{"id":2633,"date":"2024-04-14T11:06:52","date_gmt":"2024-04-14T14:06:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/?p=2633"},"modified":"2024-04-25T11:11:58","modified_gmt":"2024-04-25T14:11:58","slug":"ianni-octavio-origens-agrarias-do-estado-brasileiro-2a-ed-sao-paulo-brasiliense-2014-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/es\/2024\/04\/14\/ianni-octavio-origens-agrarias-do-estado-brasileiro-2a-ed-sao-paulo-brasiliense-2014-3\/","title":{"rendered":"IANNI, Octavio. Origens agr\u00e1rias do Estado Brasileiro. 2\u00aa. ed. S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 2014."},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por Mois\u00e9s J. Rech\u00a0<\/em>(ODELA)<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Sob v\u00e1rias perspectivas, a hist\u00f3ria do Brasil parece ser a hist\u00f3ria de um povoamento que n\u00e3o termina.<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Octavio Ianni<\/p>\n<p>Publicado originalmente em 1984, com segunda edi\u00e7\u00e3o publicada no ano da morte de seu autor, <em>Origens agr\u00e1rias do Estado Brasileiro<\/em> \u00e9 uma obra incontorn\u00e1vel do pensamento sociol\u00f3gico brasileiro. Juntamente com <em>Estado e capitalismo<\/em> (1965) e <em>Estado e planejamento econ\u00f4mico no Brasil<\/em> (1971), Ianni busca explorar \u2013 a partir dos conflitos de classe \u2013 a natureza do Estado no Brasil entre os per\u00edodos da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura at\u00e9 os anos finais da ditadura militar, um per\u00edodo que perpassa do in\u00edcio do ciclo do caf\u00e9 em 1880, a forma\u00e7\u00e3o do ciclo da cana-de-a\u00e7\u00facar at\u00e9 a posterior cria\u00e7\u00e3o da Sudene. Em linhas gerais, a hip\u00f3tese defendida por Ianni \u00e9 de que \u201ca quest\u00e3o agr\u00e1ria \u00e9 um elemento importante para explicar tanto as diversas formas adquiridas pelo Estado como as principais rupturas ocorridas na hist\u00f3ria deste\u201d (p. 241), em outras palavras, a quest\u00e3o agr\u00e1ria marca de forma decisiva a fisionomia do Estado \u2013 seja pelo poder moderador, pela pol\u00edtica dos governadores, pelo Estado Novo, pelo populismo ou militarismo \u2013, mediante a tomada de decis\u00f5es, cria\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os, desenvolvimento de pol\u00edticas, etc.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 organizado em tr\u00eas partes. A primeira, com o t\u00edtulo <em>A classe oper\u00e1ria vai ao campo<\/em>, analisa a expans\u00e3o do ciclo do caf\u00e9 na regi\u00e3o sudeste do Brasil. Ianni toma a cidade de Sert\u00e3ozinho como local privilegiado para investigar o processo de coloniza\u00e7\u00e3o da cafeicultura, mediante o decl\u00ednio do trabalho escravo com aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, a incorpora\u00e7\u00e3o do trabalho assalariado possibilitado pela Lei de Terras \u2013 que mercantilizou a terra e, por esse motivo, impedia seu acesso a boa parte dos imigrantes, que viam-se obrigados a vender sua for\u00e7a de trabalho nas fazendas de caf\u00e9 \u2013 e a imigra\u00e7\u00e3o europeia, com o processo de substitui\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra escrava pela assalariada. Esses fatores foram fundamentais para a expans\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es capitalistas na regi\u00e3o, com profunda altera\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>A substitui\u00e7\u00e3o paulatina do escravo pelo imigrante n\u00e3o significou melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho ou garantia de quaisquer direitos trabalhistas. Ao contr\u00e1rio, embora os latifundi\u00e1rios garantissem pequenas casas de tijolos, itens de primeira necessidade e cr\u00e9dito aos imigrantes, as longas jornadas de trabalho e o contrato de trabalho sob o regime do colonato \u2013 que obrigava ao trabalho toda a fam\u00edlia \u2013 expunha o imigrante a condi\u00e7\u00f5es de trabalho an\u00e1loga \u00e0 escravid\u00e3o. Al\u00e9m disso, a obrigatoriedade de consumirem no armaz\u00e9m das fazendas vinculava o imigrante a d\u00edvidas que os prendia ainda mais aos cafezais.