9. <strong>Coronav\u00edrus<\/strong>: 80% dos pequenos lojistas v\u00e3o quebrar se shoppings fecharem, diz entidade. 80% dos pequenos lojistas v\u00e3o quebrar se shoppings fecharem, diz entidade. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/redacao\/2020\/03\/18\/fechamento-de-shoppings-vai-quebrar-empresas-diz-associacao-de-lojistas.htm. Acesso em: 18 abr. 2020.<\/p>\n<p>POULANTZAS, Nicos. <strong>Poder pol\u00edtico e classes sociais<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1977.<\/p>\n<p>SAAD-FILHO, Alfredo. <strong>Coronavirus, Crisis, and the End of Neoliberalism<\/strong>. 2020. Dispon\u00edvel em: http:\/\/ppesydney.net\/coronavirus-crisis-and-the-end-of-neoliberalism\/. Acesso em: 17 abr. 2020.<\/p>\n<p>VALLE, Andr\u00e9 Flores Penha; DEL PASSO, Oct\u00e1vio F. <strong>Fra\u00e7\u00f5es burguesas na crise atual<\/strong>. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/fracoes-burguesas-na-crise-atual\/. Acesso em: 17 abr. 2020.<\/p>\n<p>WORLDOMETER. <strong>COVID-19 Coronavirus Pandemic<\/strong>. 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.worldometers.info\/coronavirus\/. Acesso em: 21 abr. 2020.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<h3 style=\"text-align: left;\">Como citar este post<\/h3>\n<p style=\"text-align: left;\">FRANTZ, Artur H. O Coronav\u00edrus e os alinhamentos pol\u00edtico-econ\u00f4micos no Brasil, <em>Blog ODELA<\/em>, 2020 [publicado em 23 de abril de 2020]. Acesso em: https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/es\/2020\/04\/23\/o-coronavirus-e-os-alinhamentos-politico-economicos-no-brasil\/\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Artur Holzschuh Frantz (ODELA) O presente texto tem por proposta apresentar uma breve an\u00e1lise das conjunturas nacional e internacional em meio \u00e0 pandemia do Coronav\u00edrus. 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