{"id":834,"date":"2025-07-15T20:47:58","date_gmt":"2025-07-15T23:47:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/?p=834"},"modified":"2025-07-16T21:30:12","modified_gmt":"2025-07-17T00:30:12","slug":"o-homem-que-comeu-mais-de-300-corpos-antropofagia-tupinamba-e-as-representacoes-de-americo-vespucio-e-hans-staden","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/o-homem-que-comeu-mais-de-300-corpos-antropofagia-tupinamba-e-as-representacoes-de-americo-vespucio-e-hans-staden\/","title":{"rendered":"O homem que comeu mais de 300 corpos: antropofagia tupinamb\u00e1 e as representa\u00e7\u00f5es de Am\u00e9rico Vesp\u00facio e Hans Staden"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color wp-elements-1 wp-block-paragraph\"><strong>Felipe Balparda Athanasio:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O presente trabalho busca entender os significados da pr\u00e1tica antropof\u00e1gica para os Tupinamb\u00e1, compreendendo os contrastes existentes entre uma aproximada perspectiva ind\u00edgena e o ponto de vista presente nos relatos de Am\u00e9rico Vesp\u00facio e Hans Staden. Para isso, utiliza pensamentos de antrop\u00f3logos, historiadores e de textos de viagem dos exploradores em quest\u00e3o. A antropofagia Tupinamb\u00e1 \u00e9 uma pr\u00e1tica complexa, dotada de simbolismo,<br>culturalidade e um dos elementos do chamado sistema de guerra tupi, que tamb\u00e9m possui a no\u00e7\u00e3o da vingan\u00e7a enquanto eixo central. Pode-se entend\u00ea-la enquanto indispens\u00e1vel para a continuidade de um grupo, a partir da sua import\u00e2ncia cultural e unificadora. \u00c9 negada, dessa forma, a percep\u00e7\u00e3o de Staden e Vesp\u00facio da pr\u00e1tica enquanto sin\u00f4nimo de ignor\u00e2ncia, bestialidade e atraso. Por fim, coloca-se o entendimento dos interesses econ\u00f4micos, moralizantes, religiosos e legitimadores de viol\u00eancia envolvidos na escrita e publica\u00e7\u00e3o desses relatos enquanto base para constituir um saber que se aproxime e entenda as pr\u00e1ticas culturais e popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>PALAVRAS-CHAVE<\/strong>: Antropofagia; Tupinamb\u00e1; Representa\u00e7\u00e3o; Ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-alpha-channel-opacity has-background\" style=\"background-color:#d3494e;color:#d3494e\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao buscar brevemente sobre o termo <em>antropofagia <\/em>em sites de pesquisa, poder\u00e1 entrar em contato com dois usos diferentes da palavra: \u2018\u2019ato ritual de comer uma ou v\u00e1rias partes de um ser humano\u2018\u2019\u00b9, ou o Movimento Antropof\u00e1gico. Podendo ser compreendido enquanto uma corrente brasileira do popular movimento conhecido como modernismo, o manifesto antrop\u00f3fago que representava o Movimento trazia em si uma quest\u00e3o: \u201c<em>Tupi, or not tupi that is the question<\/em>\u201d (Andrade, 1928). O texto publicado por Oswald de Andrade anunciava uma nova fase da arte nacional. Ao se colocar contra Jos\u00e9 de Anchieta, Padre Vieira e outras figuras ligadas \u00e0 conquista do territ\u00f3rio brasileiro e ao valorizar em seu lugar figuras origin\u00e1rias, o poeta colocava a necessidade da absor\u00e7\u00e3o do que era produzido no cen\u00e1rio art\u00edstico internacional e a transfigura\u00e7\u00e3o desses elementos em uma arte eminentemente nacional\u00b2, por meio do processo simb\u00f3lico da antropofagia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos relatos hist\u00f3ricos de conquistadores e jesu\u00edtas escritos quatro s\u00e9culos antes do documento de Andrade, o contato com a antropofagia Tupinamb\u00e1 foi descrito de diferentes<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">maneiras, de acordo com o contexto e com o sujeito que a visualizava. De forma geral, no entanto, era considerada enquanto manifesta\u00e7\u00e3o da barb\u00e1rie, causa do desconhecimento de Deus, obedecimento ao Dem\u00f4nio e m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o, a ser combatido com salva\u00e7\u00e3o, convers\u00e3o e guerra (Fujimoto, 2016, p. 146). No caso jesu\u00edtico, entendiam-se os povos ind\u00edgenas, pelo menos de forma inicial, enquanto \u2018\u2019documentos em branco\u2018\u2019 que seriam inscritos pela f\u00e9 cat\u00f3lica. No entanto, N\u00f3brega e outros religiosos logo perceberam que as imposi\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram seguidas e os sacrif\u00edcios rituais e guerras entre grupos\u00b3 permaneciam. A solu\u00e7\u00e3o, como narrado por trabalhos como de Juliana Fujimoto (2016), foi a mobiliza\u00e7\u00e3o de guerras de exterm\u00ednio, afugentamento e aldeamento de popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto parte do chamado sistema de guerra tupi, a antropofagia \u00e9 apenas um dos elementos a ser compreendido. A no\u00e7\u00e3o de vingan\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m um eixo central da cultura ind\u00edgena Tupinamb\u00e1 e \u00e9 fundamental para