{"id":1602,"date":"2020-12-03T16:06:12","date_gmt":"2020-12-03T16:06:12","guid":{"rendered":"http:\/\/resenha-do-livro-satolep-de-vitor-ramil"},"modified":"2020-12-03T16:06:12","modified_gmt":"2020-12-03T16:06:12","slug":"resenha-do-livro-satolep-de-vitor-ramil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/pet-letras\/2020\/12\/03\/resenha-do-livro-satolep-de-vitor-ramil\/","title":{"rendered":"Resenha do livro Satolep de Vitor Ramil"},"content":{"rendered":"<blockquote style=\"text-align: justify\"><p>J\u00e1 vi um anoitecer l\u00edmpido de ver\u00e3o na praia do Laranjal. C\u00e9u azul-marinho, lua cheia, branca e luminosa junto \u00e0 Lagoa dos Patos. Uma moeda na areia grossa, formigas mi\u00fadas, folhas de figueira, tudo era apari\u00e7\u00e3o. O grito das crian\u00e7as e o latido dos cachorros podiam ser tocados. (RAMIL, 2008, p.28)<\/p><\/blockquote>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/petletrasufrgs.files.wordpress.com\/2020\/12\/14df2-016508_06feb51e0f4546959d8cb392115cf561mv2.png?w=640\"> <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tImerso no mundo da m\u00fasica desde sua adol\u00eascencia, Vitor Ramil \u00e9 famoso por suas composi\u00e7\u00f5es que tematizam, dentre outros assuntos, o regionalismo, algo que faz de forma criativa e inovadora. O cantor lan\u00e7ou seu primero disco, &#8220;Estrela, estrela&#8221;, aos dezoito anos de idade e desde ent\u00e3o tem feito grandes contribui\u00e7\u00f5es para a cena MPB, como o \u00e1lbum &#8216;Ramilonga &#8211; Est\u00e9tica do Frio&#8221;, ganhador do Pr\u00eamio A\u00e7orianos, em 1997, na categoria de Melhor Disco de MPB\/Samba. No entanto, Ramil n\u00e3o se limitou \u00e0 m\u00fasica, tendo dado \u00ednico \u00e0 sua carreira de escritor em 1995 com o lan\u00e7amento de seu primeiro livro, Pequod, o qual chegou a ser publicado na Fran\u00e7a. Este livro cuja hist\u00f3ria se baseia nas mem\u00f3rias do autor, foi o ponto de partida para as reflex\u00f5es de Vitor RamiI acerca da identidade sul-riograndense, o que culminou no ensaio &#8220;A Est\u00e9tica do Frio&#8221;, adaptado de uma confer\u00eancia dada pelo escritor em Genebra, no ano de 2003. \tNascido em Pelotas, o autor toma a cidade como base de suas composi\u00e7\u00f5es e escritos, mas de forma adaptada, o que se exemplifica no anagrama &#8220;satolep&#8221;, t\u00edtulo de seu segundo livro, publicado em 2008 pela editora Cosac Naify. <\/p>\n<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ufrgs.br\/pet-letras\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/1400e-016508_4ee6220d48304ee588798945d13386f3mv2.png?w=640&#038;ssl=1\"> <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tA narrativa trata da hist\u00f3ria de Selbor, um fot\u00f3grafo que, no seu anivers\u00e1rio de trinta anos, sente a necessidade de retornar \u00e0 sua cidade natal, Satolep, depois de anos afastado dela, como forma de completar o &#8220;grande c\u00edrculo&#8221; da sua vida. Neste ponto, o livro possui um qu\u00ea autobiogr\u00e1fico: Vitor Ramil, ap\u00f3s viver alguns anos no Rio de Janeiro durante a d\u00e9cada de 1980, decide abandonar a capital carioca &#8211; quente e afastada do Sul, como o local que Selbor antes habitava &#8211; e retorna para o Rio Grande do Sul, onde come\u00e7a a pensar sobre a posi\u00e7\u00e3o do estado frente ao resto do pa\u00eds e as quest\u00f5es identit\u00e1rias que dela decorrem. J\u00e1 nos anos 2000, tem \u00ednicio o engenhoso trabalho do autor na composi\u00e7\u00e3o de Satolep (2008), o qual era para ser um livro de contos, escritos a partir do \u00e1lbum de fotos supostamente feito por Brisolara, em 1922, organizado por Clodomiro Carrinconde. No entanto, optou-se por transformar o livro em um romance, de cap\u00edtulos curtos, intercalados com minific\u00e7\u00f5es relacionadas \u00e0s 28 fotos de Pelotas que estampam as p\u00e1ginas pretas da obra, cujo significado se torna mais evidente do meio para o final da