{"id":941,"date":"2018-08-25T17:01:48","date_gmt":"2018-08-25T20:01:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/?p=941"},"modified":"2018-08-25T17:02:58","modified_gmt":"2018-08-25T20:02:58","slug":"osorio-luiz-felipe-brandao-imperialismo-estado-e-relacoes-internacionais-sao-paulo-editora-ideias-letras-2018-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/es\/2018\/08\/25\/osorio-luiz-felipe-brandao-imperialismo-estado-e-relacoes-internacionais-sao-paulo-editora-ideias-letras-2018-3\/","title":{"rendered":"OS\u00d3RIO, Luiz Felipe Brand\u00e3o. Imperialismo, Estado e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. S\u00e3o Paulo: Editora Ideias &#038; Letras, 2018."},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Felipe Brand\u00e3o Os\u00f3rio<\/strong> <span style=\"font-size: 10pt;\">(UFRRJ)*<\/span><\/p>\n<div id=\"attachment_937\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img aria-describedby=\"caption-attachment-937\" loading=\"lazy\" class=\"wp-image-937 size-medium\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/imperialismo_estado_e_rela_es_internacionais_sem_sombra-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/imperialismo_estado_e_rela_es_internacionais_sem_sombra-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/imperialismo_estado_e_rela_es_internacionais_sem_sombra-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/imperialismo_estado_e_rela_es_internacionais_sem_sombra-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/imperialismo_estado_e_rela_es_internacionais_sem_sombra-88x88.jpg 88w, https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/imperialismo_estado_e_rela_es_internacionais_sem_sombra-900x900.jpg 900w, https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/imperialismo_estado_e_rela_es_internacionais_sem_sombra.jpg 1000w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-937\" class=\"wp-caption-text\">Fonte: <a href=\"https:\/\/www.editoraideiaseletras.com.br\/catalogo\/nossos-ultimos-lancamentos\/imperialismo-estado-e-relacoes-internacionais\">Editora Ideias &amp; Letras<\/a><\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Falar de imperialismo hoje \u00e9 falar de capitalismo, marxismo (Estado) e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. O que eu fa\u00e7o quest\u00e3o de enfatizar no livro \u00e9 que o imperialismo \u00e9 um fen\u00f4meno que ganha especificidade te\u00f3rica e hist\u00f3rica com o advento e, principalmente, com a expans\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista por todos os quadrantes do globo. Com o passar do tempo, ou seja, do quartel final do s\u00e9culo XIX at\u00e9 nossos dias, seu rosto ganha facetas, express\u00f5es distintas, a depender do modo de desenvolvimento do capitalismo. Logo, o imperialismo \u00e9 constituinte do sistema de Estados (e ao mesmo tempo por eles moldado, em meio \u00e0 pol\u00edtica dos Estados e dos capitais). Estrutura-se em meio \u00e0\u00a0din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o, portadora de crises, e da organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica internacional em uma multiplicidade de Estados, mantendo-se e remodelando-se ao sabor das transforma\u00e7\u00f5es na reprodu\u00e7\u00e3o capitalista, compreendendo um processo complexo e contradit\u00f3rio de valoriza\u00e7\u00e3o de capital e de luta de classes, que n\u00e3o pode ser entendido sem as suas caracter\u00edsticas rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7as pol\u00edtico-sociais, que se d\u00e3o particularizadas em fronteiras nacionais, como tamb\u00e9m, e principalmente, no espa\u00e7o mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desse modo, cabe enfatizar que o imperialismo n\u00e3o se apresenta como um mero desdobramento econ\u00f4mico ou pol\u00edtico, mas \u00e9 a materializa\u00e7\u00e3o da forma pol\u00edtica do capitalismo, como desdobramento das rela\u00e7\u00f5es sociais concretas no terreno mundial do capital. Logo, n\u00e3o h\u00e1 que se falar em quais Estados expressam o imperialismo contemporaneamente, uma vez que todos os Estados que comp\u00f5em o sistema capitalista est\u00e3o imersos na mesma