entender os enredamentos das guerras entre grupos e as posteriores guerras coloniais. No entanto, o enfoque para a import\u00e2ncia da antropofagia na compreens\u00e3o de mundo ind\u00edgena \u00e9 pouco explorado na \u00e1rea da Hist\u00f3ria, pelo menos em compara\u00e7\u00e3o com esses outros elementos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, o artigo em quest\u00e3o tem como inten\u00e7\u00e3o principal compreender os sentidos da pr\u00e1tica antropof\u00e1gica para os povos ind\u00edgenas Tupinamb\u00e1 do s\u00e9culo XVI, em contraste com as intencionalidades das representa\u00e7\u00f5es fornecidas pelos conquistadores a respeito de seus rituais. Para isso, o texto \u00e9 estruturado visando um entendimento do rito antropof\u00e1gico e de suas discuss\u00f5es por diferentes autores da \u00e1rea da Antropologia e da Hist\u00f3ria, segue com uma an\u00e1lise de alguns trechos de relatos de Am\u00e9rico Vesp\u00facio e Hans Staden e finaliza com considera\u00e7\u00f5es finais a respeito das no\u00e7\u00f5es apreendidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma breve descri\u00e7\u00e3o do rito antropof\u00e1gico&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 de interesse total deste trabalho aprofundar nos detalhes que envolvem a pr\u00e1tica antropof\u00e1gica pelas popula\u00e7\u00f5es Tupinamb\u00e1, mas \u00e9 importante trazer algumas informa\u00e7\u00f5es sobre sua ritual\u00edstica\u2074. Ela come\u00e7a desde a captura do inimigo, com uma expedi\u00e7\u00e3o de vit\u00f3ria que atravessa aldeias aliadas pelo caminho. A partir desse momento, j\u00e1 se estabelecia uma rela\u00e7\u00e3o: o primeiro que o tivesse tocado teria seu comando. Com a dificuldade de reconhecer quem seria o honrado, conflitos internos j\u00e1 se marcavam, com a possibilidade da execu\u00e7\u00e3o imediata. No entanto, o que prevalecia era o desejo de levar o capturado vivo at\u00e9 suas respectivas aldeias (M\u00e9traux, 1979, p. 114), possibilitando o importante rito antropof\u00e1gico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo assim, o que se sucedia era bastante relativo. Para os mais velhos, a execu\u00e7\u00e3o era apressada; para os mais jovens, poderia demorar meses e at\u00e9 anos. Nesse per\u00edodo, o prisioneiro se tornava pertencente \u00e0 aldeia que o havia capturado e recebia uma esposa. Sobre isso, M\u00e9traux narra:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-small-font-size wp-elements-2 wp-block-paragraph\">Eram os prisioneiros livres de andar \u00e0 vontade e nenhuma vigil\u00e2ncia se exercia sobre os mesmos [\u2026] Na realidade, o prisioneiro provavelmente j\u00e1 n\u00e3o era considerado como pertence \u00e0 sua tribo, sendo, desde ent\u00e3o, assimilado pela do inimigo, que o havia adotado. (M\u00e9traux, 1979, p. 118)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme a execu\u00e7\u00e3o se aproximava, os preparativos come\u00e7avam de forma organizada. Alguns eram destinados \u00e0s fun\u00e7\u00f5es de tonsura, de tingimento e lavagem do preso, da prepara\u00e7\u00e3o de adornos, do recolhimento dos restos mortais e da importante fun\u00e7\u00e3o do executor. As aldeias aliadas eram chamadas e todos se reuniam em uma s\u00e9rie de comemora\u00e7\u00f5es que envolviam o canto, a dan\u00e7a, a m\u00fasica e a bebida. Um dia antes, um processo de <em>reinimiza\u00e7\u00e3o <\/em>acontecia, com a encena\u00e7\u00e3o da tentativa de fuga do prisioneiro e sua recaptura, como uma forma de refor\u00e7ar o motivo pelo qual ele estava ali e uma demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a daquele grupo em rela\u00e7\u00e3o ao capturado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma fala precedia a execu\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando as vingan\u00e7as passadas do grupo e as vingan\u00e7as futuras. O preso prometia que sua aldeia voltaria para o vingar. Adornado e pintado, enfim, o prisioneiro tinha seu cr\u00e2nio quebrado e era executado na presen\u00e7a de todos. O seu corpo, enfim, era totalmente consumido por todos os membros, inclusive os beb\u00eas, de forma simb\u00f3lica: suas m\u00e3es pintavam os seios e as barrigas de sangue. A \u00fanica absten\u00e7\u00e3o da cerim\u00f4nia era destinada ao executor, que passava por um longo per\u00edodo de resguardo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A antropofagia tupinamb\u00e1&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Baseando-se em cartas e relatos de viagem escritos no per\u00edodo colonial, jesu\u00edticos ou n\u00e3o, diversos historiadores e antrop\u00f3logos discutiram sobre a antropofagia enquanto pr\u00e1tica ind\u00edgena, tal como a no\u00e7\u00e3o de vingan\u00e7a e o pr\u00f3prio sistema de guerra <em>tupi<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O antrop\u00f3logo sui\u00e7o Alfred M\u00e9traux, em 1928\u2075, foi um dos primeiros a sistematizar as informa\u00e7\u00f5es trazidas nos relatos portugueses a respeito dos rituais antropof\u00e1gicos. Com uma longa e detalhada descri\u00e7\u00e3o da captura e dos complexos preparativos e cerim\u00f4nias que antecediam a execu\u00e7\u00e3o propriamente dita, M\u00e9traux traz uma contribui\u00e7\u00e3o importante para o estudo sobre o tema, principalmente ao identificar a centralidade da guerra para a cultura Tupinamb\u00e1 (Fujimoto, 2016, p. 58). No entanto, traz quest\u00f5es a serem discutidas e melhor trabalhadas.