{"id":919,"date":"2018-08-22T13:17:35","date_gmt":"2018-08-22T16:17:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/?p=919"},"modified":"2018-08-23T18:48:45","modified_gmt":"2018-08-23T21:48:45","slug":"a-controversia-do-estado-e-do-desenvolvimento-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/es\/2018\/08\/22\/a-controversia-do-estado-e-do-desenvolvimento-3\/","title":{"rendered":"A controv\u00e9rsia do Estado e do desenvolvimento"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori<\/strong> <span style=\"font-size: 10pt;\">(UFRJ)*<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cdebate desenvolvimentista\u201d latino-americano n\u00e3o teria nenhuma especificidade se tivesse se reduzido \u00e0 uma discuss\u00e3o macroecon\u00f4mica entre \u201cortodoxos\u201d neocl\u00e1ssicos ou liberais, e \u201cheterodoxos\u201d keynesianos ou estruturalistas. Na verdade, ele n\u00e3o teria existido se n\u00e3o fosse por causa do Estado, e da discuss\u00e3o sobre a efic\u00e1cia ou n\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o estatal, para acelerar o crescimento econ\u00f4mico, por cima das \u201cleis do mercado\u201d. At\u00e9 porque, na Am\u00e9rica Latina como na \u00c1sia, os governos desenvolvimentistas sempre utilizaram pol\u00edticas macroecon\u00f4micas ortodoxas, segundo a ocasi\u00e3o e as circunst\u00e2ncias, e o inverso tamb\u00e9m se pode dizer de muitos governos europeus ou norte-americanos conservadores ou ultra-liberais que utilizam frequentemente pol\u00edticas de corte keynesiano. Na verdade, o <em>pivot<\/em> de toda a discuss\u00e3o e o grande pomo da disc\u00f3rdia foi sempre o Estado, e a defini\u00e7\u00e3o do seu papel no processo do desenvolvimento econ\u00f4mico. Apesar disto, depois de mais de meio s\u00e9culo de discuss\u00e3o, o balan\u00e7o te\u00f3rico \u00e9 decepcionante. Dos dois lados do debate \u201cl\u00edbero-desenvolvimentista\u201d, se utilizou \u2013quase sempre\u2013 um conceito de Estado igualmente impreciso, atemporal e a-hist\u00f3rico, como se o Estado fosse uma esp\u00e9cie de \u201cente\u201d l\u00f3gico e funcional criado intelectualmente para resolver os problemas do crescimento ou da regula\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, como se pode ver atrav\u00e9s de uma r\u00e1pida releitura das duas grandes \u201cagendas\u201d e das principais matrizes te\u00f3ricas que participaram da \u201ccontrov\u00e9rsia\u00a0 latino-americana\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A \u201cagenda desenvolvimentista\u201d deita ra\u00edzes nos anos 30, se consolida nos anos 50, e passa por uma autocr\u00edtica e uma transforma\u00e7\u00e3o conceitual nos anos 60, para perder seu vigor intelectual na d\u00e9cada de 80. Nesse percurso \u00e9 poss\u00edvel identificar quatro grandes \u201cmatrizes te\u00f3ricas\u201d que analisaram a \u201cquest\u00e3o do Estado\u201d, e contribu\u00edram para a constru\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o da ideologia nacional-desenvolvimentista, que teve um papel central nos grandes conflitos pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos latino-americanos, da segunda metade do s\u00e9culo XX:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">i) A matriz weberiana e as suas v\u00e1rias vers\u00f5es da \u201cteoria da moderniza\u00e7\u00e3o\u201d, que foram contempor\u00e2neas da \u201ceconomia do desenvolvimento\u201d anglo-sax\u00f4nica, e apareceram quase sempre associadas com a teoria das \u201cetapas do desenvolvimento econ\u00f4mico\u201d, de Rostow<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Dedicaram-se \u00e0 pesquisa dos processos de forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica dos Estados nacionais europeus comparados com o \u201cdesenvolvimento pol\u00edtico\u201d das sociedades \u201catrasadas\u201d. Sua proposta e sua estrat\u00e9gia de moderniza\u00e7\u00e3o supunha e apontava, ao mesmo tempo, de forma circular, para uma idealiza\u00e7\u00e3o dos Estados e dos sistemas pol\u00edticos europeu e norte-americano, definidos como padr\u00e3o ideal de modernidade, e como objetivo e ponto de chegada do desenvolvimento e da transi\u00e7\u00e3o das \u201csociedades tradicionais\u201d<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ii) A matriz estruturalista e as suas v\u00e1rias vers\u00f5es da teoria do \u201ccentro-periferia\u201d e do \u201cintercambio desigual\u201d, cuja refer\u00eancia fundamental foram os textos cl\u00e1ssicos da <span style=\"font-size: 10pt;\">CEPAL<\/span>, dos anos 50 e 60, com algumas contribui\u00e7\u00f5es posteriores importantes, sobretudo no Brasil<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. S\u00f3 a <span style=\"font-size: 10pt;\">CEPAL<\/span> desenvolveu instrumentos anal\u00edticos e operacionais espec\u00edficos para o planejamento econ\u00f4mico dos Estados latino-americanos. Mas devido \u00e0 sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o como organismo internacional, a <span style=\"font-size: 10pt;\">CEPAL<\/span> sempre tratou os Estados da Am\u00e9rica Latina como se fossem iguais e homog\u00eaneos, sem tomar em conta, na sua teoria e nas suas propostas concretas, a exist\u00eancia de conflitos de interesse diferentes dentro de cada pa\u00eds, e entre os pr\u00f3prios pa\u00edses, dentro e fora da regi\u00e3o. Por isto, as teses industrializantes da <span style=\"font-size: 10pt;\">CEPAL<\/span> lembram muitas vezes as ideias protecionistas de List e Hamilton, mas ao mesmo tempo a <span style=\"font-size: 10pt;\">CEPAL<\/span> se diferencia dos dois economistas, por n\u00e3o dar import\u00e2ncia te\u00f3rica e pr\u00e1tica aos conceitos de na\u00e7\u00e3o, poder e guerra, que ocupavam um lugar central na vis\u00e3o do Estado e do desenvolvimento econ\u00f4mico, sobretudo no caso do \u201csistema nacional de economia pol\u00edtica\u201d de Friedrich List<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">iii) A matriz marxista e as suas v\u00e1rias vers\u00f5es da teoria da \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa\u201d, sustentadas nos textos cl\u00e1ssicos de Marx, sobre as etapas do desenvolvimento capitalista, e nos textos de Lenin e da Terceira Internacional, sobre a estrat\u00e9gia da luta anti-colonialista na \u00c1sia e no Egito. Sua tradu\u00e7\u00e3o para a realidade latino-americana foi feita de forma mec\u00e2nica e pouco sofisticada, do ponto de vista te\u00f3rico, sem considerar as especificidades e heterogeneidades regionais. Por isto, apesar de falar de classes, luta de classes e imperialismo, propunha o mesmo modelo e a mesma estrat\u00e9gia para todos os pa\u00edses do continente, independente da sua estrutura interna e da sua posi\u00e7\u00e3o dentro da hierarquia de poder regional e internacional. Nos anos 60, a teoria marxista da depend\u00eancia criticou esta estrat\u00e9gia reformista da \u201cesquerda tradicional\u201d, e a pr\u00f3pria possibilidade de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tico-burguesa\u201d na Am\u00e9rica Latina, mas n\u00e3o aprofundou sua nova vis\u00e3o cr\u00edtica do Estado latino-americano<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">iv) Por fim, \u00e9 necess\u00e1rio incluir a matriz geopol\u00edtica da teoria da \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d, formulada pela Escola Superior de Guerra do Brasil<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, fundada