{"id":776,"date":"2025-02-16T11:20:07","date_gmt":"2025-02-16T14:20:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/?p=776"},"modified":"2025-07-16T21:26:30","modified_gmt":"2025-07-17T00:26:30","slug":"iluminando-memorias-proposta-de-antimonumento-em-arroio-dos-ratos-rio-grande-do-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/iluminando-memorias-proposta-de-antimonumento-em-arroio-dos-ratos-rio-grande-do-sul\/","title":{"rendered":"Iluminando mem\u00f3rias: proposta de Antimonumento em Arroio dos Ratos, Rio Grande do Sul\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<h6 class=\"wp-block-heading has-primary-color has-text-color has-link-color wp-elements-1\">Lucas Specht:<\/h6>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">Este artigo prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de um antimonumento na cidade de Arroio dos Ratos, no Rio Grande do Sul, conhecida como o ber\u00e7o da ind\u00fastria carbon\u00edfera no Brasil. A localidade abriga o Museu Estadual do Carv\u00e3o, uma institui\u00e7\u00e3o patrimonial que conserva as ru\u00ednas da primeira usina termel\u00e9trica do pa\u00eds, do Po\u00e7o Fraternidade e o maior acervo documental sobre o trabalho da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o da Am\u00e9rica Latina. Embora se dedique a preservar e divulgar a mem\u00f3ria da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, a narrativa apresentada destaca uma vis\u00e3o heroica e predominantemente masculina dessa hist\u00f3ria, o que resulta em exclus\u00f5es. A proposta busca retratar, por meio de uma a\u00e7\u00e3o antimonumental, as trajet\u00f3rias de diversas pessoas que, em suas pluralidades de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe, enfrentaram os desafios cotidianos e laborais de uma vila-f\u00e1brica mineira. A iniciativa pretende questionar e ampliar a constru\u00e7\u00e3o patrimonial da regi\u00e3o ao confrontar objetos e fontes relacionados ao trabalho na minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, iluminando as m\u00faltiplas mem\u00f3rias presentes tanto no Museu quanto em outros espa\u00e7os da cidade.&nbsp;<br><br><br><strong>PALAVRAS-CHAVE:<\/strong> Museu do Carv\u00e3o; Mem\u00f3ria; Monumento; Antimonumento; Patrim\u00f4nio; Trabalho da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-primary-color has-alpha-channel-opacity has-primary-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Apresenta\u00e7\u00e3o<\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Relembrar de algo \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o inerente aos nossos corpos. Mobilizar os lapsos da mem\u00f3ria, al\u00e9m de recuperar eventos passados, ativa sentimentos de diferentes naturezas, seja a gratid\u00e3o, a raiva, a tristeza, a felicidade, ou talvez, a saudade. Saudar algo que j\u00e1 passou, querer que volte esse tempo, almejar que se repita. Quando ativada, a saudade suscita um sentimento de pertencimento, e \u00e9 justamente essa sensa\u00e7\u00e3o que conseguimos notar no relato de Mathias Sutel. Com seus 72 anos, mineiro aposentado, Sutel iniciou sua jornada de trabalho na minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o aos 14 anos, ao conceder uma entrevista em 2002, foi questionado sobre o que achava sobre seu trabalho, com isso mobilizou mem\u00f3rias e a dita saudade veio \u00e0 tona:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-x-small-font-size wp-elements-2 wp-block-paragraph\"><em>\u00c9 um lugar bom, muito bom, em que eu gostava de trabalhar. Chegava a sonhar! At\u00e9 sonho, agora, que estou trabalhando, d\u00e1 para acreditar? Parece que estou trabalhando, fazendo carv\u00e3o, aquilo era a coisa mais linda, debaixo da mina! Era bonito. <strong>Era uma escurid\u00e3o, mas t\u00ednhamos o lampi\u00e3o, que clareava tudo<\/strong>. \u00c0s vezes apagava o lampi\u00e3o, terminava o carbureto, t\u00ednhamos que vir com o p\u00e9 em cima dos ferrinhos, at\u00e9 encontrarmos uma pessoa para dar fogo, para acender o lampi\u00e3ozinho.<sup>1<\/sup><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mineiro aposentado relata com certo tom de positividade as suas recorda\u00e7\u00f5es acerca do seu tempo enquanto trabalhador da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o. Sabe-se que este of\u00edcio era altamente perigoso, os acidentes de trabalho eram regra, e n\u00e3o exce\u00e7\u00e3o. \u201cEsta mem\u00f3ria adocicada pelo tempo\u201d (Speranza, 2014, p. 20), como percebida pelo relato do mineiro, pode ser problematizada de v\u00e1rios modos. O principal deles, quem sabe, seja a constru\u00e7\u00e3o patrimonial articulada na regi\u00e3o carbon\u00edfera ga\u00facha que modulou uma vis\u00e3o da hist\u00f3ria da minera\u00e7\u00e3o que glorifica os tempos \u201c\u00e1ureos\u201d em que toneladas de carv\u00e3o eram retiradas ininterruptamente do subsolo.<br>Para aprofundar a compreens\u00e3o sobre o papel das mulheres no Brasil Colonial, \u00e9 necess\u00e1rio, inicialmente, investigar as concep\u00e7\u00f5es acerca do feminino na Europa dos s\u00e9culos XV e XVI, per\u00edodo em que se consolidaram muitos dos valores e normas que estruturam as sociedades coloniais. Nessa perspectiva, torna-se imprescind\u00edvel entender o papel das mulheres portuguesas, cujas viv\u00eancias e ideais foram transpostos para o contexto colonial e serviram de base para as concep\u00e7\u00f5es sobre g\u00eanero na Am\u00e9rica portuguesa. Esse processo de coloniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas imp\u00f4s uma estrutura hier\u00e1rquica, mas tamb\u00e9m consolidou o controle sobre o \u201ccorpo feminino\u201d como uma forma de domina\u00e7\u00e3o social e cultural (Hobsbawm, 1982).<br><br>\u201cO patrim\u00f4nio \u00e9 o produto de um trabalho de mem\u00f3ria que, com o tempo e segundo crit\u00e9rios muito vari\u00e1veis, seleciona certos elementos herdados do passado para os arrumar na categoria dos objetos patrimoniais\u201d (Candau, 2013, p. 148). Percebe-se aqui, ent\u00e3o, dois tipos de mem\u00f3ria. Aquela mobilizada pelo trabalhador, aquela mem\u00f3ria que forja a sua identidade<sup>2<\/sup>, e aquela mem\u00f3ria constru\u00edda, selecionada, modelada pelas rela\u00e7\u00f5es de poder que a estruturam com finalidades pr\u00f3prias. Esta sele\u00e7\u00e3o memorial\u00edstica est\u00e1 diretamente relacionada com a idealiza\u00e7\u00e3o e sele\u00e7\u00e3o patrimonial. A escolha do que vai ser a representa\u00e7\u00e3o de um grupo, de uma dada sociedade segue crit\u00e9rios estabelecidos nas rela\u00e7\u00f5es sociais, de classe, de g\u00eanero e de ra\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas confronta\u00e7\u00f5es de poder que forjam o patrim\u00f4nio, podem ser verificadas na regi\u00e3o carbon\u00edfera do Rio Grande do Sul, mais especificamente, na cidade de Arroio dos Ratos, local este que ser\u00e1 a sede da presente proposta de Antimonumento.