{"id":5206,"date":"2025-10-28T16:07:03","date_gmt":"2025-10-28T19:07:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/pgdr\/?p=5206"},"modified":"2025-10-28T16:10:32","modified_gmt":"2025-10-28T19:10:32","slug":"o-desenvolvimento-na-mira-da-cop-30","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/pgdr\/o-desenvolvimento-na-mira-da-cop-30\/","title":{"rendered":"O DESENVOLVIMENTO NA MIRA DA COP 30"},"content":{"rendered":"<p>Texto retirado do site: <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/por-que-essa-estrategia-de-desenvolvimento-nao-da-certo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/diplomatique.org.br\/por-que-essa-estrategia-de-desenvolvimento-nao-da-certo\/<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1 class=\"post-title entry-title\"><a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/por-que-essa-estrategia-de-desenvolvimento-nao-da-certo\/\">Por que essa estrat\u00e9gia n\u00e3o d\u00e1 certo?<\/a><\/h1>\n<div class=\"single-introducao\">\n<p>Que tipo de futuro estamos construindo quando o desenvolvimento ainda significa sacrificar a natureza e silenciar os povos que a defendem?<\/p>\n<\/div>\n<p class=\"post-meta entry-meta\"><span class=\"post-author\"><span class=\"author vcard\">Andr\u00e9ia Anschau, Beatriz Ribeiro Rocha e Erick Jos\u00e9 de Paula Sim\u00e3o<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"post-date-wrap post-date-inline\"><time class=\"post-date entry-date updated\" datetime=\"2025-09-05\"><span class=\"year\">5 de setembro de 2025<\/span><\/time><\/div>\n<div>\n<div id=\"post-share\">\n<div class=\"the_champ_sharing_container the_champ_horizontal_sharing\" data-heateor-ss-offset=\"0\" data-super-socializer-href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/por-que-essa-estrategia-de-desenvolvimento-nao-da-certo\/\">\n<div class=\"the_champ_sharing_ul\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"post-single-content\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">O Brasil e a Amaz\u00f4nia sob os holofotes do mundo<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;134245418&quot;:true,&quot;134245529&quot;:true}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A 30\u00aa Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (ou a COP30) toma todas as aten\u00e7\u00f5es no Brasil em 2025. A ser sediada em Bel\u00e9m \u2013 PA, em novembro deste ano, \u00e9 esperado que o evento receba entre 50 e 60 mil pessoas, entre delega\u00e7\u00f5es oficiais, observadores e participantes da sociedade civil. Esse expressivo n\u00famero de atores envolvidos n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa: falar em justi\u00e7a clim\u00e1tica e no papel dos pa\u00edses em desenvolvimento exige lidar com interesses diversos e enormes contradi\u00e7\u00f5es.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A escolha de Bel\u00e9m como cidade-sede d\u00e1 ainda mais peso a esse discurso: realizar a confer\u00eancia no cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia \u00e9 estrat\u00e9gico, pois coloca o maior bioma tropical do planeta no foco das discuss\u00f5es sobre futuro clim\u00e1tico e sustentabilidade global. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 estrat\u00e9gia, \u00e9 tamb\u00e9m um gesto simb\u00f3lico. A floresta carrega significados diversos: abriga povos que a percebem e vivem de formas distintas, tecendo rela\u00e7\u00f5es que v\u00e3o muito al\u00e9m da ideia de recurso natural. Para o evento, esse simbolismo se traduz na grandiosidade do bioma em si \u2013afinal, trata-se da regi\u00e3o que concentra mais da metade das florestas tropicais remanescentes do planeta e uma das maiores reservas de biodiversidade conhecidas.