no in\u00edcio da d\u00e9cada de 50. Suas ideias tamb\u00e9m remontam aos anos 30, e \u00e0 defesa da industrializa\u00e7\u00e3o nacional, por parte dos militares que participaram da Revolu\u00e7\u00e3o de 30, e do Estado Novo. Na d\u00e9cada de 50, entretanto, este primeiro desenvolvimentismo pragm\u00e1tico dos militares brasileiros se transformou num projeto de defesa e expans\u00e3o do poder nacional, condicionado por sua vis\u00e3o da \u201cseguran\u00e7a nacional\u201d, dentro de um mundo dividido pela Guerra Fria. Esta matriz teve um desenvolvimento te\u00f3rico menor que o das outras tr\u00eas, mas acabou tendo uma import\u00e2ncia hist\u00f3rica muito maior, devido ao lugar central ocupado pelos militares na constru\u00e7\u00e3o e no controle do Estado desenvolvimentista brasileiro, durante a maior parte dos seus cerca de 50 anos de exist\u00eancia. O seu projeto geopol\u00edtico e econ\u00f4mico era expansionista e tinha uma vis\u00e3o competitiva do sistema mundial, mas nunca foi muito al\u00e9m de algumas ideias elementares sobre o pr\u00f3prio poder e a defesa, porque girava em torno de uma obsess\u00e3o com um inimigo externo e interno que nunca amea\u00e7ou nem desafiou efetivamente o pa\u00eds, que foi importado ou imposto pelo geopol\u00edtica anglo-sax\u00f4nica da Guerra Fria. Assim mesmo, esta foi a \u00fanica teoria e estrat\u00e9gica dentro do universo desenvolvimentista, que associou explicitamente a necessidade da industrializa\u00e7\u00e3o e do crescimento econ\u00f4mico acelerado com o problema da defesa nacional, mas sua vis\u00e3o simplista e manique\u00edsta do mundo explicam o seu car\u00e1ter anti-popular e autorit\u00e1rio, e a facilidade com que foi derrotado e desconstru\u00eddo, nos anos 80 e 90<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se existiu algum denominador comum entre todas estas teorias e estrat\u00e9gias desenvolvimentistas, foi sua cren\u00e7a inabal\u00e1vel na exist\u00eancia de um Estado racional, homog\u00eaneo e funcional, capaz de formular pol\u00edticas de crescimento econ\u00f4mico, por cima de divis\u00f5es, conflitos e contradi\u00e7\u00f5es que pudessem atravessar e paralisar o pr\u00f3prio Estado. Al\u00e9m disto, todos consideravam que o desenvolvimento era um objetivo consensual \u2013por si mesmo\u2013 capaz de constituir e unificar a na\u00e7\u00e3o, e de mobilizar a sua popula\u00e7\u00e3o, por cima de suas divis\u00f5es internas, de classe, etnia e regi\u00f5es. Talvez por isto, apesar da sua hegemonia ideol\u00f3gica, depois da Segunda Guerra Mundial as pol\u00edticas desenvolvimentistas s\u00f3 tenham sido aplicadas na Am\u00e9rica Latina, de forma pontual, irregular e inconsistente, e s\u00f3 se possa falar efetivamente, neste per\u00edodo, da exist\u00eancia em todo continente de dois \u201cEstados desenvolvimentistas\u201d, um, com certeza, no Brasil, e o outro, com muitas reservas, no M\u00e9xico.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do outro lado da controv\u00e9rsia latino-americana, a origem da \u201cagenda neoliberal\u201d remonta \u00e0 d\u00e9cada de 40, mas ela permaneceu em estado latente ou defensivo, durante a \u201cera desenvolvimentista\u201d, e s\u00f3 conquistou o poder e a hegemonia ideol\u00f3gica nas \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX. Nos anos 80, as teses neoliberais apareceram e se difundiram na Am\u00e9rica Latina, como resposta \u00e0 \u201ccrise da d\u00edvida externa\u201d e da infla\u00e7\u00e3o galopante dos anos 80, e trouxeram junto uma proposta de reformas institucionais voltadas para a privatiza\u00e7\u00e3o e desregula\u00e7\u00e3o dos mercados, e para a austeridade fiscal e