{"id":2684,"date":"2025-05-16T09:48:31","date_gmt":"2025-05-16T12:48:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/?p=2684"},"modified":"2025-05-16T10:08:27","modified_gmt":"2025-05-16T13:08:27","slug":"a-extrema-direita-na-america-latina-questoes-e-hipoteses-para-estudo-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/en\/2025\/05\/16\/a-extrema-direita-na-america-latina-questoes-e-hipoteses-para-estudo-2\/","title":{"rendered":"A extrema direita na Am\u00e9rica Latina: quest\u00f5es e hip\u00f3teses para estudo"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Por <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/nepec\/daniel-daltoe-emmanuel\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Daniel D. Emmanuel<\/a><\/em> (ODELA)<\/p>\n<p>O surgimento ou fortalecimento de movimentos e organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita no \u00faltimo per\u00edodo tem proporcionado uma s\u00e9rie de estudos que procuram explica\u00e7\u00f5es para o este fen\u00f4meno, e suas consequ\u00eancias sociais e pol\u00edticas, em especial ao que parece significar o enfraquecimento dos regimes democr\u00e1ticos.<\/p>\n<p>Contudo, as an\u00e1lises mais em voga, de car\u00e1ter institucionalista e\/ou formalista, se limitam a construir uma fenomenologia desses movimentos de extrema direita, atrav\u00e9s do emprego de conceitos como populismo (Sponholz; \u00d6zvatan, 2024), ou atrav\u00e9s dos meios e das \u201cnarrativas\u201d empregadas por estas organiza\u00e7\u00f5es e movimentos, como o uso das m\u00eddias sociais e as chamadas pautas de costume conservadores (Maia, 2023), para apresent\u00e1-los como um desvio da \u201cnormalidade democr\u00e1tica\u201d. Deste modo, deixam de questionar sobre as causas estruturais e sobre os processos sociais e pol\u00edticos relacionados ao surgimento destes movimentos.<\/p>\n<p>Na minha opini\u00e3o, a extrema direita na atualidade s\u00f3 pode ser compreendida partir das necessidades do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, em especial a continuidade e acelera\u00e7\u00e3o do neoliberalismo e da consequente luta de classes e fra\u00e7\u00f5es de classes que se desenvolvem em torno das pol\u00edticas de austeridade, que se afiguram como condicionantes das formas de Estado e dos pr\u00f3prios limites dos regimes democr\u00e1ticos (Mattei; Singh, 2024). Rela\u00e7\u00e3o esta que se tornou ainda mais evidente e contradit\u00f3ria a partir da crise econ\u00f4mica de 2008 e a consequente desestabiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mundial e dos Estados nacionais, com a emerg\u00eancia de uma esp\u00e9cie de neoliberalismo autorit\u00e1rio (Granato, 2024).<\/p>\n<p>O presente texto \u00e9 uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o do tema. Foi elaborado como exerc\u00edcio para sistematizar algumas quest\u00f5es e hip\u00f3teses, a partir do di\u00e1logo com outros autores, que talvez possam contribuir para o estudo extrema direita na atualidade, suas causas estruturais, sua din\u00e2mica, e as suas rela\u00e7\u00f5es a crise de hegemonia, do Estado e dos regimes democr\u00e1ticos que t\u00eam sido a express\u00e3o da crise pol\u00edtica nos \u00faltimos anos. O foco na Am\u00e9rica Latina, procura evitar tanto a universalidade das leis gerais, quanto a singularidade de cada pa\u00eds, mas tendo em conta as peculiaridades sociais e hist\u00f3ricas da regi\u00e3o e sua rela\u00e7\u00e3o com o capitalismo mundial, no que o intelectual equatoriano Agust\u00edn Cueva chamou de \u201cn\u00edvel intermedi\u00e1rio\u201d ou \u201cdo particular\u201d (Cueva, 2013).<\/p>\n<p>Como ponto de partida, adoto a an\u00e1lise feita em por Tzeiman (2024), que avalia que os abalos estruturais provocados pela crise econ\u00f4mica mundial de 2008 conduziu a uma crise dos Estados latino-americanos, expressa na forma de crise dos regimes democr\u00e1tico liberais, resultante da contradi\u00e7\u00e3o entre as necessidades do neoliberalismo (mais explorat\u00f3rio) e os limites dos regimes democr\u00e1ticos constitu\u00eddos na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Ponto relevante \u00e9 a conclus\u00e3o do autor de que esta crise tem proporcionado uma din\u00e2mica de recrudescimento e redu\u00e7\u00e3o da permeabilidade do Estado para viabilizar a implementa\u00e7\u00e3o das medidas neoliberais &#8211; mobiliza o conceito de estatismo autorit\u00e1rio, de Poulantzas &#8211; e, com isso, tem provocado uma disputa entre as fra\u00e7\u00f5es da classe dominante no bloco no poder pela dire\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica estatal. Trata-se de um processo em curso, um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o, cuja din\u00e2mica tende a ser a forma\u00e7\u00e3o de regimes pol\u00edticos h\u00edbridos, mais inst\u00e1veis e caracterizados pela combina\u00e7\u00e3o de democracia e autoritarismo, at\u00e9 que seja poss\u00edvel a consolida\u00e7\u00e3o de uma nova forma de Estado que melhor corresponda \u00e0s press\u00f5es do capital financeiro pela implementa\u00e7\u00e3o do receitu\u00e1rio da austeridade (Tzeiman, 2024).