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Mais do que isso, a Amaz\u00f4nia funciona como um verdadeiro regulador clim\u00e1tico: ajuda a estabilizar temperaturas globais, influencia o regime de chuvas na Am\u00e9rica do Sul e at\u00e9 em outras partes do mundo, e armazena toneladas de carbono que, se liberadas, acelerariam ainda mais o aquecimento global. N\u00e3o \u00e0 toa, \u00e9 chamada de \u201cpulm\u00e3o do planeta\u201d \u2013 embora, na pr\u00e1tica, cumpra um papel muito mais complexo do que essa met\u00e1fora simplifica. O pr\u00f3prio governo brasileiro<\/span><span data-contrast=\"auto\">1<\/span><span data-contrast=\"auto\">\u00a0diz tratar-se de uma oportunidade hist\u00f3rica para reafirmar o protagonismo do pa\u00eds nas negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, destacando esfor\u00e7os em energias renov\u00e1veis, biocombust\u00edveis e agricultura de baixo carbono \u2013 lembrando, claro, o curr\u00edculo diplom\u00e1tico que vai da Eco-92 \u00e0 Rio+20.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A confer\u00eancia dever\u00e1 colocar em pauta desde a redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de gases de efeito estufa e a adapta\u00e7\u00e3o aos impactos j\u00e1 vis\u00edveis das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, at\u00e9 debates sobre financiamento clim\u00e1tico e os caminhos para uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica baseada em fontes renov\u00e1veis. Tamb\u00e9m ganha centralidade a preserva\u00e7\u00e3o das florestas, n\u00e3o apenas como reservas de biodiversidade e estoques de carbono, mas como elementos vitais para a regula\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica em escala planet\u00e1ria. Nesse contexto, a participa\u00e7\u00e3o de povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais deveria se tornar imprescind\u00edvel: s\u00e3o eles que historicamente conservam os territ\u00f3rios, det\u00eam saberes ancestrais fundamentais para o que os cientistas denominam de \u201csustentabilidade\u201d e que, ao mesmo tempo, sofrem de forma mais direta os efeitos da destrui\u00e7\u00e3o ambiental e est\u00e3o mais vulner\u00e1veis aos riscos decorrentes da mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Por\u00e9m, por tr\u00e1s do entusiasmo oficial, a\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/cop-30-transicao-energetica-e-as-crises-do-capitalismo\/\"><span data-contrast=\"auto\">COP30 tamb\u00e9m exp\u00f5e contradi\u00e7\u00f5es inc\u00f4modas<\/span><\/a><span data-contrast=\"auto\">: afinal, s\u00e3o mesmo essas pautas ambientais e sociais que movem o Brasil para a frente? Ou estaremos diante de mais uma encena\u00e7\u00e3o verde, enquanto, nos bastidores, o \u201cprogresso\u201d continua a ser sin\u00f4nimo de devasta\u00e7\u00e3o, lucro r\u00e1pido e explora\u00e7\u00e3o das riquezas da floresta? Essa \u00e9 a encruzilhada que a confer\u00eancia nos obriga a encarar: que tipo de futuro estamos construindo quando o\u00a0<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">desenvolvimento<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u00a0ainda significa sacrificar a natureza e silenciar os povos que a defendem?<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<figure id=\"attachment_306962\" class=\"wp-caption alignnone\" aria-describedby=\"caption-attachment-306962\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-306962\" src=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/54327269544_505766c101_o-300x211.jpg\" sizes=\"auto, (max-width: 879px) 100vw, 879px\" srcset=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/54327269544_505766c101_o-300x211.jpg 300w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/54327269544_505766c101_o-1024x721.jpg 1024w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/54327269544_505766c101_o-768x541.jpg 768w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/54327269544_505766c101_o-1536x1081.jpg 1536w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/54327269544_505766c101_o-2048x1442.jpg 2048w, https:\/\/diplomatique.