&nbsp; Entre fins do s\u00e9culo XIX e a d\u00e9cada de 1950, a localidade de Ratos foi o principal espa\u00e7o de extra\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o do Brasil, tomada por po\u00e7os de minera\u00e7\u00e3o, este local abrigou in\u00fameros trabalhadores ao longo do seu tempo, que dedicaram suas vidas para a extra\u00e7\u00e3o desse \u201cOuro Negro\u201d. Juntamente com Buti\u00e1, S\u00e3o Jer\u00f4nimo, Charqueadas e Minas do Le\u00e3o, Arroio dos Ratos forma a chamada Regi\u00e3o Carbon\u00edfera do Rio Grande do Sul. Apesar de n\u00e3o haver atualmente uma pr\u00e1tica de extra\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o em larga escala, o nome se mant\u00e9m, visto alguns resqu\u00edcios de minera\u00e7\u00e3o de superf\u00edcie ou a mem\u00f3ria do trabalho intenso que ocorreu nesse local por muitas d\u00e9cadas, relembrada pelas constru\u00e7\u00f5es patrimoniais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Objetivando manter viva essa mem\u00f3ria da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o na regi\u00e3o, em meados dos anos 1980, foi fundado na cidade de Arroio dos Ratos, o Museu Estadual do Carv\u00e3o, s\u00edmbolo dessas confronta\u00e7\u00f5es de poder que estruturaram as mem\u00f3rias sobre as viv\u00eancias em torno desse recurso mineral muito usado no Brasil e no mundo. O carv\u00e3o foi a principal matriz energ\u00e9tica para a movimenta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria e hidrovi\u00e1ria, bem como no seu uso para produ\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica mediante termoel\u00e9tricas. A primeira instalada no Brasil foi, justamente, a Usina Termoel\u00e9trica de Arroio dos Ratos, fundada em 1924, que produziu energia at\u00e9 1956, momento no qual foi desativada. Foi ap\u00f3s esse per\u00edodo que \u201cgradualmente a usina termoel\u00e9trica teve suas estruturas dinamitadas\u201d (Witkowski, 2019, p. 43). Entremeado por essas ru\u00ednas, surge o Museu Estadual do Carv\u00e3o, em atividade desde 1986, localizado exatamente no mesmo local onde funcionava a Usina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Riegl (2006), \u201ca ru\u00edna devia simplesmente trazer \u00e0 consci\u00eancia do espectador o contraste, [&#8230;] entre a grandeza passada e a decad\u00eancia presente\u201d (p. 63). Portanto, as ru\u00ednas dinamitadas que formam o Museu do Carv\u00e3o, poderiam servir como catalisadoras de uma reflex\u00e3o acerca de um passado dito como \u00e1ureo, em face de um presente desmobilizado e desestruturado economicamente. \u201cO fim das atividades de minera\u00e7\u00e3o em Arroio dos Ratos no ano de 1956, juntamente com o fechamento da sua usina termoel\u00e9trica, \u00e9 relatado como um processo dif\u00edcil para a cidade\u201d (Freitas, 2015, p. 45), ou seja, nesse processo de forma\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria que relembra um of\u00edcio que dava sentido \u00e0 exist\u00eancia da localidade, percebe-se um elemento de frustra\u00e7\u00e3o e dificuldade, visto que aquilo que identificava o local, ruiu. Sendo assim, no contexto de cria\u00e7\u00e3o do Museu, as ru\u00ednas foram mobilizadas para constituir uma mem\u00f3ria de saudade, do que j\u00e1 havia ocorrido, e de quebra, \u201csugeria novas perspectivas para a regi\u00e3o carbon\u00edfera e para a cidade de Arroio dos Ratos\u201d\u00b3\u00b3.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, o Museu do Carv\u00e3o \u00e9 administrado pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul, e pretende \u201cproporcionar a intera\u00e7\u00e3o das comunidades da regi\u00e3o carbon\u00edfera do Baixo Jacu\u00ed com a sua produ\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, cient\u00edfica e cultural. \u00c9 ainda respons\u00e1vel por promover a transforma\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio em heran\u00e7a cultural\u201d (Witkowski, 2019, p. 42). Em seu espa\u00e7o f\u00edsico contempla alguns pr\u00e9dios que foram importantes nas engrenagens que moviam a Usina, como pr\u00e9dios de oficinas, pavilh\u00f5es de almoxarifado, laborat\u00f3rios de an\u00e1lises do Carv\u00e3o, e tamb\u00e9m, o Po\u00e7o 1, conhecido como Po\u00e7o Fraternidade, aberto em 1906, anos antes da inaugura\u00e7\u00e3o da usina. O Complexo \u00e9 tombado pelo IPHAE desde os anos 1990.<sup>4<\/sup>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reuni\u00e3o desses elementos como representantes da mem\u00f3ria do que foi a minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o na regi\u00e3o, ao nosso ver, apresenta uma falha. Falamos de um patrim\u00f4nio industrial que foi um espa\u00e7o de produ\u00e7\u00e3o incessante de energia el\u00e9trica, havia muito trabalho a ser feito. Logo, necessitava de trabalhadores. Estes, no entanto, n\u00e3o est\u00e3o representados nessa mem\u00f3ria ativada na estrutura\u00e7\u00e3o patrimonial que deu origem ao Museu como conhecemos hoje. Tanto os registros museol\u00f3gicos como os pr\u00e9dios do complexo do Museu retomam aspectos para&nbsp; a minera\u00e7\u00e3o em si, como ferramentas, por exemplo, sendo a aus\u00eancia de quem as manuseava um problema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas empresas administraram a extra\u00e7\u00e3o mineral daquela regi\u00e3o, contudo, a que mais marcou no imagin\u00e1rio regional foi o Cadem<sup>5<\/sup>, resultado da fus\u00e3o entre as mineradoras de Ratos e Buti\u00e1. Foi sob a sua administra\u00e7\u00e3o que \u201ca explora\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o no estado viveu a sua era de \u201couro\u201d, impulsionada pela demanda gerada pela guerra Mundial\u201d (Speranza, 2009, p. 80), em 1943. Podemos comparar o poderio econ\u00f4mico dessa Companhia, com as grandes petrol\u00edferas atuais, visto que a necessidade interna de carv\u00e3o foi suprida, neste contexto, pelas minas do sul do pa\u00eds, em face da impossibilidade de importa\u00e7\u00e3o mar\u00edtima nesse momento b\u00e9lico. Esse auge carbon\u00edfero leva a uma infer\u00eancia: muita gente era necess\u00e1ria para a extra\u00e7\u00e3o de todo esse carv\u00e3o. De fato, era. Conforme Speranza (2014), um relat\u00f3rio elaborado pela Justi\u00e7a do Trabalho, em 1943, verificou a presen\u00e7a de 6.929 oper\u00e1rios nas vilas de Arroio dos Ratos e Buti\u00e1. Considerando que este \u00e9 o n\u00famero de trabalhadores homens, pressup\u00f5em-se um contingente muito maior de pessoas vivendo nas vilas mineradores se somadas as suas fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tendo como objetivo organizar todo esse contingente oper\u00e1rio, a<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-x-small-font-size wp-elements-3 wp-block-paragraph\"><em>a Companhia fornecia casas aos mineiros cujo aluguel \u00e9 descontado do sal\u00e1rio. O controle ideol\u00f3gico que ela mant\u00e9m sobre a expans\u00e3o da vila oper\u00e1ria estende-se sobre outros dom\u00ednios do cotidiano dos mineiros e de suas fam\u00edlias. A Companhia constr\u00f3i a igreja cat\u00f3lica, o hospital, a escola e mant\u00e9m a venda (mercearia). Esta forma de rela\u00e7\u00e3o totalizante, de reciprocidade desigual ou de desigualdade de status, onde o mineiro d\u00e1 a for\u00e7a de trabalho e o patr\u00e3o, o sal\u00e1rio, implica a efici\u00eancia de reprodu\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es tradicionais que envolvem a submiss\u00e3o do mineiro e a assist\u00eancia da companhia.