<\/p>\n<p>Subsidiariamente, me baseio algumas em algumas reflex\u00f5es presentes na an\u00e1lise de Martuscelli (2024) do que o autor chamou de neogolpismo contra governos progressistas na regi\u00e3o no \u00faltimo per\u00edodo. Partindo de interpreta\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 Tzeiman (2024) no que se refere \u00e0 crise do Estado e das democracias latino-americanas em decorr\u00eancia das necessidades do neoliberalismo, o autor critica as abordagens institucionalistas e formalistas, e explica os processos golpistas como parte das disputas no bloco no poder pelo controle da pol\u00edtica estatal &#8211; crise de hegemonia &#8211; que n\u00e3o t\u00eam resultado em mudan\u00e7a de regime.<\/p>\n<p>Importante notar que, ao lado da forma\u00e7\u00e3o de regimes h\u00edbridos e do neogolpismo, Tzeiman e Martuscelli (2024) relacionam o surgimento e o crescimento de organiza\u00e7\u00f5es e movimentos de extrema direita (como tamb\u00e9m a radicaliza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria) como o terceiro desdobramento da contradi\u00e7\u00e3o entre neoliberalismo e democracia liberal na atual conjuntura na regi\u00e3o. \u00c9 neste ponto que concentro minha an\u00e1lise, procurando dialogar com as outras dimens\u00f5es abordadas pelos autores nos artigos citados acima.<\/p>\n<p>Com o objetivo de organizar e hierarquizar a problematiza\u00e7\u00e3o em torno da tem\u00e1tica proposta, vou dividir o presente texto em tr\u00eas partes: na primeira, abordo as causas estruturais da extrema direita e os sujeitos sociais representados por esta corrente; na segunda, discuto a caracteriza\u00e7\u00e3o e os aspectos ideol\u00f3gicos da extrema direita; por fim, na terceira, esbo\u00e7o algumas ideias para elabora\u00e7\u00e3o de progn\u00f3sticos sobre a din\u00e2mica extrema direita no processo de crise dos Estados e dos regimes democr\u00e1ticos em curso.<\/p>\n<h1>Das causas estruturais da emerg\u00eancia da extrema direita na Am\u00e9rica Latina<\/h1>\n<p>Seguindo a elabora\u00e7\u00e3o de Tzeiman (2024) sobre a crise dos regimes (sob forma de crise de hegemonia), minha hip\u00f3tese \u00e9 que a emerg\u00eancia dos movimentos de extrema direita s\u00e3o consequ\u00eancia da reconfigura\u00e7\u00e3o do bloco no poder, e se apresentam como alternativa de disputa pela dire\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica estatal. Dito de outro modo, a emerg\u00eancia da extrema direita na regi\u00e3o (assim como em outras partes do mundo) deve ser interpretada como subproduto do neoliberalismo mais extremado surgido da crise econ\u00f4mica mundial de 2008 e da consequente desestabiliza\u00e7\u00e3o do sistema internacional que se expressa nas disputas comerciais, geopol\u00edticas e conflitos b\u00e9licos que s\u00e3o as caracter\u00edsticas da atual etapa do capitalismo.<\/p>\n<p>Esta hip\u00f3tese nos remete a algumas quest\u00f5es que devem ser mais bem analisadas: quais rela\u00e7\u00f5es pode haver entre a crise econ\u00f4mica e a implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo autorit\u00e1rio e o surgimento ou emerg\u00eancia de movimentos e organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita? Estes movimentos s\u00e3o causas ou consequ\u00eancias deste neoliberalismo extremado? Quais setores ou fra\u00e7\u00f5es de classes tem seus interesses representados por estes movimentos de extrema direita?