&nbsp;Um desses pontos est\u00e1 relacionado ao uso de fontes. Mesmo que reconhe\u00e7a os exageros que os relatos e cartas trazem (M\u00e9traux, 1979, p. 120), o autor parece os reproduzir em sua escrita, assim como a vis\u00e3o de viol\u00eancia, agressividade e barbaridade como intr\u00ednseca \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. Al\u00e9m disso, o antrop\u00f3logo traz uma no\u00e7\u00e3o que se v\u00ea pouco nas an\u00e1lises consultadas: o prisioneiro em quest\u00e3o se tornava, na aldeia, um <em>escravo<\/em>\u2076. Sabemos da carga que um termo como esse traz e \u00e9 justamente por isso que chama aten\u00e7\u00e3o. A justificativa para M\u00e9traux consider\u00e1-los enquanto escravizados seriam as humilha\u00e7\u00f5es (partes integrantes da ritual\u00edstica antropof\u00e1gica), os servi\u00e7os e obriga\u00e7\u00f5es em planta\u00e7\u00f5es e o fato de que, segundo os relatos analisados, o homem que detinha sua posse refor\u00e7ava sua posi\u00e7\u00e3o nominalmente: \u201c- Fa\u00e7o-te meu escravo\u201d (M\u00e9traux, 1979, p. 117). Apesar disso, segundo o pr\u00f3prio autor, o preso era tratado de forma igualit\u00e1ria pelos moradores da aldeia e circulava livremente e n\u00e3o possu\u00eda vigil\u00e2ncia (M\u00e9traux, 1979, p. 118), o que destoa de uma interpreta\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea sobre o status de escravizado.&nbsp;Ainda para Alfred M\u00e9traux, \u201co interesse excessivo dos Tupinamb\u00e1 pelo canibalismo ritual contribuiu para manter as diferentes tribos e as comunidades locais em um constante estado de guerra\u201d (M\u00e9traux, 1948, p. 119, tradu\u00e7\u00e3o nossa). Diferentes autores discordam do desejo pela antropofagia enquanto motor para a \u201cguerra entre grupos\u201d. \u00c9 o caso de Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro, que discutem a centralidade da <em>vingan\u00e7a <\/em>na cultura Tupinamb\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para eles, toda a cultura, a sociabilidade e a ritual\u00edstica dessa popula\u00e7\u00e3o era permeada por essa no\u00e7\u00e3o. Para um menino se tornar um homem e ter acesso \u00e0s nomea\u00e7\u00f5es, \u00e0 fertilidade e ao casamento, o modo era ter sua primeira vingan\u00e7a. A morte de um inimigo no terreiro era produtora de honra. Dessa forma, os autores consideram a antropofagia enquanto um marco de desfecho da vingan\u00e7a, a tornando completa. No entanto, ao mesmo tempo, como entoado pelo executor no ritual, era uma vingan\u00e7a que prenunciava uma nova vingan\u00e7a e, com ela, um novo ou novos ritos antropof\u00e1gicos. Ele \u00e9, ent\u00e3o, a condi\u00e7\u00e3o de perpetua\u00e7\u00e3o do sistema de guerra ind\u00edgena (Cunha; Castro, 2018, p. 198) e \u00e9 indispens\u00e1vel para a continuidade do grupo, a partir da no\u00e7\u00e3o de que a sociedade Tupinamb\u00e1 existe atrav\u00e9s do inimigo (Cunha; Castro, 2018, p. 201).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, os autores chamam a aten\u00e7\u00e3o para outros pontos do canibalismo ritual, como o da quebra dos cr\u00e2nios. Esse ponto tamb\u00e9m \u00e9 muito destacado por Alfred M\u00e9traux e, para os autores, pode simbolizar uma libera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida da alma\u2077, encontrando o caminho da \u201cTerra sem Mal\u201d \u2014 um local de liberdade onde homens s\u00e3o deuses \u2014 t\u00e3o procurada pelos tupinamb\u00e1s (Cunha; Castro, 2018, p. 199). O valor dado ao modo como se consagrava a morte chama aten\u00e7\u00e3o para outros sentidos da pr\u00e1tica antropof\u00e1gica: como comentado por M\u00e9traux, os jaguares eram alvos da mesma ritual\u00edstica que os humanos, o que mostra que ela tamb\u00e9m estava relacionada a uma afirma\u00e7\u00e3o de superioridade, j\u00e1 que os animais eram os principais inimigos dos tupinamb\u00e1s (M\u00e9traux, 1979, p. 137).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda com base no pensamento de Castro e Cunha, \u00e9 importante pensar tamb\u00e9m a antropofagia enquanto unificadora, a partir da participa\u00e7\u00e3o de todos os habitantes da aldeia e de aldeias vizinhas. Era, assim, um modo de produ\u00e7\u00e3o de inimigos e um sinal de lealdade \u00e0 indigenidade (Cunha; Castro, 2018, p. 196).