<sup>6<\/sup><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou seja, toda uma estrutura de assistencialismo (e vigia) foi montada pelo Cadem, dentro do sistema conhecido como Vila-f\u00e1brica. Pr\u00f3ximos do seu local de trabalho, esses trabalhadores deviam seguir as normas da empresa, n\u00e3o se envolver com atos considerados negativos para o seu desenvolvimento laboral, bem como precisavam consumir nos estabelecimentos de propriedade da empresa. Um verdadeiro n\u00facleo fechado de monitoramento, em que uma esp\u00e9cie de paternalismo \u00e9 colocado em pr\u00e1tica. Sabe-se que esta situa\u00e7\u00e3o de precariedade nos espa\u00e7os de trabalho e, ao mesmo tempo, na vila oper\u00e1ria n\u00e3o foi vista com passividade pelos mineiros e suas fam\u00edlias. As greves ocorreram de modo sistem\u00e1tico na regi\u00e3o, sendo a maior delas verificada em 1946, em que a minera\u00e7\u00e3o paralisou por completo, acarretando, inclusive, na falta de luz em Porto Alegre, por alguns dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estes fatores, seja a formata\u00e7\u00e3o de uma vila oper\u00e1ria altamente monitorada e organizada em torno das demandas provenientes do Cadem, ou as resist\u00eancias verificadas em momentos de contesta\u00e7\u00f5es dessas pessoas, como as greves, ficaram de fora da mobiliza\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria institu\u00edda na concep\u00e7\u00e3o do Museu do Carv\u00e3o. Representar essas pessoas, suas ag\u00eancias, e sobretudo, suas diversidades \u00e9, portanto, o objetivo da presente proposta de Antimonumento. Sabe-se que \u201ch\u00e1 personagens e grupos sociais marcados por marca\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais ou de g\u00eanero subalternizadas, grandes contingentes da classe trabalhadora mineira, que n\u00e3o s\u00e3o apresentados como protagonistas da mem\u00f3ria coletiva ou da constitui\u00e7\u00e3o dos respectivos patrim\u00f4nios hist\u00f3ricos\u201d (Bica, 2022, p. 17). Sendo assim, prop\u00f5em-se uma reflex\u00e3o, por meio de uma a\u00e7\u00e3o antimonumental, pretendendo tensionar essa mem\u00f3ria saudosa, em que v\u00e1rias nuances s\u00e3o perdidas entre as ru\u00ednas para que se possa verificar outras lembran\u00e7as nessas mem\u00f3rias coletivas, que talvez, n\u00e3o sejam t\u00e3o positivas e heroicas como a produ\u00e7\u00e3o historiogr\u00e1fica local e, por consequ\u00eancia, a patrimonializa\u00e7\u00e3o do museu buscaram apresentaram.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>O que \u00e9 um Antimonumento?<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de desenvolver a a\u00e7\u00e3o propriamente, e o porqu\u00ea dela ocorrer, uma defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 Antimonumento para essa proposta precisa ser elucidada. Monumentalizar pode ser sin\u00f4nimo de sedimentar, forjar, instituir uma mem\u00f3ria, por meio de um monumento. Por monumento, \u201centende-se uma obra criada pela m\u00e3o do homem e edificada com o prop\u00f3sito preciso de conservar presente viva, na consci\u00eancia de gera\u00e7\u00f5es futuras, a lembran\u00e7a de uma a\u00e7\u00e3o ou destino (ou a combina\u00e7\u00e3o de ambos)\u201d (Riegl, 2006, p. 43). Isto \u00e9, produzir um monumento \u00e9 edificar uma mem\u00f3ria que se objetiva passar para o futuro sobre o passado, estabelecendo uma ponte, constitu\u00edda nas rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o de poder, entre o ontem e o hoje, querendo servir de lastro para um amanh\u00e3 melhor.<br><br>Na regi\u00e3o carbon\u00edfera ga\u00facha, como j\u00e1 apresentado, a monumentaliza\u00e7\u00e3o das ru\u00ednas da antiga Usina termoel\u00e9trica visava produzir um sentimento de lembran\u00e7a aos tempos \u00e1ureos em que a cidade j\u00e1 havia vivido. Por\u00e9m, neste movimento, esconde in\u00fameras nuances desse per\u00edodo \u201c\u00e1ureo\u201d ao n\u00e3o apresentar as formas de domina\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o sofridas pelas pessoas que ali viviam e trabalhavam, e tamb\u00e9m, seus processos de ag\u00eancias e suas diversidades. O tornar-se museu, propiciou uma imortaliza\u00e7\u00e3o dessa mem\u00f3ria em que, supostamente, a minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o foi ben\u00e9fica e muito positiva para a cidade e para quem ali vivia.<br><br>Quando falamos de monumento, por consequ\u00eancia, estamos falando de morte. Uma morte imortalizada por meio de uma representa\u00e7\u00e3o patrimonial. Algumas vezes ela est\u00e1 muito evidente, entretanto, por vezes, est\u00e1 escondida nas camadas de mem\u00f3ria, propositalmente. Na minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o os acidentes, como os desabamentos, por exemplo, eram muito frequentes. Ao analisar fontes hist\u00f3ricas da regi\u00e3o verifica-se a presen\u00e7a de muitos relatos desses acidentes, mas um deles talvez esteja marcado de modo mais evidente na mem\u00f3ria coletiva: a enchente de S\u00e3o Miguel de 1936. Ocorrida em 3 de outubro deste ano, causou a morte de quatro oper\u00e1rios que n\u00e3o conseguiram sair a tempo do Po\u00e7o 1, o mesmo po\u00e7o que est\u00e1 no complexo do Museu (Witkowski, 2019).&nbsp; Este evento traum\u00e1tico, n\u00e3o est\u00e1 presente na representa\u00e7\u00e3o patrimonial.&nbsp;<br>\u00c9 confrontando essas constru\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria e querendo trazer outras \u00e0 tona que surge o Antimonumento. M\u00e1rcio Seligmann-silva (2016) nos fornece uma contextualiza\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, uma defini\u00e7\u00e3o acerca desse conceito:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-x-small-font-size wp-elements-4 wp-block-paragraph\"><em>Foi depois da Segunda Guerra Mundial e, sobretudo no contexto do processo de memorializa\u00e7\u00e3o de Auschwitz, que se desenvolveu uma est\u00e9tica do que se tornou conhecido como antimonumento, que, de certa maneira, funde a tradi\u00e7\u00e3o do monumento com a da comemora\u00e7\u00e3o f\u00fanebre. Desse modo, o sentido heroico do monumento \u00e9 totalmente modificado e deslocado para um local de lembran\u00e7a (na chave da admoesta\u00e7\u00e3o) da viol\u00eancia e de homenagem aos mortos. Os antimonumentos, na medida em que se voltam aos mortos, injetam uma nova vis\u00e3o da hist\u00f3ria na cena da comemora\u00e7\u00e3o p\u00fablica e, ao mesmo tempo, restituem pr\u00e1ticas antiqu\u00edssimas de comemora\u00e7\u00e3o e rituais de culto aos mortos (Seligmann-Silva, 2016, p. 50).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u201cnova vis\u00e3o da hist\u00f3ria\u201d que desloca \u201cpara um local de lembran\u00e7a da viol\u00eancia e de homenagem aos mortos\u201d s\u00e3o os di\u00e1logos poss\u00edveis que se estabelecem com a presente proposta. A partir dela, busca-se redirecionar as constru\u00e7\u00f5es monumentais e suas sele\u00e7\u00f5es, ao intervir em seu espa\u00e7o f\u00edsico e questionar suas concep\u00e7\u00f5es f\u00fanebres. Ao desvelar situa\u00e7\u00f5es escondidas, seja eventos traum\u00e1ticos como a enchente de 1936, ou as pessoas que viveram muitos traumas nesses locais, mas sequer s\u00e3o representadas perante suas especificidades pr\u00f3prias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u201c<\/strong>Estamos falando de obras que trazem em si um misto de mem\u00f3ria e de esquecimento, de trabalho de recorda\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia. S\u00e3o obras esburacadas, mas sem vergonha de revelar seus limites que implicam uma nova arte da mem\u00f3ria, um novo entrela\u00e7amento entre palavras e imagens na era p\u00f3s-heroica\u201d.