{"id":2241,"date":"2020-09-29T15:38:24","date_gmt":"2020-09-29T18:38:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/?p=2241"},"modified":"2020-09-29T18:33:50","modified_gmt":"2020-09-29T21:33:50","slug":"ensaio-sobre-a-burguesia-associada-no-brasil-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/es\/2020\/09\/29\/ensaio-sobre-a-burguesia-associada-no-brasil-3\/","title":{"rendered":"Ensaio sobre a burguesia associada no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Caio Bugiato*<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">As pesquisas sobre o chamado empresariado brasileiro, ou a burguesia brasileira, j\u00e1 s\u00e3o tradicionais no pa\u00eds e constituem uma \u00e1rea de estudos vasta e complexa. Tais pesquisas t\u00eam uma diversidade de objetos, entre eles destacamos aquelas sobre setores ou fra\u00e7\u00f5es da classe dominante no Brasil, como \u00e9 o caso dos estudos de Bruno (1997) sobre a burguesia agr\u00e1ria, de Diniz e Boschi (2007) sobre a burguesia industrial, de Minella (1988) sobre a burguesia banc\u00e1ria, de Campos (2017) sobre a burguesia da constru\u00e7\u00e3o civil. Igualmente relevante s\u00e3o as pesquisas que investigam mais diretamente a rela\u00e7\u00e3o da burguesia com o Estado brasileiro, como \u00e9 o caso de Mancuso (2004). E mais recentemente surgem pesquisas mais amplas sobre o papel da burguesia no processo pol\u00edtico nacional, como os estudos de Boito J\u00fanior (2018). Apenas para citar alguns temas e autores\/as. Por\u00e9m nos chama aten\u00e7\u00e3o nessa \u00e1rea a pouca \u00eanfase dada pelas pesquisas ao que denominamos burguesia associada.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cl\u00e1ssicos do pensamento social brasileiro (Jacob Gorender, Fernando Henrique Cardoso e Enzo Faletto, Ruy Mauro Marini, Florestan Fernandes, entre outros) j\u00e1 apontavam para a exist\u00eancia de uma fra\u00e7\u00e3o da classe dominante, em uma forma\u00e7\u00e3o social capitalista perif\u00e9rica e dependente, que \u00e9 um agente pol\u00edtico associado ao capital internacional. Nesse sentido, para uma no\u00e7\u00e3o geral recorremos brevemente a Gorender que nos apresenta alguns aspectos das rela\u00e7\u00f5es entre a burguesia brasileira e o capital estrangeiro: de um lado, a perspectiva do nacionalismo burgu\u00eas, de confronto com as empresas estrangeiras e sem aceita\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00e3o; de outro, os graus de associa\u00e7\u00e3o, desde uma associa\u00e7\u00e3o marginal em que o controle e dire\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas permanece com capitalistas nacionais at\u00e9 a perda de controle e dire\u00e7\u00e3o junto com uma completa subservi\u00eancia pol\u00edtica ao capital internacional. O autor lembra inclusive que todas essas rela\u00e7\u00f5es se reproduzem nas inst\u00e2ncias do Estado, constituindo-se for\u00e7as que provocam agita\u00e7\u00f5es nem sempre vis\u00edveis na cena pol\u00edtica (GORENDER, 1982).<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, \u00e9 na teoria marxista do Estado que encontramos o esquema te\u00f3rico para an\u00e1lise da rela\u00e7\u00e3o entre as lutas de classes e o Estado capitalista em uma determinada forma\u00e7\u00e3o social, particularmente para o nosso interesse a an\u00e1lise da burguesia associada e sua ag\u00eancia pol\u00edtica. Na sua teoria do Estado capitalista, Nicos Poulantzas (1977) atesta a fun\u00e7\u00e3o do Estado como mantenedor da unidade de uma forma\u00e7\u00e3o social capitalista, que \u00e9 igualmente o objetivo de fundo da burguesia como um todo: manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais existentes e, para concretiz\u00e1-lo, a conserva\u00e7\u00e3o do Estado \u00e9 imprescind\u00edvel. Essa pr\u00e1tica da burguesia de conserva\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais \u00e9 o que d\u00e1 unidade \u00e0 classe e aliada a sua opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, que \u201cconsiste no fato de tentar impor, ao conjunto da sociedade, um \u2018modo de vida\u2019 atrav\u00e9s do qual o Estado ser\u00e1 vivido como representante do \u2018interesse geral\u2019 da sociedade, como detentor das chaves do universal, em face de \u2018indiv\u00edduos