{"id":447,"date":"2024-03-28T10:42:57","date_gmt":"2024-03-28T13:42:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/?p=447"},"modified":"2025-02-12T19:58:11","modified_gmt":"2025-02-12T22:58:11","slug":"formacao-de-racas-e-suas-classificacoes-no-brasil-colonial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/formacao-de-racas-e-suas-classificacoes-no-brasil-colonial\/","title":{"rendered":"Forma\u00e7\u00e3o de ra\u00e7as e suas classifica\u00e7\u00f5es no Brasil Colonial"},"content":{"rendered":"\n<h6 class=\"wp-block-heading has-primary-color has-text-color has-link-color wp-elements-1\"><strong>Renata da Costa Silva:<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O presente artigo planeja analisar as classifica\u00e7\u00f5es raciais criadas no Brasil colonial, as diversas categorias utilizadas no cotidiano da sociedade durante esse per\u00edodo, tentando compreender no que se baseou suas defini\u00e7\u00f5es. De brancos a crioulos, de escravos nascidos no Brasil a escravizados africanos, muitas foram as classifica\u00e7\u00f5es, algumas at\u00e9 hoje utilizadas, seja aquelas para auxiliar o censo brasileiro, at\u00e9 aquelas utilizadas para diminuir a exist\u00eancia de africanos e\/ou seus descendentes. O artigo de Joc\u00e9lio, principal obra utilizada, visa mostrar que a classifica\u00e7\u00e3o de cor no Brasil colonial j\u00e1 era muito mais multipolar, do que se imaginava, nos mostra a constru\u00e7\u00e3o de classifica\u00e7\u00f5es e de poss\u00edveis classes que o sujeito poderia ou n\u00e3o pertencer.<br><br><strong>PALAVRAS-CHAVE<\/strong>: cor, ra\u00e7a, negros, colonial, sociedade.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-primary-color has-alpha-channel-opacity has-primary-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os negros escravizados, foram trazidos para o Brasil principalmente de regi\u00f5es da costa ocidental africana, os principais estudos sobre cultura africana e escravid\u00e3o, identificam 3 grandes grupos entre esses africanos: os <em>yorubas<\/em>, os <em>mal\u00e9s <\/em>e os da tribo <em>Bantu<\/em>.<br><br>Os africanos eram a principal m\u00e3o de obra na produ\u00e7\u00e3o a\u00e7ucareira, mas existiram diversas outras formas de trabalho escravo, tarefas de casa, acompanhantes, amas de leite e ap\u00f3s a descoberta do ouro, foram trabalhar nas minas, etc.<br><br>O negro era a ferramenta principal na economia das colonias portuguesas, foi quem produziu quase tudo o que se fez no Brasil, mas como agentes da cultura brasileira eram muito mais passivo do que ativo. Por\u00e9m, mesmo que de forma lenta e discreta, teve um papel marcante na constru\u00e7\u00e3o da cultura brasileira.<br><br>Entre v\u00e1rias tribos, onde cada uma tinha sua l\u00edngua e cultura, j\u00e1 que a \u00c1frica \u00e9 e sempre foi um continente com pessoas que n\u00e3o s\u00e3o homog\u00eaneas, em sua forma de viver, os negros escravizados tinham dificuldades em se unir ou aliar, at\u00e9 mesmo a religi\u00e3o, que hoje \u00e9 uma forma de resist\u00eancia entre os descendentes africanos, serviu para dividi-los na \u00e9poca. No entanto, nenhuma dessas dificuldades os impediu de se adaptar ao solo brasileiro e sua sociedade colonial, com isso, aprenderam o portugu\u00eas, principalmente atrav\u00e9s das ofensas de seus capatazes, ao mesmo tempo, foram reconstruindo suas identidades lingu\u00edsticas e culturais africanas. Enquanto os escravos negros foram sendo incorporados na sociedade, novas etnias foram se integrando no cotidiano colonial brasileiro, conforme crian\u00e7as n\u00e3o brancas iam nascendo, j\u00e1 eram designados para seus lugares sociais, onde o diferente era colocado bem longe do \u201cbranco\u201d e de todos os privil\u00e9gios que essa posi\u00e7\u00e3o lhe poderia garantir na \u00e9poca.<br><br>A Santa Casa de Miseric\u00f3rdia<sup>1<\/sup> registraram diversas crian\u00e7as que ali eram deixadas, assim foi poss\u00edvel identificar v\u00e1rias das classifica\u00e7\u00f5es que passaram a ser utilizadas para identifica\u00e7\u00e3o de negros entre os s\u00e9culos XVI e XVIII, alguns s\u00e3o utilizados at\u00e9 hoje.<br><br>Ap\u00f3s as crian\u00e7as serem deixadas na Roda dos Expostos<sup>2<\/sup>, eram entregues a uma ama de leite, sua a\u00e7\u00e3o era fundamental na identifica\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, era ela quem examinava e lembrava a hora da exposi\u00e7\u00e3o na roda, indicando ao tesoureiro, respons\u00e1vel pelo registro no Livro dos Expostos. O sexo, a cor, sinais, roupas e at\u00e9 os bilhetes que frequentemente acompanhavam os rec\u00e9m-nascidos, as amas ficavam com a crian\u00e7a pelo per\u00edodo de no m\u00e1ximo tr\u00eas anos, onde recebia regularmente alimenta\u00e7\u00e3o e vestu\u00e1rio, ap\u00f3s alguns meses, a mesma crian\u00e7a retornava para a checagem das condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, o autor destaca, que era nesse momento que uma etno g\u00eanese local se formava.