Qualquer buraco pode ser uma paleotoca ?

Esta é uma dúvida pertinente. Em meio a tantas cavernas, grutas, grotas, furnas, tocas e outros nomes que se dá a "buracos em geral", quem é quem? Cavernas podem se formar através de pelo menos 15 maneiras diferentes:


1. Rochas solúveis em água, como os calcários, têm o potencial de desenvolver as clássicas cavernas com espeleotemas dos mais diversos, normalmente associadas abundantes feições cársticas. Como os mecanismos de gênese desse tipo de caverna (e do karst) são bem conhecidos, a gênese da cavidade em si é um processo conhecido; o que torna essas cavernas tão interessantes são as faunas cavernícolas, aspectos do imaginário popular a seu respeito, eventuais registros arqueológicos e paleontológicos, seu potencial turístico e outras feições peculiares que possam apresentar.



Neste diagrama esquemático pode-se visualizar a formação de cavernas por dissolução de rochas calcárias.
Imagem obtida de http://insomniacsraine.blogspot.com/2007/09/buggy-top-cave-follow-up.html.



Nestas cavernas calcárias podem se formar espetaculares espeleotemas, que são formações de calcita como estalagtites, estalagmites e muitos outros.
Imagem obtida de http://insomniacsraine.blogspot.com/2007/09/buggy-top-cave-follow-up.html.



2. Um tipo de "caverna" muito comum são cavidades situadas atrás de cachoeiras. Normalmente existe uma camada de rocha mais resistente à erosão no alto e uma camada de rocha menos resistente abaixo desta. A contínua ação da água e da umidade erode a camada inferior e cria uma reentrância, às vezes menor, às vezes menor. São locais muito cênicos, frequentemente com turismo religioso. No Rio Grande do Sul conhecemos mais de 30 "Gruta de N. S. de Lourdes", a maioria desse tipo. Como são espaços mais assemelhados a abrigos sob rocha, tem grande potencial arqueológico, de escalada (como a Gruta da Terceira Légua, em Caxias do Sul - RS) e outros, mas sua gênese oferece poucas novidades.


3. Um outro tipo de caverna é a famosa "caverna pega-ratão". Em algum lugar você ouve/lê algo sobre uma "Gruta", normalmente associada a um(a) Santo(a). Talvez em uma região onde não há nenhum registro de outras cavidades. Cheio de esperanças de encontrar uma daquelas cavernas escondidas e desconhecidas, você se esbalda para encontrá-la, gasta um tempão e um dinheirão para chegar lá e, ao chegar, constata, com uma pitada de sarcasmo, que é uma gruta artificial. Haha. "Gruta do Quartzo" em Cotiporã (RS), por exemplo. Todos nós já caímos nessa... Sua obrigação é de publicar isso em algum lugar para que outros não caiam nessa também.


4. Depois tem as cavidades entre matacões de granito. A alteração da rocha granítica (sensu latu) resulta naquelas enormes pedras redondas, às vezes do tamanho de uma casa, chamadas de "matacões" na geologia. Se a erosão remove a rocha já alterada existente entre os matacões, eles acabam "sobrando" e se empilhando. Sempre sobra um espaço entre eles e que acaba sendo chamado de "caverna" pela população. No Cadastro Nacional de Cavernas estão registradas 3 dessas "cavernas", localizadas no Parque de Itapuã (Viamão - RS), por exemplo. Podem ter interesse arqueológico, histórico e biológico, mas em relação à sua gênese há pouco a acrescentar.


5. Um outro tipo de cavidade é a "furna marinha". Existem várias na Ilha de Florianópolis, e deve haver mais ao longo de toda costa oceânica brasileira ao norte de Torres (RS). São cavidades geradas pela ação das ondas do mar em costões rochosos, naqueles locais em que havia na rocha um ponto de fraqueza, como uma falha, um dique ou algo assemelhado. Ao longo de milênios, os fragmentos de rocha gerados pela ação da falha foram lavados para fora e as cavidades foram se formando. Situações idênticas podem ocorrer em paredões de rocha na margem de rios caudalosos, como no município de Boqueirão do Leão (RS), ou associados a diques de diabásios intensamente fraturados, como em Ivoti (RS). A gênese destas cavidades, nestes casos, deixa pouca margem a dúvidas.