monet\u00e1ria<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. \u00c9 poss\u00edvel identificar pelo menos duas grandes teorias que participaram da cr\u00edtica intelectual e da legitima\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica da desmontagem das pol\u00edticas e das institui\u00e7\u00f5es desenvolvimentistas: a teoria dos \u201cbuscadores de renda\u201d e a teoria neo-institucionalista<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, que exerceram grande influ\u00eancia dentro dos organismos internacionais de Washington, e em particular dentro do Banco Mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">i) Para a teoria dos \u201cbuscadores de renda\u201d o Estado \u00e9 apenas mais um mercado de trocas entre burocratas \u2013movidos por interesses ego\u00edstas\u2013 e empres\u00e1rios em busca de privil\u00e9gios e de rendas monop\u00f3licas garantidas atrav\u00e9s do controle e ou da influ\u00eancia dentro da m\u00e1quina estatal. Desta perspectiva, qualquer aumento do setor p\u00fablico ampliaria automaticamente as oportunidades de obten\u00e7\u00e3o de rendas extraordin\u00e1rias, a custas do cidad\u00e3o e do consumidor comum que acabaria tendo que pagar pre\u00e7os mais altos do que os que seriam definidos \u201cnormalmente\u201d pelos mercados competitivos e desregulados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">ii) A teoria neo-institucionalista tamb\u00e9m defende a \u201cretirada do Estado\u201d, mas, ao contr\u00e1rio da teoria anterior, sustenta a sua import\u00e2ncia para a constru\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o do ambiente institucional associado \u00e0 garantia do direito de propriedade privada e de liberdade individual das pessoas, considerados pelos neo-institucionalistas como condi\u00e7\u00f5es indispens\u00e1veis de todo e qualquer processo de desenvolvimento econ\u00f4mico. No final do s\u00e9culo XX, a agenda neoliberal refor\u00e7ou um vi\u00e9s da discuss\u00e3o que j\u00e1 vinha crescendo desde o per\u00edodo desenvolvimentista: o deslocamento do debate para o campo da macroeconomia. Como volta a acontecer com o chamado \u201cneo-desenvolvimentismo\u201d, que se prop\u00f5e inovar e construir uma terceira via \u201centre o populismo e a ortodoxia\u201d. Como se tratasse de uma gangorra que ora aponta para o fortalecimento do mercado, ora para o fortalecimento do Estado. Na pr\u00e1tica, o neo-desenvolvimentismo acaba se reduzindo a um programa de medidas macroecon\u00f4micas ecl\u00e9ticas, que se prop\u00f5em fortalecer, simultaneamente, o Estado e o mercado; a centraliza\u00e7\u00e3o e a descentraliza\u00e7\u00e3o; a concorr\u00eancia e os grandes \u201ccampe\u00f5es nacionais\u201d; o p\u00fablico e o privado; a pol\u00edtica industrial e a abertura; e uma pol\u00edtica fiscal e monet\u00e1ria, que seja ao mesmo tempo ativa e austera. E, finalmente, com rela\u00e7\u00e3o ao papel do Estado, o neo-desenvolvimentismo prop\u00f5e que ele seja recuperado e fortalecido, mas n\u00e3o esclarece em nome de quem, para quem e para qu\u00ea, deixando de lado a quest\u00e3o central do poder, e dos interesses contradit\u00f3rios das classes e das na\u00e7\u00f5es, como j\u00e1 acontecera com o \u201cvelho desenvolvimentismo\u201d do s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de suas grandes diverg\u00eancias ideol\u00f3gicas e pol\u00edticas, desenvolvimentistas e liberais sempre compartilharam uma mesma vis\u00e3o do Estado como criador ou destruidor da boa ordem econ\u00f4mica, mas sempre visto como se fosse um <em>deus ex machina<\/em>, atuando desde fora da atividade econ\u00f4mica propriamente dita. Ambos criticam os processos de monopoliza\u00e7\u00e3o, e