{"id":989,"date":"2018-09-09T18:30:48","date_gmt":"2018-09-09T21:30:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/?p=989"},"modified":"2018-10-02T13:49:37","modified_gmt":"2018-10-02T16:49:37","slug":"codato-adriano-perissinoto-renato-marxismo-como-ciencia-social-curitiba-editora-ufpr-2011-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/en\/2018\/09\/09\/codato-adriano-perissinoto-renato-marxismo-como-ciencia-social-curitiba-editora-ufpr-2011-2\/","title":{"rendered":"CODATO, Adriano; PERISSINOTTO, Renato. Marxismo como ci\u00eancia social. Curitiba: Editora UFPR, 2011."},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ian Rebou\u00e7as Batista<\/strong> <span style=\"font-size: 10pt;\">(ODELA)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez centro dos estudos sociais, pol\u00edticos e econ\u00f4micos brasileiros, principalmente enquanto enfrentamento acad\u00eamico \u00e0 ditadura militar, o marxismo encontra-se hoje \u00e0 margem das ci\u00eancias sociais na academia brasileira. Desde o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da queda do Muro de Berlim, a vis\u00e3o marxista de mundo passa a ser relacionada \u00e0 autoritarismo, a erros de c\u00e1lculos pol\u00edticos e \u00e0 pobreza, uma vez que a ru\u00edna do comunismo p\u00f3s-Guerra Fria surgia \u201ccomo prova (d)o sensacional naufr\u00e1gio do socialismo real como sistema de vida e como forma de governo\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. xxxiii).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O esfor\u00e7o de Adriano Codato e Renato Perissinotto, no livro <em>Marxismo como ci\u00eancia social<\/em>, \u00e9 de revisita\u00e7\u00e3o e interpreta\u00e7\u00e3o das obras \u201cmais pol\u00edticas\u201d de Marx, Engels e da literatura marxista que se debru\u00e7ou sobre \u201co pol\u00edtico\u201d. \u00c9 reiterando o potencial explicativo marxista do pol\u00edtico e dos fen\u00f4menos sociais de poder que Codato e Perissinotto fazem defesa de uma abordagem cient\u00edfica utilizando a teoria marxista. O racioc\u00ednio \u00e9 que se existe uma maneira marxista de entender a pol\u00edtica e as rela\u00e7\u00f5es de poder na sociedade, essa maneira deve ser pass\u00edvel de demonstra\u00e7\u00e3o e averigua\u00e7\u00e3o. Logo, tratar o marxismo como ci\u00eancia social significa p\u00f4r a prova seus postulados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa \u00e9 a grande li\u00e7\u00e3o do livro. Para fortalecimento do marxismo dentro da academia, para al\u00e9m de ensaios e divaga\u00e7\u00f5es meta-filos\u00f3ficas, seus postulados devem ser entendidos como hip\u00f3teses test\u00e1veis, e n\u00e3o como pressupostos ou princ\u00edpios. Fugindo do dogma marxista religioso, as \u201cm\u00e1ximas\u201d marxistas devem ser antes testadas e comprovadas para serem aceitas cientificamente. No intuito dos autores em tornar o marxismo palat\u00e1vel e aplic\u00e1vel \u00e0 ci\u00eancia pol\u00edtica praticada na modernidade, adota-se o esquema cl\u00e1ssico\/positivista de funcionamento da pesquisa cient\u00edfica onde a infer\u00eancia causal \u00e9 o objetivo (KING; KEOHANE; VERBA, 1994): teoria causal -&gt; hip\u00f3tese -&gt; teste emp\u00edrico -&gt; avalia\u00e7\u00e3o das hip\u00f3teses -&gt; avalia\u00e7\u00e3o da teoria causal -&gt; conhecimento cient\u00edfico. Nesse modelo, o pressuposto marxista seria a teoria causal inicial e a partir da\u00ed se operacionalizariam as hip\u00f3teses, onde \u201cmove-se de uma afirma\u00e7\u00e3o geral sobre como n\u00f3s achamos que o mundo funciona para uma afirma\u00e7\u00e3o mais espec\u00edfica sobre o relacionamento que esperamos encontrar quando vamos ao mundo real e medimos (operacionalizamos) nossas vari\u00e1veis\u201d<a href=\"#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a> (KELLSTED; WHITEN, 2009, p. 9).