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/54327269544_505766c101_o-600x422.jpg 600w\" alt=\"\" width=\"879\" height=\"618\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-306962\" class=\"wp-caption-text\">Cr\u00e9dito: Ricardo Stuckert \/ PR<\/figcaption><\/figure>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">As contradi\u00e7\u00f5es do desenvolvimento<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;134245418&quot;:true,&quot;134245529&quot;:true}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Essa contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 nova. O Brasil h\u00e1 d\u00e9cadas se equilibra entre o discurso de lideran\u00e7a ambiental e a pr\u00e1tica de um modelo econ\u00f4mico que insiste em chamar de \u201cdesenvolvimento\u201d aquilo que, na realidade, tantas vezes se traduz em destrui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o por acaso, os grandes projetos sempre aparecem revestidos de promessas sedutoras: emprego, renda, infraestrutura e cidadania pelo consumo. \u00c9 nesse ponto que entramos no cerne da quest\u00e3o\u00a0<\/span><b><span data-contrast=\"auto\">\u2013<\/span><\/b><span data-contrast=\"auto\">\u00a0o que significa, afinal, desenvolver? \u201cEmprego, renda e desenvolvimento\u201d s\u00e3o os pilares que ancoram as promessas dos grandes projetos desenvolvimentistas. Tal qual ocorreu com Brumadinho, Mariana ou Belo Monte. Quem, em s\u00e3 consci\u00eancia, poderia negar essas coisas t\u00e3o desej\u00e1veis? Essa \u00e9, afinal, a parte bela do capitalismo \u2013 a promessa de progresso material, de ser cidad\u00e3o por meio da capacidade de consumir.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;134245418&quot;:true,&quot;134245529&quot;:true}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">O Produto Interno Bruto (PIB) de um pa\u00eds mede os bens e servi\u00e7os finais produzidos no territ\u00f3rio. \u00c9 o maior indicador de desempenho econ\u00f4mico das na\u00e7\u00f5es. Seu c\u00e1lculo engloba desde a produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis at\u00e9 um corte de cabelo. Falar do PIB refor\u00e7a a import\u00e2ncia do dinheiro enquanto moeda, do com\u00e9rcio, da circula\u00e7\u00e3o de produtos. O PIB per capita, por sua vez, traduz esse \u00edndice em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quantidade de habitantes de determinado territ\u00f3rio.<\/span><span data-ccp-props=\"{&quot;335559738&quot;:240,&quot;335559739&quot;:240}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Estes, junto com a expectativa de vida e os anos de escolaridade, comp\u00f5em o IDH, o \u00cdndice de Desenvolvimento Humano. O PIB \u00e9 utilizado para definir se um pa\u00eds \u00e9 rico ou pobre; o IDH identifica se o mesmo \u00e9 desenvolvido ou n\u00e3o. Contudo, algumas quest\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o traduzidas no IDH nem no PIB: quando voc\u00ea colhe uma fruta da \u00e1rvore e come, essa a\u00e7\u00e3o n\u00e3o entra no PIB. Agora, se voc\u00ea vai ao mercado e compra uma fruta \u2013 mesmo que n\u00e3o a coma, mesmo que ela apodre\u00e7a em sua fruteira, movimentou o PIB e gerou, em uma escala muito pequena, aumento da renda e do desenvolvimento do seu pa\u00eds.