<\/p>\n<p>Analisando o caso brasileiro, tamb\u00e9m partindo da constata\u00e7\u00e3o de crise de hegemonia no bloco no poder, Boito Jr. (2021) procura responder a essas quest\u00f5es afirmando que a extrema direita no Brasil \u00e9 resultado da rea\u00e7\u00e3o das classes m\u00e9dias contra as medidas progressistas implementadas durante os governos de Lula e Dilma. O que nos permite entender que, para o referido autor, a extrema direita no Brasil \u00e9 representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das classes intermedi\u00e1rias, que tem como objetivo central reverter as conquistas dos governos progressistas para garantir a implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo mais extremado no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Esse entendimento \u00e9 compartilhado por outros autores que analisam a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica na regi\u00e3o. Katz (2023), por exemplo, afirmou que a \u201cextrema-direita latino-americana tem determinantes muito espec\u00edficos. Acima de tudo, expressa a rea\u00e7\u00e3o de grupos dominantes contra as melhorias obtidas durante o ciclo progressista da d\u00e9cada anterior\u201d. A diferen\u00e7a aqui \u00e9 que a extrema direita seria um movimento, n\u00e3o das classes m\u00e9dias, mas diretamente patrocinado pelas classes dominantes como forma de impor um neoliberalismo mais extremado na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O primeiro problema que me parece haver nestas interpreta\u00e7\u00f5es est\u00e1 na conceitua\u00e7\u00e3o do sujeito social representado pela extrema direita. O conceito de \u201cclasses dominantes\u201d, utilizado por Katz (2023), \u00e9 bastante gen\u00e9rico e n\u00e3o nos permite avaliar as disputas e os conflitos entre as v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es da burguesia, inclusive em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 intensidade, velocidade e contradi\u00e7\u00f5es para implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo, o que \u00e9 necess\u00e1rio para an\u00e1lise pol\u00edtica. J\u00e1 o conceito de \u201cclasse m\u00e9dia\u201d mobilizado por Boito Jr. (2021) \u00e9 demasiadamente el\u00e1stico, e n\u00e3o nos permite uma defini\u00e7\u00e3o precisa de quais setores sociais t\u00eam seus interesses representados pela extrema direita.<\/p>\n<p>O segundo problema est\u00e1 em deduzir que a extrema direita surge diretamente como rea\u00e7\u00e3o contra os avan\u00e7os dos governos progressistas e meio para implementa\u00e7\u00e3o de um neoliberalismo mais agressivo na regi\u00e3o, j\u00e1 que esta hip\u00f3tese exigiria um grau de racionalidade e de organicidade das \u201cclasses dominantes\u201d ou das \u201cclasses m\u00e9dias\u201d que me parece n\u00e3o existir. No meu entender, a chave para compreender o surgimento ou emerg\u00eancia da extrema direita est\u00e1 nas disputas e nos conflitos entre as classes e fra\u00e7\u00f5es de classes, que se intensificaram ap\u00f3s o agravamento da crise mundial, e nos reflexos que estes embates t\u00eam produzido no sistema pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Uma an\u00e1lise mais detida, podemos ver que os golpes e tentativas de golpe contra governos progressistas se deram pela necessidade de acelerar ou intensificar a aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de austeridade. Por\u00e9m, estes movimentos n\u00e3o foram dirigidos por for\u00e7as de extrema direita, mas pelas pr\u00f3prias fra\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas da burguesia, que atuaram como for\u00e7a motriz destes golpes (Martuscelli, 2021). Inclusive no caso brasileiro, conforme examinado por Boito Jr. (2020), me parece bastante claro que o golpe contra o governo Dilma foi patrocinado e apoiado por for\u00e7as pol\u00edticas tradicionais, enquanto a extrema direita s\u00f3 apareceu em cena depois, durante o governo Temer, quando j\u00e1 havia uma acelera\u00e7\u00e3o das medidas de austeridade, o que pode inclusive sinalizar que \u00e9 uma consequ\u00eancia deste processo, n\u00e3o uma de suas causas.<\/p>\n<p>Por outro lado, nos pa\u00edses em que houve uma continuidade dos governos vinculados ao neoliberalismo, como, por exemplo, o Chile, as pr\u00f3prias for\u00e7as ligadas \u00e0 burguesia hegem\u00f4nica aceleraram a implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo mais autorit\u00e1rio, combinando a intensifica\u00e7\u00e3o das medidas de austeridade com um aumento da repress\u00e3o dos movimentos de oposi\u00e7\u00e3o (Tzeiman, 2024). Ainda assim, vemos surgir um movimento de extrema direita cr\u00edtico a esses governos e que se apresenta como alternativa de poder. Nestes casos tamb\u00e9m a extrema direita parece emergir em decorr\u00eancia da implanta\u00e7\u00e3o do neoliberalismo mais extremado, nas fissuras das disputas entre fra\u00e7\u00f5es da burguesia e for\u00e7ando a crise dos regimes.