{"id":1612,"date":"2020-11-12T18:45:09","date_gmt":"2020-11-12T18:45:09","guid":{"rendered":"http:\/\/conto-quando-a-floresta-fica-silenciosa-de-juliana-miozzo"},"modified":"2020-11-12T18:45:09","modified_gmt":"2020-11-12T18:45:09","slug":"conto-quando-a-floresta-fica-silenciosa-de-juliana-miozzo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/pet-letras\/2020\/11\/12\/conto-quando-a-floresta-fica-silenciosa-de-juliana-miozzo\/","title":{"rendered":"Conto: Quando a Floresta Fica Silenciosa de Juliana Miozzo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\">\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/petletrasufrgs.files.wordpress.com\/2020\/11\/5deae-016508_22b57502f6164a7ba3de522ee10e4690mv2.png?w=640\"> <\/p>\n<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tMeia-noite com uma lua cheia no pico do c\u00e9u transforma esse lugar em uma vila abandonada, fantasmag\u00f3rica. Daqui de onde estou, devido \u00e0 altura consider\u00e1vel, posso ver toda a vila. A maioria das casas \u00e9 simples, feitas de madeira, eram irregulares, umas maiores que as outras de formas estranhas como pe\u00e7as de um jogo que foram for\u00e7adas a se encaixarem. Poucas s\u00e3o de pedra e nessas moram os mais ricos. As ruas s\u00e3o estreitas e pouco iluminadas, mas havia uma avenida larga que cortava a vila ao meio e no centro dela havia a pra\u00e7a, com um chafariz seco e sujo, cercada pela igreja, pela prefeitura e por alguns pequenos mercados..<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tE \u00e9 da prefeitura que sai a \u00fanica alma humana capaz de provar que algu\u00e9m vivia naquela vila.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tO prefeito caminha atrapalhado, posso ver a m\u00e3o que carrega o lampi\u00e3o tremer, fazendo as sombras dan\u00e7arem formando figuras monstruosas no ch\u00e3o e na parede. Nunca soube o nome dele, pois quando h\u00e1 algu\u00e9m para pronunci\u00e1-lo \u00e9 quando estou dormindo, mas sempre achei esse homem muito engra\u00e7ado. Parecia um porco: gordo, baixo, de pele rosada e com a covardia estampada na cara, muito semelhante ao que era arrastado por ele at\u00e9 a entrada da vila.<br \/>\n\tO porco, grande e rosado, foi amarrado numa \u00e1rvore a alguns passos do arco de entrada. Depois disso o prefeito se afasta uns vinte metros e espera. Um ritual que ele fazia toda lua cheia assim como seus antecessores tamb\u00e9m, e tamb\u00e9m, assim como eles, o homem gostaria de correr de volta para a prefeitura nesse momento como um porco fugindo do abate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tDes\u00e7o at\u00e9 uma \u00e1rvore pr\u00f3xima, pois estava chegando na hora. Ao meu redor a floresta estava viva como sempre. Apesar do que os humanos dizem, a floresta n\u00e3o dorme a noite. Posso ver um rabo de um gato selvagem ca\u00e7ando, posso ver p\u00e1ssaros vigiando seus ninhos, esquilos mantendo suas orelhas bem atentas a cada movimento, e tamb\u00e9m os ratos (estes s\u00e3o os meus favoritos) procurando por restos de comida ou fugindo de um dos meus irm\u00e3os.<br \/>\n\tAlguns minutos se passam. O prefeito mant\u00e9m seus olhos bem abertos, focados na floresta, suas m\u00e3os roli\u00e7as e suadas se apertam uma a outra. Algo pr\u00f3ximo quebra um galho, o prefeito sufoca um grito, seu rosto fica branco e sua respira\u00e7\u00e3o fica ofegante. Adorava quando isso acontecia, ele se assemelha ainda mais com um porco assustado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tDe repente a floresta fica silenciosa, a ponto de eu me questionar se ainda possu\u00eda audi\u00e7\u00e3o. Mas mesmo que o vento castigasse as folhas das \u00e1rvores, mesmo que todos os p\u00e1ssaros cantassem ao mesmo tempo, ainda sim seria poss\u00edvel ouvir o som do cora\u00e7\u00e3o do pobre homem batendo contra o peito. Mais um galho se parte, dessa vez, mais alto e mais perto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tPrimeiro, dois olhos surgem na escurid\u00e3o, vermelhos como sangue. Depois, uma sombra cresce num sentido oposto \u00e0 luz das tochas que ficam na entrada da vila. O animai sai da mata e se exp\u00f5e a luz. N\u00e3o importava quantas vezes o prefeito o visse, sempre seria t\u00e3o assustador quanto a primeira. <\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tCom seu pelo negro e lustroso, o lobo se aproxima calmamente do porco, sem tirar os olhos do homem. Seu tamanho era impressionante, quase do tamanho de um cavalo. S\u00f3 a sua pata \u00e9 capaz de cobrir meu corpo inteiro e sua boca, cheia de l\u00e2minas afiadas, me engoliria facilmente em uma ou duas dentadas. \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o sentir d\u00f3 do porco, que a essa altura se desespera, grita e tenta se soltar da \u00e1rvore. O lobo rosna, irritado com o som que o porco emitia, fazendo o prefeito se encolher ainda mais do que eu pensei ser poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tO lobo se agacha e d\u00e1 um grande salto. Com seus dentes de navalha e uma mira precisa ele abocanha o pesco\u00e7o do porco. O lobo para um momento, absorvendo o gosto inebriante do sangue e se deliciando ainda mais ao ouvir os gritos de sua presa. De uma vez s\u00f3, ele torce o pesco\u00e7o do animal que para de lutar, j\u00e1 sem vida. O lobo solta o porco por um momento e lambe seu focinho, n\u00e3o queria desperdi\u00e7ar nada. Ele olha em dire\u00e7\u00e3o ao prefeito, mas o humano j\u00e1 estava desmaiado no ch\u00e3o. Ele se aproxima alguns passos do homem, como se estivesse curioso, ou pensando. O animal abocanha o pesco\u00e7o do porco e d\u00e1 meia volta. Sumindo no meio da floresta, indo para onde quer que fique a sua casa. A floresta volta a ganhar vida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\tNa manh\u00e3 seguinte, quando tinha acabado de pegar no sono, acordei de sobressalto com os gritos dos humanos da vila. Na entrada havia uma como\u00e7\u00e3o: todos olhavam para o porco morto no ch\u00e3o.<\/p>\n<\/p>\n<p>#contos #petianos <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meia-noite com uma lua cheia no pico do c\u00e9u transforma esse lugar em uma vila abandonada, fantasmag\u00f3rica. 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