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Classifica\u00e7\u00e3o de cor nos Seiscentos e Setecentos<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o s\u00e9culo XVII, os termos \u201cnegro\u201d, \u201cmulato\u201d e \u201ccrioulo\u201d, estavam presentes nos registros da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia da Bahia, que al\u00e9m de indicar uma marca de cor da pessoa mencionada, tamb\u00e9m determina uma condi\u00e7\u00e3o social.: \u201cJacinto mulato de dezesseis anos\u201d, \u201cJo\u00e3o mulato avaliado em 32$rs\u201d, \u201cAngella mulata e seu filho de seiz anos mulato por nome Lazaro e sua filha de dous annos por nome Eva todas em sua avalia\u00e7\u00e3o de 35$rs\u201d.<br><br><strong>Negro<\/strong>: Segundo Antonio Moraes Silva<sup>3<\/sup>, poderia ser o indiv\u00edduo desgra\u00e7ado, triste, infausto, ou aquele \u201cde cor preta como a tinta de escrever, o carv\u00e3o apagado\u201d, mas tamb\u00e9m podia indicar o homem preto, forro, ou mesmo \u201ccativo\u201d.<br><br><strong>Mulato<\/strong>: Classificava o filho do cavalo com a burra, assim como o indiv\u00edduo que era resultante de uma rela\u00e7\u00e3o inter-racial, o filho ou filha de preto com branca, ou \u00e0s avessas, ou de mulato com branco at\u00e9 certo grau.<br><br><strong>Crioulo<\/strong>: Antonio Moraes Silva escreveu que se tratava do escravo que nascia em casa do senhor; significando tamb\u00e9m o animal, cria, que nascia \u201cem nosso poder\u201d, ou seja, \u00e9 comum encontrarmos na historiografia o termo crioulo usado para o negro que nasceu no Brasil, com isso o termo, determinava tanto cor, quanto nacionalidade. Mas, a designa\u00e7\u00e3o \u201ccrioulo\u201d tamb\u00e9m poderia indicar o escravo que falava a l\u00edngua crioula.<br><br>O sistema lingu\u00edstico escravocrata era bastante variado, o que permitiu uma flexibilidade do uso das categorias no Brasil col\u00f4nia. Em testamentos deixados por senhores que deixavam doa\u00e7\u00f5es, eram observados termos de classifica\u00e7\u00f5es, o mais antigo testamento encontrada na Santa Casa de Miseric\u00f3rdia da Bahia \u00e9 de 22 de setembro de 1632, de um homem solteiro chamado Francisco Diaz. Pode-se identificar como um termo classificat\u00f3rio podia ser substitu\u00eddo sem ter o seu sentido alterado. As suas escravas Leonor e Britey, descritas inicialmente mulatas, foram logo em seguida mencionadas como negras.<br><br>O s\u00e9culo XVIII aponta um dos dilemas at\u00e9 hoje existente no Brasil, a ambiguidade classificat\u00f3ria, ao representar um cont\u00ednuo ritmo de classifica\u00e7\u00f5es, trazendo novos significados, inclusive em outras capitanias. Em 1772, a subdivis\u00e3o populacional do Piau\u00ed revela a exist\u00eancia de nove categorias, incluindo mulato e preto, com o mesmo sentido explicado anteriormente.<br><br><strong>Vermelho<\/strong>: Ind\u00edgena de qualquer na\u00e7\u00e3o.<br><br><strong>Mesti\u00e7o<\/strong>: Misturas entre, branco, preto e ind\u00edgena, tamb\u00e9m s\u00e3o utilizadas quando o discernimento em determinar a cor, se dificulta, aquele que \u00e9 pass\u00edvel de ser fruto de origens diversas.<br><br><strong>Cabra e Curiboca<\/strong>: A princ\u00edpio, os filhos de mesti\u00e7os e ind\u00edgenas.<br><br><strong>Mameluco<\/strong>: Mesti\u00e7o de branco e ind\u00edgena.<br><br><strong>Caful<\/strong>: Designava o filho de preto com ind\u00edgena.<br><br><strong>Pardo<\/strong>: Definido por Moraes como a \u201ccor entre branco e preto, como a do pardal\u201d, podendo tamb\u00e9m indicar um mulato, assim como o \u201car pardo, \u00e9 de manh\u00e3, antes de esclarecer o dia.<br><br><strong>Moreno<\/strong>: O termo \u201cmoreno\u201d definido por Antonio de Moraes Silva em &#8220;Diccionario&#8221;, significava \u201cde cor parda escura\u201d.<br><br>Observando as designa\u00e7\u00f5es presentes na Santa Casa da Miseric\u00f3rdia em Salvador, foi encontrado o uso de categorias raciais para os africanos simultaneamente com a na\u00e7\u00e3o de origem. Nos recibos de sa\u00edda dos internados do Hospital constavam o nome, a condi\u00e7\u00e3o social, a resid\u00eancia, a naturalidade e a cor: \u201cAgostinha da Penha, crioula forra moradora da freguezia de Nossa Senhora de Santa Gl\u00f3ria\u201d; \u201cAntonio da Trindade, preto forro, natural da Ilha de Pr\u00edncipe\u201d; \u201cJo\u00e3o de Moraes, homem mesti\u00e7o, e forro, natural de Cabo Verde\u201d. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que a Santa Casa de Miseric\u00f3rdia conseguiu reproduzir um sistema de classifica\u00e7\u00e3o, por\u00e9m a multiplicidade encontrada ali, \u00e9 m\u00ednima, se comparada a Roda dos Expostos.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>&nbsp;A classifica\u00e7\u00e3o nas Rodas dos Expostos<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-x-small-font-size wp-elements-2 wp-block-paragraph\">\u201c<em>Em 1\u00b0 de Mayo de 1766, se lan\u00e7ou na Roda dos Enjeitados, de Salvador, uma mulatinha, e trouxe consigo um coeiro, de linho de cord\u00e3o, cozido em hum peda\u00e7o de linho azul, e branco, e hua camiza de pano de linho, j\u00e1 roto, e no cinteyro huma fitta desbotada de seda<\/em>\u201d.<br><br>\u201c<em>Em 6 de Novembro de 1776, se lan\u00e7ou na roda uma menina cabrinha e trouxe consigo duas camizas, um coeiro de baeta flor de algod\u00e3o, dous carretinhos,um coeyro de panno da Costa j\u00e1 velho<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos exemplos acima, encontrados nos arquivos da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, na roda dos expostos em Salvador, institu\u00edda em 1726, mostra a preocupa\u00e7\u00e3o de registrar com precis\u00e3o a cor e a vestimenta da crian\u00e7a recebida, camisa de cambraia de algod\u00e3o com bico, camisola de chita, cinto de fita rosa ou com touca de chita com babado, diversos eram os objetos descritos, que poderiam apontar uma condi\u00e7\u00e3o social. O que provavelmente, n\u00e3o determinava, pois roupas velhas n\u00e3o eram exclusividade de mulatinhos, cabrinhas ou crioulinhos, assim como, roupas de melhor qualidade n\u00e3o se restringiam \u00e0s crian\u00e7as brancas, mas certamente poderiam influenciar em sua classifica\u00e7\u00e3o de cor.<br><br>Muitas vezes o registro da cor n\u00e3o era f\u00e1cil, como no exemplo a seguir: \u201cEm 12 de Setembro de 1776 se lan\u00e7ou na roda hum menino a parecer branco, e trouxe duas camizas, hum coeiro de baeta vermelha novos hum pano da costa muito velho, e na cintura hum cada\u00e7o, e na cabe\u00e7a hum len\u00e7o de cassa\u201d. V\u00e1rios s\u00e3o os exemplos onde a d\u00favida sobre a cor da crian\u00e7a exposta se manifestava, de que modo a cor branca poderia levar a d\u00favida com a cor parda? \u00c9 poss\u00edvel pensar que distante de cores socialmente constru\u00eddas com base em polaridade \u2014 preto ou branco \u2014, a confus\u00e3o poderia se estabelecer quando a cor da crian\u00e7a n\u00e3o se enquadrava nesses padr\u00f5es. O certo \u00e9 que podemos notar uma terminologia oficial no Brasil colonial.<br><br>At\u00e9 o final dos setecentos e in\u00edcio dos oitocentos o sistema classificat\u00f3rio utilizado pela Santa Casa da Miseric\u00f3rdia da Bahia recorria a um repert\u00f3rio limitado de oito categorias, incluindo \u201cpardo disfar\u00e7ado\u201d (usado quando aos olhos do escriv\u00e3o, a cor da crian\u00e7a indicasse uma rela\u00e7\u00e3o entre pretos e brancos), \u00edndio, branca, parda, crioula, cabra, mulata, cabocla, algo que j\u00e1 aponta para a exist\u00eancia de um sistema oficial da cor.<br><br>A d\u00favida na descri\u00e7\u00e3o da cor, ao passar dos anos permaneceu um desafio para os escriv\u00e3es da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, um recurso aparece em alguns registros no modo como as crian\u00e7as deveriam ter a sua cor atribu\u00edda, \u201cparecer branco\u201d . A d\u00favida classificat\u00f3ria demonstra a atitude de n\u00e3o se confundir as cores, mas ao final dos anos setecentos a preocupa\u00e7\u00e3o com uma rigidez classificat\u00f3ria era uma constante, inclusive para quem criaria o enjeitado.<br><br>O final dos setecentos e as primeiras d\u00e9cadas dos oitocentos, apontam uma diferencia\u00e7\u00e3o social baseada em caracteres biol\u00f3gicos que se relacionam a um mosaico de cores. Os expostos chegavam com a marca do desprezo e do abandono, fossem eles de qualquer cor; entretanto, se a atribui\u00e7\u00e3o da cor indicava leituras do espectro social, isso n\u00e3o significava uma mera conforma\u00e7\u00e3o a teorias racistas, como acontecer\u00e1 nas d\u00e9cadas subsequentes do s\u00e9culo XX. O mais interessante \u00e9 que a atribui\u00e7\u00e3o de cor dependia do momento do olhar, se no in\u00edcio do exame feito pela regente e escrito pelo tesoureiro, ou na confronta\u00e7\u00e3o posterior, em que as cores sociais adquiriam e incorporavam outros significados sob o olhar do escriv\u00e3o. Era no momento da confronta\u00e7\u00e3o que se revela um sistema classificat\u00f3rio onde as combina\u00e7\u00f5es entre os termos surpreendem.