<\/p>\n<p>Examinando a conjuntura atual, Perry Anderson prop\u00f5e que, tanto o \u201cpopulismo de direita\u201d, como o \u201cpopulismo de esquerda\u201d, surgem como rea\u00e7\u00e3o contra as contradi\u00e7\u00f5es provocadas pelo neoliberalismo. Al\u00e9m disso, ele ressalta que estes movimentos, mesmo quando chegam ao governo, acabam por dar seguimento \u00e0s pol\u00edticas neoliberais, visto que nenhuma das duas correntes, segundo o referido autor, \u201cproduziu at\u00e9 agora um rem\u00e9dio poderoso para os males que denuncia\u201d (Anderson, 2025). Embora o historiador brit\u00e2nico n\u00e3o entre na discuss\u00e3o dos sujeitos sociais representados por cada um destes \u201cpopulismos\u201d, me parece que essa interpreta\u00e7\u00e3o pode explicar melhor as contradi\u00e7\u00f5es geradas pelas medidas de austeridade e os seus desdobramentos (desiguais e combinados) na estrutura pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Estas considera\u00e7\u00f5es me levam \u00e0 seguinte hip\u00f3tese: a extrema direita \u00e9 express\u00e3o pol\u00edtica das fra\u00e7\u00f5es marginais da burguesia e da pequena burguesia, que emerge como rea\u00e7\u00e3o contra os efeitos da crise econ\u00f4mica mundial e parte das medidas de austeridade propostas pelo neoliberalismo. Digo em parte, porque \u00e9 evidente que h\u00e1 um consenso na burguesia no que tange \u00e0 restri\u00e7\u00e3o de direitos sociais e trabalhistas e na manuten\u00e7\u00e3o do funcionamento das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m me parece tamb\u00e9m evidente que h\u00e1 atritos entre as fra\u00e7\u00f5es da burguesia em rela\u00e7\u00e3o ao restante do receitu\u00e1rio neoliberal, como no que se refere \u00e0 corte de subs\u00eddios estatais, moderniza\u00e7\u00e3o e regula\u00e7\u00e3o, que, se implementados, podem significar inclusive a ru\u00edna de setores menos desenvolvidos da burguesia.<\/p>\n<p>Consequentemente, estes atritos e disputas entre as fra\u00e7\u00f5es da burguesia parecem desestabilizar o bloco no poder e, com isso, ser o catalisador da crise dos Estados e dos regimes democr\u00e1ticos na regi\u00e3o, no qual o surgimento ou emerg\u00eancia da extrema direita pode se apresentar como um dos elementos. Ou seja, ainda que as organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita deem continuidade \u00e0s pol\u00edticas de austeridade (seja pela incapacidade da burguesia marginal e da pequena burguesia oferecer qualquer alternativa para o conjunto da sociedade, seja pelo peso que os setores hegem\u00f4nicos da burguesia atuam para manter o controle do Estado e coibir aventuras) o que est\u00e1 em disputa \u00e9 o ritmo, a intensidade e a forma das medidas de austeridade. Assim, esta disputa pela pol\u00edtica estatal entre as fra\u00e7\u00f5es da burguesia reafirma que o Estado se mostra n\u00e3o s\u00f3 instrumento pol\u00edtico de domina\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m de interven\u00e7\u00e3o na realidade concreta, que pode adiantar ou retardar o ritmo do desenvolvimento capitalista (Fernandes, 2020), que no atual per\u00edodo assume a forma de neoliberalismo.<\/p>\n<p>Antes de seguir, quero levantar algumas quest\u00f5es correlatas que me parece importante serem levadas em considera\u00e7\u00e3o no estudo sobre as causas estruturais da extrema direita, pois guardam rela\u00e7\u00e3o com as hip\u00f3teses centrais.<\/p>\n<p>A primeira diz respeito \u00e0 forma como a crise econ\u00f4mica de 2008 atingiu a regi\u00e3o. Neste aspecto, \u00e9 preciso lembrar que a crise se desenvolveu em dois est\u00e1gios: o primeiro, com epicentro nos EUA e Europa, que resultou na migra\u00e7\u00e3o do capital financeiro para a periferia e lastreou medidas antic\u00edclicas; e o segundo com o refluxo do capital financeiro aos pa\u00edses centrais e a eclos\u00e3o dos efeitos da crise na periferia. Precisar este movimento, ainda que de forma superficial, pode auxiliar na periodiza\u00e7\u00e3o da crise na Am\u00e9rica Latina como na identifica\u00e7\u00e3o de condicionantes para o surgimento da extrema direita no continente.