&nbsp;O antrop\u00f3logo Carlos Fausto, outra refer\u00eancia nos estudos sobre popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, traz contribui\u00e7\u00f5es importantes para entender a import\u00e2ncia cultural e simb\u00f3lica da antropofagia para os Tupinamb\u00e1. Entre essas, traz a no\u00e7\u00e3o de uma preda\u00e7\u00e3o <em>reinimizada<\/em> (Fausto, 2011, p. 81), a partir do refor\u00e7o constante da condi\u00e7\u00e3o do prisioneiro pelos guerreiros vitoriosos. Para ele, os rituais antropof\u00e1gicos e o processo de guerra entre grupos demonstram uma contradi\u00e7\u00e3o entre a captura e a ado\u00e7\u00e3o do preso, a prote\u00e7\u00e3o dele e a sua morte. Eles estariam, ent\u00e3o, relacionados com o anseio por uma ideia de \u201cdomesticar\u201d o interno da v\u00edtima, a partir da aquieta\u00e7\u00e3o do seu esp\u00edrito ao longo dos rituais (Fausto, 2011, p. 79). Fausto complexifica o simbolismo da superioridade analisado por M\u00e9traux a partir da concep\u00e7\u00e3o dessa execu\u00e7\u00e3o enquanto preda\u00e7\u00e3o, a partir da volta \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de cativo e perda da consci\u00eancia de si, a partir de uma \u201cpreda\u00e7\u00e3o reinimizada\u201d.&nbsp;<br>Ele chama a aten\u00e7\u00e3o, ainda, para o que chama de \u201csocializa\u00e7\u00e3o do homic\u00eddio\u201d (Fausto, 2011, p. 81) que envolvia o rito, a partir da no\u00e7\u00e3o de que todos os habitantes e aliados compartilhavam da morte, a partir da absor\u00e7\u00e3o de suas subjetividades. Ao analisar a conclus\u00e3o do rito, com a exclus\u00e3o do executor ao consumo das carnes, Fausto entende a antropofagia enquanto um processo simb\u00f3lico de devora\u00e7\u00e3o, mas que o matador j\u00e1 o teria feito ao executar seu inimigo. Portanto, o fundamental no canibalismo ritual\u00edstico n\u00e3o era o comer de fato, mas faz\u00ea-lo de forma simb\u00f3lica (Fausto, 2011, p. 80). Fausto n\u00e3o entende, ent\u00e3o, a antropofagia enquanto pr\u00e1tica alimentar, at\u00e9 porque n\u00e3o h\u00e1 ind\u00edcios reais de um prazer ao comer carne humana nas fontes (Campos, 2013, p. 14).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua tese de doutorado, Juliana Fujimoto traz importantes apontamentos sobre os conflitos entre grupos e como eles se converteram e foram convertidos em conflitos coloniais a partir do contato com os invasores e de seus interesses. Dentre os tra\u00e7os culturais centrais e propagadores da belicosidade ind\u00edgena, destaca-se a no\u00e7\u00e3o de vingan\u00e7a. Em conson\u00e2ncia com os pensamentos de autores como Manuela Carneiro da Cunha e Eduardo Viveiros de Castro, a historiadora considera a antropofagia enquanto uma consuma\u00e7\u00e3o dessa vingan\u00e7a. Ainda, ao analisar as din\u00e2micas de altera\u00e7\u00e3o de sentido das guerras coloniais, Fujimoto afirma que esse tipo de sacrif\u00edcio ritual deixa de ser praticado, de forma generalizada, na d\u00e9cada de 1580, a partir dos novos sentidos dos combates, agora intrincados nas din\u00e2micas coloniais e relacionados \u00e0 defesa territorial e ao fornecimento de m\u00e3o-de-obra escravizada (Fujimoto, 2016, p. 252). A morte em terreiro e a no\u00e7\u00e3o central de vingan\u00e7a, no entanto, era uma pr\u00e1tica cultural mais dif\u00edcil de ser abolida (Cunha; Castro, 2018, p. 193), sendo utilizada a favor dos invasores para seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A antropofagia em Vesp\u00facio e Staden\u2078&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro s\u00e9culo de conquista lusitana no territ\u00f3rio forneceu documentos important\u00edssimos para analisarmos tanto as popula\u00e7\u00f5es que aqui viviam, quanto dos acontecimentos e processos hist\u00f3ricos localizados no territ\u00f3rio brasileiro. No entanto, \u00e9 de suma import\u00e2ncia uma an\u00e1lise cr\u00edtica das fontes, principalmente ao se tratar de grupos ind\u00edgenas e de suas pr\u00e1ticas culturais. A antropofagia, enquanto elemento cultural destoante ao cristianismo e da cultura europeia que se percebia enquanto a \u00fanica produtora de civiliza\u00e7\u00e3o (Campos, 2013, p. 05), foi pensada e colocada de diferentes maneiras por seus distintos autores, conforme seus pr\u00f3prios interesses. Um ponto importante une as vis\u00f5es de L\u00e9ry, Schmidl, Colombo, Staden, Vesp\u00facio e outros: as descri\u00e7\u00f5es do canibalismo ritual perpassam n\u00e3o s\u00f3 crit\u00e9rios antropol\u00f3gicos ou etnogr\u00e1ficos, mas principalmente aos pol\u00edticos, religiosos e morais (Kalil, 2008, p. 17).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O canibalismo j\u00e1 era, como Manuela Carneiro da Cunha coloca, um fantasma do imagin\u00e1rio medieval (Cunha, 2011, p. 98). Enquanto os portugueses estavam imersos em narrativas sobre o Oriente, os espanh\u00f3is, franceses, holandeses e ingleses estavam visando o Novo Mundo (Cunha, 2011, p. 91). Com os primeiros relatos sobre o territ\u00f3rio brasileiro e sobre os h\u00e1bitos \u201cselvagens\u201d da popula\u00e7\u00e3o nativa, a imagem oriental dos comedores de carne finalmente achou seu formato: o \u201c\u00edndio\u201d brasileiro. O que n\u00e3o era definido pela sua localiza\u00e7\u00e3o agora era: o Brasil \u00e9 terra selvagem e canibal. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que, em 1540, o mapa da Am\u00e9rica de Sebastian M\u00fcnster trazia o termo <em>Canibali <\/em>em seu mapa, junto com uma representa\u00e7\u00e3o estereot\u00edpica dos povos ind\u00edgenas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1504, foi publicada <em>Mundus Novus<\/em>, uma suposta carta de Am\u00e9rico Vesp\u00facio a Lorenzo di Pierfrancesco dei Medici. As pesquisas indicam, no entanto, que o relato se trata de um texto ap\u00f3crifo, escrito por outra pessoa em nome do explorador. Segundo Caraci (1999, apud Fujimoto, 2016, p. 120), ela provavelmente foi escrita a partir da iniciativa de banqueiros e mercadores para difundir as not\u00edcias para os investidores de viagens ultramarinas. A <em>Carta de Lisboa<\/em>, datada de 1502 e que tem a autoria comprovada como sendo de Vesp\u00facio, parece ter sido a base para a cria\u00e7\u00e3o do documento ap\u00f3crifo de 1504, que guarda diversas semelhan\u00e7as com o relato original.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na carta de 1502, Vesp\u00facio relata a procura das novas terras, a fauna e flora brasileira, constela\u00e7\u00f5es e o que nos mais interessa: a antropofagia. Evidenciando o desconhecimento dos preceitos crist\u00e3os, as guerras intertribais e o consumo de carne humana, o autor procura evidenciar a bestialidade das popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-small-font-size wp-elements-3 wp-block-paragraph\">Quando lhes pedimos que dissessem a causa [de suas guerras], n\u00e3o sabiam dar outra raz\u00e3o, salvo que dizem que h\u00e1 muito tempo come\u00e7ou entre eles essa maldi\u00e7\u00e3o e querem vingar a morte de seus pais antepassados. Em conclus\u00e3o, \u00e9 coisa bestial. Certo \u00e9 que um homem deles me <strong>confessou ter comido a carne de mais de 200 corpos <\/strong>e tenho isso por certo, e basta. (Vesp\u00facio, 1502, p. 83, grifo nosso).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Mundus Novus<\/em>, relato publicado para o grande p\u00fablico, o trecho equivalente ao supracitado \u00e9 bastante distinto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-small-font-size wp-elements-4 wp-block-paragraph\">Dentre as carnes, a humana \u00e9 para ele alimento comum. Dessa coisa, na verdade, ficais certo, porque j\u00e1 se viu pai comer os filhos e a mulher. <strong>Conheci um homem com o qual falei, do qual se dizia ter comido mais de 300 corpos humanos <\/strong>[\u2026] Digo mais: eles se admiram de n\u00e3o comermos nossos inimigos e de n\u00e3o usarmos a carne deles nos alimentos, a qual, dizem, \u00e9 saboros\u00edssima. (Vesp\u00facio, 1504, p. 8, grifo nosso).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria do homem ind\u00edgena antrop\u00f3fago contada por Vesp\u00facio parece ser a mesma, mas as duas escritas, uma particular e a outra publicada, t\u00eam diferen\u00e7as: na primeira, o homem parece ter relatado que se alimentou de partes de duzentos corpos diferentes; na segunda, para al\u00e9m do n\u00famero, aumentar para trezentos, o tom muda. Em <em>Mundus Novus<\/em>, ele consumiu corpos inteiros. A diferen\u00e7a de tom parece sutil, mas chama aten\u00e7\u00e3o ao combinarmos com outras particularidades da carta ap\u00f3crifa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m de estender mais a narrativa dificultosa da viagem, <em>Mundus Novus <\/em>retira ou adiciona informa\u00e7\u00f5es, com base na vis\u00e3o que quer trazer para o grande p\u00fablico. Al\u00e9m de ressaltar a libidinosidade e a agressividade sexual das mulheres ind\u00edgenas (Vesp\u00facio, 1504, p. 07) e descrever a suposta pr\u00e1tica incestuosa da popula\u00e7\u00e3o, o escritor de Vesp\u00facio retira a men\u00e7\u00e3o \u00e0 variedade de alimentos consumidos pelos ind\u00edgenas: os frutos-do-mar, as ervas, frutas, aves, animais perdem espa\u00e7o para a monstruosidade do canibalismo e o corpo humano enquanto alimento comum e a grande possibilidade (Vesp\u00facio, 1504, p. 08). Ele \u00e9 colocado nos dois relatos, ent\u00e3o, enquanto h\u00e1bito alimentar. A bestialidade atribu\u00edda \u00e0s popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias j\u00e1 trazida no relato original traz ainda mais pot\u00eancia em <em>Mundus Novus<\/em>, que, segundo Juliana Fujimoto, tem o interesse em \u201cconstituir uma adapta\u00e7\u00e3o para o grande p\u00fablico, cujo objetivo principal seria o lucro gerado pela sua comercializa\u00e7\u00e3o\u201d (Fujimoto, 2016, p. 129). Escrita ou n\u00e3o por Am\u00e9rico Vesp\u00facio, a obra teve sucesso editorial e, portanto, exerceu influ\u00eancia na forma\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o europeia sobre as terras brasileiras, como exemplificado na obra de Sebastian M\u00fcnster.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A antropofagia enquanto h\u00e1bito puramente alimentar e prazeroso, como j\u00e1 negado pelas an\u00e1lises antropol\u00f3gicas, tamb\u00e9m aparece em <em>Duas viagens ao Brasil<\/em>, de Hans Staden.