<\/p>\n<p>Ianni destaca o ano de 1918 como in\u00edcio da policultura e o decl\u00ednio na monocultura de caf\u00e9. O algod\u00e3o e a cana-de-a\u00e7\u00facar se destacam nesse processo de diversifica\u00e7\u00e3o das atividades no campo. Entretanto, nos itens <em>A forma\u00e7\u00e3o da economia a\u00e7ucareira <\/em>e <em>A expans\u00e3o da agroind\u00fastria a\u00e7ucareira<\/em>, Ianni afirma que o ciclo da cana-de-a\u00e7\u00facar apenas tenha iniciado em 1944 com a expans\u00e3o da \u00e1rea de cultivo da cana para al\u00e9m das \u00e1reas de cultivo do caf\u00e9, o que demandava a cria\u00e7\u00e3o da usina enquanto unidade de mecaniza\u00e7\u00e3o da m\u00e3o-de-obra agr\u00edcola. Nesse contexto de mecaniza\u00e7\u00e3o, setores consider\u00e1veis dos trabalhadores do campo migraram para as cidades, reconfigurando a paisagem e reorganizando a polariza\u00e7\u00e3o entre cidade e campo. O apogeu da agroind\u00fastria brasileira se consolida a partir de 1960, quando Cuba deixa de exportar cana-de-a\u00e7\u00facar para o mercado norte-americano em raz\u00e3o da consecu\u00e7\u00e3o revolu\u00e7\u00e3o socialista. Em seu lugar, o Brasil passa a exportar para os mercadores anteriormente dominados pelos cubanos, impulsionando decisivamente o setor e urbanizando as rela\u00e7\u00f5es sociais em torno dos canaviais e das usinas.<\/p>\n<p>Nos itens <em>A sociedade da usina<\/em> e <em>O oper\u00e1rio da usina e do canavial<\/em>, Ianni reconstr\u00f3i a forma\u00e7\u00e3o de aglomerados urbanos em torno das usinas, ao mesmo tempo que surgem servi\u00e7os p\u00fablicos como sa\u00fade, escola, assist\u00eancia social, assim como programas de assist\u00eancia ao trabalhador rural, como a CLT, Funrural, Prorural, INPS, etc. A esse respeito, a Consolida\u00e7\u00e3o das Leis Trabalhistas de 1944 definia a condi\u00e7\u00e3o do oper\u00e1rio rural e industrial do setor canavieiro, com repercuss\u00f5es no sal\u00e1rio, acesso \u00e0 moradia, descontos da folha de pagamento, al\u00e9m de educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e previd\u00eancia social. Apesar disso, foi necess\u00e1rio esperar at\u00e9 a aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto da Trabalhador Rural em 1963 para a consolida\u00e7\u00e3o de garantias trabalhistas m\u00ednimas do setor.<\/p>\n<p>Nos itens seguintes, Ianni aborda as classes e modalidades de trabalho no campo. <em>O b\u00f3ia-fria<\/em> \u00e9 uma forma espec\u00edfica de trabalho utilizada para a colheita da safra de cana-de-a\u00e7\u00facar, sem v\u00ednculo ou qualquer garantia trabalhista. Entre as fases de planta\u00e7\u00e3o, colheita, transporte e tratamento na usina, h\u00e1 uma cadeia de rela\u00e7\u00f5es trabalhistas e subclasses que Ianni busca abordar no item seguinte: <em>A classe oper\u00e1ria<\/em>. A an\u00e1lise das formas de trabalho da classe oper\u00e1ria \u00e9 determinante para se compreender a din\u00e2mica e correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes. Ianni destaca as diferen\u00e7as entre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho e a vida dos trabalhadores, sejam eles residentes nas fazendas ou n\u00e3o. Os residentes nas fazendas possuem carte de trabalho assinada e garantias trabalhistas previstas na legisla\u00e7\u00e3o, os segundos s\u00e3o contratados informalmente, e recebem pelo produto de seu trabalho, sendo m\u00e3o-de-obra substitu\u00edvel.