idealizam os mercados competitivos, e v\u00eam com maus olhos toda forma de associa\u00e7\u00e3o ou envolvimento entre o Estado e os capitais privados. Ambos consideram que o poder, as lutas pelo poder e o processo de acumula\u00e7\u00e3o de poder a escala nacional e internacional n\u00e3o t\u00eam a ver diretamente com o processo simult\u00e2neo de desenvolvimento econ\u00f4mico e acumula\u00e7\u00e3o do capital. Al\u00e9m disto, todos consideram os Estados latino-americanos como se fossem iguais e n\u00e3o fizessem parte de um sistema regional e internacional \u00fanico, desigual, hierarquizado, competitivo e em permanente processo de transforma\u00e7\u00e3o. E mesmo quando os desenvolvimentistas falaram de Estados centrais e perif\u00e9ricos, e de Estados dependentes, falavam de um sistema econ\u00f4mico mundial que tinha um formato bipolar relativamente est\u00e1tico, onde as lutas de poder entre os Estados e as na\u00e7\u00f5es ocupavam um lugar secund\u00e1rio<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, esta converg\u00eancia entre desenvolvimentistas e liberais latino-americanos permite extrair duas conclus\u00f5es cr\u00edticas de todo este debate: i) a primeira \u00e9 que o desenvolvimentismo latino-americano sempre teve um parentesco muito maior com o keynesianismo e com \u201ceconomia do desenvolvimento\u201d anglo-sax\u00f4nica, do que com o nacionalismo econ\u00f4mico e o anti-imperialismo, que foram at\u00e9 hoje a mola mestra e propulsora de todos os desenvolvimentos tardios,\u00a0 em particular, dos desenvolvimentos asi\u00e1ticos; ii) e a segunda \u00e9 a certeza de que os desenvolvimentistas e os liberais latino-americanos compartilham a mesma concep\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Estado, que \u00e9 comum ao\u00a0 paradigma\u00a0 da economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica, marxista e neo-cl\u00e1ssica. Esta coincid\u00eancia de paradigmas explica a facilidade com que muitos passam teoricamente de um lado para o outro da \u201cgangorra l\u00edbero-desenvolvimentista\u201d, sem precisar sair do mesmo lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 10pt;\">Nota do <span style=\"font-size: 8pt;\">ODELA<\/span>: O presente texto reproduz uma parte do trabalho intitulado <a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/pt-br\/publicaciones\/37942-estado-desenvolvimento-america-latina-notas-novo-programa-pesquisa\"><em>Estado e desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina: notas para um novo \u201cprograma de pesquisa\u201d<\/em><\/a> elaborado pelo autor, em 2011, a pedido da <span style=\"font-size: 8pt;\">CEPAL<\/span>.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-size: 10pt;\">*Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori \u00e9 soci\u00f3logo e cientista pol\u00edtico, professor titular de Economia Pol\u00edtica Internacional e professor permanente do PEPI (Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Economia Pol\u00edtica Internacional) e do PPGBIOS (Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Bio\u00e9tica, \u00c9tica Aplicada e Sa\u00fade Coletiva) da ENSP\/Fiocruz, coordenador do Grupo de Pesquisa do CNPq \u201cPoder Global e Geopol\u00edtica do Capitalismo\u201d e do Laborat\u00f3rio \u201c\u00c9tica e Poder Global\u201d do Nubea\/UFRJ. Pesquisador do INEEP (Instituto de Estudos Estrat\u00e9gicos do Petr\u00f3leo, G\u00e1s e Biocombust\u00edveis).<\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Rostow, W. W., <em>The Process of Economic Growth<\/em>, Norton, New York, 1952; e Rostow, W. W., <em>The Stages of Economic Growth<\/em>. <em>A Non-Communist Manifesto<\/em>, Cambridge University Press, Cambridge, 1960.