<sup>7<\/sup> S\u00e3o obras que \u201clidam com o que n\u00e3o podem ser acomodado numa falsa continuidade hist\u00f3rica e exigem ser notados no espa\u00e7o p\u00fablico, ainda que numa rela\u00e7\u00e3o de efemeridade ou desaparecimento\u201d (Meneguello, 2022, p. 70). Portanto, calcada nessas perspectivas antimonumentais que tensionam o sentido das mem\u00f3rias, revisita aquilo esquecido (for\u00e7osamente) e de modo ef\u00eamero questionam a monumentalidade posta, que a proposta de Antimonumento ser\u00e1 desenvolvida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Justificativa:<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns elementos que justifiquem a necessidade dessa proposta j\u00e1 foram elencados, dando destaque a desmobiliza\u00e7\u00e3o premeditada de mem\u00f3rias essenciais nos entendimentos de como eram as rela\u00e7\u00f5es de poder no cotidiano do trabalho da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, em virtude de uma constru\u00e7\u00e3o patrimonial que pretende, exclusivamente, exaltar um per\u00edodo \u201c\u00e1ureo\u201d economicamente, em que a localidade de Arroio dos Ratos se estruturava em torno dessa forma de trabalho. Com o fim da minera\u00e7\u00e3o de subsolo, e o consequente fechamento da Usina, a desestrutura\u00e7\u00e3o daquilo que era basilar para a Mina de Ratos atingiu em cheio a popula\u00e7\u00e3o. A cria\u00e7\u00e3o do Museu, objetivava rememorar esse per\u00edodo, para sedimentar um sentimento de que aquele desenvolvimento que outrora ocorria na cidade, poderia voltar a acontecer no futuro. Para isso, construiu-se uma representa\u00e7\u00e3o patrimonial que glorifica o per\u00edodo da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o, como algo plenamente positivo a todos que ali viviam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Posto isso, ent\u00e3o, sabe-se que \u201ca cidade de Arroio dos Ratos necessitava de uma imagem heroica, refletida atrav\u00e9s da figura do mineiro, uma forma de sobreviv\u00eancia simb\u00f3lica \u00e0 crise sofrida ap\u00f3s anos de extra\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o e posterior processo de desindustrializa\u00e7\u00e3o\u201d (Freitas, 2015, p. 48), isto \u00e9, \u201cum passado glorioso ao lado de um presente sem grandes oportunidades\u201d<sup>8<\/sup>. Para atingir esse intento, foram mobilizados repert\u00f3rios patrimoniais, seja no Museu do Carv\u00e3o em que se encontra \u201cdiversos utens\u00edlios, ferramentas e materiais utilizados no interior das minas, nas oficinas, laborat\u00f3rio, escrit\u00f3rio, etc.\u201d (Witkowski, 2019, p. 45), ou nos elementos que constituem a antiga vila-f\u00e1brica de Ratos, como \u201ccasas, clubes, escolas, hospital, religiosidade voltada ao culto \u00e0 Santa B\u00e1rbara\u201d (Freitas, 2015, p. 16).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses repert\u00f3rios patrimoniais, por si s\u00f3, n\u00e3o conseguiram atingir esse objetivo, sendo assim, um embasamento mitol\u00f3gico foi difundido na regi\u00e3o, sobretudo pela historiografia memorialista local<sup>9<\/sup>, o chamado mito do Eldorado negro em que&nbsp; \u201co destaque \u00e9 dado ao europeu \u201cdesbravador\u201d do carv\u00e3o e \u00e0 m\u00e3o de obra europeia, relegando ao esquecimento o papel das mulheres e dos negros\u201d (Freitas, 2021, p. 100). A minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o era um of\u00edcio altamente perigoso, a expectativa de vida daqueles que trabalhavam nela era muito baixa, causando uma rotatividade alta nos postos de trabalho. Visando suprir a demanda por m\u00e3o de obra, as Companhias estimularam, com apoio Estatal, a vinda de imigrantes \u201cvindos de diversos pa\u00edses da Europa, tais como Inglaterra, Espanha, Portugal, \u00c1ustria, Pol\u00f4nia, Fran\u00e7a entre outros\u201d (Freitas, 2015, p. 36). No fortalecimento do mito do Eldorado negro, portanto, a figura do mineiro foi calcada em uma homogeniza\u00e7\u00e3o, portanto, o mineiro seria branco, europeu, corajoso e, claro, homem. Somente essa figura idealizada trabalharia no subsolo, somente ela que com suas pr\u00f3prias m\u00e3os e sua f\u00e9, trazia \u00e0 superf\u00edcie o \u201couro negro\u201d que desenvolveria toda a regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m dessa figura idealizada, a representa\u00e7\u00e3o das comunidades mineiras \u201cgeralmente se materializa num quadro pintado com as cores da coes\u00e3o grupal, da coragem, da politiza\u00e7\u00e3o, do sacrif\u00edcio, da for\u00e7a, da solidariedade, da masculinidade, da religiosidade e da tradi\u00e7\u00e3o familiar\u201d (Speranza, 2009, p. 77), masculinidade essa que \u201caparece entre os mineiros como sin\u00f4nimo de coragem, bravura e autonomia e n\u00e3o necessariamente de for\u00e7a f\u00edsica e exibi\u00e7\u00e3o de m\u00fasculos\u201d<sup>10<\/sup>. Sendo assim, a representa\u00e7\u00e3o patrimonial privilegia um repert\u00f3rio que fale exclusivamente do of\u00edcio mineiro em si, e n\u00e3o aqueles que o movia, ao mesmo tempo, enaltece uma vis\u00e3o calcada no mito do Eldorado Negro, na figura de um mineiro idealizado, homog\u00eaneo. Essa mitifica\u00e7\u00e3o, ainda, atinge outro aspecto ao defender \u201co entendimento de que o desenvolvimento da explora\u00e7\u00e3o capitalista na regi\u00e3o geraria prosperidade \u00e0 comunidade que em um dia futuro seria compartilhada com todos\u201d (Klovan, 2014, p. 205). De certa forma, o compartilhamento da mem\u00f3ria mobilizada, de que aquele bravo mineiro imigrante foi o respons\u00e1vel por desenvolver a regi\u00e3o, atinge esse entendimento, em detrimento da elucida\u00e7\u00e3o de que essa explora\u00e7\u00e3o beneficiava somente um lado das rela\u00e7\u00f5es de trabalho: a Companhia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Considerando todos esses vieses, sabe-se por pesquisas recentes, que primeiro, muitas pessoas viveram neste espa\u00e7o, manuseando as ferramentas e fazendo as engrenagens da minera\u00e7\u00e3o funcionarem. Em segundo lugar, que essa glorifica\u00e7\u00e3o ao mineiro desbravador e sua idealiza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma fal\u00e1cia, visto as diversidades de g\u00eanero e ra\u00e7a presente no cotidiano da vila oper\u00e1ria, que mesmo n\u00e3o trabalhando na minera\u00e7\u00e3o em si, auxiliava na manuten\u00e7\u00e3o e desenvolvimento regional. E por fim, que o desenvolvimento econ\u00f4mico n\u00e3o era distribu\u00eddo e notado por todos, as condi\u00e7\u00f5es de vida eram prec\u00e1rias, com falta de acesso \u00e0 \u00e1gua e alimenta\u00e7\u00e3o, tendo o auge de 1943 na minera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o refletido na melhoria de vida daqueles que ali viviam. A estrutura de assistencialismo e monitoramento era altamente voltada para a manuten\u00e7\u00e3o desses trabalhadores nesse trabalho t\u00e3o