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Sob essa \u00f3tica, \u00e9 inevit\u00e1vel questionar at\u00e9 que ponto o IDH consegue refletir o desenvolvimento de territ\u00f3rios sustentados pelo autoconsumo, pela economia circular e por uma menor depend\u00eancia da moeda. Nada disso aparece nos tradicionais indicadores de emprego, renda e crescimento econ\u00f4mico. Quando essas m\u00e9tricas se tornam a r\u00e9gua principal, tudo o que foge delas acaba invisibilizado \u2013 tratado como menor, perif\u00e9rico, relegado \u00e0s margens. Essa limita\u00e7\u00e3o fica ainda mais evidente na Amaz\u00f4nia, onde projetos como Belo Monte escancaram o abismo entre estat\u00edsticas oficiais e modos de vida tradicionais.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">S\u00e3o modos de vida que n\u00e3o t\u00eam no dinheiro sua base de exist\u00eancia. Comunidades agroextrativistas, quilombolas e ind\u00edgenas constroem o \u201cexistir\u201d e o bem-viver sem depender necessariamente do com\u00e9rcio ou da l\u00f3gica da compra e venda. Belo Monte \u00e9 um retrato dessa ruptura: pescadores foram removidos de suas margens e levados a cerca de 7 km do rio. Como garantir a continuidade desse modo de vida quando a dist\u00e2ncia do territ\u00f3rio e a escassez de peixes inviabilizam a fartura que antes assegurava alimento e dignidade?<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">\u201cComo \u00e9 que voc\u00ea vai levar um pescador, que mora na beira do rio, que s\u00f3 sabe pescar, ou um peconheiro que apanha a\u00e7a\u00ed, que vive daquilo, tu vais levar o a\u00e7a\u00ed junto com ele pro asfalto? Vai levar o rio onde o pescador pesca para l\u00e1 tamb\u00e9m?<\/span><span data-contrast=\"auto\">2<\/span><span data-contrast=\"auto\">\u00a0\u201d. O questionamento de Daniela Silva Ara\u00fajo, moradora de Pirocaba, uma comunidade agroextrativista em Abaetetuba, Par\u00e1, traduz a indigna\u00e7\u00e3o perante o desenvolvimento irracional que \u2018os de fora\u2019 insistem em impor.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">No Brasil de 2025, a quest\u00e3o de Daniela \u00e9 ainda mais complexa. As quest\u00f5es ambientais continuam sendo coadjuvantes \u2018do real problema\u2019. Inclusive, estas t\u00eam se mostrado, historicamente, como obst\u00e1culos ao enfrentamento do desempr<\/span><span data-contrast=\"auto\">ego e da supera\u00e7\u00e3o da pobreza. Aqui, n\u00e3o se sabe como dar legitimidade \u00e0s quest\u00f5es ambientais, o caminho parece mais \u00e1rduo. Mas, desde o milagre econ\u00f4mico, a resposta e solu\u00e7\u00e3o para o desemprego e pobreza tem sido o \u201cdesenvolvimento\u201d, este que atropela o meio ambiente e os corpos que dele dependem.\u00a0\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A pergunta de Daniela n\u00e3o se d\u00e1 num v\u00e1cuo: a\u00a0<a href=\"https:\/\/insustentaveis.sumauma.com\/cargill-quer-ampliar-destruicao-amazonia\/\">Cargill tinha planos de construir um porto em Abaetetuba,<\/a>\u00a0a cerca de 120 quil\u00f4metros de Bel\u00e9m. A empresa comprou um terreno em \u00e1rea sobreposta a um assentamento da reforma agr\u00e1ria, o Assentamento Santo Ant\u00f4nio. Essa opera\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante ressaltar, est\u00e1 sendo investigada por suspeita de grilagem pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF).<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A regi\u00e3o em que o porto da Cargill pretendia se instalar apresenta um modo de vida muito espec\u00edfico e diverso: ali, vivem mais de 7 mil fam\u00edlias ribeirinhas, com forte v\u00ednculo com a natureza local e dependem dos recursos h\u00eddricos para manuten\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia e sobreviv\u00eancia. Em uma reuni\u00e3o com os representantes da empresa, a Daniela questionou: \u201co que far\u00e3o com as pessoas afetadas?\u201d Elas seriam remanejadas, foi a resposta que recebeu do representante da empresa. O espa\u00e7o f\u00edsico para assentamento das fam\u00edlias j\u00e1 estava sendo constru\u00eddo, longe do rio, ignorando a din\u00e2mica dos ribeirinhos \u2013 tal qual aconteceu com os ribeirinhos afetados pela hidrel\u00e9trica.