<\/p>\n<p>Uma segunda quest\u00e3o correlata diz respeito \u00e0 rela\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es e movimentos de extrema direita com as representa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos setores que podemos chamar de olig\u00e1rquico, que representam contradi\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o resolvidas no processo de forma\u00e7\u00e3o da sociedade e do Estado na Am\u00e9rica Latina. Esta quest\u00e3o pode nos dar pistas sobre o processo de forma\u00e7\u00e3o da extrema direita, se houve ruptura do todo ou em parte deste setor que sempre existiu no bloco no poder bem como sua associa\u00e7\u00e3o com outros elementos ex\u00f3genos e que buscam ganhar espa\u00e7o no aparelho de Estado.<\/p>\n<p>Por fim, uma terceira quest\u00e3o correlata diz respeito aos limites dos governos e organiza\u00e7\u00f5es progressistas no enfrentamento ao neoliberalismo e na defesa da democracia liberal. Neste diapas\u00e3o, Tzeiman (2024), apoiado em Poulantzas, tamb\u00e9m sinalizou que a capitula\u00e7\u00e3o da social-democracia aos interesses das fra\u00e7\u00f5es hegem\u00f4nicas da burguesia, pode contribuir para a crise do Estado. A quest\u00e3o aqui \u00e9 examinar at\u00e9 que ponto as for\u00e7as progressistas flexibilizaram o enfrentamento ao neoliberalismo mais duro em nome da defesa da democracia liberal &#8211; ou do arranjo pol\u00edtico surgido na d\u00e9cada de 1980 do qual fazem parte &#8211; e como isso pode ter potencializado o apoio dos setores populares \u00e0 extrema direita, que se apresenta cr\u00edticas aos efeitos do neoliberalismo.<\/p>\n<h1>Da caracteriza\u00e7\u00e3o e dos aspectos ideol\u00f3gicos da extrema direita na Am\u00e9rica Latina<\/h1>\n<p>Um debate que tem sido objeto de grande discuss\u00e3o diz respeito \u00e0 caracteriza\u00e7\u00e3o da extrema direita; isto \u00e9, como o fen\u00f4meno pode ser qualificado a partir de sua composi\u00e7\u00e3o e rela\u00e7\u00e3o com a sociedade e com o Estado. Neste sentido, as teorias liberais institucionalistas e formalistas mobilizam conceitos como populismo, conservadorismo, fundamentalismo etc. Os limites destas an\u00e1lises, mobilizadas inclusive por for\u00e7as progressistas, como j\u00e1 dito anteriormente, \u00e9 explicar o surgimento da extrema direita em rela\u00e7\u00e3o a uma dada \u201cnormalidade\u201d do regime democr\u00e1tico liberal, ou a partir das \u201cnarrativas\u201d conservadoras ou reacion\u00e1rias, dando a entender que se insurgem contra uma cont\u00ednua evolu\u00e7\u00e3o de liberdades individuais e conquistas civilizat\u00f3rias (Maia, 2023).<\/p>\n<p>J\u00e1 na vertente marxista, que reafirma a rela\u00e7\u00e3o entre os fen\u00f4menos pol\u00edticos com as contradi\u00e7\u00f5es na estrutura social e da luta de classes, o debate gira em torno de avaliar a similaridade dos movimentos de extrema direita ao fascismo cl\u00e1ssico, bem como \u00e0s experi\u00eancias de regime autorit\u00e1rio que surgiram no continente latino-americano, dando origem a termos como neofascismo, protofascismo, direita reacion\u00e1ria, etc., na qual a an\u00e1lise de Poulantzas em sua obra \u201cFascismo e Ditadura\u201d \u00e9 retomada como refer\u00eancia central. Pretendo seguir o mesmo caminho.<\/p>\n<p>Nesta obra, como explica Martuscelli, o te\u00f3rico grego qualifica o fascismo como uma forma particular de regime num Estado de exce\u00e7\u00e3o, caracter\u00edstica de momentos de crise da fase imperialista do capitalismo. Assim, para Poulantzas (1972), a emerg\u00eancia do fascismo depende de algumas fases, tais como a derrota do movimento oper\u00e1rio, crise de hegemonia do bloco no poder e emerg\u00eancia da pequena burguesia como for\u00e7a pol\u00edtica, perman\u00eancia da situa\u00e7\u00e3o de crise, ascens\u00e3o da pequena burguesia ao poder em alian\u00e7a com a burguesia monopolista, e consolida\u00e7\u00e3o do poder e da burguesia monopolista como fra\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica no bloco no poder.<\/p>\n<p>\u00c9 expressivo que os movimentos de extrema direita que surgiram na Am\u00e9rica Latina apresentam muitos dos aspectos em comum com a emerg\u00eancia do fascismo original, tais como a desestabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, a crise de hegemonia no bloco no poder, como a emerg\u00eancia da pequena burguesia e das fra\u00e7\u00f5es marginalizadas da burguesia como for\u00e7a pol\u00edtica. Outros elementos, contudo, demandam mais debate, como a derrota do movimento oper\u00e1rio e a quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o de mil\u00edcias, uma das premissas para diferenciar a forma de regime fascista de outros num estado de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, importante sublinhar, as fases descritas por Poulantzas (1972) explicam como se