privados\u2019\u201d (POULANTZAS, 1977, p. 209), constitui-a como for\u00e7a social. O Estado burgu\u00eas \u201crepresenta n\u00e3o diretamente os interesses econ\u00f4micos das classes dominantes, mas os seus interesses pol\u00edticos: ele \u00e9 o centro de poder pol\u00edtico das classes dominantes na medida em que \u00e9 o fator de organiza\u00e7\u00e3o da sua luta pol\u00edtica\u201d (POULANTZAS, 1977, p. 185). Garantir a domina\u00e7\u00e3o de classe faz parte da fun\u00e7\u00e3o do Estado, pois este como institui\u00e7\u00e3o n\u00e3o possui poder pr\u00f3prio. Vale salientar que poder, para Poulantzas \u00e9 a capacidade de uma classe social ou fra\u00e7\u00e3o realizar seus interesses espec\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n<p>A complexa rela\u00e7\u00e3o entre a classe dominante e suas fra\u00e7\u00f5es e o Estado burgu\u00eas s\u00e3o elucidadas por meio do conceito de bloco no poder. O bloco no poder \u00e9 a unidade contradit\u00f3ria das fra\u00e7\u00f5es da classe burguesa em torno de objetivos gerais \u2013 referentes \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas \u2013, unidade essa que n\u00e3o elimina os objetivos particulares de cada fra\u00e7\u00e3o. O bloco no poder n\u00e3o \u00e9 um acordo pol\u00edtico expl\u00edcito, mas uma comunidade de interesses dos propriet\u00e1rios dos meios sociais de produ\u00e7\u00e3o. Sua unidade \u00e9 garantida pelo interesse comum \u00e0s fra\u00e7\u00f5es de governar direta ou indiretamente o Estado, fazendo com que este atenda seus interesses gerais (a manuten\u00e7\u00e3o da propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o e a reprodu\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho como mercadoria) e espec\u00edficos de cada fra\u00e7\u00e3o. O Estado \u00e9, portanto, fator de unidade pol\u00edtica do bloco no poder (POULANTZAS, 1977).<\/p>\n\n\n\n<p>Na articula\u00e7\u00e3o do bloco no poder h\u00e1 a tend\u00eancia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de um n\u00facleo hegem\u00f4nico, composto por uma (ou mais) fra\u00e7\u00e3o, a fra\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica. A hegemonia \u00e9 conquistada por meio da capacidade de uma fra\u00e7\u00e3o fazer prevalecer os seus interesses particulares no interior do bloco no poder, ou seja, \u00e9 a capacidade da fra\u00e7\u00e3o de obter a prioridade dos benef\u00edcios, principalmente, da pol\u00edtica econ\u00f4mica do Estado (isto \u00e9, outras pol\u00edticas estatais, com a social e a externa tamb\u00e9m s\u00e3o relevantes). As pol\u00edticas estatais (sobretudo a pol\u00edtica econ\u00f4mica) provoca a constitui\u00e7\u00e3o das fra\u00e7\u00f5es e ao mesmo tempo indica a posi\u00e7\u00e3o delas no interior do bloco. A rela\u00e7\u00e3o entre o Estado burgu\u00eas e as fra\u00e7\u00f5es se d\u00e1 no sentido da sua unidade pol\u00edtica sob a \u00e9gide de uma (ou mais) fra\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>A burguesia \u00e9 uma classe dotada de complexa heterogeneidade. Suas clivagens econ\u00f4micas se d\u00e3o pelo ciclo de reprodu\u00e7\u00e3o do capital (capital comercial, industrial, banc\u00e1rio, etc.), pela concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o do capital (grande e m\u00e9dio e monopolista e n\u00e3o monopolista), pelas rela\u00e7\u00f5es com o imperialismo (burguesia nacional, interna e compradora), dentre outros aspectos, bem como as dimens\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas que podem gerar a forma\u00e7\u00e3o de determinada fra\u00e7\u00e3o de classe. Essas clivagens se podem combinar de maneiras variadas e din\u00e2micas e como base da aglutina\u00e7\u00e3o ou divis\u00e3o pol\u00edtica das fra\u00e7\u00f5es. Se tais clivagens propiciam ou n\u00e3o a forma\u00e7\u00e3o de fra\u00e7\u00f5es burguesas depende das circunst\u00e2ncias e da rea\u00e7\u00e3o desses setores da burguesia frente principalmente \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Interessam-nos aqui as rela\u00e7\u00f5es da burguesia com o capital internacional\/imperialismo. Segundo Poulantzas (1976 e 1978) as fra\u00e7\u00f5es dessa classe se distinguem em burguesia compradora (o que chamamos de associada), burguesia nacional e burguesia