<br><br>Os dois livros das Confronta\u00e7\u00f5es dos Enjeitados referem-se ao per\u00edodo 1815\u20131832, e neles se apresenta o momento da checagem das crian\u00e7as, alguns meses depois delas terem sido entregues \u00e0s \u201camas de fora\u201d, nesse momento, era entregue a mesada e realizada a averigua\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. Caso houvesse alguma mudan\u00e7a em suas fei\u00e7\u00f5es, deveria ser mencionada em sua folha de registro, da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia da Bahia, este processo era minucioso, pois n\u00e3o poderia haver d\u00favida na identifica\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a. Outras formas de classifica\u00e7\u00e3o foram encontradas, nesta mesma casa, como: \u201cConstancia, entregue a Manoel Pinto em 16 de agosto de 1814, a quem foram atribu\u00eddos \u201colhos pardos\u201d pelo escriv\u00e3o\u201d, cores duplas para se referir aos enjeitados, tamb\u00e9m foram encontrados, Anna, registrada como \u201cbranca morena\u201d, mas que na confer\u00eancia, realizada em 23 de janeiro de 1818, \u201cse conheceo ser clara\u201d com olhos grandes e \u201cpouco azuis tirando a pardos\u201d, apesar de \u201cser bastante morena\u201d.<br><br>Em alguns casos, o escriv\u00e3o usava o artif\u00edcio de ressaltar o termo trigueiro<sup>4<\/sup> grifando. Trigueiro n\u00e3o se confundia com pardo, pois uma crian\u00e7a foi registrada como parda, mas na confer\u00eancia realizada em 03 de novembro de 1816 \u201cse reconheceo ser trigueiro bastante\u201d. O sublinhar do termo \u00e9 para refor\u00e7ar o sentido, mas ocorrem casos de corre\u00e7\u00e3o, havia casos onde o escriv\u00e3o rasurava um termo e substitui pelo \u201ccorreto\u201d logo acima da palavra como, por exemplo, de uma crian\u00e7a que tem um risco sobre a sua identifica\u00e7\u00e3o inicial, \u201cparda\u201d, e logo acima a palavra \u201ccabra\u201d. A mesma situa\u00e7\u00e3o pode ser observada em rela\u00e7\u00e3o ao menino Jo\u00e3o, que, entregue a Joanna Maria, teve a cor \u201cparda\u201d riscada e substitu\u00edda por \u201cbranco\u201d, nesse caso para n\u00e3o haver questionamentos o escriv\u00e3o afirmou: \u201cNa averigua\u00e7\u00e3o que se fez reconheceo-se branco este enjeitado\u201d. Algo que n\u00e3o se aconteceu no caso que alterou \u201cparda\u201d para \u201ccabra\u201d, pois a reclassifica\u00e7\u00e3o para baixo n\u00e3o tinha tanto import\u00e2ncia, quanto a da reclassificada de \u201cparda\u201d para &#8220;branca&#8221;, pois se considerou \u201cpromovida\u201d.<br><br>Mas nada era muito simples, a confronta\u00e7\u00e3o aumentava a multipolaridade racial, embora predominasse as categorias branco e pardo (j\u00e1 que a rejei\u00e7\u00e3o de filhos pelos negros era m\u00ednima), a classifica\u00e7\u00e3o como cabra, completou o mosaico de cores, utilizados pelos funcion\u00e1rios da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, que pareciam desesperados em encontrar uma descri\u00e7\u00e3o inconfund\u00edvel em cada enjeitado que recebiam.<br><br>O Livro 1\u00b0 nos permite verificar a exist\u00eancia de trinta categorias multipolares, em um total de 507 crian\u00e7as registradas, e indica as amplas possibilidades do sistema classificat\u00f3rio. S\u00e3o quatro as categorias b\u00e1sicas \u2014&nbsp; \u201cbranco\u201d, \u201ccabra\u201d, \u201ccrioulo\u201d e \u201cpardo\u201d \u2014 sendo que \u201cbranco\u201d e \u201cpardo\u201d correspondem juntas a 68,5%, das crian\u00e7as registradas. As categorias \u201cbranco alvo\u201d, \u201cmoreno\u201d, \u201cclaro\u201d, \u201cp\u00e1lido\u201d, \u201ctrigueiro\u201d e \u201cescuro\u201d s\u00e3o os termos de sentido agregado, pois podem ser acrescentados a tr\u00eas das quatro categorias b\u00e1sicas. Com exce\u00e7\u00e3o de \u201ccrioulo\u201d, todas as outras categorias poderiam compor qualquer repert\u00f3rio na classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>A defini\u00e7\u00e3o na combina\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica-social<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A linguagem simb\u00f3lica contida nas classifica\u00e7\u00f5es utilizada pelos escriv\u00e3es da Santa Casa da Miseric\u00f3rdia, revela a utiliza\u00e7\u00e3o de um modelo formal de categorias raciais criado na metr\u00f3pole portuguesa (as categorias utilizadas para os expostos na Santa Casa da Miseric\u00f3rdia em Lisboa eram \u201cpreto\u201d, \u201cpardo\u201d, \u201cnegro\u201d, \u201cmulato\u201d e \u201cbranco\u201d), mas que dele se distancia ao elaborar um repert\u00f3rio local de categorias ambivalentes. Um fato singular entre os registros das duas Santas Casas \u00e9 que, no per\u00edodo entre junho de 1780 e mar\u00e7o de 1833, a Santa Casa de Lisboa separava o registro de crian\u00e7as de cor daquele dos brancos, tanto no livro de entrada quanto no das \u201ccria\u00e7\u00f5es de leite\u201d. Os registros da cria\u00e7\u00e3o de leite dos pardos e pretos faziam-se nos livros de Cria\u00e7\u00e3o de Leite por comarca.