din\u00e2mica do imperialismo. O que os difere \u00e9 a intensidade e a margem de liberdade que t\u00eam para impor seus interesses (ou das fra\u00e7\u00f5es de seus capitais). Os Estados centrais destacam-se tanto na viol\u00eancia quanto na economia pol\u00edtica por deterem a dianteira do processo hist\u00f3rico do desenvolvimento econ\u00f4mico, destacando-se nas pr\u00e1ticas que conformam o imperialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Historicamente, verificou-se a exist\u00eancia de formas em torno da explora\u00e7\u00e3o, viol\u00eancia e depend\u00eancia, que adquiriram uma face determinada com o capitalismo, a partir da reprodu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o pelos quadrantes do globo.\u00a0O conceito de imperialismo carrega consigo h\u00e1 s\u00e9culos conte\u00fados e estere\u00f3tipos que podem retroceder ao patamar da imprecis\u00e3o te\u00f3rica. Desde o resgate dos imp\u00e9rios da antiguidade, como o romano, passando pelos grandes poderes feudais, atravessando as monarquias absolutas modernas, at\u00e9 chegar \u00e0 era dos imp\u00e9rios contempor\u00e2nea, todo esse arco hist\u00f3rico foi e pode ser pintado aleatoriamente sob a tinta do imperialismo. Ainda que se verifique a exist\u00eancia de viol\u00eancia, opress\u00f5es e explora\u00e7\u00f5es como condicionantes em todos os momentos, o atrelamento ao aspecto quantitativo enclausura o cientista \u00e0 superf\u00edcie da investiga\u00e7\u00e3o fenom\u00eanica, perdendo a precis\u00e3o da lente anal\u00edtica em um espa\u00e7o difuso e distinto em suas bases. O passo cient\u00edfico decisivo para desvendar o real car\u00e1ter do imperialismo toma a dire\u00e7\u00e3o da compreens\u00e3o dos mecanismos e da estrutura que lhe conferem especificidade, ou seja, o seu aspecto qualitativo, que permite identificar o imperialismo, a partir de certo ponto hist\u00f3rico, com conte\u00fado e forma particulares, que contrastam irremediavelmente em rela\u00e7\u00e3o a experi\u00eancias anteriores.\u00a0Nesse sentido, \u00e9 fulcral tra\u00e7ar nortes que orientem a narrativa cient\u00edfica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a partir da emerg\u00eancia do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, inaugurando a contemporaneidade hist\u00f3rica, que determinadas rela\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas insculpiram as bases estruturais espec\u00edficas do imperialismo, delineando as rela\u00e7\u00f5es internacionais. Em modos de produ\u00e7\u00e3o pret\u00e9ritos, o que se tenta associar como imperialismo \u00e9 impreciso, acontecendo em din\u00e2micas completamente distintas, haja vista as engrenagens centrais em nada se assemelharem. Em outras palavras, o imperialismo alicer\u00e7a-se e desdobra-se em um contexto pol\u00edtico-econ\u00f4mico muito espec\u00edfico, aquele moldado pelas rela\u00e7\u00f5es sociais concretas dadas no terreno do capitalismo. No cerne desse construto est\u00e1 a forma mercantil, da qual derivam os mecanismos de operacionaliza\u00e7\u00e3o dessa sociabilidade, como a forma pol\u00edtica estatal (na qual se insere o Estado burgu\u00eas, o Estado-na\u00e7\u00e3o ou o Estado nacional), o qual \u00e9 o ator que caracteriza nominalmente a intera\u00e7\u00e3o dos agentes. Em outros tempos, a mercadoria at\u00e9 se fazia presente, mas n\u00e3o ocupava o n\u00facleo das sociabilidades pret\u00e9ritas. Assim, o imperialismo finca seus sustent\u00e1culos na manifesta\u00e7\u00e3o mais plena do capitalismo, as rela\u00e7\u00f5es internacionais, no sistema capitalista de Estados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro pauta-se pela sistematiza\u00e7\u00e3o em tr\u00eas grandes ciclos ou debates, de acordo com a trajet\u00f3ria capitalista, que eu chamo de pioneiro (de 1870 a 1945 e predominantemente economicista), fordista (de 1945 a 1970 e predominantemente economicista) e p\u00f3s-fordista (da d\u00e9cada de 1970 em diante, predominantemente politicista, com os devidos desdobramentos), conforme as vertentes te\u00f3ricas adotadas. Dentre os tr\u00eas, o primeiro \u00e9 o mais marcante em fun\u00e7\u00e3o do pioneirismo em inaugurar horizontes