interna. A burguesia compradora \u00e9 a fra\u00e7\u00e3o cujos interesses est\u00e3o diretamente subordinados aos do capital estrangeiro e que serve de intermedi\u00e1ria direta para a implanta\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o do capital estrangeiro no interior duma forma\u00e7\u00e3o social. As inger\u00eancias do capital externo \u201cs\u00f3 podem, em geral, exercer um papel decisivo nos diversos pa\u00edses dependentes [&#8230;] articulando-se, nestes pa\u00edses, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a internas\u201d (POULANTZAS,1976, p. 20). Esta fra\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem base de acumula\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e geralmente tem sua atividade ligada ao latif\u00fandio e \u00e0 especula\u00e7\u00e3o, concentrada em setores financeiros, banc\u00e1rios e comerciais, mas igualmente podendo atuar nos ramos industriais, naqueles inteiramente subordinados e dependentes ao capital estrangeiro. Do ponto de vista pol\u00edtico-ideol\u00f3gico, \u00e9 suporte e agente do capital imperialista. A burguesia nacional \u00e9 fra\u00e7\u00e3o aut\u00f3ctone, que possui base de acumula\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria no interior da forma\u00e7\u00e3o social e apresenta autonomia pol\u00edtica-ideol\u00f3gica frente ao capital imperialista. Em determinadas conjunturas, em alian\u00e7a com as classes dominadas, esta fra\u00e7\u00e3o pode adotar uma postura anti-imperialista e\/ou se envolver em uma luta de liberta\u00e7\u00e3o nacional. A burguesia interna ocupa uma posi\u00e7\u00e3o intermedi\u00e1ria entre a burguesia compradora e a burguesia nacional, apresentando contradi\u00e7\u00f5es com o capital estrangeiro. Possui base de acumula\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, tentando assim limitar a presen\u00e7a do capital estrangeiro no mercado interno, por\u00e9m ao mesmo tempo \u00e9 dependente desse capital em \u00e1reas como investimento e tecnologia. Concentrada principalmente no setor industrial, interessa-se geralmente pelo desenvolvimento industrial que por vezes est\u00e1 em oposi\u00e7\u00e3o aos interesses do capital estrangeiro e pela interven\u00e7\u00e3o estatal que lhe assegura alguns dom\u00ednios dentro do pa\u00eds e que a tornaria tamb\u00e9m mais competitiva diante de capital estrangeiro (POULANTZAS, 1976).<\/p>\n\n\n\n<p>Esse referencial te\u00f3rico de Poulantzas foi utilizado por uma s\u00e9rie de analistas brasileiros\/as para pesquisar as lutas de classes e o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, em diferentes conjunturas e per\u00edodos. Perissinotto (1994), Farias (2017), Saes (2001) e Boito Junior (1999 e 2018), por exemplo, analisam o bloco no poder em per\u00edodos hist\u00f3ricos, indicando a fra\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica. Assim sendo, sintetizamos suas conclus\u00f5es no quadro abaixo:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quadro &#8211; Bloco no poder no Brasil<\/strong><\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"217\">\n<p><strong>Situa\u00e7\u00e3o do bloco no poder<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<p><strong>Per\u00edodo<\/strong><\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"217\">\n<p>Hegemonia da burguesia associada<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<p>Rep\u00fablica Velha (1889-1930)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"217\">\n<p>Crise de hegemonia: autonomia relativa da burocracia civil<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<p>Era Vargas (1930-1964)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"217\">\n<p>Hegemonia burguesia interna<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<p>Ditadura militar (1964-1990)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"217\">\n<p>Hegemonia da burguesia associada<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<p>Per\u00edodo neoliberal (1990-2002)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"217\">\n<p>Hegemonia da burguesia interna<\/p>\n<\/td>\n<td width=\"216\">\n<p>Ciclo petista (2003-2016)<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse quadro, duas constata\u00e7\u00f5es nos parecem