<br><br>\u00c9 poss\u00edvel argumentar que a constru\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica\/social na classifica\u00e7\u00e3o dos expostos n\u00e3o estava restrita ao olhar dos fidalgos da Santa Casa, mas se encontrava dispon\u00edvel em outros ambientes no Brasil da \u00e9poca, ou seja, as percep\u00e7\u00f5es sobre a cor traduzem tanto as hierarquias sociais como revelavam ambiguidades no modo como os indiv\u00edduos eram classificados. Essas e outras respectivas classifica\u00e7\u00f5es foram identificadas fora da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, como no exemplo a seguir: na correspond\u00eancia do capit\u00e3o-mor de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, Sergipe, ao Governador da Bahia, em 07 de maio de 1825, o primeiro dizia ter prendido al\u00e9m de \u201cmo\u00e7os brancos, pardos disfar\u00e7ados e n\u00e3o de cor apertada\u201d. Como argumenta Luiz Mott, a linha entre as designa\u00e7\u00f5es \u201cpardo disfar\u00e7ado\u201d e \u201cbranco misturado\u201d, ou entre \u201cpardo apertado\u201d e \u201ccabra\u201d, era bastante t\u00eanue, indicando que outros atributos tanto f\u00edsicos (n\u00e3o somente a cor) e sociais (a identifica\u00e7\u00e3o de parentes ou a inser\u00e7\u00e3o no mundo dos brancos), faziam parte do \u201cmodus operandi\u201d da classifica\u00e7\u00e3o colonial brasileira.<br><br>Ainda assim, se os atributos f\u00edsicos e sociais observados nos indiv\u00edduos adultos, como as crian\u00e7as da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia poderiam receber tais classifica\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que nada se sabia sobre elas, m\u00e3e, pai ou at\u00e9 mesmo condi\u00e7\u00e3o social, raros eram os casos onde alguma pista sobre as condi\u00e7\u00f5es da crian\u00e7a eram deixadas com elas. Entretanto, mesmo sem identifica\u00e7\u00f5es do lugar ocupado pelos seus pais na sociedade baiana, penso que n\u00e3o havia uma completa isen\u00e7\u00e3o do olhar de quem registrava a cor das crian\u00e7as. Assim \u00e9 poss\u00edvel pensar que a mente de quem registrava os expostos fosse tamb\u00e9m permeada pela imagina\u00e7\u00e3o da cor dos seus pais.<br><br>Um aspecto importante \u00e9 que outros elementos apresentados na descri\u00e7\u00e3o, como os caracteres fenot\u00edpicos, n\u00e3o s\u00e3o o elemento definidor das cores sociais, os tra\u00e7os baseados em biologismos do racismo cient\u00edfico do s\u00e9culo XIX \u2013 a boca, o formato do nariz e dos l\u00e1bios como caracter\u00edsticas f\u00edsicas na defini\u00e7\u00e3o da cor \u2013 s\u00e3o menos definidores das cores sociais, como podemos perceber nas defini\u00e7\u00f5es das quatro categorias b\u00e1sicas de cor:<br><br><strong>Branca<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-x-small-font-size wp-elements-3 wp-block-paragraph\">\u201c<em>&#8230; a engeitada Crescencia dada a criar a Rosa Maria de Viterbo em 29 de mar\u00e7o de 1819&#8230;. he branca \u2013 cabe\u00e7a comprida \u2013 cabello acasta\u00f1ado \u2013 testa alta \u2013 olhos pretos \u2013 nariz comprido e afilado \u2013 boca pequena \u2013 labios ordinarios \u2013 rosto e barba comprida \u2013 orelhas redondas e chatas \u2013 mosta ter mes de ide. , e esta magra.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Pardo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-x-small-font-size wp-elements-4 wp-block-paragraph\">\u201c<em>&#8230; he pardo \u2013 cabe\u00e7a comprida \u2013 cabello corrido e preto \u2013 testa alta de cantos \u2013 olhos proporcionados e pretos \u2013 nariz comprido e grosso \u2013 rosto redondo, boca, e labios proporcionados, orelhas ordinarias, e compridos mostra ter hu\u2019anoo de ide. est\u00e1 nutrido.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Cabra<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-x-small-font-size wp-elements-5 wp-block-paragraph\">\u201c<em>\u2026 o engeitado dado a criar a Maria Francisca em 03 de mar\u00e7o de 1819&#8230; he cabra \u2013 cabe\u00e7a comprida \u2013 cabellos crespos \u2013 testa alta \u2013 olhos pretos e grandes \u2013 nariz curto, e chato \u2013 rosto comprido \u2013 boca proporcionada \u2013 l\u00e1bios finos \u2013 orelhas pequenas e chatas, esta magra, e mostra ter hu anno de ide.