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Eisenstadt, S. N. e Rokkan, S., <em>Building States and Nations<\/em>, v. 1 e 2, Sage Publications, London, 1973; La Palombara, J. e Weiner, M., <em>Political Parties and Political Development<\/em>, Princeton University Press, Princeton, 1966.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Tavares, M. C., <em>Acumula\u00e7\u00e3o de Capital e Industrializa\u00e7\u00e3o no Brasil<\/em>, Editora Unicamp, Campinas, 1974; Cardoso de Melo, J. M., <em>O Capitalismo Tardio<\/em>, Editora Brasiliense, S\u00e3o Paulo, 1982; e Belluzzo, L. G. e Coutinho, R. (Orgs.), <em>Desenvolvimento Capitalista no Brasil<\/em>, v. 1 e 2, Editora Brasiliense, S\u00e3o Paulo, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Bielschowsky, R., <em>Pensamento Econ\u00f4mico Brasileiro: o Ciclo Ideol\u00f3gico do Desenvolvimentismo<\/em>, IPEA\/INPES, Rio de Janeiro, 1988; Bielschowsky, R. (Org.), <em>Cinquenta Anos do Pensamento na CEPAL<\/em>, v. 1 e 2, Editora Record, Rio de Janeiro, 1988.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Baran, P., <em>The political economy of economic growth<\/em>, Monthly Review Press, New York, 1957; Davis, H. B., <em>Nationalism and Socialism<\/em>, Monthly Review Press, New York, 1967; Mori, K., \u201cMarx and \u2018underdevelopment\u2019: his thesis on the \u2018historical role of British free trade\u2019 revisited\u201d, in <em>Annals of the Institute of Social Science<\/em>, University of Tokyo, n. 19, 1978.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Golbery, C. S., <em>Planejamento Estrat\u00e9gico<\/em>, Editora Biblioteca do Ex\u00e9rcito, Rio de Janeiro, 1955; Mattos, C. M., <em>Brasil \u2013 Geopol\u00edtica e Destino<\/em>, Editora Biblioteca do Ex\u00e9rcito, Rio de Janeiro, 1975;\u00a0 Castro, T. de <em>et al<\/em>., <em>Geohist\u00f3ria, Geopol\u00edtica e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/em>, Ed. Livraria Freitas Bastos, Rio de Janeiro, 1979; e Castro, T. de, <em>O Brasil no Mundo Atual. Posicionamento e Diretrizes<\/em>, Editora Col\u00e9gio Pedro II, Rio de Janeiro, 1982.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Fiori, J. L., <em>Conjuntura e Crise na Din\u00e2mica de um Estado Perif\u00e9rico<\/em>, Tese de Doutoramento, USP, S\u00e3o Paulo, 1984; publicado sob o t\u00edtulo <em>O V\u00f4o da Coruja. Uma Leitura N\u00e3o Liberal da Crise do Estado Desenvolvimentista<\/em>, Eduerj, Rio de Janeiro, 1995.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Dornbusch, R. e Edwards, S., <em>The Macroeconomics of Populism in Latin America<\/em>, The Chicago University Press, Chicago, 1991.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Krueger, A., \u201cThe political economy of the rent-seeking society\u201d, in <em>American Economic Review<\/em>, v. 64, n. 3, p. 291-303, 1974; e North, D., <em>Structure and Change in Economic History<\/em>, W. W. Norton &amp; Co., New York, 1981.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Frank, A. G., <em>Capitalism and Underdevelopement in Latin America<\/em>, Monthly Review Press, New York, 1969; e Cardoso, F. H. e Faletto, E., <em>Depend\u00eancia e Desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina<\/em>, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1970.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Fiori (UFRJ)* O \u201cdebate desenvolvimentista\u201d latino-americano n\u00e3o teria nenhuma especificidade se tivesse se reduzido \u00e0 uma discuss\u00e3o macroecon\u00f4mica entre \u201cortodoxos\u201d neocl\u00e1ssicos ou liberais, e \u201cheterodoxos\u201d keynesianos ou estruturalistas. 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