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-primary-color has-text-color has-link-color has-small-font-size wp-elements-5 wp-block-paragraph\">Alguns dias depois, quiseram comer um prisioneiro numa aldeia chamada Ticoaripe, a cerca de seis milhas de Ubatuba. Da minha pr\u00f3pria aldeia, acorreram v\u00e1rios e me levaram junto. Fomos num marco. O escravo que <strong>queriam comer <\/strong>pertencia \u00e0 tribo dos Maracaj\u00e1s. Como \u00e9 costume deles, <strong>quando querem comer um homem<\/strong>, prepararam uma bebida de ra\u00edzes que chamam de cauim. Somente depois da festa da bebida \u00e9 que o matam. (Staden, 1557, p. 94)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo narrando o processo da antropofagia, no cap\u00edtulo 29 da sua segunda viagem, Staden ainda entende a antropofagia enquanto uma vontade, como uma fome terrena a ser saciada. Ela \u00e9 uma escolha e ela \u00e9 definida, pelo menos nesse contexto, n\u00e3o por uma pr\u00e1tica de vingan\u00e7a intr\u00ednseca ao sistema de guerra Tupinamb\u00e1, mas ao desejo da saciedade. Al\u00e9m disso, Staden tamb\u00e9m parece ver a pr\u00e1tica enquanto prova da ignor\u00e2ncia, da falta de intelectualidade e da subjuga\u00e7\u00e3o natural da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. Ao final de sua descri\u00e7\u00e3o sobre o rito, o autor faz quest\u00e3o de ressaltar que \u201cos selvagens n\u00e3o sabem contar al\u00e9m de cinco. Quando querem contar al\u00e9m, mostram os dedos das m\u00e3os e dos p\u00e9s, e quando falam de um n\u00famero grande, apontam para quatro ou cinco pessoas e querem dizer o n\u00famero dos seus dedos das m\u00e3os e dos p\u00e9s\u201d (Staden, 1557, p. 184).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo assim, podemos entender os relatos de Staden e Vesp\u00facio enquanto mais do que simples descri\u00e7\u00f5es de impress\u00f5es: eles s\u00e3o relatos comercializados\u2079 e que visam uma aproxima\u00e7\u00e3o do p\u00fablico a partir do exotismo e da curiosidade com uma popula\u00e7\u00e3o supostamente monstruosa, utilizando do rito antropof\u00e1gico enquanto um de seus argumentos. Para al\u00e9m disso, tamb\u00e9m tinham no\u00e7\u00f5es mais profundas: legitimar n\u00e3o s\u00f3 a presen\u00e7a lusitana e europeia em terras ind\u00edgenas, como a realiza\u00e7\u00e3o de guerras de exterm\u00ednio e a escraviza\u00e7\u00e3o dessas popula\u00e7\u00f5es, com base na diferen\u00e7a atribu\u00edda ao Outro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Podemos perceber, dessa forma, uma diferen\u00e7a clara entre as representa\u00e7\u00f5es trazidas em relatos de viagem e as an\u00e1lises antropol\u00f3gicas e hist\u00f3ricas a respeito da antropofagia. Nas primeiras, \u00e9 vista enquanto sin\u00f4nimo de ignor\u00e2ncia, bestialidade e atraso; em uma perspectiva aproximada \u00e0 Tupinamb\u00e1, \u00e9 percebida enquanto uma pr\u00e1tica complexa e dotada de simbolismo. \u00c9 parte da fabrica\u00e7\u00e3o da posterioridade do grupo (Cunha; Castro, 2018) e, aliada \u00e0 no\u00e7\u00e3o basilar de <em>circularidade <\/em>para o pensamento ind\u00edgena, \u00e9 de suma import\u00e2ncia: a antropofagia \u00e9 o fim e, ao mesmo tempo, meio e come\u00e7o de processos que se atravessam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda muito a ser analisado, seja nos pr\u00f3prios relatos de Vesp\u00facio e Staden como tamb\u00e9m nas escritas jesu\u00edticas e como essa longa dura\u00e7\u00e3o ainda tra\u00e7a la\u00e7os ao presente. Os ritos antropof\u00e1gicos foram usados enquanto justificativa moral para os aldeamentos e na constru\u00e7\u00e3o da concep\u00e7\u00e3o que relaciona povos ind\u00edgenas com a necessidade do exterm\u00ednio ou da tutela, seja religiosa ou n\u00e3o, que est\u00e1 presente no pensamento brasileiro at\u00e9 hoje.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A valoriza\u00e7\u00e3o da cultura nacional e dos elementos origin\u00e1rios do Manifesto Antrop\u00f3fago podem nos servir de inspira\u00e7\u00e3o para realmente pensarmos em uma Hist\u00f3ria Ind\u00edgena que coloque essa popula\u00e7\u00e3o em real destaque. Dessa forma, \u00e9 not\u00f3ria a necessidade de tentarmos, at\u00e9 onde for poss\u00edvel, nos aproximar de uma perspectiva ind\u00edgena e evitar a perpetua\u00e7\u00e3o de estere\u00f3tipos comumente atribu\u00eddos \u00e0s suas pr\u00e1ticas e viv\u00eancias durante s\u00e9culos. Esse processo \u00e9 dif\u00edcil, visto que todas as fontes sobre essa popula\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo XVI s\u00e3o contaminadas por uma vis\u00e3o euroc\u00eantrica (Fujimoto, 2016, p. 253) e que busca legitimar uma s\u00e9rie de viol\u00eancias. Pode-se iniciar, no entanto, no entendimento dos interesses e aspectos morais, religiosos e pol\u00edticos que est\u00e3o envolvidos na escrita e na publica\u00e7\u00e3o de cartas e relatos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-primary-color has-alpha-channel-opacity has-primary-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>NOTAS<\/strong>:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00b9 Defini\u00e7\u00e3o do verbete sobre o tema na Wikip\u00e9dia.