para a discuss\u00e3o do Estado e das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na tradi\u00e7\u00e3o marxista. O segundo \u00e9 mais um interregno de transi\u00e7\u00e3o, no qual ainda n\u00e3o se tem uma ruptura, mas j\u00e1 se est\u00e1 no limiar dela. O terceiro \u00e9 o atual e o mais alargado, envolvendo diversas concep\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de Estado, da\u00ed a necessidade de sua sistematiza\u00e7\u00e3o e da \u00eanfase dada no livro. Os autores que se inscrevem em cada um dos debates discutiram teoricamente em algum momento de suas obras Estado e imperialismo em meio ao desenvolvimento capitalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A costura que alinhar\u00e1 as teorias marxistas sobre Estado, a historicidade e mudan\u00e7as do capitalismo e as consequentes din\u00e2micas sobre o conceito de imperialismo nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais molda o seguinte formato. O livro estrutura-se pelo entrela\u00e7amento de duas balizas de sistematiza\u00e7\u00e3o do pensamento sobre imperialismo, que n\u00e3o s\u00e3o estritamente coincidentes: a) a cronol\u00f3gica que abarca a periodiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do capitalismo em tr\u00eas fases, desde sua g\u00eanese na transi\u00e7\u00e3o entre os s\u00e9culos XIX e XX at\u00e9 sua forma hodierna no s\u00e9culo XXI, tendo em vista a transforma\u00e7\u00e3o do capitalismo em meio \u00e0 concretude das rela\u00e7\u00f5es internacionais, indo de 1870 a 1945, de 1945 a 1970 e de 1970 at\u00e9 os dias atuais; e b) a te\u00f3rica que ordena as diversas perspectivas sobre imperialismo, e consequentemente sobre Estado no capitalismo, pela \u00eanfase que o conceito confere aos aspectos econ\u00f4micos (aspectos econ\u00f4micos estruturais, lei do valor, seus movimentos e suas manifesta\u00e7\u00f5es), aos pol\u00edticos (quest\u00f5es superestruturais, luta e correla\u00e7\u00e3o de classes e de grupos) e \u00e0 inter-rela\u00e7\u00e3o destes dentro do espectro marxista. O que diferencia o primeiro ciclo do segundo \u00e9 o momento hist\u00f3rico do p\u00f3s-guerra que consolida o capitalismo fordista, no centro, e expande as rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o capitalistas tamb\u00e9m para a periferia, para as franjas do globo, distante do epicentro europeu, e, no tocante \u00e0 teoria marxista do Estado, rompe com o marxismo cl\u00e1ssico e inaugura o marxismo ocidental. A mudan\u00e7a estagna as vis\u00f5es do imperialismo, que acabam eclipsadas, no centro do capitalismo, por um lado, e, por outro, fomenta o desenvolvimento de um pensamento aut\u00f3ctone e cr\u00edtico na periferia sobre imperialismo. A diferen\u00e7a do segundo para o terceiro momento envolve a crise e desconstru\u00e7\u00e3o do fordismo, no centro e na periferia, e o apogeu do p\u00f3s-fordismo, bem como a emerg\u00eancia de uma leitura radical de Marx, cunhada como novo marxismo, que fornece ferramentas para a ruptura com o economismo e o surgimento de novos paradigmas no imperialismo, como o politicismo, o parcial politicismo e o que eu denomino de plena cr\u00edtica, alinhada \u00e0s interpreta\u00e7\u00f5es radicais do pensamento marxiano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O marxismo revela-se a ci\u00eancia apta a decifrar os enigmas esf\u00edngicos das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Ele \u00e9 a ci\u00eancia internacionalista por ess\u00eancia, aquela capaz de captar a plenitude do capitalismo, modo de produ\u00e7\u00e3o que somente se completa em \u00e2mbito internacional. Digo isso em rela\u00e7\u00e3o a liberalismo, realismo e construtivismo, n\u00e3o apenas pela imanente tend\u00eancia \u00e0 expans\u00e3o do capital detectada no in\u00edcio dos estudos por Marx, ainda que ele tenha feito refer\u00eancia direta ao termo imperialismo e nem tenha realizado um estudo sistem\u00e1tico sobre as rela\u00e7\u00f5es internacionais, mas, principalmente, como ele desfaz com um sopro o castelo de areia que sustenta as correntes te\u00f3ricas mais populares no campo das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, quando esclarece