pertinentes. Primeiro, a burguesia nacional nunca foi fra\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica. Na forma\u00e7\u00e3o social brasileira ela nunca se fez grande for\u00e7a social ao ponto de se tornar hegem\u00f4nica e conduzir o desenvolvimento capitalista no pa\u00eds. Entre algumas explica\u00e7\u00f5es, ressaltamos o fato de o capitalismo brasileiro ter sido introduzido no territ\u00f3rio nacional do exterior, assim uma burguesia nacional nunca existiu como for\u00e7a social, nunca se organizou, pois, imperaram no pa\u00eds as for\u00e7as estrangeiras. Isso explica por que o projeto nacional-desenvolvimentista foi conduzido pela burocracia do Estado (Era Vargas). Segundo, o grande embate pol\u00edtico-econ\u00f4mico no Brasil se d\u00e1 entre as fra\u00e7\u00f5es interna e associada. Sobre isso, vejamos os cap\u00edtulos mais recentes a seguir, com a ascens\u00e3o do neofascismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O bloco no poder do Estado brasileiro durante os 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores\/PT (2003-2016) foi caracterizado pela ascens\u00e3o e hegemonia da grande burguesia interna brasileira, deslocando a hegemonia da burguesia associada (exercida nos governos de Fernando Henrique Cardoso do Partido da Social Democracia Brasileira\/PSDB, 1994-2002) e colocando seus interesses e do imperialismo (sobretudo estadunidense) em segundo plano (BERRINGER, 2015; BOITO JR. 2018; BUGIATO, 2016, MARTUSCELLI, 2015). Os governos de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva (2003-2006\/2007-2010) e Dilma Rousseff (2011-2014\/2015-2016) articularam uma frente pol\u00edtica neodesenvolvimentista, sob hegemonia da burguesia interna e composta por fra\u00e7\u00f5es das classes prolet\u00e1rias \u2013 segmentos populares importantes passaram a ter protagonismo pol\u00edtico-social no interior dessa frente \u2013, que sustentou os governos e colheu os benef\u00edcios da pol\u00edtica estatal. O programa neodesenvolvimentista, que atendia prioritariamente os interesses da grande burguesia interna, consistia, entre outros aspectos, em uso dos bancos p\u00fablicos (BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econ\u00f4mica Federal) para fomentar a industrializa\u00e7\u00e3o e o crescimento econ\u00f4mico, uso da Petrobr\u00e1s como centro da constru\u00e7\u00e3o da cadeia produtiva do petr\u00f3leo, pol\u00edtica de fortalecimento do mercado interno (cr\u00e9dito, aumento real do sal\u00e1rio m\u00ednimo, Bolsa-Fam\u00edlia e Previd\u00eancia Social), pol\u00edtica externa aut\u00f4noma, com \u00eanfase nas rela\u00e7\u00f5es com Am\u00e9rica Latina e \u00c1frica. O programa neodesenvolvimentista foi o desenvolvimentismo poss\u00edvel dentro do capitalismo neoliberal na periferia do sistema, que contornava as pol\u00edticas neoliberais, mas n\u00e3o as eliminava. V\u00e1rios projetos do capital estrangeiro e da burguesia associada foram contrariados e adiados, em particular a descoberta e a forma estabelecida para a explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal contrariou profundamente o imperialismo e a burguesia associada.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a crise mundial do capitalismo iniciada em 2008 abalou o programa neodesenvolvimentista, que passou a ter dificuldades de implementa\u00e7\u00e3o. A desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica come\u00e7ou no primeiro Governo Dilma e foi refor\u00e7ada por pol\u00edticas econ\u00f4micas de desonera\u00e7\u00f5es fiscais e pelo ajuste fiscal no in\u00edcio do segundo governo, transformando-se em recess\u00e3o econ\u00f4mica (BASTOS, 2017). Nesse contexto nacional e internacional de crise do capitalismo, a burguesia associada e o imperialismo recuperaram o protagonismo pol\u00edtico e voltaram ao ataque, incentivando, patrocinando e redirecionando as manifesta\u00e7\u00f5es populares de 2013 (originalmente contr\u00e1rias aos reajustes das tarifas do transporte p\u00fablico) contra o Governo Dilma e o PT, tendo como mote central a den\u00fancia da exist\u00eancia de corrup\u00e7\u00e3o generalizada no governo.