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Crioulo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-x-small-font-size wp-elements-6 wp-block-paragraph\">\u201c<em>&#8230; he crioulo \u2013 cabe\u00e7a comprida \u2013 cabello preto \u2013 testa alta de cantos \u2013 olhos ordin\u00e1rios e pretos \u2013 nariz comprido, grosso e hum tanto rombudo na ponta \u2013 boca, e l\u00e1bios proporcionados rosto redondo \u2013 e igualme. A barba \u2013 orelhas pequenas, e franzidas.<\/em>\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses termos apresentam caracter\u00edsticas aproximativas. Entre as semelhan\u00e7as compartilhadas por essas crian\u00e7as, todas t\u00eam cabe\u00e7a comprida, testa alta e olhos pretos. A caracter\u00edstica distintiva da crian\u00e7a branca para as n\u00e3o-brancas (parda, crioula e cabra), \u00e9 indicada no seu nariz, dito \u201cnariz comprido e afilado\u201d, o que pareceria ser um tra\u00e7o expressivo. Quando observadas as caracter\u00edsticas das n\u00e3o-brancas as diferen\u00e7as se apresentam em termos do \u201ccabelo crespo\u201d (cabra), nariz (\u201cnariz comprido e grosso\u201d \u2013 pardo; \u201cnariz comprido, grosso e hum tanto rombudo na ponta\u201d \u2013 crioulo; \u201cnariz curto, e chato\u201d \u2013 cabra). O formato do rosto aproximaria branco e cabra (\u201ccomprido\u201d), pardo e crioulo (\u201credondo\u201d). Mesmo que estes tra\u00e7os se apresentem como diferenciadores entre os acima classificados como branco, pardo, crioulo e cabra, o formato do nariz dos enjeitados n\u00e3o se apresenta como o signo distintivo da classifica\u00e7\u00e3o da cor na Bahia da \u00e9poca colonial, na mesma dire\u00e7\u00e3o apresentam-se os classificados com o termo pardo. Uma crian\u00e7a \u201cparda e clara, tamb\u00e9m poderia ser descrita com o nariz \u201ccomprido, e afillado\u201d , \u201cnariz fino\u201d ou \u201cnariz pequeno, e hum tanto rombudo\u201d, a mesma caracter\u00edstica foi usado para descrever uma crian\u00e7a identificado como \u201ccrioula\u201d, fornecendo o tom da caracteriza\u00e7\u00e3o social s\u00e3o menos os tra\u00e7os fenot\u00edpicos como o nariz que a cor inscrita no social.<br><br>Contudo, o registro da cor mostra-se, portanto, como um \u201ccarimbo\u201d gramaticalmente inscrito no pr\u00f3prio sistema de rela\u00e7\u00f5es s\u00f3cio-raciais, n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que a categoria \u201ccrioula\u201d mostra-se ausente como possibilidade combinat\u00f3ria. A operacionaliza\u00e7\u00e3o de combina\u00e7\u00e3o das cores omitia termos como \u201cpreto\u201d ou \u201cnegro\u201d e fazia do \u201ccrioulo\u201d o reposit\u00f3rio dessas duas categorias. Por certo as categorias \u201cpreta\u201d ou \u201cnegra\u201d na sociedade brasileira referiam-se a \u201cafricano\u201d e a \u201cnegro escravo\u201d, entretanto, alguns enjeitados foram assim classificados, mesmo que fossem crian\u00e7as sem nenhuma indica\u00e7\u00e3o formal do lugar que seus pais ocupavam na sociedade, a indica\u00e7\u00e3o da sua cor remetia a um lugar socialmente pr\u00e9-estabelecido, mas pass\u00edvel, quem sabe, de transforma\u00e7\u00f5es, com isso, os caminhos para os nossos dilemas contempor\u00e2neos de classifica\u00e7\u00e3o racial j\u00e1 estavam sendo trilhados.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Cores e ra\u00e7as na historiografia<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comentando o hero\u00edsmo de Henrique Dias, governador das tropas pretas e mulatas nas guerras de Pernambuco, Frei Manuel Calado n\u00e3o economizou elogios ao militar, mais a frase a seguir chama aten\u00e7\u00e3o: \u201cEmbora o valente militar fosse preto, eram brancos o seu comportamento\u201d. Calado recorreu \u00e0s cores para apresentar suas qualidades, contrastando o branco com o negro.<br><br>Em, O Valeroso Lucideno (1648)<sup>5<\/sup>, o her\u00f3i era \u201cnegro na cor, por\u00e9m branco nas obras, e no esfor\u00e7o\u201d. Para o cronista da restaura\u00e7\u00e3o pernambucana, mal comparando, Henrique Dias seria ent\u00e3o \u201cum preto nobre ou de alma branca\u201d.<br><br>Assim, como na Santa Casa de Miseric\u00f3rdia, o negro tinha seu papel devido, assim como o branco, por isso n\u00e3o \u00e9 estranho encontrar essas compara\u00e7\u00f5es em obras ou registros encontrados, em todo o per\u00edodo colonial no Brasil, Ronald Raminelli nos mostra em seu artigo \u201cImpedimentos da cor mulatos no Brasil e em Portugal c. 1640-1750\u201d que n\u00e3o seria anacronismo definir a mencionada superioridade do branco sobre o negro um pensamento racista, por mais que o termo tenha aparecido somente a partir do s\u00e9culo XX, aquilo que o nomeia tem ra\u00edzes bem mais fundas na hist\u00f3ria das sociedades coloniais escravocratas ou at\u00e9 mesmo muito antes da \u201ccria\u00e7\u00e3o\u201d do novo mundo, James H. Sweet <sup>6<\/sup> investigou a funda\u00e7\u00e3o do racismo no pensamento ocidental, entre os s\u00e9culos XV e XVI, ele defende que a ideia de ra\u00e7a consolidada entre os s\u00e9culos XVIII e XIX impulsionou o racismo, mas n\u00e3o o inventou.