dif\u00edcil, e, ao mesmo tempo, tinha como fun\u00e7\u00e3o mobilizar mais contingente oper\u00e1rio para as localidades mineradoras, sendo que, com a decad\u00eancia da minera\u00e7\u00e3o no Rio Grande do Sul, o corte dessas pr\u00e1ticas assistencialistas foi o primeiro ato das Companhias, como o j\u00e1 referido Cadem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A historiografia recente \u00e9 o principal pilar te\u00f3rico que a presente proposta se ancora<sup>11<\/sup>, debru\u00e7ando-se sobre as ag\u00eancias das pessoas que ali residiam e lutavam. A hist\u00f3ria social do trabalho, por exemplo, tem como objetos de pesquisa elucidar as movimenta\u00e7\u00f5es paredistas dos trabalhadores, e tamb\u00e9m, as formas como eles utilizaram as legisla\u00e7\u00f5es trabalhistas dos anos 1940. Nesses percursos de pesquisa, as contradi\u00e7\u00f5es das mem\u00f3rias mobilizadas nas constru\u00e7\u00f5es patrimoniais vem \u00e0 baila, possibilitando o questionamento sobre essas idealiza\u00e7\u00f5es e repert\u00f3rios constru\u00eddos nas rela\u00e7\u00f5es de poder. Muitas pessoas ali viviam e trabalhavam, suas diversidades de g\u00eanero, ra\u00e7a e classe precisam interseccionarem-se e serem representados nas constru\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria.&nbsp;<br>Ao relacionar mem\u00f3ria e hist\u00f3ria (Candau, 2013, p. 74), esta a partir de um m\u00e9todo, e aquela atravessada por in\u00fameros direcionamentos como paix\u00f5es, raivas, sentimentos, pode-se chegar a uma reflex\u00e3o sobre as representa\u00e7\u00f5es do que era a minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o e as pessoas que resistiam todos os dias naquele espa\u00e7o. Para isso, a presente proposta de Antimonumento coloca em di\u00e1logo arte, hist\u00f3ria e mem\u00f3ria, visto que<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-x-small-font-size wp-elements-5 wp-block-paragraph\"><em>no s\u00e9culo XXI, a arte p\u00fablica tem um importante papel na ambi\u00e7\u00e3o por supera\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o. A resposta pode estar na constru\u00e7\u00e3o de novos her\u00f3is ou novos monumentos, ou na contesta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio projeto de monumentalidade. Tamb\u00e9m o <strong>ef\u00eamero <\/strong>tem buscado conex\u00f5es significativas entre a arte urbana e as comunidades marginalizadas ou ignoradas; &nbsp;(Meneguello, 2022, p. 68, grifo meu).<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deste modo, pode-se dizer que o Antimonumento que aqui se quer apresentar, justifica-se, pois mobiliza a historiografia recente para questionar os patrim\u00f4nios da cidade de Arroio dos Ratos e seu referencial mitol\u00f3gico do Eldorado Negro, ao colocar em evid\u00eancia traumas e resist\u00eancias de todas as pessoas que ali residiam no per\u00edodo da minera\u00e7\u00e3o, trabalhadores ou n\u00e3o desse oficio, embrenhados por todas as suas diversidades, sobretudo de g\u00eanero e ra\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong><strong>Desenvolvimento da proposta:<\/strong><\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Levando em conta estes debates apresentados, sobre as constru\u00e7\u00f5es de mem\u00f3ria repercutidas nas representa\u00e7\u00f5es patrimoniais, com foco no Museu do Carv\u00e3o, bem como, na aus\u00eancia das diversidades daqueles que estavam inseridos no dia a dia da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o que apresentamos essa proposta de Antimonumento. J\u00e1 discutimos qual nossa concep\u00e7\u00e3o desse questionamento ao monumento constitu\u00eddo, em que o ef\u00eamero coloca em cheque toda aquela estrutura montada para selecionar fatos que glorificaram e esconderam quest\u00f5es relacionadas ao trabalho da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o em Arroio dos Ratos. Tendo em vista que esta codifica\u00e7\u00e3o memorial \u201ctrata-se de decidir que representa\u00e7\u00f5es do passado v\u00e3o ser reveladas, postos em cena e, eventualmente, partilhadas\u201d (Candau, 2013, p. 154), o Antimonumento aqui coloca em evid\u00eancia aqueles e aquelas que n\u00e3o s\u00e3o revelados, que n\u00e3o s\u00e3o partilhados.&nbsp;<br>Ser\u00e1 em uma noite do dia 3 de outubro<sup>12<\/sup>, pensaremos a cidade como um todo, pensaremos em um caminho, em uma dire\u00e7\u00e3o. O s\u00edmbolo principal dessa performance antimonumental \u00e9 um objeto muito particular e caracter\u00edstico dos trabalhadores da minera\u00e7\u00e3o. Para revelar qual \u00e9, convido voc\u00ea, caro leitor e leitora, que volte ao relato inicial de nosso mineiro aposentado, Mathias Sutel, e leia a ora\u00e7\u00e3o grifada. Ele mesmo, aquele que clareava tudo, que desbravava a escurid\u00e3o, o lampi\u00e3o de carbureto. Este objeto era n\u00e3o s\u00f3 caracter\u00edstico, mas tamb\u00e9m essencial. Al\u00e9m de auxiliar na visibilidade, tamb\u00e9m identificava uma das maiores lendas difundidas por mineiros ao redor do mundo: \u201co perigo do <em>grisu<\/em>\u201d, ou seja, a falta de oxig\u00eanio no subsolo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proposta \u00e9 distribuir lampi\u00f5es acesos por um trajeto na cidade de Arroio dos Ratos, um trajeto cheio de significados, um trajeto que liga e interconecta hist\u00f3rias, um trajeto que questione o monumental, um trajeto que desvele mem\u00f3rias, um trajeto que permeia tr\u00eas espa\u00e7os, mas apresenta milhares de hist\u00f3rias. A quantidade de lampi\u00f5es escolhida n\u00e3o \u00e9 por acaso, ser\u00e3o 6.929 luzes desbravando a escurid\u00e3o do dia 3 de outubro pelas ruas de Ratos. Cada uma delas representando um dos trabalhadores identificados pelo relat\u00f3rio da Justi\u00e7a do Trabalho em 1943 (Speranza, 2014). Essa escolha busca elucidar um limiar entre recorda\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia, ao questionar os espa\u00e7os em que as luzes ir\u00e3o clarear, os espa\u00e7os que as mem\u00f3rias dos lampi\u00f5es ir\u00e3o projetar em seus monumentos. Sabemos que \u201ca pedra acolheu sempre a mem\u00f3ria\u201d (Candau, 2013, p. 152), agora, ser\u00e1 a luz do lampi\u00e3o de carbureto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Falemos sobre os tr\u00eas espa\u00e7os que os lampi\u00f5es v\u00e3o conectar. Em primeiro lugar, a Sociedade Carnavalesca Tesouras, ou simplesmente, O Tesouras. Fundado em 06 de abril de 1928, foi o primeiro clube recreativo da Vila de Arroio dos Ratos. Frequentando por homens e mulheres, que desafiam a ordem memorialista constru\u00edda a partir do mito do Eldorado, pois s\u00e3o pessoas negras, pessoas que ali viviam e se encontravam para comemorar, mas tamb\u00e9m para resistir. Esse espa\u00e7o de sociabilidade da comunidade negra da vila oper\u00e1ria \u00e9 um local que refor\u00e7a as ag\u00eancias e diversidades dessas pessoas que estavam, sim, nos meios de trabalho e de articula\u00e7\u00e3o social no per\u00edodo em que o carv\u00e3o era retirado do subsolo, entretanto, \u201c\u00e9 poss\u00edvel observar uma aus\u00eancia de relatos feitos por memorialistas locais\u201d (Freitas, 2021, p. 100), tanto da exist\u00eancia do Tesouras como da popula\u00e7\u00e3o