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise ent\u00e3o criou as condi\u00e7\u00f5es para a ru\u00edna do programa neodesenvolvimentista e o consequente abandono da grande burguesia interna como base de sustenta\u00e7\u00e3o do governo. Assim, a grande maioria das fra\u00e7\u00f5es da burguesia se op\u00f4s ao governo Dilma, uma vez que este se mostrava incapaz de superar a crise econ\u00f4mica. O golpe de Estado de 2016, apoiado pela burguesia em seu conjunto, foi predominantemente uma a\u00e7\u00e3o do imperialismo e da burguesia associada que voltaram ao ataque para eliminar de vez o programa neodesenvolvimentista e restaurar as pol\u00edticas neoliberais a serem implementadas pelo Estado brasileiro, de modo a ir ao encontro de seus interesses (BOITO JR, 2018). Esse foi o car\u00e1ter do governo de Michel Temer, do Partido do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro\/PMDB, entre 2016 e 2018, junto com uma pol\u00edtica de austeridade. Embora o golpe de Estado tenha sido uma conflu\u00eancia de v\u00e1rios interesses, deu voz, sobretudo, a uma nova direita no Brasil, e a crise econ\u00f4mica criou as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4mico-sociais para o seu desenvolvimento, em especial parindo o que chamamos de neofascismo. A ascens\u00e3o do neofascismo no Brasil pode ser considerada ent\u00e3o resultado em boa parte de uma ofensiva da burguesia associada, como argumenta Poulantzas no livro <em>Fascismo e ditadura<\/em> (1971).<\/p>\n\n\n\n<p>O neofascismo no Brasil, paralelamente a sua articula\u00e7\u00e3o internacional, \u00e9 um movimento pol\u00edtico originado na alta classe m\u00e9dia \u2013 o que Poulantzas (1971) consideraria a pequena burguesia \u2013 , que esteve de fora do programa neodesenvolvimentista, impactada pela crise econ\u00f4mica e pela crise pol\u00edtica, esta oriunda das den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o no governo propagadas pela grande imprensa. O movimento tomou corpo nas manifesta\u00e7\u00f5es pela deposi\u00e7\u00e3o do governo Dilma a partir da vit\u00f3ria deste nas elei\u00e7\u00f5es de 2014, levando \u00e0 frente a palavra de ordem \u201cFora PT\u201d. O neofascismo pode ser caracterizado da seguinte forma. Em primeiro lugar, \u00e9 uma retomada de programas e ideologias de per\u00edodos passados (It\u00e1lia fascista e Alemanha nazista), em uma etapa hist\u00f3rica nova, o capitalismo neoliberal globalizado (BOITO JR, 2019) . Ademais \u00e9 caracterizado por: deslegitima\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e do Estado democr\u00e1tico de direito; reacionarismo moral e cultural (culto \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es), associado a um messianismo pol\u00edtico; valores individualistas (neoliberais) resumidos no bin\u00f4mio empreendedorismo-meritocracia, contr\u00e1rios \u00e0s pol\u00edticas sociais e aos direitos trabalhistas; anticomunismo hist\u00e9rico, rememorando o per\u00edodo da Guerra Fria e forjando um clima artificial de \u201camea\u00e7a comunista\u201d (identificada com o PT); e um nacionalismo vazio, (ret\u00f3rico e abstrato), declarado apenas na valoriza\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos nacionais, como a bandeira e hino. O movimento ainda \u00e9 conduzido pela cruzada anticorrup\u00e7\u00e3o, pol\u00edtica e seletivamente dirigida contra for\u00e7as de esquerda (e no limite a elimina\u00e7\u00e3o da esquerda) cujos agentes s\u00e3o as institui\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio Estado (lawfare): o Judici\u00e1rio (ju\u00edzes, promotores e procuradores), o Minist\u00e9rio P\u00fablico (procuradores) e a Pol\u00edtica Federal (delegados e agentes), incutidos de uma miss\u00e3o (irrealiz\u00e1vel no capitalismo) autodelegada, moral e salvacionista: acabar com a corrup\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Pode-se acrescentar ainda a mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de massa, com a constitui\u00e7\u00e3o de um movimento ativo, agressivo e, no limite, violento (FILGEIRAS e DRUCK, 2018 e 2019; BOITO, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a quarta vit\u00f3ria do PT nas elei\u00e7\u00f5es presid\u00eancias de 2014 e a quarta derrota do PSDB, tradicional aliado do imperialismo e representante da burguesia associada, estes, ainda diante da possibilidade da candidatura de Lula para 