a dualidade entre despotismo e anarquia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marx, n\u2019O Capital, ao tratar das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, enfatizava a din\u00e2mica entre anarquia e despotismo que cercava os capitais, que dentro de si s\u00e3o arbitr\u00e1rios, mas entre si s\u00e3o rivais em franca disputa descoordenada e sem limites espaciais. Nesse sentido, o capital somente existe em multiplicidade, coletividade; por meio da intera\u00e7\u00e3o entre os muitos capitais as leis gerais do capitalismo se concretizam. Um \u00fanico capital universal \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o em termos. \u00c9 caracter\u00edstico do capitalismo, o qual se desenvolve pela competi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a fonte e a express\u00e3o da anarquia da produ\u00e7\u00e3o. Logo, as rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas tomam a forma dual de anarquia e despotismo. Entre muitos capitais h\u00e1 a anarquia; dentro de cada capital, o despotismo. Cada rela\u00e7\u00e3o, anarquia e despotismo, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o uma da outra. Assim tamb\u00e9m o \u00e9 entre os Estados, dentro das suas fronteiras perante seus nacionais (sujeitados a seu direito), soberano, desp\u00f3tico; e fora, na inter-rela\u00e7\u00e3o com seus pares, reina a anarquia, a falta de um comando central e hierarquicamente superior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tend\u00eancia \u00e0 internacionaliza\u00e7\u00e3o e a relev\u00e2ncia do \u00e2mbito do mercado mundial ficam patentes, quando trata do dinheiro mundial, que ao deixar a esfera interna de circula\u00e7\u00e3o, despe-se das vestes nacionais, adentrando o mercado mundial, ou quando, argumenta basicamente que o mercado mundial constitui em geral a base e a atmosfera vital do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista, sendo o pressuposto e o resultado da reprodu\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais capitalistas. Essa percep\u00e7\u00e3o sugere que o mercado mundial n\u00e3o \u00e9 produto da soma de v\u00e1rios Estados ou de suas economias nacionais, sen\u00e3o, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o por meio da qual existem as rela\u00e7\u00f5es entre Estados. O mercado mundial apresenta-se como a forma universal de exist\u00eancia capitalista. Em outras palavras, \u00e9 por meio do mercado mundial que a mercadoria deixa de ser nacional para ser irrepreensivelmente capitalista. Logo, o fen\u00f4meno imperialista demanda ser debatido, conforme as vertentes marxistas, em termos de desenvolvimento do capitalismo (e de suas molas mestras, cuja principal \u00e9 o Estado). \u00c9 fulcral ir al\u00e9m de an\u00e1lises que se limitam \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o imediata entre imperialismo e exporta\u00e7\u00f5es de capitais ou pol\u00edticas invasivas e interven\u00e7\u00f5es militares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prematura morte do intelectual alem\u00e3o, em 1883, n\u00e3o impediu a fertiliza\u00e7\u00e3o de suas ideias em um s\u00e9culo de ebuli\u00e7\u00e3o e de consolida\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria. \u00c0 sua \u00e9poca fez brilhantes an\u00e1lises sobre o colonialismo brit\u00e2nico em locais distintos (como Irlanda e \u00cdndia), denunciando a ess\u00eancia dessa pr\u00e1tica, as quais repercutiram mundialmente. Malgrado os relevantes escritos de Marx sobre pol\u00edtica internacional, nos quais, em artigos de conjuntura, publicados em peri\u00f3dicos, impunha sua vis\u00e3o sobre as experi\u00eancias ultramarinas brit\u00e2nicas, o pensador alem\u00e3o n\u00e3o legou obras sistematizadas e acabadas sobre o tema. O que, para muitos, leva ao surgimento de interpreta\u00e7\u00f5es divergentes sobre imperialismo, Estado e rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O momento hist\u00f3rico p\u00f3s-fordista, para al\u00e9m das implica\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que carrega, \u00e9 uma fase diferente das anteriores no sentido das tarefas pol\u00edticas. Se no debate pioneiro as esquerdas