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com esse intuito, os primeiros cinco cap\u00edtulos do livro s\u00e3o de prepara\u00e7\u00e3o te\u00f3rica antes de partir para propostas metodol\u00f3gicas. Releituras n\u00e3o s\u00f3 de Marx e Engels, mas de uma ampla gama de autores marxistas do s\u00e9culo XX, almejam identificar de que maneira o marxismo pode contribuir para leituras da pol\u00edtica, do pol\u00edtico e das rela\u00e7\u00f5es de poder na sociedade. Dessa forma, o cap\u00edtulo 1 busca distanciar o marxismo aqui proposto daquele instrumentalista e economicamente determinista. N\u00e3o sendo uma novidade que emerge nesta obra, repensar a \u201cprimazia do econ\u00f4mico\u201d significa abandonar uma rela\u00e7\u00e3o causal simples entre motiva\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas das classes sociais e as a\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. \u00c9 a corrente neomarxista estruturalista das d\u00e9cadas de 1960 e 1970 a respons\u00e1vel pelo primeiro esfor\u00e7o na quebra desse entendimento determinista. A obra de Nicos Poulantzas \u00e9 o marco inicial nesse sentido. O econ\u00f4mico, para o autor grego, \u00e9 o princ\u00edpio-base da organiza\u00e7\u00e3o da vida social, constituindo-se como uma estrutura determinante para uma an\u00e1lise social. Mas n\u00e3o \u00e9 exclusiva. Outras estruturas moldam os acontecimentos e as a\u00e7\u00f5es dos atores. \u201cA luta de classes quando assume formas espec\u00edficas ([das outras estruturas] jur\u00eddicas, pol\u00edticas, ideol\u00f3gicas) nem sempre podem ser ligadas explicitamente aos interesses econ\u00f4micos, essa dissimula\u00e7\u00e3o \u00e9 o que torna a domina\u00e7\u00e3o tanto poss\u00edvel quanto leg\u00edtima\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 24).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os cap\u00edtulos 2 e 3 ir\u00e3o ressaltar, assim, o Estado, ou a estrutura jur\u00eddico-pol\u00edtica, como uma dessas estruturas que moldam os fen\u00f4menos sociais. A quebra de entendimento anterior aqui se refere a deixar de compreender o Estado somente como instrumento controlado pelos interesses economicamente dominantes. O conceito de autonomia relativa do Estado, introduzido por Poulantzas, serve para compreendermos que essa institui\u00e7\u00e3o pode perseguir interesses que no curto e m\u00e9dio prazo n\u00e3o condizem com os anseios do capital e dos capitalistas. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, contudo, \u00e9 um garantidor da \u201cordem material da sociedade burguesa sem que para tanto precise ser controlado, dirigido e operado diretamente pelos membros da classe burguesa\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 74). A aproxima\u00e7\u00e3o do marxismo com a ci\u00eancia pol\u00edtica avan\u00e7a nesse ponto, ao compreender o Estado como uma institui\u00e7\u00e3o tal qual o entendimento neoinstitucionalista de institui\u00e7\u00e3o, ou seja, como uma vari\u00e1vel aut\u00f4noma, como fator explicativo dos fen\u00f4menos sociais. \u00c9 importante frisar que essa n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma vis\u00e3o oposta ao marxismo cl\u00e1ssico. Tanto Poulantzas como Codato e Perissinotto est\u00e3o fazendo interpreta\u00e7\u00f5es dos textos originais do marxismo e ao longo de suas obras justificam esse entendimento. Da leitura de uma obra como o 18 de Brum\u00e1rio, por exemplo, o que se conclui \u00e9 que \u201cMarx conjuga dois n\u00edveis de an\u00e1lise, um \u2018estrutural\u2019 e outro \u2018estrat\u00e9gico\u2019 [&#8230;] a a\u00e7\u00e3o estatal deve ser avaliada a partir do seu impacto sobre os agentes pol\u00edticos e da rea\u00e7\u00e3o destes a essas a\u00e7\u00f5es por meio de lutas que podem inclusive afetar \u2013 isto \u00e9, limitar, circunscrever, precisar \u2013 a reprodu\u00e7\u00e3o da ordem social\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 88).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo 4, na sequ\u00eancia, dedica-se a uma poss\u00edvel leitura da obra de Poulantzas, autor que como se percebe \u00e9 fundamental para os objetivos do livro. \u00c9 fundamental pois \u00e9 refer\u00eancia na leitura do pol\u00edtico na tradi\u00e7\u00e3o marxista. O objetivo da curta trajet\u00f3ria acad\u00eamica de Poulantzas foi a discuss\u00e3o do n\u00edvel pol\u00edtico a partir dos cl\u00e1ssicos marxistas, do movimento oper\u00e1rio e das obras contempor\u00e2neas da ci\u00eancia pol\u00edtica (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 106), o que se inicia com <em>Poder Pol\u00edtico e Classes Sociais<\/em>, em 1969. A leitura oferecida por Codato e Perissinotto aqui \u00e9 a de varia\u00e7\u00f5es entre entendimento, fun\u00e7\u00e3o e supera\u00e7\u00e3o do Estado observadas em tr\u00eas distintos momentos da obra poulantziana. Ap\u00f3s lan\u00e7ar a leitura de \u201cautonomia relativa do Estado\u201d, os dois momentos subsequentes na carreira do autor grego s\u00e3o de crescente import\u00e2ncia do