2018 e 2022, promoveram a alian\u00e7a com o crescente movimento neofascista, contra as pol\u00edticas dos governos do PT. O capital internacional e a grande burguesia brasileira associada confiscaram esse movimento de classe m\u00e9dia para, no caso do capital estadunidense e dos segmentos da grande burguesia brasileira a ele associados, perfilar o Estado e a economia brasileira ao lado dos Estados Unidos. Dessa forma, desde o governo Temer, o conte\u00fado da pol\u00edtica externa, da pol\u00edtica econ\u00f4mica e da pol\u00edtica social do Estado brasileiro prioriza os interesses do grande capital internacional, principalmente o estadunidense, e dos segmentos da burguesia brasileira a ele associados, e atende tamb\u00e9m, embora secundariamente, outros segmentos da burguesia brasileira, din\u00e2mica que continua no governo Bolsonaro, eleito em 2018. Portanto, s\u00e3o o imperialismo e a burguesia brasileira associada principalmente que ocupam o poder de Estado, a hegemonia do bloco no poder. A elei\u00e7\u00e3o de Jair Bolsonaro para presid\u00eancia da rep\u00fablica solidifica a alian\u00e7a entre a burguesia associada e o imperialismo com o movimento neofascista, um movimento ativo que forma um governo cuja chefia est\u00e1 entregue ao principal representante desse movimento, o atual presidente da rep\u00fablica (BOITO JR, 2019).<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, gestada em 2016 e sobretudo a partir de 2019, existe uma nova hegemonia, a hegemonia do capital internacional e dos segmentos da burguesia brasileira a ele associados. A burguesia interna, que foi a fra\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica nos governos do PT, sofreu derrotas e foi deslocada para uma posi\u00e7\u00e3o subordinada no interior do bloco no poder. Como j\u00e1 apontamos, nesse caso brasileiro, a despeito da interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica massiva de uma classe social intermedi\u00e1ria, o central do processo pol\u00edtico s\u00e3o os conflitos entre fra\u00e7\u00f5es da burguesia: burguesia associada e capital internacional <em>versus<\/em> a burguesia interna.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante esses apontamentos de pesquisa estejam voltados para a burguesia associada no Brasil, fazem-se v\u00e1lidos possivelmente para toda a Am\u00e9rica Latina, que igualmente \u00e9 uma regi\u00e3o perif\u00e9rica e dependente do capitalismo global, onde imperam as for\u00e7as estrangeiras, principalmente o imperialismo estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Caio Bugiato \u00e9 professor de Ci\u00eancia Pol\u00edtica e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ)<\/em>. <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"mailto:bugiato@gmail.com\" target=\"_blank\">bugiato@gmail.com<\/a> <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Refer\u00eancias <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BASTOS, Pedro Paulo Z. Ascens\u00e3o e crise do governo Dilma Rousseff e o golpe de 2016: poder estrutural, contradi\u00e7\u00e3o e ideologia. In: Revista de Economia Contempor\u00e2nea, n\u00famero especial, p. 1-63, 2017. Dispon\u00edvel em:&nbsp; <a href=\"http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rec\/v21n2\/1415-9848-rec-21-02-e172129.pdf\">http:\/\/www.scielo.br\/pdf\/rec\/v21n2\/1415-9848-rec-21-02-e172129.pdf<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>BERRINGER, Tatiana. A burguesia brasileira e a pol\u00edtica externa nos governos FHC e Lula. Curitiba: Ed. Appris, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>BOITO JUNIOR, Armando. O neofascismo no Brasil. In: Boletim LIERI. N. 1, Maio de 2019. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/lieri\/boletim-lieri-o-neofascismo-no-brasil\/\">http:\/\/laboratorios.ufrrj.br\/lieri\/boletim-lieri-o-neofascismo-no-brasil\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>______. Politica neoliberal e sindicalismo no Brasil. S\u00e3o Paulo, SP: Xam\u00e3, 1999.<\/p>\n\n\n\n<p>______. Reforma e crise pol\u00edtica no Brasil: os conflitos de classe nos governos do PT. Campinas, SP; S\u00e3o Paulo, SP: Editora da UNICAMP: Editora UNESP, 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>BRUNO, Regina. Senhores da Terra, senhores da guerra: a nova face pol\u00edtica das elites agroindustriais no Brasil. Rio de Janeiro. Forense Universit\u00e1ria\/EDUR, 1997.