hist\u00f3ria. <\/p>\n<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ufrgs.br\/pet-letras\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/056cc-016508_d3ae1525d69a4aaf8a32382894c23bfcmv2.png?w=640&#038;ssl=1\"> <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tDurante a jornada de Selbor, o leitor se insere na hist\u00f3ria como uma esp\u00e9cie  de <em>fl\u00e2neur <\/em>delirante, trilhando os caminhos fren\u00e9ticos da personagem principal na cidade envolta pelo nevoeiro. N\u00e9voa, ali\u00e1s, que paira tamb\u00e9m sobre o tempo da narrativa, a qual n\u00e3o se passa em uma data espec\u00edfica. Ainda assim, \u00e9 poss\u00edvel se situar quanto ao contexto hist\u00f3rico por meio das c\u00e9lebres figuras que aparecem durante a hist\u00f3ria, como Sim\u00f5es Lopes Neto.<br \/>\nEsse tem o papel essencial na trajet\u00f3ria de Selbor, algo que fica evidente desde as primeiras cenas no Caf\u00e9 Aqu\u00e1rio, em que o escritor se junta ao personagem principal e conta sua hist\u00f3ria de vida, ajudando-o, tamb\u00e9m, a se reestabelecer em Satolep. \u00c9 no di\u00e1logo com Jo\u00e3o Sim\u00f5es que o fot\u00f3grafo \u00e9 introduzido \u00e0 lenda do Negrinho do Pastoreio, pe\u00e7a chave na busca indefinida do personagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<blockquote><p>Foi a\u00ed que eu perdi, foi por a\u00ed que eu perdi&#8230;,  ia pensando, percebendo-me naturalmente encaminhado pelo cotidiano na dire\u00e7\u00e3o do sol capaz de secar minha primeira camisa. (RAMIL, 2008, .275)    <\/p><\/blockquote>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ufrgs.br\/pet-letras\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/3607d-016508_10af22d8a5244b2bb5afe7c58c04d134mv2.png?w=640&#038;ssl=1\"> <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tA procura de Selbor assume a aus\u00eancia de contornos de Satolep at\u00e9 o momento em que ele se depara com os textos do Rapaz, os quais correspondem a diferentes pontos de vista da mesma &#8220;Satolep em ru\u00ednas&#8217; (RAMIL, 2008, p.7). Dessa forma, o leitor \u00e9 introduzido ao elemento fant\u00e1stico da obra: os textos correspondem a fotos que ainda haviam de ser tiradas por Selbor, se tornando um enigma a ser decifrado de forma obsessiva por ele. Neste processo, o fot\u00f3grafo descobre a cidade e a si mesmo, pois, como lhe diz Sim\u00f5es Lopez Neto: &#8220;o homem faz a cidade, a cidade faz o homem&#8221;(RAMIL, 2008, p.47). <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">\tAssim, Vitor Ramil nos conduz pela trajet\u00f3ria de Selbor de forma a fazer com que fiquemos imersos na n\u00e9voa, tal qual o personagem, sem certeza do que \u00e9 real ou n\u00e3o. Al\u00e9m disso, suas ra\u00edzes musicais ficam evidentes na maestria com que nos embriaga com met\u00e1foras, as quais apenas um m\u00fasico poderia colocar em palavras com tanta genialidade e beleza, como faz com a da &#8220;primeira camisa&#8221;. O final do livro nos deixa com uma sensa\u00e7\u00e3o de ang\u00fastia, pois nos faz questionar se, assim como Selbor, n\u00e3o podemos evitar nosso destino.\n<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.ufrgs.br\/pet-letras\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/25c24-016508_3cc8edf03d564f87964c770d7bf0a235mv2.png?w=640&#038;ssl=1\"> <\/p>\n<p>\n<b>Refer\u00eancias<\/b><\/p>\n<p>MOREIRA, Carlos Andr\u00e9. N\u00e9voa, umidade e imagens. ClicRBS, 03 jun. 2008. Dispon\u00edvel em <u>&lt;a href=&quot;.&#8221;&gt;.<\/a><\/u> Acesso em 28 jun. 2019.<br \/>\nRAMIL, Vitor. Satolep. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p><b><b>\u00a9 Fotos tiradas por Amanda Fernandes Alves. Tiradas em Pelotas, entre 2017 e 2019.  <\/b><\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n<p style=\"text-align: justify\">#resenha <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 vi um anoitecer l\u00edmpido de ver\u00e3o na praia do Laranjal. C\u00e9u azul-marinho, lua cheia, branca e luminosa junto \u00e0 Lagoa dos Patos. 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