Quem escavou as paleotocas ??

A definição a respeito dos organismos escavadores de paleotocas de tamanhos diferentes é um dos principais desafios do Projeto Paleotocas.

Quem escava tocas hoje em dia ? Aqui no Brasil, é comum encontrar tocas de corujas buraqueiras, pica-paus e tocas de tatus, é claro. Além disso, insetos como formigas e cupins também vivem em abrigos subterrâneos.


Tocas escavadas por formigas em corte de estrada no perimetro urbano de Campo Bom.
Na realidade são câmaras conectadas à superfície por pequenos tubos.
A câmara maior possui 40 cm de largura.



Tocas escavadas por pica-paus em jazida de areia de Campo Bom.
Essas tocas são muito comuns em paredões antigos de pedra-grês (arenito).
Possuem em torno de 10 cm de largura.


Na América do Norte, por outro lado, existe uma tartaruga que cava túneis com até 17 metros de comprimento. Veja um vídeo de uma tartaruga dessas em http://www.youtube.com/watch?v=o5FwvUD2e94 . O maior animal que cava túneis atualmente no planeta é o porco da terra (aardvark), que vive na África. Os túneis chegam a 13 metros de comprimento, com um diâmetro de quase 50 cm. Para comparação: os túneis do tatu canastra (Priodontes giganteus) atingem apenas 5 metros de comprimento e um diâmetro de 40 cm.


Aardvark
Imagem emprestada de www.sanparks.org


Os túneis que estamos encontrando são muito maiores. Túneis de 30 metros são comuns, ocasionalmente podem ser encontrados túneis com mais de 100 metros. Os diâmetros são muito maiores: comuns são diâmetros de 80 cm, freqüentes são túneis com 1,0 a 1,3 m de diâmetro, às vezes encontramos túneis com entre 2 e 4 metros de diâmetro. Não existem animais na fauna sul-americana atual que cavam túneis com estas dimensões. Portanto, os túneis são de animais pré-históricos.

Muitos vezes nos perguntam se os índios, os jesuitas ou os escravos não fizeram os túneis. Sob hipótese alguma. Nas paredes dos túneis encontramos, quase sempre, marcas de poderosas garras. As marcas são longas (chegam a 60 cm de comprimento), bem separadas entre si (mais de 2 cm) e podem ocorrer em grupos de três - três marcas com as mesmas características, paralelas. Portanto, os túneis foram cavados por animais que não existem mais. Estes animais são conhecidos como a Megafauna Pleistocênica Sul-Americana, muito bem conhecida pelos muitos ossos que se achou desses animais. Entre eles, elefantes, lhamas e outros. E há poucos animais entre eles que estão adaptados para cavar. Os mais prováveis são os tatus gigantes, animais que chegavam a 250 quilos de peso. Há vários gêneros e muitas espécies, as mais prováveis são os Eutatus, os Propraopus ou os Pampatherium. Abaixo está uma imagem de um tatu gigante desses, o Propraopus grandis, em uma ilustração feita pelo membro da equipe do Projeto Paleotocas, o Renato Lopes.


Propraopus grandis, um dos tatus gigantes que provavelmente escavaram paleotocas.


Algumas das paleotocas, entretanto, são muito grandes, com larguras entre dois e quatro metros. Como um animal que cava túneis não faz túneis muito mais largos que a largura de seu corpo, estes túneis podem ter sido escavados por uma das espécies de preguiças gigantes que habitaram o continente Sul-Americano nos últimos milhões de anos. Há dois grupos, basicamente: os Mylodontídeos são algo menores, com uma tonelada de peso, e os Megaterídeos, que alcançavam quatro toneladas de peso. Alguns sites internacionais descrevem a aparência de uma preguiça gigante como um "hamster gigante" - não é bem isso, mas dá uma idéia...


O Glossotherium é uma das várias dezenas de preguiças gigantes existentes.
Ilustração do Renato P. Lopes, do Projeto Paleotocas.



Mas temos um problema. E se as marcas nas paredes foram de animais que entraram depois nas tocas ? Depois que o animal que escavou a toca a abandonou ? Isso é muito comum. Em todas abertas entra tudo que V. pode imaginar. Insetos, aves, répteis, mamíferos, anfíbios e inclusive o Homem. Nas nossas paleotocas já encontramos aranhas e opiliões, rãs enormes, cães domésticos, gambás, morcegos e, em algumas, rabiscos sem fim feitos por crianças que brincavam nas tocas décadas atrás ou inscrições rupestres feitas por índios (em Urubici, SC). No Sul dos Estados Unidos, nas tocas construídas pela tartaruga acima citada já foram encontradas mais de 350 espécies de animais. Portanto, a marca da parede não pode ser atribuída, automaticamente, ao organismo escavador.

Uma definição mais precisa a respeito dos organismos escavadores somente será obtida com um grande número de paleotocas, de preferência com muitas marcas de garra nas paredes. Por enquanto, com apenas 40 túneis com estas características, esta conclusão não é definitiva. Nos ajude a encontrar mais túneis !



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