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Belo Monte era a proposta de um mundo novo e desenvolvido para diversas fam\u00edlias, mas, na verdade, foi o fim, assim como a Transamaz\u00f4nica na d\u00e9cada de 1970 e pode ser atualmente com a Ferrogr\u00e3o e o Porto da Cargill. Todas essas s\u00e3o propostas de promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento do pa\u00eds, seja para escoar gr\u00e3os, tornar o agroneg\u00f3cio mais lucrativo, levar os benef\u00edcios do desenvolvimento em \u00e1reas n\u00e3o agraciadas por ele. Esse desenvolvimento, pelo menos no Brasil e em outros pa\u00edses do sul global, tem criado um ganho satisfat\u00f3rio para alguns, contudo, n\u00e3o vem sem custo: o \u00f4nus recai principalmente para aqueles que seriam \u201csalvos\u201d. O rev\u00e9s recai, sempre, sobre os moradores tradicionais do territ\u00f3rio. Pessoas essas que sequer s\u00e3o consultadas no processo que envolve a mudan\u00e7a dos seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Belo Monte foi vendida como a promessa de fornecer energia sustent\u00e1vel ao Brasil, mas desde o in\u00edcio j\u00e1 se sabia que sua produtividade seria baixa diante da sazonalidade do rio Xingu. Apesar da capacidade instalada de 11.233 MW, a gera\u00e7\u00e3o m\u00e9dia efetiva n\u00e3o passa de 4.500 MW \u2013 cerca de 40% do projetado. Em 2024, por exemplo, a usina entregou apenas 2.581 MW, m\u00edseros 23% de sua capacidade<\/span><span data-contrast=\"auto\">3<\/span><span data-contrast=\"auto\">.Uma escolha que, al\u00e9m de ineficiente do ponto de vista energ\u00e9tico, mostrou-se um erro estrat\u00e9gico: para viabilizar a hidrel\u00e9trica, o curso do rio foi alterado, agravando a instabilidade natural de cheias e secas e comprometendo ainda mais o equil\u00edbrio do pr\u00f3prio Xingu. Ou seja, Belo Monte n\u00e3o apenas falhou em cumprir sua promessa de gera\u00e7\u00e3o de energia, como deixou o rio e as comunidades que dele dependem em situa\u00e7\u00e3o ainda mais fr\u00e1gil.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Marcelo Camargo, ge\u00f3grafo, corrobora essa afirma\u00e7\u00e3o. Ele afirma: \u201co Xingu passa seis meses em estiagem total, inviabilizando o funcionamento de uma estrutura como Belo Monte\u201d. Al\u00e9m disso, a obra custou praticamente o dobro do previsto inicialmente. Ela foi or\u00e7ada em R$16 bilh\u00f5es, mas o custo final chegou a R$30 bilh\u00f5es. Sobre essa quest\u00e3o, Camargo adiciona: \u201ccom as previs\u00f5es de redu\u00e7\u00e3o da capacidade de produ\u00e7\u00e3o e os custos de opera\u00e7\u00e3o, \u00e9 imposs\u00edvel que Belo Monte, ao longo desses 30 anos, supere o valor do seu pr\u00f3prio custo\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Em concord\u00e2ncia com Daniela Ara\u00fajo, Maria Cristina Alves da Costa, que vivia em uma comunidade que n\u00e3o existe mais para que Belo Monte pudesse ser constru\u00edda, afirma: \u201cO que eu sei fazer \u00e9 pescar. Como vou pegar peixe no asfalto?\u201d.\u00a0 Ela comprou uma casa em Altamira, com uma carta de cr\u00e9dito oferecida pela usina, buscando melhores condi\u00e7\u00f5es de vida para si e para os filhos. Depois de nove meses sem qualquer tipo de renda ou alternativas, Maria optou por voltar para as margens do rio Xingu.