emergiam enquanto classe trabalhadora e, a partir do reconhecimento dessa condi\u00e7\u00e3o, como for\u00e7as revolucion\u00e1rias; no debate fordista, as esquerdas celebravam a vit\u00f3ria e a consequente chegada ao poder pol\u00edtico, quer pela via revolucion\u00e1ria quer por concilia\u00e7\u00f5es e elei\u00e7\u00f5es; no debate p\u00f3s-fordista, as esquerdas amargam a derrota da Guerra Fria e a decorrente dissolu\u00e7\u00e3o do bloco socialista, bem como a ofensiva neoliberal, demolidora do modelo de bem-estar social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As teorias acompanham a radicalidade das lutas, como se verifica no livro. Ainda no momento atual, passadas as brumas da entropia, a acentua\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es, guerras e crises conclama as esquerdas para sua tarefa de transforma\u00e7\u00e3o. O capitalismo p\u00f3s-fordista direciona o foco necessariamente para o cen\u00e1rio internacional. As principais mudan\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao fordismo est\u00e3o no deslocamento do regime de acumula\u00e7\u00e3o que deixa de ser interno para ser internacional, bem como seu correspondente modo de regula\u00e7\u00e3o que se desprende dos la\u00e7os estatais para as organiza\u00e7\u00f5es e tratados internacionais. O que n\u00e3o significa um panorama totalmente novo, mas somente corrobora a leitura estrutural feita por Marx. Hoje, o que se verifica \u00e9 a intensifica\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia \u00e0 internacionaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o, sendo carreada pelos Estados, e concomitantemente tragando-os para o desconhecido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o fortuitamente, o \u00ednterim que vivemos impulsiona a retomada da posi\u00e7\u00e3o central do conceito de imperialismo. Se no ciclo pioneiro, ele foi nuclear, e no fordista ficou eclipsado ante outras quest\u00f5es; no p\u00f3s-fordista ele resgata seu lugar de destaque, conjugando uma mir\u00edade de novas interpreta\u00e7\u00f5es com atualiza\u00e7\u00f5es das j\u00e1 existentes. Logo, \u00e9 premente revisitar o conceito de imperialismo, retomando sua grandeza, o que n\u00e3o \u00e9 uma tarefa simples, mas demanda a assun\u00e7\u00e3o de uma postura te\u00f3rica e pr\u00e1tica, que impulsione o leitor para a fuga do conforto das certezas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que proponho \u00e9 chamar a aten\u00e7\u00e3o das esquerdas para os debates derivacionistas do Estado e seus desdobramentos, iniciados na d\u00e9cada de 1970 e alicer\u00e7ados em uma nova (ou na radical) leitura de Marx (proposta a partir d\u2019O Capital) para se chegar \u00e0 compreens\u00e3o da teoria materialista do imperialismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O capitalismo constitui-se em sua forma mais desenvolvida no sistema internacional. O mercado mundial \u00e9 o \u00e2mbito de manifesta\u00e7\u00e3o mais alargada do capitalismo. \u00c9 a arena que capta os fen\u00f4menos capitalistas por completo. \u00c9 a base e a atmosfera de vida do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. Nessa seara, o Estado capitalista n\u00e3o surge isoladamente, mas em coletivo, enquanto um sistema de Estados, sendo essa multiplicidade um tra\u00e7o estrutural do capitalismo. O espa\u00e7o geogr\u00e1fico do capital n\u00e3o \u00e9 o das fronteiras estatais, sen\u00e3o o internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com efeito, a forma pol\u00edtica capitalista toma molde de Estado-na\u00e7\u00e3o, em um ambiente de m\u00faltiplos atores cong\u00eaneres. Logo, a discuss\u00e3o sobre a forma pol\u00edtica capitalista toca o Estado enquanto aparato de domina\u00e7\u00e3o de classe e como aparato de competi\u00e7\u00e3o entre segmentos ou fra\u00e7\u00f5es das burguesias. O Estado no capitalismo \u00e9 moldado na l\u00f3gica do capital (em uma rela\u00e7\u00e3o factual, contradit\u00f3ria), sendo desp\u00f3tico em rela\u00e7\u00e3o a seus sujeitos (nacionais), e competitivo, e imerso na anarquia, em meio a seus rivais (cong\u00eaneres estatais). Essa forma pol\u00edtica concreta expressa