&nbsp;\u00b2 O que \u00e9 exemplificado na pr\u00f3pria fase supracitada, que referencia diretamente o famoso questionamento \u201c<em>To be, or not to be, that is the question<\/em>\u201d em Hamlet, de William Shakespeare.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00b3 Entendemos a problem\u00e1tica do termo <em>tribo<\/em>, quando se refere \u00e0s popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas brasileiras. Por isso, optamos por utilizar o termo <em>entre grupos <\/em>ao inv\u00e9s do tradicional <em>intertribais<\/em>. O significado permanece o mesmo: guerras empreendidas a partir e contra grupos da mesma etnia, mas de grupos diferentes. No caso, os Tupinamb\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2074 As informa\u00e7\u00f5es aqui colocadas s\u00e3o decorrentes do cruzamento das descri\u00e7\u00f5es de M\u00e9traux (1979), Fausto (2011) e Cunha, Castro (2018).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2075 No livro <em>A religi\u00e3o dos tupinamb\u00e1s e suas rela\u00e7\u00f5es com as demais tribos tupi-guaranis<\/em>. A primeira publica\u00e7\u00e3o do livro no Brasil foi no ano de 1950. A edi\u00e7\u00e3o consultada \u00e9 de 1979. \u2076 \u00c9 importante lembrar que o livro foi publicado originalmente em 1928 e que o autor n\u00e3o teve contato com as discuss\u00f5es contempor\u00e2neas sobre a <em>escraviza\u00e7\u00e3o<\/em>. Al\u00e9m disso, M\u00e9traux, apesar de se aproximar de debates hist\u00f3ricos, \u00e9 antrop\u00f3logo de forma\u00e7\u00e3o. O termo <em>escravo <\/em>tamb\u00e9m pode ter sido utilizado a partir de uma interpreta\u00e7\u00e3o literal dos relatos de viagem, como os de Staden, que utilizam a palavra para definir o prisioneiro capturado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2077 Ainda no texto de Carneiro da Cunha e Viveiros de Castro, s\u00e3o colocados outros casos onde era utilizada: quando mulheres cativas morriam, eram desenterradas e tinham seus cr\u00e2nios quebrados; com certos inimigos, que eram vendidos como escravos aos colonos, acontecia o mesmo, numa esp\u00e9cie de salva\u00e7\u00e3o e de \u201ctraz\u00ea-los de volta aos Tupis\u201d (Cunha; Castro, 2018, p. 193-194).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2078 A escolha dos relatos de Hans Staden se d\u00e1 pela fama de <em>Duas Viagens ao Brasil<\/em>, um dos relatos mais famosos do Brasil do s\u00e9culo XVI; a escolha de Am\u00e9rico Vesp\u00facio se d\u00e1 por ser o primeiro viajante a relatar a antropofagia (Cunha, 2011, p. 94) e fazer da tem\u00e1tica um tema comum na literatura de viagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u2079 Ao relatar sobre a morte de um ind\u00edgena aliado, Staden evita uma descri\u00e7\u00e3o imediata do ritual antropof\u00e1gico. \u201cVoc\u00eas saber\u00e3o como isso ocorreu no vig\u00e9simo nono cap\u00edtulo do segundo livro\u201d (Staden, 1557, p. 95), diz. O cap\u00edtulo em quest\u00e3o \u00e9 o \u00faltimo cap\u00edtulo narrativo do livro e o interesse por tr\u00e1s da escolha parece estar relacionado, justamente, a instigar o p\u00fablico a conhecer mais da \u201cselvageria ind\u00edgena\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-primary-color has-alpha-channel-opacity has-primary-background-color has-background\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>REFER\u00caNCIAS:<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">STADEN, Hans. Duas viagens ao Brasil. Porto Alegre: L&amp;PM, 2008.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">VESP\u00daCIO, Am\u00e9rico. Carta de Lisboa. In: Novo mundo: as cartas que batizaram a Am\u00e9rica. Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Darcy Ribeiro, p. 79-84, 2013. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/fundar.org.br\/publicacoes\/biblioteca-basica-brasileira\/novo-mundo-as-cartas-que-batiza ram-a-america\/&gt; Acesso em: 26 jun. 2025.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">VESP\u00daCIO, Am\u00e9rico. Mundus Novus. In: Novo mundo: as cartas que batizaram a Am\u00e9rica. Rio de Janeiro: Funda\u00e7\u00e3o Darcy Ribeiro, p. 3-14, 2013. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/fundar.org.br\/publicacoes\/biblioteca-basica-brasileira\/novo-mundo-as-cartas-que-batiza ram-a-america\/&gt; Acesso em: 26 jun. 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong>:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ANDRADE, Oswald de. O manifesto antrop\u00f3fago. In: TELES, Gilberto Mendon\u00e7a. Vanguarda europ\u00e9ia e modernismo brasileiro: apresenta\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica dos principais manifestos vanguardistas. 3\u00aa ed. Petr\u00f3polis: Vozes; Bras\u00edlia: INL, 1976.