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Vale ressaltar, ainda, que tanto a Ferrogr\u00e3o quanto o Porto da Cargill s\u00e3o propostas para melhorar o escoamento de gr\u00e3os oriundos do agroneg\u00f3cio, do Centro-Oeste brasileiro. Este, tal qual os grandes projetos de desenvolvimento que o cercam, anunciam-se como solu\u00e7\u00e3o dos problemas vinculados \u00e0 fome no mundo. Agora, quando a gente olha como ele de fato se estabelece no territ\u00f3rio, \u00e9 poss\u00edvel perceber que o sistema alimentar explicita grande parte das contradi\u00e7\u00f5es que ele se prop\u00f5e a combater: ele est\u00e1 associado \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o de terras e renda, explora\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra \u2013 principalmente a feminina, que recebe sal\u00e1rios menores e est\u00e1 mais suscet\u00edvel ao trabalho sazonal e ao ass\u00e9dio sexual. O agroneg\u00f3cio est\u00e1 vinculado, tamb\u00e9m, ao aumento da inseguran\u00e7a alimentar nos territ\u00f3rios em que ele \u00e9 desenvolvido. Tal qual, novamente, os grandes projetos de desenvolvimento.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Esses grandes projetos s\u00e3o a promessa de emprego, renda e desenvolvimento. Eles representam uma maior integra\u00e7\u00e3o ao capitalismo, mas de forma marginal: levam o pescador para morar longe do rio, o agroextrativista para morar longe da floresta. A ideia de um grande projeto de desenvolvimento funciona de forma circular: com a justificativa de regi\u00f5es apresentarem PIB e IDH baixos \u2013 ou abaixo da m\u00e9dia \u2013 eles s\u00e3o instalados. Geram uma integra\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica ao capitalismo e, ao n\u00e3o atingirem seus objetivos de trazer \u2018desenvolvimento, emprego e renda\u2019 justificam a implementa\u00e7\u00e3o de um novo grande projeto.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Foi assim pelas chapadas do Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais, quando o desenvolvimento alcan\u00e7ou a regi\u00e3o por meio da implementa\u00e7\u00e3o massiva da monocultura do eucalipto na d\u00e9cada de 1970, posteriormente com a Usina Hidrel\u00e9trica de Irap\u00e9 em 2006 e agora com as mineradoras de l\u00edtio. Tr\u00eas projetos em d\u00e9cadas diferentes com a mesma pretens\u00e3o, gerar emprego e renda.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">J\u00e1 na Amaz\u00f4nia, sede da COP 30 e objeto do olhar da confer\u00eancia, vemos uma regi\u00e3o marcada pelas veias abertas, pelos projetos alheios, pelas defini\u00e7\u00f5es de quem acha que sabe o que \u00e9 desenvolvimento (sobre os outros). Essa \u00e9 a Amaz\u00f4nia que traz, historicamente, desenvolvimento, emprego e renda. Se tem dado certo ou n\u00e3o cabe a cada um e a n\u00f3s, enquanto sociedade, buscarmos entender. O progresso esperado \u00e9 esse em que a Amaz\u00f4nia vira a periferia de um pa\u00eds perif\u00e9rico, que se orgulha em ser \u201cceleiro do mundo\u201d? Ou \u00e9 a Floresta Tropical que nos ensina como habitar esse planeta de modo a n\u00e3o saturar os recursos naturais? \u00c9 a Amaz\u00f4nia, escolhida como sede do maior evento sobre sustentabilidade no mundo que vai nos ensinar? Ent\u00e3o cabe a n\u00f3s aprendermos com ela, entender que o centro do mundo \u00e9 a Amaz\u00f4nia, e n\u00e3o impor a nossa vis\u00e3o capitalista de desenvolvimento sobre a floresta e seus habitantes.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">Os caminhos que vamos tra\u00e7ando<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;134245418&quot;:true,&quot;134245529&quot;:true}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Enquanto a Amaz\u00f4nia \u00e9 anunciada como o centro do mundo no discurso oficial da COP30, no cotidiano pol\u00edtico do Brasil seguem avan\u00e7ando projetos que caminham na dire\u00e7\u00e3o oposta. A prova disso veio na calada da noite de 16 de julho, quando o chamado \u201cPL da Devasta\u00e7\u00e3o\u201d foi aprovado. A contradi\u00e7\u00e3o salta aos olhos: de um lado, a promessa de aprender com a floresta; de outro, a abertura de novas frentes para o agroneg\u00f3cio e a minera\u00e7\u00e3o, setores historicamente respons\u00e1veis por feridas profundas no territ\u00f3rio amaz\u00f4nico e no pa\u00eds.