<\/p>\n<p>No ap\u00eandice <em>Trabalho e multiplica\u00e7\u00e3o<\/em>, Ianni compara as rela\u00e7\u00f5es familiares e sexuais entre os trabalhadores do caf\u00e9 e da cana-de-a\u00e7\u00facar. Nos cafezais, as rela\u00e7\u00f5es de clientelismo e compadrio, parentesco e religiosidade regiam as rela\u00e7\u00f5es sociais, o que implicava que a multiplica\u00e7\u00e3o dos filhos era vista como multiplica\u00e7\u00e3o da for\u00e7a de trabalho, uma fam\u00edlia grande significava garantias para gerar poupan\u00e7a e seguran\u00e7a na velhice. Por outro lado, a ind\u00fastria a\u00e7ucareira foi respons\u00e1vel pela urbaniza\u00e7\u00e3o do campo, o que implicou na reorganiza\u00e7\u00e3o da estrutura familiar, com a introdu\u00e7\u00e3o da p\u00edlula contraceptiva que permitia o controle de natalidade por parte da mulher, a educa\u00e7\u00e3o formal, a carteira de trabalho e a regularidade do sal\u00e1rio auxiliaram na incorpora\u00e7\u00e3o do trabalho feminino.\u00a0<\/p>\n<p>Na segunda parte do livro, com t\u00edtulo <em>Classes agr\u00e1rias e sociedade nacional<\/em>, Ianni inicia sua an\u00e1lise a partir da tomada do poder por Get\u00falio Vargas, destituindo as tradicionais oligarquias agr\u00e1rias em benef\u00edcio da classe industrial e urbana. A partir de 1930 a cidade passa a ter predom\u00ednio sobre o campo, e o setor industrial prepondera sobre o setor agr\u00edcola. O t\u00f3pico <em>A constitui\u00e7\u00e3o do proletariado agr\u00edcola<\/em> aprofunda a an\u00e1lise sobre as mudan\u00e7as havidas no campo com a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, como a nova organiza\u00e7\u00e3o do tempo e a administra\u00e7\u00e3o da empresa. A substitui\u00e7\u00e3o dos bra\u00e7os pelas engrenagens desencadeia o movimento de emigra\u00e7\u00e3o dos trabalhadores do campo para a cidade, o que permitir\u00e1 a forma\u00e7\u00e3o de grande contingente de m\u00e3o-de-obra na ind\u00fastria.<\/p>\n<p>Nos tr\u00eas t\u00f3picos seguintes, intitulados, <em>Rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o e proletariado rural<\/em>, <em>B\u00f3ia-fria e mais-valia<\/em> e <em>Classes sociais rurais<\/em> concentram uma an\u00e1lise extensiva da fisionomia do trabalho no campo. No primeiro item, Ianni realiza uma investiga\u00e7\u00e3o a respeito das tr\u00eas figuras centrais do trabalhador agr\u00edcola: o escravo, o lavrador e o oper\u00e1rio rural. Em linhas gerais, o proletariado rural, enquanto trabalhador assalariado, surge com a dissolu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de escravid\u00e3o e com a posterior transi\u00e7\u00e3o para o sistema de colonato. No segundo item, Ianni volta a abordar o trabalho do boia-fria enquanto trabalhadores intermitente e assalariado. A extra\u00e7\u00e3o da mais-valia realiza-se nessa forma de trabalho com as longas jornadas e a intensividade do uso da for\u00e7a de trabalho, que esgota os limites necess\u00e1rios para sua reprodu\u00e7\u00e3o social. Por esse motivo, o boia-fria busca emprego est\u00e1vel, com controle da jornada de trabalho e seu pr\u00f3prio lote de terras para autossubsist\u00eancia. Por fim, no terceiro item, Ianni avan\u00e7a na an\u00e1lise da forma\u00e7\u00e3o das classes sociais a partir da consolida\u00e7\u00e3o do capitalismo no campo e na cidade. Os trabalhadores se articularam em torno de pautas de melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho, especialmente em movimentos sindicalistas e pela terra, deixando um legado de lutas, conquistas e derretas para as gera\u00e7\u00f5es posteriores.