deu o processo de surgimento, eleva\u00e7\u00e3o ao poder e consolida\u00e7\u00e3o dos regimes fascistas originais, ou seja, como forma de supera\u00e7\u00e3o da crise de hegemonia na Alemanha e It\u00e1lia. J\u00e1 os atuais movimentos de extrema direita s\u00e3o decorrentes de um processo ainda em curso, de uma crise que ainda n\u00e3o encontrou formas de solu\u00e7\u00e3o, e que, portanto, pode evoluir para novos regimes \u201cnormais\u201d &#8211; com acomoda\u00e7\u00e3o dos interesses representados por essa extrema direita num novo consenso no bloco no poder &#8211; como tamb\u00e9m para formas de Estado de exce\u00e7\u00e3o, ou ainda para sa\u00eddas progressistas, conforme muito bem aponta Tzeiman (2024).<\/p>\n<p>Neste sentido, h\u00e1 duas pondera\u00e7\u00f5es que julgo pertinente observar na an\u00e1lise. A primeira \u00e9 que as fra\u00e7\u00f5es da burguesia ligadas ao capital internacional, em que pese a crise de hegemonia, ainda se mant\u00e9m como for\u00e7a motriz dos processos pol\u00edticos, sem que tenha resultado em formas de Estado de exce\u00e7\u00e3o, como observam Martuscelli (2024) na an\u00e1lise do neogolpismo, e Tzeiman (2024) quando analisa as diferen\u00e7as e similaridades entre os pa\u00edses que tiveram governos progressistas e os que mantiveram uma continuidade de governos ligados ao neoliberalismo. Isso indica que est\u00e1 ausente uma caracter\u00edstica fundamental para a erup\u00e7\u00e3o de regimes fascistas, conforme apontado por Poulantzas (1972), que \u00e9 a incapacidade da fra\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica de conduzir o bloco no poder. Ou seja, a crise ainda n\u00e3o resultou em um \u201cponto de n\u00e3o-retorno\u201d (Cavalcante; Martuscelli, 2025).<\/p>\n<p>A segunda pondera\u00e7\u00e3o \u00e9 que os movimentos de extrema direita que surgem na Am\u00e9rica Latina apresentam uma pluralidade de caracter\u00edsticas, conforme as especificidades locais, que apresentam maior ou menor similaridade com o fascismo tradicional, como exemplificam o caso brasileiro e argentino, respectivamente. Al\u00e9m disso, parece ser caracter\u00edstico dos movimentos e organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita certa mutabilidade de forma dada pelas possibilidades e limites oferecidos pelos regimes de cada pa\u00eds. Contudo, apesar das diferentes formas que se constituem e se apresentam, todos estes movimentos e organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita t\u00eam em comum serem resultado de um mesmo processo de desestabiliza\u00e7\u00e3o da economia mundial e da forma como essa crise reflete no continente latino-americano, o que demanda uma caracteriza\u00e7\u00e3o comum a eles.<\/p>\n<p>Sendo assim, minha hip\u00f3tese \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, neste momento, classificar os movimentos de extrema direita que surgem na Am\u00e9rica Latina como fascistas (ou neofascistas). Me parece mais producente adotar uma caracteriza\u00e7\u00e3o mais aberta (extrema direita mesmo, ou alguma nomenclatura melhor), capaz de abarcar as diversas formas com que esses movimentos se apresentam na regi\u00e3o. Ademais, como processo em curso, me parece mais correto constatar que estes movimentos t\u00eam caracter\u00edsticas fascistas, que se apresentam em maior ou menor grau, conforme o contexto em que surgem, o que pode servir de indicador de an\u00e1lise para avaliar a evolu\u00e7\u00e3o da crise em dire\u00e7\u00e3o a uma forma de Estado de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Uma segunda quest\u00e3o a respeito da caracteriza\u00e7\u00e3o dos movimentos de extrema direita, que talvez n\u00e3o seja poss\u00edvel aprofundar, mas me parece importante ser tratada ainda que de forma de problematiza\u00e7\u00e3o, est\u00e1 relacionada com as chamadas \u201cpautas ideol\u00f3gicas\u201d e sua rela\u00e7\u00e3o com os interesses dos setores marginais da burguesia e da pequena burguesia. Dito de outro modo: \u00e9 poss\u00edvel estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre as \u201cnarrativas conservadoras\u201d e os reais interesses de classes destes setores?