<\/p>\n\n\n\n<p>BUGIATO, Caio. A pol\u00edtica de financiamento do BNDES e a burguesia brasileira. 2016 ( 282 p.). Tese (doutorado) &#8211; Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Campinas, SP. 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>CAMPOS, Pedro Henrique Pedreira. &#8220;Estranhas catedrais&#8221;: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar, 1964-1988. Niter\u00f3i, RJ: Editora da Universidade Federal Fluminense, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>DINIZ, E. e BOSCHI R. A dif\u00edcil rota do desenvolvimento: Empres\u00e1rios e a agenda p\u00f3s-neoliberal. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p>FARIAS, Francisco Pereira de. Estado burgu\u00eas e classes dominantes no Brasil : (1930-1964). Curitiba, PR: CRV, 2017.<\/p>\n\n\n\n<p>FILGUEIRAS, Luiz e DRUCK, Gra\u00e7a. O governo Bolsonaro, o neofascismo e a resist\u00eancia democr\u00e1tica. In: Le Monde Diplomatique Brasil. Edi\u00e7\u00e3o Novembro 2018: Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/o-governo-bolsonaro-o-neofascismo-e-a-resistencia-democratica\/\">https:\/\/diplomatique.org.br\/o-governo-bolsonaro-o-neofascismo-e-a-resistencia-democratica\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>______. Para entender a conjuntura: Neoliberalismo, neofascismo e burguesia no Brasil. In: Le Monde Diplomatique Brasil. Edi\u00e7\u00e3o Maio 2019: Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/para-entender-a-conjuntura-neoliberalismo-neofascismo-e-burguesia-no-brasil\/\">https:\/\/diplomatique.org.br\/para-entender-a-conjuntura-neoliberalismo-neofascismo-e-burguesia-no-brasil\/<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>GORENDER, Jacob. A burguesia brasileira. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1982.<\/p>\n\n\n\n<p>MANCUSO, Wagner (2004). \u201cO Lobby da Ind\u00fastria no Congresso Nacional: Empresariado e Pol\u00edtica no Brasil Contempor\u00e2neo.\u201d Dados \u2013 Revista de Ci\u00eancias Sociais, vol 47, no. 3, pp. 505-547, 2004<\/p>\n\n\n\n<p>MARTUSCELLI, Danilo Enrico. Crises pol\u00edticas e capitalismo neoliberal no Brasil. Curitiba: CRV, 2015.<\/p>\n\n\n\n<p>MINELLA, Ary Cesar. Banqueiros: organiza\u00e7\u00e3o e poder politico no Brasil. Rio de Janeiro, RJ; [S.l.]: Espa\u00e7o e Tempo: Associa\u00e7\u00e3o Nacional de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o e Pesquisa em Ci\u00eancias Sociais, 1988.<\/p>\n\n\n\n<p>PERISSINOTTO, Renato M. (Renato Monseff). Classes dominantes e hegemonia na Rep\u00fablica Velha. Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 1994.<\/p>\n\n\n\n<p>POULANTZAS, Nicos. Classes sociais no capitalismo de hoje. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978.<\/p>\n\n\n\n<p>______. Crise das ditaduras \u2013 Portugal, Gr\u00e9cia, Espanha. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1976.<\/p>\n\n\n\n<p>______. Fascismo y dictadura: la tercera international frente al fascismo. Madrid: Siglo Veintiuno, 1971.<\/p>\n\n\n\n<p>______. Poder pol\u00edtico e classes sociais. S\u00e3o Paulo: Editora Martins Fontes, 1977.<\/p>\n\n\n\n<p>SAES, D\u00e9cio Azevedo Marques de. Republica do capital: capitalismo e processo pol\u00edtico no Brasil. S\u00e3o Paulo, SP: Boitempo, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Caio Bugiato* As pesquisas sobre o chamado empresariado brasileiro, ou a burguesia brasileira, j\u00e1 s\u00e3o tradicionais no pa\u00eds e constituem uma \u00e1rea de estudos vasta e complexa. Tais pesquisas t\u00eam uma diversidade de objetos, entre eles destacamos aquelas sobre setores ou fra\u00e7\u00f5es da classe dominante no Brasil, como \u00e9 o caso dos estudos de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[93,103],"tags":[320,599,419],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2241"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2241"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2241\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2266,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2241\/revisions\/2266"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}