<\/p>\n<p>No item anterior, Ianni prepara uma abordagem acerca das <em>Lutas sociais no campo<\/em> e d\u2019<em>A sociedade agr\u00e1ria<\/em>, itens dedicados a investigar a articula\u00e7\u00e3o das lutas sociais por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e, acima de tudo, pela posse da terra. A luta entre interesses antag\u00f4nicos entre as classes torna necess\u00e1ria a atua\u00e7\u00e3o do aparelho de Estado na manuten\u00e7\u00e3o dos interesses clientelistas. N\u00e3o por outro motivo, nos t\u00f3picos em an\u00e1lise, Ianni torna ostensiva a presen\u00e7a do Estado para demonstrar sua articula\u00e7\u00e3o com os interesses de classe. Em especial no item <em>A sociedade agr\u00e1ria<\/em>, Ianni indica os elementos de sua constitui\u00e7\u00e3o: o capital, a tecnologia, as for\u00e7as produtivas, a for\u00e7a de trabalho, a divis\u00e3o do trabalho, a viol\u00eancia e o planejamento do Estado. Como observa-se, a introdu\u00e7\u00e3o da figura do Estado est\u00e1 articulada com as lutas sociais no campo e o avan\u00e7o da agroind\u00fastria, cujas ag\u00eancias de desenvolvimento (Sudene, Sudam e Sudesul) impulsionaram a introdu\u00e7\u00e3o do capitalismo em toda a extens\u00e3o territorial do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Na terceira parte do livro, sob o t\u00edtulo <em>Agricultura e Estado<\/em>, Ianni avan\u00e7a na an\u00e1lise da atua\u00e7\u00e3o do Estado na economia agr\u00edcola brasileira. Para isso, analisa dos importantes eventos hist\u00f3ricos: a revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e o golpe militar de 1964 enquanto momentos de impulsionamento da burguesia rural brasileira.<\/p>\n<p>No item <em>A crise do caf\u00e9 e a revolu\u00e7\u00e3o de 1930<\/em> a crise econ\u00f4mica mundial \u00e9 caracterizada por Ianni como um dos mais importantes acontecimentos do s\u00e9culo XX, em especial por criar as condi\u00e7\u00f5es para o florescimento da teoria econ\u00f4mica keynesiana, que reconstruiu os princ\u00edpios da economia pol\u00edtica do capitalismo. No Brasil a Grande Depress\u00e3o p\u00f4s a nu a fragilidade da economia prim\u00e1rio exportadora, que passou a ver no Estado um agente indutor do processo de acumula\u00e7\u00e3o que, agora, era conduzido pela industrializa\u00e7\u00e3o urbana. Assim como nos Estados Unidos da Am\u00e9rica a recandidatura do presidente Herbert Hoover foi substitu\u00edda por Franklin Roosevelt, no Brasil, e ao seu modo, Washington Luiz foi deposto por Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>Em ambos os casos, as velhas doutrinas liberais foram abandonadas pela centraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica no Poder Executivo a partir do planejamento centralizado mediante a cria\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os e institui\u00e7\u00f5es estatais. Se nos EUA o <em>New Deal<\/em> foi o indutor de profundas transforma\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas conduzidas pelo Estado, no Brasil a substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es foi realizada pela cria\u00e7\u00e3o de estatais como a Companhia Vale do Rio Doce (CRVD), a Companhia Hidrel\u00e9trica do S\u00e3o Francisco (Chesf), a F\u00e1brica Nacional de Motores (FNM), a Companhia Sider\u00fargica Nacional (CSN), o Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES) e a Petrobras.<\/p>\n<p>A crise do caf\u00e9 provocou uma crise do Estado olig\u00e1rquico, que j\u00e1 estava desgastado pela greve oper\u00e1ria de 1917 e pelo movimento tenentista de 1922, situa\u00e7\u00e3o que se agravou com a crise econ\u00f4mica de 1929 e com a vit\u00f3ria eleitoral de J\u00falio Prestes \u2013 candidato das oligarquias cafeeiras. A oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s oligarquias cafeeiras que se formou durante a Primeira Rep\u00fablica conduziu a Revolu\u00e7\u00e3o de 30, e nas palavras de Ianni \u201ca <em>cidade<\/em> venceu o <em>campo<\/em>\u201d (p. 200), onde a conflu\u00eancia da crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica havia preparado a liquida\u00e7\u00e3o do Estado olig\u00e1rquico.