6. Cavidades de outro tipo surgem quando enormes blocos, que alcançam o tamanho de uma casa, despencam ao longo dos milênios de um paredão de uma montanha. Os blocos empilham-se na base do paredão e normalmente sobram espaços vazios entre eles. Não deixam de ser cavernas e normalmente há um rico folclore popular associado a ela. Uma dessas existe no Morro do Ferrabraz, em Sapiranga (RS), um pouco a Leste da rampa de paraglider, que continua merecendo um registro detalhado de seus aspectos folclóricos, mas sua origem está bem clara.


7. Uma outra gênese de cavidades se registra quando arroios e rios encontram pontos de fraqueza na rocha como zonas de falhamentos e acabam construindo um conduto subterrâneo, basicamente por processos de erosão. Frequentemente associam-se a estas situações a erosão tubular ("pipe erosion" ou "piping"), até que a água corra livre dentro do conduto. As águas da chuva, com intensidades diferentes ao longo das estações do ano, vão construindo uma rede de passagens subterrâneas, criando cavernas e situações pitorescas, muito cênicas e particulares. Uma situação desta nós encontramos no flanco Oeste do Morro Itacolomi (Gravataí, RS), onde um arroio percorre um trecho de 60 metros subterrâneo em arenito. São situações interessantes e que merecem algum cuidado no estabelecimento dos mecanismos que geraram cada caso.


8. Cavernas de origem antropogênica são conhecidas de muitos locais no mundo. Na Turquia existe a cidade subterrânea de Derinkuyu e na Europa Central os "Erdstall", escavações antropogênicas cuja finalidade ainda não foi esclarecida. No Brasil, cavernas com esta gênese são raras pela própria história do continente. Entretanto, não deve ser descartada a possibilidade de determinada cavidade possuir origem antropogênica. Uma dessas se localiza na cidade de Estância Velha (RS), a Oeste do Curtume Bender. A população local atribui a ela origem indígena, professoras conduzem ônibus cheios de alunos para visitá-la, mas suas características indicam que a sua construção foi obra de um imigrante, cuja lembrança se perdeu na história. O contrário também ocorre - cavernas com gêneses não-antropogênicas chamadas de antropogênicas.


9. Uma feição exclusiva do continente Sul Americano são os túneis cavados por animais pré-históricos como tatus gigantes e preguiças terrestres do Cenozóico. Esses túneis, as chamadas paleotocas, podem alcançar larguras de 4 metros, alturas de 2 metros e os comprimentos somados dos túneis que compõe um abrigo subterrâneo pode alcançar, com facilidade, mais de 200 metros, desde que preservados. São cavernas de grande porte, como uma ocorrência recentemente investigada em Morro Grande (SC): mais de 150 metros de túneis com ao redor de 1,5 metros de diâmetro distribuídos em 4 andares e com pelo menos 8 saídas para fora do morro. Paleontologicamente são extremamente interessantes e podem produzir um volume imenso de informações, desconsiderando aspectos de fauna, história, arqueologia e outros.


10. Em rochas vulcânicas, formadas a partir de derrames de lava, podem existir grandes cavidades originadas como tubos de lava drenados ("lava tubes"), como no Lava Beds National Monument, na Califórnia (USA). Formam cavernas em forma de tubo que podem alcançar 10 metros de largura, 3 metros de altura e centenas de metros de comprimento. Devem ser entendidos como uma espécie de "rio de lava", confinado dentro de lava já consolidada. Quando cessa a erupção vulcânica que lhe deu origem, a lava continua escorrendo pelo tubo formado, que resta vazio. Pela própria geologia do Brasil, aqui são muito raros. Entretanto, durante a construção das Usinas Hidrelétricas de Cachoeira Dourada e São Simão (ambas na divisa entre Minas Gerais e Goiás), foram encontradas, na rocha basáltica, pequenas cavidades interpretadas como tal e a possibilidade de cavernas com essa gênese existe. Se encontradas, é importante seu registro e descrição pela raridade da feição e pelas implicações geológicas que tem.