econ\u00f4mico em suas divaga\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas e aplica\u00e7\u00f5es nos regimes autorit\u00e1rios europeus da segunda metade do s\u00e9culo XX e nas sociais-democracias do p\u00f3s-guerra. Apesar de algumas varia\u00e7\u00f5es, que podem ser entendidas como refinamento de uma mesma compreens\u00e3o te\u00f3rica inaugurada em <em>Poder Pol\u00edtico&#8230;<\/em>, o que os autores identificam no grego \u00e9 a inaugura\u00e7\u00e3o de um novo m\u00e9todo de pesquisa marxista a partir da obra de Poulantzas, um que impede que o marxismo ignore as conex\u00f5es entre pol\u00edtica, sociologia e teoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir disso, Codato e Perissinotto introduzem nova quebra de entendimento anterior. No cap\u00edtulo 5, discutem o espa\u00e7o pol\u00edtico segundo Marx. A compreens\u00e3o da pol\u00edtica como uma encena\u00e7\u00e3o, um teatro que maquia as reais decis\u00f5es, em ess\u00eancia econ\u00f4micas, \u00e9 aqui repensada. \u201cA cena p\u00fablica \u00e9, para Marx, um espa\u00e7o social no qual a apar\u00eancia (aquilo que est\u00e1 \u00e0 vista de todos) produz efeitos socialmente eficazes, repercutindo, de maneira decisiva, sobre as pr\u00e1ticas pol\u00edticas de classe. [&#8230;] O espa\u00e7o pol\u00edtico pode funcionar, como de fato funciona, como um mecanismo de media\u00e7\u00e3o entre a estrutura pol\u00edtica e a estrutura econ\u00f4mica\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 147). Essa nova leitura \u00e9 primordial para que haja uma an\u00e1lise n\u00e3o economicamente determinista da pol\u00edtica, uma vez que permite entender que os interesses econ\u00f4micos, quando entram no espa\u00e7o pol\u00edtico, assumem uma forma pol\u00edtica (um partido, uma organiza\u00e7\u00e3o) e passam a ser regidos conforme as regras do jogo pol\u00edtico. Ao fim e ao cabo isso permite compreendermos que existem interesses sociais, e n\u00e3o s\u00f3 econ\u00f4micos, no mundo pol\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a partir do cap\u00edtulo 6, ou seja, na segunda metade do livro, que os autores passam a indicar a sugest\u00e3o metodol\u00f3gica de como tratar o marxismo como ci\u00eancia social. Um dos grandes desafios de investigar a realidade a partir da \u00f3tica marxista \u00e9 identificar no mundo real alguns conceitos-chave para essa teoria. Classes sociais \u00e9 o principal deles. No uso tradicional do marxismo, o uso que Codato e Perissinotto tentam superar, \u201cpretende-se explicar determinados fen\u00f4menos sociais sempre a partir das consequ\u00eancias ben\u00e9ficas que eles produzem para a classe dominante ou para a reprodu\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o de classe\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 165), \u00e9 como explicar a causa de um fen\u00f4meno a partir de sua consequ\u00eancia. O uso cient\u00edfico do marxismo, que deve buscar inferir justamente causalidade nos fen\u00f4menos, requer a incrementa\u00e7\u00e3o de instrumentos metodol\u00f3gicos. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 o caso aqui de um incremento original dos autores, trata-se de uma preocupa\u00e7\u00e3o que adv\u00e9m do marxismo anal\u00edtico, corrente marxista que possui Adam Przeworski e Jon Elster como alguns de seus autores. N\u00e3o se trata de uma corrente coesa e de proposta unit\u00e1ria, mas a preocupa\u00e7\u00e3o com a operacionaliza\u00e7\u00e3o das classes sociais unifica esses autores. Uma possibilidade de se trabalhar com as classes sociais nas an\u00e1lises pol\u00edticas \u00e9 o uso do seguinte instrumental: a) individualismo metodol\u00f3gico, que significa desconsiderar que as classes e o Estado atuem como atores coesos, e considerar que quem atua s\u00e3o os indiv\u00edduos, dotados de cren\u00e7as pessoais e motiva\u00e7\u00f5es; b) teoria da escolha racional, que considera os atores como racionais, maximizando vantagens pessoais; c) teoria dos jogos, onde atores encontram-se em situa\u00e7\u00e3o de interdepend\u00eancia de decis\u00f5es racionais, podendo ser situa\u00e7\u00f5es cooperativas (jogo de soma vari\u00e1vel) ou n\u00e3o-cooperativas (jogo de soma 0).