<\/p>\n<p>Me parece ser uma abordagem nova, mas creio que seja poss\u00edvel fazer um debate com alguns autores que analisam quest\u00f5es de g\u00eanero, racial, orienta\u00e7\u00e3o sexual, migrat\u00f3ria e ambiental como uma face do capitalismo. Al\u00e9m disso, esta linha de racioc\u00ednio retoma o debate com as an\u00e1lises institucionalistas e formalistas (normalmente deixadas de lado), mas de outro patamar, tomando os movimentos de extrema direita como express\u00e3o pol\u00edtica da luta de classes e seus desdobramentos na esfera ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Neste aspecto, minha hip\u00f3tese \u00e9 que as chamadas \u201cpautas ideol\u00f3gicas\u201d, como capitalismo radical (anarcocapitalismo), combate \u00e0s chamadas \u201cpautas identit\u00e1rias\u201d e direitos de minoria, rejei\u00e7\u00e3o de crises clim\u00e1ticas e do \u201cglobalismo\u201d, refletem interesses concretos como redu\u00e7\u00e3o de direitos sociais e trabalhistas de trabalhadores normalmente explorados por este setores, ou que passam a ser concorrentes (cotas), redu\u00e7\u00e3o de regulamenta\u00e7\u00e3o estatal sobre as atividades econ\u00f4micas anacr\u00f4nicas mas de grande import\u00e2ncia na regi\u00e3o (planta\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o extensiva, garimpo, pequeno com\u00e9rcio), rea\u00e7\u00e3o contra efeitos do neoliberalismo (importa\u00e7\u00e3o de mercadorias de baixa complexidade concorrente da ind\u00fastria local).<\/p>\n<p>Este debate tem uma dupla import\u00e2ncia: primeiro de relocalizar o debate ideol\u00f3gico da extrema direita num outro patamar, hierarquizando pela luta de classes e pelas pr\u00f3prias necessidades do capitalismo. Segundo a de compreender como os movimentos de extrema direita utilizam a ideologia n\u00e3o s\u00f3 como forma de mobiliza\u00e7\u00e3o (engajamento) social, mas tamb\u00e9m desvelar como esse instrumento vem sendo utilizado para moldar o Estado e a pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<h1>Das poss\u00edveis evolu\u00e7\u00f5es da extrema direita na Am\u00e9rica Latina<\/h1>\n<p>Para encerrar, quero propor algumas hip\u00f3teses sobre o poss\u00edvel desenvolvimento da extrema direita na Am\u00e9rica Latina. Embora este tipo de exerc\u00edcio seja pouco usual em Ci\u00eancia Pol\u00edtica, creio que tentar antever a din\u00e2mica dos processos em an\u00e1lise, sobretudo os que ainda est\u00e3o em curso, como \u00e9 o caso dos temas tratados aqui, \u00e9 uma necessidade para que se possa dar continuidade ao estudo. Al\u00e9m do mais, conforme afirmou Leandro Konder (2004) \u201co m\u00e9todo dial\u00e9tico nos incita a revermos o passado \u00e0 luz do que est\u00e1 acontecendo no presente, ele questiona o presente em nome do futuro, o que est\u00e1 sendo em nome do que \u2018ainda n\u00e3o \u00e9\u2019.\u201d<\/p>\n<p>O ponto de partida que adoto para estabelecer alguns progn\u00f3sticos \u00e9 a caracteriza\u00e7\u00e3o de Tzeiman (2024) de que os Estados na Am\u00e9rica Latina sofrem uma crise de hegemonia em decorr\u00eancia da crise econ\u00f4mica mundial e do modo espec\u00edfico como atinge cada pa\u00eds, e que esta crise n\u00e3o foi encerrada, tratando-se de um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o cuja sa\u00edda n\u00e3o pode ser determinada, e que deve ser marcado pela exist\u00eancia de regimes h\u00edbridos. Tomando este contexto como par\u00e2metro, e considerando os movimentos de extrema direita como parte deste processo, creio ser poss\u00edvel antever alguns cen\u00e1rios poss\u00edveis.<\/p>\n<p>No curto e m\u00e9dio prazo, \u00e9 prov\u00e1vel que os movimentos de extrema direita continuar\u00e3o existindo como express\u00e3o da crise de hegemonia, e dever\u00e3o ser, em maior ou menor grau, a depender das condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas de cada pa\u00eds, incorporados ao bloco no poder, seja atrav\u00e9s da emerg\u00eancia de for\u00e7as ex\u00f3genas, seja pela convers\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edticas tradicionais oriundas da velha oligarquia e pela coopta\u00e7\u00e3o de camadas populares da sociedade cr\u00edticas ressentidas pelas medidas de austeridade, inclusive por governos progressistas.