11. Outra gênese possível de cavernas é a partir do desabamento de grandes blocos em paredões. Se o morro ou a montanha possuem um lado bastante vertical, um bloco grande, com centenas de metros cúbicos de volume, pode despencar devido a descontinuidades na rocha que o instabilizam. Resta no paredão a cavidade correspondente à situação original do bloco. Gêneses envolvendo este mecanismo explicam cavidades de portes variados, como a "Toca da Cabrita" localizada em Fazenda Vilanova (RS), uma reentrância com uma profundidade de apenas 5 metros, mas alturas e larguras de várias dezenas de metros, estabelecida em um paredão de arenito.


12. Existem algumas cavernas em rochas graníticas cuja gênese não está relacionada a desabamentos, empilhamentos ou fraturamentos. Estas cavernas ostentam os típicos alvéolos de dissolução, as "panelas", e são de grande interesse devido ao pequeno número de informações disponíveis sobre esse tipo de gênese. Apenas nos últimos anos, sob o título de "karst em granito", surgiram descrições de interpretações sobre a gênese deste tipo de cavidade encontrada em Portugal, por exemplo. Seu registro é muito i nteressante e deve ser acompanhado de análises mais detalhadas como, por exemplo, de lâminas petrográficas.


13. Uma outra gênese de cavidades relaciona-se a fraturamentos de grande porte, normalmente situadas nos flancos das montanhas. Por mecanismos que provavelmente envolvem acomodações do terreno associados a fraturamentos de grande porte pré-existentes na rocha, criam-se aberturas predominantemente verticais, lineares, de reduzida largura e com os dois lados tendendo a serem paralelos. Entre os vários exemplos conhecidos no Rio Grande do Sul, há a "Toca dos Corvos" em Cruzeiro do Sul e a "Toca da Ventosa" no Morro da Carapuça, em Taquari. São cavidades que podem ser exploradas de outras formas, como para turismo, mas que não oferecem novos subsídios em termos geológicos.


14. Em rochas como arenitos e granitos pode ocorrer um fenômeno de dissolução da rocha a partir de água da chuva estagnada. Esses processos podem ser superficiais ou internos à rocha. Quando superficiais, formam as "kamenitza" ou "gnamma", um termo coletivo que abrange principalmente depressões em forma de panela rasa, de portes variados, formadas pela dissolução dos minerais da rocha ou do cimento que une os grãos de areia a partir de água de chuva levemente ácida. Além da forma de panela, podem formar sulcos longos, tubos verticais cilíndricos e depressões de formas irregulares. Quando internos à rocha, podem formar cavernas em arenitos. Inicialmente uma porção do arenito saturada com água tem seu cimento removido e se torna basicamente um volume de areia solta em meio a uma rocha formada por areia cimentada. Quando essas porções desagregadas encontram uma possibilidade de escape, a areia desagregada sai da rocha, restando uma cavidade para trás. Esses processos são pouco descritos e qualquer contribuição a seu respeito é de grande interesse.


15. E existem aquelas cavernas cuja gênese é um mistério. Já encontramos várias onde ficamos nos perguntando: "como esse buraco se formou?". Apesar de ser geólogo, apesar de me considerar razoavelmente informado a respeito dos processos geológicos, simplesmente não tenho nem sugestão para oferecer. Uma delas foi um buraco irregular, com pouco mais de 8 metros de comprimento e ao redor de um metro de diâmetro, inserido em uma típica pilha de finos ( menores que 50 cm) derrames de lava basáltica. Outra foi uma cavidade com 50 metros de extensão, 20 metros de largura e 3 metros de altura, terminando em extensões tubiformes, escondida em um paredão de rocha vulcânica em um lugar remoto do município de Progresso (RS). Em termos de gênese, essas cavidades desconhecidas oferecem os maiores desafios e tem o maior potencial geológico.


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