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CAMPOS, Fernanda de Freitas. Antropofagia ritual dos povos Tupinamb\u00e1 nas cartas jesu\u00edticas de meados do s\u00e9culo XVI. Monografia (Gradua\u00e7\u00e3o em Hist\u00f3ria) &#8211; Instituto de Ci\u00eancias Humanas, Universidade de Bras\u00edlia. Bras\u00edlia, pp. 42, 2013.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CUNHA, Manuela L. Carneiro da. Imagens de \u00edndios do Brasil: o s\u00e9culo XVI. Estudos Avan\u00e7ados, v. 4, n. 10, p. 91-110, set. 1990.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CUNHA, Manuela L. Carneiro da; CASTRO, Eduardo B. Viveiros de. Vingan\u00e7a e temporalidade: os Tupinamb\u00e1s. Anu\u00e1rio Antropol\u00f3gico, v. 10, n. 1, p. 57-78, 2018.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FAUSTO, Carlos. Cinco S\u00e9culos de Carne de Vaca: Antropofagia Literal e Liter\u00e1ria. In: ROCHA, Jo\u00e3o C\u00e9zar de Castro &amp; RUFFINELLI, Jorge (Orgs.). Antropofagia hoje?: Oswald de Andrade em cena. SP: \u00c9 Realiza\u00e7\u00f5es, p. 161-169, 2011.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FUJIMOTO, Juliana. A guerra ind\u00edgena como guerra colonial: as representa\u00e7\u00f5es e o lugar da belicosidade ind\u00edgena e da antropofagia no Brasil Colonial (s\u00e9culos XVI e XVII). 2016. Tese (Doutorado em Hist\u00f3ria Social) &#8211; Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas, Universidade de S\u00e3o Paulo, S\u00e3o Paulo, pp. 270, 2016.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KALIL, Lu\u00eds G. Assis. Os canibais tonsurados: a antropofagia nas cr\u00f4nicas de Schmidl, Staden e L\u00e9ry. Anais Eletr\u00f4nicos do VIII Encontro Internacional da ANPHLAC, Vit\u00f3ria, 2008.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">M\u00c9TRAUX, Alfred. A religi\u00e3o dos tupinamb\u00e1s e suas rela\u00e7\u00f5es com as demais tribos tupi-guaranis. S\u00e3o Paulo: Editora USP, 1979.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">M\u00c9TRAUX, Alfred. The Tupinamba. In: STEWARD, Julian H. (Org.). Handbook of South American Indians. Washington: Smithsonian Institution, 1948, v. 3.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-text-color has-alpha-channel-opacity has-background\" style=\"background-color:#d3494e;color:#d3494e\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-layout-flex wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button .especial-botton-block { background-color: red; } is-style-fill\"><a class=\"wp-block-button__link has-white-color has-text-color has-background has-link-color wp-element-button\" href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1DpJPiz8CE8fdCTdLyJHptWP8EHEorOHu\/view?usp=drive_link\" style=\"border-radius:15px;background-color:#42b395\">Baixar<\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este texto foi desenvolvido na disciplina de<strong>&nbsp;Am\u00e9rica colonial portuguesa<\/strong>, ministrada pelo professor&nbsp;<a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5993297059938439\">F\u00e1bio K\u00fchn<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como citar este texto: <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ATHANASIO, Felipe Balparda. O homem que comeu mais de 300 corpos: antropofagia tupinamb\u00e1 e as representa\u00e7\u00f5es de Am\u00e9rico Vesp\u00facio e Hans Staden. <strong>Peri\u00f3dico Por Uma Ideia<\/strong>, 2025. Dispon\u00edvel em: <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/o-homem-que-comeu-mais-de-300-corpos-antropofagia-tupinamba-e-as-representacoes-de-americo-vespucio-e-hans-staden\/\">https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/o-homem-que-comeu-mais-de-300-corpos-antropofagia-tupinamba-e-as-representacoes-de-americo-vespucio-e-hans-staden\/<\/a>. Acesso em:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os conte\u00fados publicados s\u00e3o distribu\u00eddos em acesso aberto sob licen\u00e7a <a href=\"https:\/\/creativecommons.org\/licenses\/by-nc-sa\/2.5\/br\/\">CC BY-NC-SA 2.5 BR<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Felipe Balparda Athanasio: O presente trabalho busca entender os significados da pr\u00e1tica antropof\u00e1gica para os Tupinamb\u00e1, compreendendo os contrastes existentes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":836,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"footnotes":""},"categories":[15],"tags":[],"class_list":["post-834","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/834","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=834"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/834\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":862,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/834\/revisions\/862"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/media\/836"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=834"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=834"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/periodicopui\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=834"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}