<br><br>A preocupa\u00e7\u00e3o em dividir as pessoas por ra\u00e7as (ou sub-ra\u00e7as), n\u00e3o se tratava somente de uma quest\u00e3o social, a preocupa\u00e7\u00e3o andava de m\u00e3os dadas com o pensamento religioso, as produ\u00e7\u00f5es da \u00e9poca colonial mostravam diversas explica\u00e7\u00f5es do porqu\u00ea existiam diferen\u00e7as entre as cores dos indiv\u00edduos, para tais diferen\u00e7as, Brito Freire indicou duas poss\u00edveis respostas.<br><br>Recorrendo \u00e0 B\u00edblia (Gen.9, 22-25), destacou a descend\u00eancia de Cam, amaldi\u00e7oado pelo pai No\u00e9, como a origem dos negros e da escravid\u00e3o. Sob a influ\u00eancia da Filosofia antiga, por certo de Arist\u00f3teles, Freire entendeu que a cor preta nasceu \u201cda quentura, ap\u00f3s convertida em natureza\u201d. Ou seja, o calor dos tr\u00f3picos, na \u00c1frica e Am\u00e9rica, alterava a natureza dos homens, tornando-os mais escuros. Como a Eti\u00f3pia era mais quente, se tornaram pretos os moradores de Angola; por ser na Am\u00e9rica menos c\u00e1lido, os \u00edndios adquiriram a pele vermelha. A\u00ed, os primeiros habitantes degeneraram, perderam aos poucos a pele branca, \u201cforam pelo curso do tempo queimando-se ao ardor do sol e adquirindo mais c\u00e1lido e mais intr\u00ednseco temperamento\u201d<sup>7<\/sup>. Para Brito Freire, a cor da pele negra e vermelha era a altera\u00e7\u00e3o do original branco provocada pelo clima.<sup>5<\/sup> CALADO, Frei Manuel. O valeroso Lucideno. p.81.<br><br>Entretanto, havia aqueles que n\u00e3o concordavam com certas teorias religiosas da origem dos homens, principalmente as do homem negro. No Serm\u00e3o XX do Ros\u00e1rio, o padre Ant\u00f4nio Vieira dissertou longamente sobre as cores branca e preta. Seu intuito era recriminar a separa\u00e7\u00e3o entre as Irmandades do Ros\u00e1rio dos brancos e dos pretos, dos senhores e dos escravos. At\u00e9 nas coisas sagradas, asseverou o jesu\u00edta, os homens mais valorizam a distin\u00e7\u00e3o que a piedade. No serm\u00e3o existem argumentos dedicados tanto a valorizar a cor preta quanto demonstrar que os homens, embora de cores diferentes, s\u00e3o criaturas de Deus, concebidos sem hierarquia, assim, iguais frente ao Criador. Portanto, n\u00e3o se pode negar a sua origem ad\u00e2mica: \u201cF\u00ea- -los Deus a todos de uma mesma massa para que vivessem unidos e eles se desunem\u201d.<sup>8<\/sup> Vieira tenta argumentar que negros e brancos t\u00eam a mesma natureza, embora, mesmo assim, vivam separados pela cor.<br><br>O racismo foi e \u00e9 respons\u00e1vel pela inferioridade dos escravizados e seus descendentes, as muitas classifica\u00e7\u00f5es comentadas ao longo do artigo carregavam uma marca criada nas col\u00f4nias brasileiras durante todo o per\u00edodo escravocrata, elas foram criadas para manter todos que n\u00e3o fossem brancos distantes ou mesmo abaixo, por este motivo, a luta mais \u00e1rdua do negro brasileiro \u00e9 a conquista de um lugar e de um papel de participante leg\u00edtimo na nossa sociedade. Calcula-se que o Brasil, entre pessoas traficadas e nascidas aqui, foram mais ou menos 12 milh\u00f5es de negros escravizados, onde eram a principal for\u00e7a de trabalho de tudo que se produziu, como j\u00e1 mencionado, a aboli\u00e7\u00e3o brasileira foi a mais tardia de todos os pa\u00edses, e isso diz muito da forma que sociedade brasileira trata os seus descendentes daqueles que tanto sofreram com a escravid\u00e3o, filhos e netos das atuais classes dominantes, agem diante do negro, com o mesmo desprezo de seus antepassados, os negros ainda s\u00e3o a maioria nos trabalhos mais pesados e insalubres.<br><br>Contudo, compreender como isso se formou, talvez nos ajude a desfazer todas essas diferen\u00e7as sociais baseadas em ra\u00e7as criadas j\u00e1 h\u00e1 muito tempo, em um Brasil que j\u00e1 n\u00e3o existe mais, por\u00e9m, que permanece aterrorizando a popula\u00e7\u00e3o negra.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-primary-color has-alpha-channel-opacity has-primary-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>NOTAS<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*Imagem: Obra, Oper\u00e1rios de Tarsila do Amaral, 1933.<br><sup>1<\/sup> Santa Casa da Miseric\u00f3rdia, institui\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica secular que o imp\u00e9rio portugu\u00eas transportou para as col\u00f4nias, a partir do in\u00edcio do s\u00e9culo XVI.