que o Estado capitalista n\u00e3o est\u00e1 acima e fora das rela\u00e7\u00f5es capitalistas de produ\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 decorr\u00eancia direta delas. O capitalismo \u00e9 anarquicamente ingovern\u00e1vel (n\u00e3o h\u00e1 um centro nevr\u00e1lgico de comando que guie seus rumos). Nenhum centro ou institui\u00e7\u00e3o ir\u00e1 control\u00e1-lo. Suas generalidades s\u00e3o resultados das rela\u00e7\u00f5es an\u00e1rquicas de competi\u00e7\u00e3o entre os capitais em disputa. Logo, a totalidade social capitalista do sistema internacional \u00e9 lastreada na viol\u00eancia, no conflito, na concorr\u00eancia e nos antagonismos. O imperialismo concretiza-se e imiscui-se nas rela\u00e7\u00f5es internacionais pela hierarquiza\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os pol\u00edticos e econ\u00f4micos pelo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, destaco no livro que o imperialismo somente pode ser debatido por um vi\u00e9s atento \u00e0 estrutura e \u00e0 din\u00e2mica do capitalismo global e do sistema de Estados. Para que n\u00e3o se incorra no deslize de generalizar situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas espec\u00edficas ou aspectos meramente emp\u00edricos, \u00e9 preciso entender que as conjunturas mut\u00e1veis que influenciaram nas concep\u00e7\u00f5es expostas est\u00e3o alicer\u00e7adas em bases estruturais. \u00c9 com fulcro nessa concep\u00e7\u00e3o materialista que se pode derivar as categorias que s\u00e3o pr\u00f3prias e inerentes ao \u00e2mbito internacional, como seus dois elementos estruturais: a acumula\u00e7\u00e3o capitalista, portadora de crises e contradi\u00e7\u00f5es; e a forma pol\u00edtica espec\u00edfica do capitalismo, a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em uma coletividade de Estados, individualizados e particularizados, que se p\u00f5em em rela\u00e7\u00e3o de concorr\u00eancia permanente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo <em>Imperialismo, Estado e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais<\/em>, apesar de parecer demasiadamente amplo, e de fato o \u00e9, ilustra tr\u00eas elementos essenciais para a plena compreens\u00e3o da nossa realidade, o terreno das rela\u00e7\u00f5es de produ\u00e7\u00f5es que cotidianamente pisamos e por elas somos levados. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 demonstrar que o campo cient\u00edfico das Rela\u00e7\u00f5es Internacionais \u00e9 muito mais amplo e impuro do que pensam seus art\u00edfices mais conhecidos. Muito antes de perder-se em generaliza\u00e7\u00f5es e imprecis\u00f5es do que \u00e9 multi ou interdisciplinar, o estudo das rela\u00e7\u00f5es internacionais \u00e9 o que permite atingir a plenitude do capitalismo e poder olhar sem maiores turva\u00e7\u00f5es o seu real car\u00e1ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><em>*Luis Felipe Brand\u00e3o Os\u00f3rio \u00e9 professor adjunto de Direito e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.\u00a0luizfelipe.osorio@googlemail.com<\/em><\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Felipe Brand\u00e3o Os\u00f3rio (UFRRJ)* Falar de imperialismo hoje \u00e9 falar de capitalismo, marxismo (Estado) e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. O que eu fa\u00e7o quest\u00e3o de enfatizar no livro \u00e9 que o imperialismo \u00e9 um fen\u00f4meno que ganha especificidade te\u00f3rica e hist\u00f3rica com o advento e, principalmente, com a expans\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista por todos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[93,111],"tags":[298,167,211],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/941"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=941"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/941\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":943,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/941\/revisions\/943"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=941"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=941"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=941"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}