negra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo espa\u00e7o, \u00e9 o Monumento ao Mineiro,<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-x-small-font-size wp-elements-6 wp-block-paragraph\"><em>localizado na principal r\u00f3tulo da cidade, de frente para a avenida que abriga o centro administrativo comercial do munic\u00edpio. Inaugurada em 1974, a est\u00e1tua representa em estilo realista um mineiro da primeira metade do s\u00e9culo XX: as vestes leves (camiseta sem mangas, boina e alpargatas) denotam um tempo em que o trabalho nas minas era realizado de forma quase artesanal, apesar dos in\u00fameros perigos envolvidos; a lamparina que traz na m\u00e3o esquerda \u00e9 o item que o identifica propriamente como um trabalhador do subsolo. (Filho, 2024)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse monumento tinha como objetivo imortalizar em pra\u00e7a p\u00fablica o heroico jovem carvoeiro que baixava \u00e0s entranhas da terra trazendo a superf\u00edcie o \u201couro negro\u201d. A estatu\u00e1ria aqui representada individualiza estas diversidades que apresentamos aqui, mas se mant\u00e9m em conson\u00e2ncia com a historiografia local. Esta idealiza\u00e7\u00e3o do mineiro europeu, branco, homem e corajoso s\u00e3o virtudes essenciais nessa formata\u00e7\u00e3o de mem\u00f3ria, mas sabemos que isto n\u00e3o era uma realidade. Em tese, \u201cos monumentos devem a sua aparente indestrutibilidade ao facto de serem considerados como uma mem\u00f3ria mineral que vale para a eternidade\u201d (Candau, 2013, p. 152), n\u00e3o s\u00e3o indestrut\u00edveis, t\u00e3o pouco valem para eternidade. Essa mem\u00f3ria mineral precisa ser iluminada por outra perspectiva, considerando que \u201co bronze utilizado na est\u00e1tua foi doado pela empresa mineradora\u201d (Filho, 2024), a mesma que monitorava e oprimia os cerca de 7 mil trabalhadores e suas fam\u00edlias na d\u00e9cada de 1940.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por fim, o pr\u00f3prio Museu Estadual do Carv\u00e3o. J\u00e1 apresentamos as motiva\u00e7\u00f5es de sua cria\u00e7\u00e3o e como as ru\u00ednas que o formam s\u00e3o mobilizadas para apresentar um \u00fanico aspecto das complexas rela\u00e7\u00f5es sociais ali vividas. Ao trazer esse contingente de luzes ao Museu, busca-se iluminar, por meio dos lampi\u00f5es, as camadas de mem\u00f3rias contidas em cada pr\u00e9dio que o comp\u00f5e, para trazer \u00e0 visibilidade aos trabalhadores que, de fato, faziam aquela pot\u00eancia industrial funcionar. \u201cEstes trabalhadores, cuja atividade \u00e9 repleta de perigos e incertezas, juntamente com suas fam\u00edlias se organizaram em torno de uma comunidade de trabalho, a qual modificou de vez o panorama rural da pequena localidade de Arroio dos Ratos\u201d (Freitas, 2015, p. 36), portanto, um museu que se prop\u00f5e a manter viva a mem\u00f3ria do carv\u00e3o da regi\u00e3o carbon\u00edfera, precisa, necessariamente, apresentar em suas fun\u00e7\u00f5es patrimoniais aqueles que d\u00e3o sentido a sua exist\u00eancia, as pessoas.&nbsp;<br>Pessoas essas que tamb\u00e9m v\u00e3o estar representadas na a\u00e7\u00e3o antimonumental. Al\u00e9m da quantidade de lampi\u00f5es, que j\u00e1 nos remete ao contingente de trabalhadores que agiam nas vilas de Arroio dos Ratos e Buti\u00e1, acreditamos ser necess\u00e1rio superar esse n\u00famero, apresentando dentro dos lampi\u00f5es duas imagens. A primeira delas \u00e9 de uma Carta, mais especificamente, um recorte da Carta das Mulheres de Buti\u00e1 ao presidente da Rep\u00fablica, enviada em 1946. Ap\u00f3s a grande greve que ocorreu na regi\u00e3o, aqui j\u00e1 citada, as pr\u00e1ticas assistencialistas da empresa mineradora foram sendo gradualmente cortadas, gerando uma rea\u00e7\u00e3o por parte dos trabalhadores, e claro, das trabalhadoras. Hoje, sabe-se que as mulheres participaram ativamente nas articula\u00e7\u00f5es da greve de 1946, por meio do n\u00facleo municipal do PCB, composto majoritariamente por mulheres. Esta carta, que, na verdade, \u00e9 um abaixo-assinado, demonstra a flu\u00eancia pol\u00edtica desse grupo de mulheres.<sup>14<\/sup><br>Este recorte \u00e9 uma fonte emblem\u00e1tica que contribui para nossas discuss\u00f5es aqui apresentadas, visto que apresenta um grupo que \u00e9 exclu\u00eddo, em quase sua totalidade, das categoriza\u00e7\u00f5es patrimoniais em conson\u00e2ncia com a historiografia local. Contudo, de acordo com Speranza (2020), \u201cmesmo n\u00e3o sendo empregadas das minas, as mulheres dependiam seu dia em atividades como a lavagem das roupas, a feitura das refei\u00e7\u00f5es para os oper\u00e1rios, os cuidados com a casa e at\u00e9 no banho nos trabalhadores mineiros, ritual di\u00e1rio extremamente importante, j\u00e1 que os corpos dos oper\u00e1rios chegavam da labuta cobertos de p\u00f3 de carv\u00e3o, da cabe\u00e7a aos p\u00e9s\u201d (Speranza, 2020, p. 120), al\u00e9m disso, atuavam em espa\u00e7os como enfermeiras e professoras.&nbsp; Logo, elas trabalhavam e eram pe\u00e7a essencial no funcionamento do cotidiano na vila f\u00e1brica, n\u00e3o se furtando, pelo que podemos analisar da carta, de se inserirem nos movimentos de confronto e contesta\u00e7\u00e3o ocorridos na regi\u00e3o carbon\u00edfera na d\u00e9cada de 1940.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A outra imagem mobilizada \u00e9 uma que est\u00e1 presente no acervo do Arquivo Hist\u00f3rico da Minera\u00e7\u00e3o, que fica localizado dentro do Complexo do Museu Estadual do Carv\u00e3o. A fotografia foi capturada no subsolo de algum po\u00e7o de minera\u00e7\u00e3o n\u00e3o identificado, n\u00e3o temos a data de sua captura. Nela, al\u00e9m de apresentar como era o espa\u00e7o de trabalho dos mineiros, temos no centro da imagem, um homem, negro, sem camiseta, com poucas vestes, prostrado em frente a uma vagoneta cheia de carv\u00e3o. Essa imagem coloca em d\u00favida toda elabora\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica do Eldorado Negro, e, concomitamente, do Monumento ao Mineiro. Al\u00e9m de apresentar um trabalhador negro que sim, estava ao lado de todos os trabalhadores imigrantes t\u00e3o exaltados pela historiografia local, esta com vestes nem um pouco semelhantes com a do Monumento. Seu olhar introspectivo, diferencia-se do monumento ao mineiro com um olhar altivo, distante. Sendo assim, representa um grupo amplo e que estava presente no cotidiano da minera\u00e7\u00e3o, a dos trabalhadores negros.