<\/p>\n<p>Entretanto, no t\u00f3pico seguinte, com o t\u00edtulo <em>As ligas camponesas e a cria\u00e7\u00e3o da Sudene<\/em>, Ianni estabelece uma quebra em sua sequ\u00eancia cronol\u00f3gica de an\u00e1lise. Deixa de analisar o per\u00edodo da industrializa\u00e7\u00e3o varguista \u2013 e da consequente reconfigura\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es do Estado \u2013 para manter seu exame a respeito das origens agr\u00e1rias do Estado. Para isso, salta de 1930 para 1959, de Vargas a Kubitschek. A cria\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os e ag\u00eancias de desenvolvimento foi devida pelo car\u00e1ter desigual das regi\u00f5es do Brasil, especialmente as regi\u00f5es onde o baixo desenvolvimento desencadeia processos de colonialismo interno por regi\u00f5es mais desenvolvidas. Em outras palavras, as zonas de estagna\u00e7\u00e3o revelavam a agudiza\u00e7\u00e3o de antagonismos no pa\u00eds que poderiam desencadear um processo pr\u00e9-revolucion\u00e1rio, em especial com a forma\u00e7\u00e3o org\u00e2nica de lideran\u00e7as camponesas e de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores no campo.<\/p>\n<p>Ianni destaca como a cria\u00e7\u00e3o da Sudene (Superintend\u00eancia de Desenvolvimento do Nordeste) estava relacionada diretamente \u00e0 economia agr\u00e1ria da regi\u00e3o Nordeste, i.e., a fisionomia da arquitetura institucional do Estado era reflexo da din\u00e2mica de for\u00e7as no campo. O objetivo institucional da cria\u00e7\u00e3o da Superintend\u00eancia era o desenvolvimento da regi\u00e3o \u2013 n\u00e3o para equilibrar o desenvolvimento regional e evitar o colonialismo interno realizado pelas regi\u00e3o Centro-Sul, mas para desarticular a mobiliza\u00e7\u00e3o popular de camponeses que tomava propor\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias. \u201cTornou-se necess\u00e1rio aperfei\u00e7oar as rela\u00e7\u00f5es entre o Estado e a economia na \u00e1rea\u201d (p. 214).<\/p>\n<p>Ao final do livro, Ianni dedica os \u00faltimos dois t\u00f3picos para uma an\u00e1lise do Estado com o trabalhador rural e as mudan\u00e7as havidas no Estado frente as mudan\u00e7as nas estruturas agr\u00e1rias no pa\u00eds. As metamorfoses do trabalho rural \u2013 que passaram desde o trabalho escravo at\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o do sistema de colonato, passando pelo monoextrativismo da borracha pelo seringueiro e do corte de cana-de-a\u00e7\u00facar pelo boia-fria, at\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o da grande empresa com o surgimento da figura do trabalhador assalariado rural \u2013 \u00e9 a hist\u00f3ria da constitui\u00e7\u00e3o do capitalismo no Brasil. Do trabalho escravo at\u00e9 o Estatuto do Trabalhador Rural foram s\u00e9culos de lutas realizadas pela classe trabalhadora, que se cristalizaram em legisla\u00e7\u00f5es e na pr\u00f3pria estrutura do Estado com a cria\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os para a regulamenta\u00e7\u00e3o da atividade no campo.