Morro Santana: um olhar fotográfico para sua conservação.

3 de agosto de 2016 6 Por PET Biologia UFRGS

Autoria: João Pedro Baraldo, Marco Aurich, Marceli Franceschi, Heitor Jardim, Kassiane Garcia, Luíza Machado.

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Ao fundo, o Morro Santana (Acervo do IPH)

Durante o Salão de Ensino UFRGS 2015, o Portas Abertas 2016  e, posteriormente, a Semana Acadêmica 2016/01 da Biologia UFRGS, o PETBio realizou uma exposição fotográfica sobre o Morro Santana. O objetivo foi trazer reflexões para a comunidade acadêmica acerca das temáticas envolvendo a relação do Morro Santana com a UFRGS e as habitações no seu entorno. A exposição, intitulada “Eu, Morro”, foi composta por fotos enviadas por alunos, professores e departamentos situados no Campus do Vale. Foram abordadas questões como a biodiversidade, a história, a comunidade local e os problemas nele enfrentados atualmente.

Um dos principais motivos pelos quais organizamos a exposição é a luta para reconhecer o Morro Santana como uma Unidade de Conservação (UC). Essa é uma reivindicação antiga do Instituto de Biociências da universidade. Professores e alunos mobilizaram-se afim de buscar a proteção legal do Morro junto aos órgãos ambientais responsáveis, tanto na esfera estadual, quanto na federal. Entretanto, não houveram acordos, pois, questões burocráticas foram empecilhos para a efetivação do processo.  Apesar disto a decisão N° 243/2006 do Conselho Universitário da UFRGS reconhece o morro como um refúgio da vida silvestre.

A UFRGS, em seu Plano de Gestão 2012-2016, se propõe a “Ampliar as Interações com a Sociedade” de acordo com “princípios de transparência, objetividade e responsabilidade social”. Para alcançar tal objetivo, não há melhor ponto de partida do que a comunidade residente do próprio entorno dos Campi. Entretanto, salvo alguns – poucos – notáveis projetos de extensão, o que vemos na prática são muros que segregam progressivamente o ambiente universitário e sua vizinhança.

Nesse contexto, é impossível pensar o Campus do Vale dissociado do Morro Santana. A construção do Campus, iniciada pelas obras do IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas), intensificou o processo de urbanização da região, o que também gerou aumento nos impactos ambientais. As áreas restantes da paisagem natural do Morro estão, em sua maior parte, localizadas na área de propriedade da UFRGS, que até 1700 era terra tupi-gurani, onde eles caçavam, criavam animais e cultivavam mandioca e milho.

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Vista do Morro Santana (Luiz Terragno, 1865)

Em 1732, Jerônimo de Ornellas recebeu a Sesmaria de Sant`ana que possuía cerca de 13 mil hectares e ergueu sua residência sobre o Morro Santana. Devido à ocupação açoriana, Jerônimo loteou suas terras. Entre 1800 a 1950, o morro teve diversos proprietários, dos quais utilizavam sua área para a caça e para as mais diversas atividades agropastoris.

Em 1950, a UFRGS torna-se proprietária de aproximadamente 600ha dos mais de 1000ha do Morro Santana. Atualmente, o morro divide espaço com o Campus do Vale, com as vilas Santa Isabel e Agrovet e com grandes condomínios na Antônio de Carvalho, na Protásio Alves e em sua face Leste. Esses fatos reforçam a responsabilidade da Universidade, tanto com a conservação ambiental do Morro, como com o fortalecimento social das comunidades associadas.

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            À esquerda, o anel viário, em frente a represa do IPH e, à direita, a Vila Santa Isabel

(Eduardo Vélez)

Apesar de suas belas paisagens e rica biodiversidade, o morro sofre com ações antrópicas. O anel viário do Campus do Vale fragmenta ambientes florestais utilizados como habitat por diversas espécies de répteis, mamíferos e aves. Frequentemente, se encontram carcaças de animais que tentaram uma travessia no asfalto entre esses ambientes estigmatizados.

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Cágado Atropelada no Anel Vário (Gabriela Schuck)

Diversas outras áreas do morro estão sendo fragmentadas para a construção de novas vias, que dão suporte a novas moradias, gerando mais impactos à biodiversidade. Dispersão de espécies exóticas como Pinus sp., Eucalyptus sp. e Brachiaria sp.;   atividades como motocross e a presença dos animais domésticos também são ameaças à vida no morro.

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Pinus acelerando o processo de erosão  (Renato Silvano)

Muitos moradores do morro sofrem com a falta de saneamento básico e impactos gerados por habitações irregulares (como falta de tratamento de esgoto, disposição indevida de lixo e risco de desmoronamentos). Tais impactos socioambientais resultam da falta de amparo e planejamento urbano no que diz respeito ao poder público.

HISTORIA NATURAL DA CIDADE 

Porto Alegre possui 44 morros, constituídos geologicamente por formações graníticas. O Morro Santana, além de ser o ponto mais alto, apresenta a área com maior representatividade da flora de Porto Alegre, representando, assim, grande parte da história natural da nossa cidade. Apresenta-se como uma área de transição entre dois biomas, o Pampa e a Mata Atlântica, caracterizando, assim, um típico mosaico floresta-campo, o que também podemos observar nos outros morros. Também, possui o ponto mais alto do município de Porto Alegre, com 311m.