<\/p>\n<p>O grau de incorpora\u00e7\u00e3o da extrema direita poder\u00e1 ser um indicador da velocidade de avan\u00e7o do neoliberalismo mais duro. Ao mesmo tempo, deve seguir o embate ideol\u00f3gico, com incorpora\u00e7\u00e3o ao Estado da parte que afirma os interesses do neoliberalismo mais duro, e recha\u00e7o da parte que o nega. Neste sentido, ainda que representem uma rea\u00e7\u00e3o aos efeitos do neoliberalismo sobre as fra\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas da burguesia e da pequena burguesia, os movimentos de extrema direita podem contribuir para a consolida\u00e7\u00e3o do neoliberalismo mais explorat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Numa perspectiva de longo prazo, \u00e9 poss\u00edvel identificar pelo menos dois cen\u00e1rios: o primeiro que segue uma perspectiva de resolu\u00e7\u00e3o da atual crise de hegemonia nos Estados latino-americanos, que passa, obrigatoriamente, pela resolu\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es econ\u00f4micas e geopol\u00edticas internacionais e pelo modo como os pa\u00edses da regi\u00e3o resolvem suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es e se localizam na nova divis\u00e3o internacional do trabalho. Nesta hip\u00f3tese, os movimentos de extrema direita podem consolidar o seu espa\u00e7o no bloco no poder, expressa a nova localiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica na nova forma de Estado. O tamanho e a import\u00e2ncia deste espa\u00e7o ser\u00e3o determinados, evidentemente, pelo modo como for resolvida a crise estrutural e pelas lutas que se desenvolvem hoje.<\/p>\n<p>O segundo cen\u00e1rio de longo prazo \u00e9 a possibilidade da crise se estender por tempo indeterminado, somado ao agravamento das contradi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edticas, o que poderia conduzir a um Estado de exce\u00e7\u00e3o. Nesta hip\u00f3tese, os movimentos e organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita poderiam completar o seu caminho em dire\u00e7\u00e3o a um regime fascista, de acordo com a sistematiza\u00e7\u00e3o de Poulantzas (1972). Contudo, ainda que esta hip\u00f3tese venha a se apresentar, n\u00e3o se pode rejeitar de antem\u00e3o que o regime adquira outras formas, como bonapartismo ou regimes militares, ou ainda uma combina\u00e7\u00e3o entre essas formas. Neste aspecto, n\u00e3o apenas a evolu\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es de extrema direita, como tamb\u00e9m o papel da burocracia civil e militar, al\u00e9m de outros aspectos, s\u00e3o indicadores que devem ser considerados para identificarmos a din\u00e2mica da atual crise dos Estados latino-americanos.<\/p>\n<h1>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o<\/h1>\n<p>No presente texto procurei apresentar algumas quest\u00f5es e hip\u00f3teses para estudo do surgimento ou emerg\u00eancia da extrema direita na Am\u00e9rica Latina, partindo do entendimento de se tratar um subproduto da desestabiliza\u00e7\u00e3o do sistema internacional e dos pa\u00edses ap\u00f3s a crise econ\u00f4mica de 2008 e das contradi\u00e7\u00f5es decorrentes da implementa\u00e7\u00e3o do neoliberalismo mais extremado desde ent\u00e3o, no marco da crise dos Estados e do surgimento de regimes h\u00edbridos. A partir do di\u00e1logo com outros autores, foram abordados aspectos como as poss\u00edveis rela\u00e7\u00f5es entre a extrema direita na atualidade, a intensifica\u00e7\u00e3o das medidas de austeridade, a crise dos Estados, e as fra\u00e7\u00f5es das classes dominante; as similaridades e diferen\u00e7as desses movimentos e organiza\u00e7\u00f5es com o fascismo cl\u00e1ssico; os poss\u00edveis reflexos que podem produzir na ideologia dominante; e algumas poss\u00edveis din\u00e2micas de evolu\u00e7\u00e3o desta corrente no atual est\u00e1gio do capitalismo.<\/p>\n<p>Conforme foi salientado, trata-se de uma primeira aproxima\u00e7\u00e3o, um exerc\u00edcio para problematiza\u00e7\u00e3o do tema, sem qualquer pretens\u00e3o de chegar a defini\u00e7\u00e3o de respostas mais precisas. Talvez as \u00fanicas conclus\u00f5es a serem extra\u00eddas \u00e9 que as an\u00e1lises mais em voga, de car\u00e1ter institucionalista e\/ou formalistas, se mostram incapazes de desvelar as causas estruturais da extrema direita na atualidade. J\u00e1 os debates no campo do materialismo hist\u00f3rico e da dial\u00e9tica t\u00eam se mostrado mais promissores para explicar este fen\u00f4meno em toda a sua complexidade social e pol\u00edtica.<\/p>\n<h1>Refer\u00eancias<\/h1>\n<p>ANDERSON, P. O neoliberalismo, este zumbi. <strong>Outras Palavras<\/strong>. 15 abr. 2025. Dispon\u00edvel em: https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/perry-anderson-neoliberalismo-este-zumbi\/. Acesso em: 25 abr. 2025.<\/p>\n<p>BOITO JR., A. Neofascismo e neoliberalismo no Brasil do Governo Bolsonaro. <strong>Revista Observatorio Latinoamericano y Caribe\u00f1o<\/strong>, Buenos Aires, v. 4, n. 2, p. 1\u201330, 2020.<\/p>\n<p>BOITO JR., A. 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