<\/p>\n<p>Por fim, o \u00faltimo item, <em>A quest\u00e3o agr\u00e1ria e as formas do Estado<\/em>, Ianni destaca a correla\u00e7\u00e3o entre a quest\u00e3o agr\u00e1ria no Brasil e as mudan\u00e7as havidas no Estado. O poder moderador durante o Imp\u00e9rio, a pol\u00edtica dos governadores durante a Primeira Rep\u00fablica, a revolu\u00e7\u00e3o de 1930 com o surgimento da Segunda Rep\u00fablica e o Estado Novo com a revolu\u00e7\u00e3o varguista, o populismo da Quarta Rep\u00fablica e o militarismo do Golpe de 1964 s\u00e3o processos hist\u00f3ricos relacionados com as for\u00e7as pol\u00edticas do campo. Al\u00e9m disso, institui\u00e7\u00f5es como a Igreja, o ex\u00e9rcito e os interesses imperialistas s\u00e3o determinantes para compreender a forma\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Cada regi\u00e3o do pa\u00eds caracterizou-se por uma forma espec\u00edfica de cultivo agr\u00e1rio. A regi\u00e3o amaz\u00f4nica pela borracha e extrativismo, o Nordeste pela cana-de-a\u00e7\u00facar, gado e agricultura, o Sudeste pelo caf\u00e9, a regi\u00e3o Sul pela pecu\u00e1ria na regi\u00e3o do pampa. Assim, segundo Ianni, \u201ca agricultura, por seus surtos de expans\u00e3o e crise, tanto assinala a ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio como a conforma\u00e7\u00e3o das estruturas regionais. E assinala tamb\u00e9m algumas condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas das articula\u00e7\u00f5es entre regi\u00e3o e na\u00e7\u00e3o\u201d (p. 243).<\/p>\n<p>E assim como cada regi\u00e3o articula-se em um setor produtivo diverso, os per\u00edodos hist\u00f3ricos do bloco no poder correspondem a cada arranjo produtivo. Durante o Imp\u00e9rio, entre 1822 at\u00e9 1888 o bloco no poder era hegemonizado pela burguesia agr\u00e1ria a\u00e7ucareira, posteriormente aglutinada com a burguesia agr\u00e1ria cafeeira que compunha boa parte da for\u00e7a pol\u00edtica da monarquia. Entretanto, o movimento abolicionista e a nova cafeicultura paulista derrubam a monarquia e assumem a hegemonia do bloco no poder durante a Primeira Rep\u00fablica, entre 1888 at\u00e9 1930. Posteriormente, entre os anos de 1930 at\u00e9 o Golpe Militar de 64 o bloco no poder foi administrado pela burguesia agr\u00e1ria e industrial, at\u00e9 que posteriormente a 1964 o bloco passa a ser hegemonizado pela burguesia industrial, at\u00e9 que a ascens\u00e3o do neoliberalismo impulsionou a burguesia financeira nos anos p\u00f3s-ditadura militar.<\/p>\n<p>Embora publicada originalmente em 1984, a obra de Ianni possui atualidade para pensar o Estado brasileiro contempor\u00e2neo. A forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica brasileira de car\u00e1ter agr\u00e1rio, prim\u00e1rio-exportador, permanece at\u00e9 a atualidade. A for\u00e7as pol\u00edticas do campo permanecem organizadas em sindicatos e partidos pol\u00edticos, determinando a estrutura do Estado e fazendo uso de suas institui\u00e7\u00f5es para atender seus interesses. Sistemas de financiamento por bancos p\u00fablicos (BNDES), programas de pesquisa e inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica para o campo (INCRA) e legisla\u00e7\u00e3o ambiental flex\u00edvel (C\u00f3digo Florestal) s\u00e3o exemplos de como a fisionomia do Estado brasileiro \u00e9 determinada pela quest\u00e3o agr\u00e1ria. Assim, <em>Origens agr\u00e1rias do Estado brasileiro<\/em> consiste numa obra incontorn\u00e1vel para pensar a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do Estado brasileiro e refletir sobre a for\u00e7a pol\u00edtica do campo no interior do bloco no poder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Mois\u00e9s J. Rech\u00a0(ODELA) Sob v\u00e1rias perspectivas, a hist\u00f3ria do Brasil parece ser a hist\u00f3ria de um povoamento que n\u00e3o termina. Octavio Ianni Publicado originalmente em 1984, com segunda edi\u00e7\u00e3o publicada no ano da morte de seu autor, Origens agr\u00e1rias do Estado Brasileiro \u00e9 uma obra incontorn\u00e1vel do pensamento sociol\u00f3gico brasileiro. 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