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O cap\u00edtulo 7 introduz a identifica\u00e7\u00e3o de uma representa\u00e7\u00e3o subjetiva de classe, necess\u00e1ria para uma an\u00e1lise com referidos instrumentais metodol\u00f3gicos. \u00c9 necess\u00e1rio identificar quem s\u00e3o os atores que representam as classes sociais em determinada conjuntura analisada, j\u00e1 que a classe deve ser tratada como \u201cuma coletividade representada no campo pol\u00edtico por uma \u2018minoria politicamente ativa\u2019\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p.216). S\u00e3o tr\u00eas etapas, hierarquizadas<a href=\"#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a>, apontadas pelos autores para realizar essa identifica\u00e7\u00e3o. (i) Inicialmente, \u00e9 preciso saber se os membros do grupo que se pretende identificar enquanto representantes da classe de fato agem de maneira coordenada e conveniente aos interesses dessa classe. Para tanto, sugerem estudo de processos decis\u00f3rios e suas etapas, como a articula\u00e7\u00e3o de interesses, a forma\u00e7\u00e3o de uma agenda p\u00fablica, o processamento das demandas por parte de aparelhos do Estado, etc. Analisando o comportamento do grupo em quest\u00e3o ao longo do processos decis\u00f3rio, pode-se identificar coer\u00eancia e qual o interesse do grupo. (ii) Em seguida, deve-se averiguar se esse grupo fala manifestadamente em nome da classe social, e nesse momento a an\u00e1lise de discurso \u00e9 o m\u00e9todo adequado para tanto. (iii) Por fim, o estudo do background dos indiv\u00edduos que comp\u00f5em o grupo e do pr\u00f3prio grupo, no que chamam de \u201cestudos sobre a origem social de uma \u2018elite de classe\u2019\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 274), pode fazer uso de m\u00e9todos tradicionais para estudos de socializa\u00e7\u00e3o, numa matriz bourdieusiana, ou utilizando-se de modernas t\u00e9cnicas de constru\u00e7\u00e3o de redes de intera\u00e7\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es entre agentes. A compreens\u00e3o de que nenhum grupo mobilizado representa toda uma classe social \u00e9 pressuposto para uma an\u00e1lise como essa, sendo tamb\u00e9m diversas as arenas ao longo da sociedade e do pr\u00f3prio Estado onde diversas organiza\u00e7\u00f5es representantes de classe encontram-se em disputa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se nota, os incrementos propostos para que o marxismo cres\u00e7a enquanto ci\u00eancia social tratam-se de avan\u00e7\u00e1-lo em aspectos conceituais, operacionais e te\u00f3ricos. Isso acontece quando se prop\u00f5e que o marxismo d\u00ea dois passos de matura\u00e7\u00e3o. O primeiro, como j\u00e1 se notou, \u00e9 um passo em dire\u00e7\u00e3o ao neoinstitucionalismo, paradigma da ci\u00eancia pol\u00edtica p\u00f3s-comportamentalista que ganha espa\u00e7o no <em>mainstream<\/em> da \u00e1rea principalmente na d\u00e9cada de 1970 e que permanece com destaque at\u00e9 hoje na disciplina. O outro passo, escancarado somente no cap\u00edtulo 8, \u00e9 em dire\u00e7\u00e3o ao elitismo sociol\u00f3gico. Isso porque por mais que se levantem teoricamente fun\u00e7\u00f5es e a\u00e7\u00f5es do Estado, bem como interesses, s\u00e3o as pessoas que dirigem o Estado que tomam as decis\u00f5es e a\u00e7\u00f5es. O elitismo cl\u00e1ssico compreende o poder pol\u00edtico como sendo muitas vezes independente ao poder econ\u00f4mico, e exercido por uma burocracia estatal aut\u00f4noma. Ap\u00f3s o que foi discutido at\u00e9 aqui sobre o pol\u00edtico e a necessidade de se compreender a primazia do econ\u00f4mico de outra forma, \u00e9 um movimento de aproxima\u00e7\u00e3o que n\u00e3o requer muitos esfor\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O estruturalismo poulantziano possibilita essa di\u00e1logo e aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, principalmente ao considerar que o Estado \u00e9 dirigido por um bloco no poder, composto em determinada conjuntura por classes ou fra\u00e7\u00f5es de classe, expresso na cena pol\u00edtica \u201cpor meio de alian\u00e7as partid\u00e1rias ou mesmo por meio de uma luta aberta entre partidos\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 235). Logo, o conceito de elite permite operacionalizar empiricamente a an\u00e1lise classista da pol\u00edtica e a identifica\u00e7\u00e3o de representantes das fra\u00e7\u00f5es de classe que comp\u00f5em o bloco no poder. Essa identifica\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00f5es subjetivas de classe, discutida em par\u00e1grafo anterior, \u00e9 assim uma identifica\u00e7\u00e3o de uma elite de classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A li\u00e7\u00e3o final, contudo, \u00e9 tomar ci\u00eancia do movimento em dois momentos que deve ser posto em pr\u00e1tica ao se proceder com uma an\u00e1lise classista da pol\u00edtica: atentar, de um lado, para as \u201cestruturas da sociedade capitalista impondo limites \u00e0 decis\u00f5es, estrat\u00e9gias e margens de a\u00e7\u00e3o das elites pol\u00edticas e sociais\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 242), e de outro, compreender que \u201celites fazem escolhas, tra\u00e7am t\u00e1ticas, redefinem decis\u00f5es, costuram alian\u00e7as, calculam o alcance de suas possibilidades de poder e, por conseguinte, afetam com isso a din\u00e2mica real do mundo social e do mundo pol\u00edtico\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 244).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O balan\u00e7o do esfor\u00e7o de Adriano Codato e Renato Perissinotto na obra aqui resenhada soa como uma tarefa de tradu\u00e7\u00e3o do marxismo. Trata-se de traduzir a vis\u00e3o de mundo marxista para a linguagem da ci\u00eancia social comprometida em racionalizar e compreender os fen\u00f4menos observ\u00e1veis, tal qual a defini\u00e7\u00e3o weberiana de racionaliza\u00e7\u00e3o (WEBER, 1993). \u00c9 um passo (ou dois, como comentado anteriormente) que se distancia do m\u00e1gico, do misterioso, do predisposto a acontecer \u201cporque \u00e9 assim que as coisas s\u00e3o\u201d. Por d\u00e9cadas o marxismo foi pintado como dogma religioso, onde tudo que Marx escreveu era lei natural e pressuposto do funcionamento da realidade. Tratar o marxismo como ci\u00eancia social \u00e9, portanto, questionar, perguntar, duvidar dos pressupostos marxistas, transform\u00e1-los em hip\u00f3teses e, a partir disso, pesquisar cientificamente para corroborar ou refutar esses postulados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a>\u00a0 Tradu\u00e7\u00e3o livre.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 10pt;\"><a href=\"#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a> \u201cA hierarquiza\u00e7\u00e3o desses tr\u00eas procedimentos \u00e9 importante, j\u00e1 que eles t\u00eam impactos diferenciados na comprova\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o entre a minoria analisada e a classe. [&#8230;] a presen\u00e7a de uma a\u00e7\u00e3o manifesta e conscientemente orientada pela consecu\u00e7\u00e3o de objetivos de classe j\u00e1 seria suficiente para estabelecer a rela\u00e7\u00e3o de representa\u00e7\u00e3o, mesmo que os membros da minoria n\u00e3o fossem recrutados na classe em quest\u00e3o\u201d (CODATO; PERISSINOTTO, 2011, p. 216\/217).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refer\u00eancias<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KELLSTED, Paul; WHITEN, Guy. <strong>The Fundamentals of Political Science Research<\/strong>. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">KING, Gary; KEOHANE, Robert; VERBA, Sidney. <strong>Designing Social Inquiry: scientific inference in qualitative research<\/strong>. Princeton: Princeton University Press, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">WEBER, Max.<strong> Ci\u00eancia e Pol\u00edtica: duas voca\u00e7\u00f5es<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1993.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ian Rebou\u00e7as Batista (ODELA) Uma vez centro dos estudos sociais, pol\u00edticos e econ\u00f4micos brasileiros, principalmente enquanto enfrentamento acad\u00eamico \u00e0 ditadura militar, o marxismo encontra-se hoje \u00e0 margem das ci\u00eancias sociais na academia brasileira. Desde o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da queda do Muro de Berlim, a vis\u00e3o marxista de mundo passa a ser relacionada [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[91,109],"tags":[302,209],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/989"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=989"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/989\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1114,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/989\/revisions\/1114"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=989"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=989"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/odela\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=989"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}