A área de campos abrange uma diversidade de espécies vegetais que é bastante expressiva, estimada em torno de 400 espécies. Há registros de ocorrência de 300 espécies de plantas com flores. Atualmente, uma das espécies de mata atlântica mais abundante é a maria-mole (Guapira opposita). A dominância se deve, principalmente, ao baixo valor econômico, deixando essa e outras espécies, como a capororoca, chá de bugre, o mata-olho e o cafeeiro do mato, praticamente intocadas. A vegetação campestre se encontra principalmente no topo e na encosta norte, onde o gênero Eryngium, composto pelos caraguatás, é abundante, assim como Moritzia ciliata, esta última uma espécie exclusiva da região do morro.

Há 22 espécies de mamíferos registradas, dentre elas as frugívoras como morcegos e macacos, que são importantes para a manutenção de ambientes fragmentados. O Morro também abriga animais como mão-pelada, tatu, graxaim, gato-palheiro e ouriço-cacheiros.

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     Macaco-prego, Sapajus nigritus (Raquel K. Plausen)         

Podemos encontrar cerca de 25 espécies de répteis, dentre elas estão os lagartos como o teiú, cobras-de-vidro (que são na realidade lagartos sem patas), serpentes peçonhentas como a jararaca-verdadeira, a jararaca-pintada, a cobra-verde e a famosa cobra-coral e outras espécies sem peçonha como a cobra-cipó, papa-lesmas e outras também são muito encontradas.

Entre os anfíbios ocorrem espécies muito conhecidas e familiares como a rã-chorona, sapo-cururu e a rã-manteiga. Também, pode-se encontrar o sapinho-de-barriga-vermelha, que é uma espécie ameaçada de extinção.

Cerca de 89 espécies de aves habitam o morro. Entre elas, estão algumas raras para o meio urbano, como aracuã, inhambuí, vira-folha, sabiá-cica e saíra, sendo que muitos destes já não encontram seu habitat, no caso, as matas altas. Espécies familiares aos porto-alegrenses, como bem-te-vi, sabiá e sanhaçu-azul também podem ser vistos. Cerca de 10% das aves do morro são migratórias.

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Beija-flor-dourado, Hylocharis chrysura (Fabio Melo)

Os Morros de Porto Alegre são importantes refúgios para espécies polinizadoras como borboletas, pois há uma grande riqueza de flores disponíveis para esses animais. Nas nascentes, que ainda estão relativamente preservadas, e em corpos d’água podemos encontrar lagostins que são detritívoros e  servem de alimento para alguns mamíferos. Os microhabitats propiciam a presença de invertebrados que não teriam chances em meio urbano. A relativa riqueza de espécies encontradas sugere que o Morro Santana ainda se encontra em razoável estado de preservação, apesar do impacto já sofrido.

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Borboleta polinizando (Jéssica Rosiak)

PROTEÇÃO E CONSERVAÇÃO, URGENTE.

O Morro Santana, refúgio da vida silvestre em meio a cidade, é um patrimônio ambiental que corre perigo devido, principalmente, a especulação imobiliária e a falta de planejamento urbano recorrente nas cidades brasileiras. O Campus do Vale – UFRGS está localizado na base de um verdadeiro laboratório vivo que possibilita práticas interdisciplinares entre todas as áreas do conhecimento acadêmico e popular.

Além de possuir nascentes importantes que desaguam no Guaíba, o morro também auxilia a regulação do clima da região, que vem sendo alterado pela construção de grandes edifícios (dificultam a circulação do ar), grandes avenidas e, consequentemente, a emissão de poluentes atmosféricos por automóveis.

Essas e outras características tornam o Morro Santana um ambiente único na paisagem da cidade, digno de reconhecimento, valorização e, principalmente, preservação. Por isso, a criação de uma UC é de extrema importância e urgência. Para tanto, estudantes e professores do curso de Ciências Biológicas tem se reunido, novamente, para encontrar os melhores caminhos para a efetivação desse processo.

O Diretório Acadêmico da Biologia (DAIB) realiza há muitos anos subidas ao Morro com os calouros, permitindo aos novos alunos vivenciar um pouco mais da riqueza biológica que se encontra fora da sala de aula.  Alguns professores também realizam trabalhos de campo e pesquisas, afim de coletar informações e utilizar a área como estudos de casos para diversas áreas dos conhecimentos acadêmicos. Essas e outras ações, incluindo atividades de educação ambiental com as comunidades residentes e o trabalho conjunto com outros institutos e cursos, devem continuar sendo realizadas. Assim, mesmo com a demora da implementação de uma UC, o Morro Santana possa manter-se vivo, preservando sua biodiversidade e garantindo o bem-estar da população da região metropolitana de Porto Alegre.

Confira algumas outras fotos da exposição:

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Parodia ottonis, Cacto bola (Ítalo Rakowski)

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Deste ângulo, podemos ver a grande cobertura verde do morro e ao longe o Campus do Vale e a Vila Santa Isabel (Eduardo Vélez)

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A necessidade de guardas para acompanhar as trilhas dos estudantes e professores evidencia a falta de segurança no morro  (Heitor Jardim)

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Pica-pau-do-campo, Colaptes campestris  (Fábio Melo)

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Aruá-do-mato,  Megalobulimus oblongus  (Kassiane Garcia)

Dudi (23)Batatinha-de- purga, Cypella herbertii (Luíza Machado)