<br><sup>2<\/sup> Roda dos Expostos ou Rejeitados, eram deixadas crian\u00e7as cujos pais por alguma raz\u00e3o n\u00e3o as podiam criar. Formada por uma caixa dupla de formato cil\u00edndrico, a roda foi adaptada no muro das institui\u00e7\u00f5es caridosas.<br><sup>3<\/sup> Antonio Moraes Silva, foi um lexic\u00f3logo brasileiro, nascido no Rio de Janeiro em 01 de agosto de 1755, escritor do Dicion\u00e1rio da L\u00edngua Portuguesa, sua principal obra foi o Dicion\u00e1rio da L\u00edngua Portuguesa, que na sua edi\u00e7\u00e3o original se intitulava Diccionario da Lingua Portugueza composto de Padre D. Rafael Bluteau, foi posteriormente reformado e acrescentado por Antonio de Moraes Silva.<br><sup>4<\/sup> Trigueiro, adjetivo como a cor do trigo maduro, escura; moreno, escuro. Relacionado com o trigo (planta da qual se extrai a farinha usada no fabrico do p\u00e3o).<br>\u2075 CALADO, Frei Manuel. O valeroso Lucideno. p.81.<br><sup>6<\/sup> SWEET, James H. The iberian roots of American racist thought. The William and Mary Quarterly, Williamsburg, 3rd Ser., v.54, n.1, p.143-145, janeiro, 1997.<br><sup>7<\/sup> FREIRE, Francisco Brito. Nova Lusit\u00e2nia, hist\u00f3ria da guerra bras\u00edlica. Lisboa: Officina Joam Galram, 1675, p.21-22.<br><sup>8<\/sup> VIEIRA, Ant\u00f4nio Sermam XX do Rosario. In: Maria Rosa Mystica. Lisboa: Impress\u00e3o Craesbeeckiana, 1688, parte II, p. 149.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-primary-color has-alpha-channel-opacity has-primary-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SANTOS, Joc\u00e9lio. De pardos disfar\u00e7ados a brancos pouco claros: classifica\u00e7\u00f5es raciais no Brasil dos s\u00e9culos XVIII-XIX.. Afro-Asia (UFBA), Salvador, v. 32, p. 115-137, 2005.<br><br>RAMINELLI, Ronald. Impedimentos da cor mulatos no Brasil e em Portugal c. 1640-1750. VARIA HISTORIA, Belo Horizonte, vol.28, n 699 o 48, p.699-723: jul\/dez 2012.<br><br>RIBEIRO, Darcy. O POVO BRASILEIRO: A forma\u00e7\u00e3o e o sentido do Brasil. 3.ed. Global Editora, S\u00e3o Paulo, 2015.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-primary-color has-alpha-channel-opacity has-primary-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link wp-element-button\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1NykinVGwho3Oh-bsZ7q1V9ygidVjVc53\/view?usp=drive_link\" style=\"border-radius:15px\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Baixar<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto foi desenvolvido na disciplina de<strong> Am\u00e9rica colonial portuguesa<\/strong>, ministrada pelo professor <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5993297059938439\" data-type=\"link\" data-id=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5993297059938439\">F\u00e1bio K\u00fchn<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SILVA, Renata da Costa. Forma\u00e7\u00f5es de ra\u00e7a e suas classifica\u00e7\u00f5es no Brasil Colonial. <strong>Peri\u00f3dico Por Uma Ideia<\/strong>, 2024. Dispon\u00edvel em:https:<a href=\"\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/formacao-de-racas-e-suas-classificacoes-no-brasil-colonial\/\" data-type=\"link\" data-id=\"\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/formacao-de-racas-e-suas-classificacoes-no-brasil-colonial\/\">\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/formacao-de-racas-e-suas-classificacoes-no-brasil-colonial\/<\/a>. Acesso em:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os conte\u00fados publicados s\u00e3o distribu\u00eddos em acesso aberto sob licen\u00e7a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nc-sa\/2.5\/br\/\">CC BY-NC-SA 2.5 BR<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renata da Costa Silva: O presente artigo planeja analisar as classifica\u00e7\u00f5es raciais criadas no Brasil colonial, as diversas categorias utilizadas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":448,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[],"class_list":["post-447","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/447","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=447"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/447\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":775,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/447\/revisions\/775"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/media\/448"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=447"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=447"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=447"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}