&nbsp;<br>Em resumo<sup>15<\/sup>, 6.929 lampi\u00f5es de carburetos acesos em uma noite do dia 3 de outubro, formando um trajeto que interliga tr\u00eas espa\u00e7os: O Tesouras, o Monumento e o Museu Estadual do Carv\u00e3o. Possuindo dentro deles duas imagens, a do recorte da Carta das Mulheres de Buti\u00e1 e a imagem do trabalhador negro no subsolo. Com isso, busca-se injetar uma nova vis\u00e3o da hist\u00f3ria em cena p\u00fablica, buscando trazer a notoriedade nesse espa\u00e7o, em uma rela\u00e7\u00e3o de efemeridade, pois ao amanhecer 4 de outubro, todos ser\u00e3o retirados. O antimonumento aqui proposto, ilumina, em tr\u00eas espa\u00e7os diferentes, milhares de mem\u00f3rias, milhares de pessoas que ali viveram, trabalharam, questionaram, sofreram, resistiram, foram felizes, foram tristes, lutaram, sobreviveram, e ao fim, morreram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\"><strong>Reflex\u00f5es finais:<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Morte e monumento tem uma rela\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima. O antimonumento surge como uma perspectiva de questionar essa rela\u00e7\u00e3o f\u00fanebre, ao revisitar outros mortos que n\u00e3o est\u00e3o sendo celebrados pela ode ao morto que o monumento busca imortalizar. A partir dessa proposta busca-se dar um novo sentido a uma hist\u00f3ria regional, que se desenvolveu atrav\u00e9s da minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o como elemento econ\u00f4mico principal. No decorrer deste desenvolvimento, muitos e muitas tiveram suas vidas ceifadas pelas incongru\u00eancias das empresas e seus acionistas que privilegiam o lucro, acima de tudo. Desabamentos, explos\u00f5es, sem falar nas sequelas pulmonares e de sa\u00fade que aqueles que desciam no subsolo enfrentaram pelo resto de suas curtas vidas. A partir dos lampi\u00f5es se quer questionar: essas pessoas est\u00e3o aqui representadas?<br>\u201cRepensar os monumentos como um gesto de escolha e de poder e como desejo de perpetua\u00e7\u00e3o de eventos e her\u00f3is implica tamb\u00e9m realizar uma an\u00e1lise das formas dominantes da narrativa hist\u00f3rica\u201d (Meneguello, 2022, p. 75). Foi exatamente este o processo realizado aqui, entrela\u00e7ando as mem\u00f3rias dispostas no imagin\u00e1rio coletivo e a historiografia profissional desenvolvida nos \u00faltimos anos, buscou-se apresentar as in\u00fameras singularidades das pessoas que estavam envolvidas pela minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o na vila-f\u00e1brica controlada pela Companhia mineradora. Aqueles e aquelas que trabalhavam em seus respectivos espa\u00e7os laborais, que se colocavam \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para lutar por melhorias nas condi\u00e7\u00f5es de vidas, que se encontravam em clubes para resistir ao monitoramento e segrega\u00e7\u00e3o impostos pelas empresas e a sociedade, s\u00e3o iluminados pelos 6.929 lampi\u00f5es entorno dos tr\u00eas espa\u00e7os elencados: O Tesouras, o Monumento e o Museu do Carv\u00e3o.&nbsp;Com isso, queremos trazer uma nova vis\u00e3o e significa\u00e7\u00e3o para Arroio dos Ratos, \u201cmunic\u00edpio brasileiro localizado a cinquenta e cinco quil\u00f4metros da capital ga\u00facha, Porto Alegre, por cerca de oitenta anos respirou o carv\u00e3o, inclusive, no sentido literal da express\u00e3o\u201d (Freitas, 2015, p. 27). Agora, uma cidade baseada na agricultura, com vest\u00edgios desse tempo \u201c\u00e1ureo\u201d que visam trazer a mensagem de que aquilo pode se repetir. Tal qual elencado pelos mineiros, que a chama do lampi\u00e3o de carbureto dava o sinal do \u201c<em>grisu<\/em>\u201d, a falta de oxig\u00eanio no subsolo, queremos trazer essa chama para um trajeto que sufoque essa respira\u00e7\u00e3o baseada somente na glorifica\u00e7\u00e3o a minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o e a ressignifique, tornando-a um rastro de luzes de mem\u00f3ria que coloquem em evid\u00eancias as pessoas nas suas diversidades de g\u00eanero, ra\u00e7a, classe, e sobretudo, suas diferentes ag\u00eancias perante o contexto colocado. Sendo assim, ao amanhecer no dia 4 de outubro, ao caminhar no entorno dos espa\u00e7os iluminados, os lapsos de mem\u00f3ria mobilizados entoar\u00e3o em cada uma das mentes as luzes das diversidades, marcando, quem sabe, um sentimento de saudade, porque ora, relembrar de algo \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o inerente aos nossos corpos.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-primary-color has-alpha-channel-opacity has-primary-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>NOTAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">REFER\u00caNCIAS<\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">BICA, Alan Nunes. <strong>Sociedade Carbon\u00edfera, ensino de hist\u00f3ria e educa\u00e7\u00e3o patrimonial<\/strong>: mem\u00f3ria e esquecimento na compreens\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de classe, g\u00eanero e ra\u00e7a na cidade de Buti\u00e1 (RS) no per\u00edodo entre 1936 e 1964, atrav\u00e9s da constru\u00e7\u00e3o de maquetes por alunos dos 6\u00ba e 7\u00ba anos do ensino fundamental. 2022. 299 p. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Ensino de Hist\u00f3ria) &#8211; Mestrado Prof Hist\u00f3ria, IFCH-UFRGS, Porto Alegre, 2022. Dispon\u00edvel em: https:\/\/lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/248058\/001148349.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y. Acesso em: 26 abr. 2024.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CANDAU, Jo\u00ebl. <strong>Antropologia da mem\u00f3ria<\/strong>. Rio de Janeiro: Instituto Piaget, 2013.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CIOCCARI, Marta. <strong>Do gosto da mina, do jogo e da revolta<\/strong>: um estudo antropol\u00f3gico sobre a constru\u00e7\u00e3o da honra em uma comunidade de mineiros do carv\u00e3o. 2010. 482 p. Tese (Doutorado em Antropologia Social) \u2013 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2010.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CIOCCARI, Marta. <strong>Ecos do subterr\u00e2neo<\/strong>: estudo antropol\u00f3gico do cotidiano e mem\u00f3ria da comunidade de mineiros de carv\u00e3o em Minas do Le\u00e3o (RS). 2006. 198p. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Antropologia Social) \u2013 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ECKERT, Cornelia. <strong>Os homens da mina<\/strong>: um estudo das condi\u00e7\u00f5es de vida e representa\u00e7\u00f5es dos mineiros de carv\u00e3o em Charqueadas &#8211; Rio Grande do Sul. 1985. 510 p. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Antropologia Social) \u2013 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 1985.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FILHO, Marco Antonio. <strong>Estudo para um<\/strong>: monumento ao mineiro. Arroio dos Ratos, 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FREITAS, Tassiane M\u00e9lo de. <strong>Das minas de carv\u00e3o para os clubes de futebol e sociedades recreativas<\/strong>: experi\u00eancia de classe entre o operariado da ind\u00fastria carbon\u00edfera do Rio Grande do Sul (1930-1950). 313 p. Tese (Doutorado em Hist\u00f3ria) &#8211; Universidade Federal de Santa Maria, Centro de Ci\u00eancias Sociais e Humanas, Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria, RS, Santa Maria, 2021. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/repositorio.ufsm.br\/handle\/1\/23285\">https:\/\/repositorio.ufsm.br\/handle\/1\/23285<\/a>. Acesso em: 19 dez. 2024.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FREITAS, Tassiane M\u00e9lo de. <strong>De complexo carbon\u00edfero a museu<\/strong>: o processo de patrimonializa\u00e7\u00e3o dos remanescentes do antigo complexo carbon\u00edfero de Arroio dos Ratos, Rio Grande do Sul, Brasil (1983 \u2013 1994), 202 p. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Mem\u00f3ria Social e Patrim\u00f4nio Cultural) &#8211; ICH-UFPEL, Pelotas, 2015. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/guaiaca.ufpel.edu.br\/handle\/prefix\/5429\">https:\/\/guaiaca.ufpel.edu.br\/handle\/prefix\/5429<\/a>. Acesso em: 17 dez. 2024.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KLOVAN, Felipe Figueir\u00f3. <strong>Sob o fardo do ouro negro<\/strong>: as experi\u00eancias de explora\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia dos mineiros de carv\u00e3o do Rio Grande do Sul na d\u00e9cada de 1930. 234 p. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado em Hist\u00f3ria) &#8211; Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria, Porto Alegre, RS, 2014. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/132366\">https:\/\/lume.ufrgs.br\/handle\/10183\/132366<\/a>. Acesso em: 19 dez. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MANDELLI, Bruno. <strong>Greves, repress\u00e3o e resist\u00eancia<\/strong>: uma hist\u00f3ria comparada dos mineiros de carv\u00e3o no sul do Brasil (1945-1964). 2023. 310 p. Tese (Doutorado em Hist\u00f3ria) &#8211; Instituto de Filosofia e Ci\u00eancias Humanas, UFRGS, Porto Alegre, 2023. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/258471\/001169322.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y\">https:\/\/lume.ufrgs.br\/bitstream\/handle\/10183\/258471\/001169322.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y<\/a>. Acesso em: 22 dez. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MENEGUELLO, Cristina. <strong>Carne contra pedra<\/strong>: confrontos entre corpos e est\u00e1tuas. In: MENEGUELLO, Cristina; BENTIVOGLIO, Julio (Orgs.). Corpos e pedras: est\u00e1tuas, monumentalidade e hist\u00f3ria. Vit\u00f3ria: Milfontes, 2022.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RIEGL, Alo\u00efs. <strong>O culto moderno dos monumentos: sua ess\u00eancia e g\u00eanese<\/strong>. Goi\u00e2nia: UCG, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SELIGMANN-SILVA, M\u00e1rcio. Antimonumentos: trabalho de mem\u00f3ria e de resist\u00eancia. <strong>Psicologia USP<\/strong>, S\u00e3o Paulo, v. 27, n.1, p. 49-60, 2016.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SILVA, Cristina Ennes da. <strong>Nas profundezas da terra<\/strong>: um estudo sobre a regi\u00e3o carbon\u00edfera do Rio Grande do Sul (1883-1945). 2007. 392 p. Tese (Doutorado em Hist\u00f3ria) \u2013 Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, 2007.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SIMCH, Carlos Alfredo. <strong>Monografia de S\u00e3o Jer\u00f4nimo<\/strong>. Porto Alegre: Livraria Andradas, 1943.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SPERANZA, Clarice Gontarski. <strong>Cavando direitos<\/strong>: as leis trabalhistas e os conflitos entre trabalhadores e patr\u00f5es nas minas do Rio Grande do Sul nos anos 1940 e 1950. Porto Alegre: Oikos, 2014.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SPERANZA, Clarice Gontarski. G\u00eanero e classe numa comunidade de minera\u00e7\u00e3o de carv\u00e3o do Brasil em meados do s\u00e9culo XX. <strong>Revista Latinoamericana de Trabajo y Trabajadores<\/strong>, [s. l.], n. 1, p. 113-136, 2020. Dispon\u00edvel em: <a href=\"http:\/\/guaiaca.ufpel.edu.br\/handle\/prefix\/6966\">http:\/\/guaiaca.ufpel.edu.br\/handle\/prefix\/6966<\/a>. Acesso em: 23 jun. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SPERANZA, Clarice Gontarski. Masculinidade, conflito e ades\u00e3o: tens\u00f5es identit\u00e1rias entre os trabalhadores das minas de carv\u00e3o do Rio Grande do Sul nos anos 1940. <strong>ArtCultura<\/strong>, Uberl\u00e2ndia, v. 11, n. 19, p. 75-88, 2009. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/dialnet.unirioja.es\/descarga\/articulo\/8425060.pdf\">https:\/\/dialnet.unirioja.es\/descarga\/articulo\/8425060.pdf<\/a>. Acesso em: 18 dez. 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SULZBACH, Ervino Lothar. <strong>Arroio dos Ratos<\/strong>: ber\u00e7o da ind\u00fastria carbon\u00edfera nacional. 2. ed. Arroio dos Ratos: PBS, 1989a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SULZBACH, Ervino Lothar. <strong>Perfil de um minerador<\/strong>. Arroio dos Ratos: PBS, 1989b.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WITKOWSKI, Alexsandro. <strong>Da luz no fim do t\u00fanel ao Arquivo Hist\u00f3rico do Museu Estadual do Carv\u00e3o<\/strong>: O acervo documental da minera\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o carbon\u00edfera do baixo Jacu\u00ed, Rio Grande do Sul (2009 \u2013 2016). 2019. Disserta\u00e7\u00e3o (Mestrado) &#8211; Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o, Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Museologia e Patrim\u00f4nio, Porto Alegre, 2019.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-primary-color has-alpha-channel-opacity has-primary-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button\"><a class=\"wp-block-button__link has-background-color has-text-color has-background has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/199ZSkPiAso4s6kzO2-XHodt6qHdPrRu0\/view?usp=drive_link\" style=\"border-radius:15px;background-color:#42b395\">Baixar<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto foi desenvolvido na disciplina de <strong>T\u00f3picos de hist\u00f3ria contempor\u00e2nea<\/strong>, ministrada pela professora <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1487251536172132\" data-type=\"link\" data-id=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1487251536172132\">Leticia Brandt Bauer <\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como citar este texto:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SPECHT, Lucas. Iluminando mem\u00f3rias: proposta de Antimonumento em Arroio dos Ratos, Rio Grande do Sul. <strong>Peri\u00f3dico Por Uma Ideia<\/strong>, 2024. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/iluminando-memorias-proposta-de-antimonumento-em-arroio-dos-ratos-rio-grande-do-sul\/\">https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/iluminando-memorias-proposta-de-antimonumento-em-arroio-dos-ratos-rio-grande-do-sul\/<\/a>. Acesso em:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os conte\u00fados publicados s\u00e3o distribu\u00eddos em acesso aberto sob licen\u00e7a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nc-sa\/2.5\/br\/\">CC BY-NC-SA 2.5 BR<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lucas Specht: Este artigo prop\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o de um antimonumento na cidade de Arroio dos Ratos, no Rio Grande do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":782,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[],"class_list":["post-776","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/776","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=776"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/776\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":858,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/776\/revisions\/858"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/media\/782"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=776"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=776"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=776"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}