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">O presidente Lula sancionou a lei com vetos parciais, mas o texto segue em tramita\u00e7\u00e3o no Congresso. Na pr\u00e1tica, abre-se ainda mais espa\u00e7o para que o agroneg\u00f3cio e a minera\u00e7\u00e3o avancem sobre territ\u00f3rios sens\u00edveis, aumentando o risco de repetirmos trag\u00e9dias como as de Brumadinho e Mariana. O paradoxo \u00e9 evidente: em nome de um suposto \u201cdesenvolvimento sustent\u00e1vel\u201d, multiplicam-se projetos de extra\u00e7\u00e3o de l\u00edtio, cobalto, n\u00edquel e terras raras \u2013 minerais essenciais para carros el\u00e9tricos e torres e\u00f3licas \u2013 enquanto a floresta e os povos que nela habitam pagam a conta dessa corrida verde.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica corre o risco de se tornar um novo colonialismo. O Brasil poderia assumir a dianteira em uma guinada realmente sustent\u00e1vel, mas os discursos oficiais insistem em refor\u00e7ar velhas l\u00f3gicas de espolia\u00e7\u00e3o ambiental. Sobre a explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na foz do Amazonas, o presidente Lula afirma: \u201cA Petrobras \u00e9 uma empresa respons\u00e1vel. Tem a maior experi\u00eancia de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo em \u00e1guas profundas. Vamos cumprir todos os ritos necess\u00e1rios para que a gente n\u00e3o cause estrago na natureza. At\u00e9 porque \u00e9 dessa riqueza que a gente vai ter dinheiro para construir a sonhada transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica<\/span><span data-contrast=\"auto\">4<\/span><span data-contrast=\"auto\">\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 gritante: como apostar em combust\u00edveis f\u00f3sseis \u2013 que s\u00e3o uma das ra\u00edzes da crise clim\u00e1tica \u2013 para financiar a transi\u00e7\u00e3o que supostamente deveria super\u00e1-los? Essa justificativa ecoa a velha narrativa do \u201csacrif\u00edcio necess\u00e1rio\u201d em nome do progresso, mas ignora que as popula\u00e7\u00f5es locais e os ecossistemas s\u00e3o os primeiros a pagar o pre\u00e7o. Se n\u00e3o questionarmos esse modelo, corremos o risco de trocar uma depend\u00eancia por outra, mantendo a l\u00f3gica de explora\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria sob o verniz de \u201cenergia limpa\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Os \u201critos necess\u00e1rios\u201d tamb\u00e9m foram seguidos em Mariana e em Brumadinho. A barragem da Samarco, em Mariana, era classificada como de m\u00e9dio impacto ambiental \u2013 tecnicamente enquadrada dentro da normalidade e autorizada pelos \u00f3rg\u00e3os competentes. Ainda assim, foi justamente essa estrutura que deu origem, em 2015, ao que o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal descreve como \u201co maior desastre ambiental do Brasil \u2013 e um dos maiores do mundo\u201d.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Se tais desastres puderam ocorrer sob o manto da legalidade e do \u201ccumprimento de requisitos\u201d, o que nos garante que novos projetos, agora ainda mais ambiciosos e arriscados, n\u00e3o reproduzir\u00e3o as mesmas trag\u00e9dias? A quest\u00e3o central n\u00e3o \u00e9 apenas cumprir protocolos, mas reconhecer que esses protocolos j\u00e1 se mostraram insuficientes diante de um modelo econ\u00f4mico que normaliza o risco e transfere seus custos humanos e ambientais para comunidades inteiras. Ainda mais quando iniciativas como o PL da Devasta\u00e7\u00e3o avan\u00e7am no Congresso, enfraquecendo salvaguardas socioambientais e tornando a aprova\u00e7\u00e3o de empreendimentos de alto impacto ainda mais simplificadas. Nesse cen\u00e1rio, a legalidade deixa de ser uma barreira de prote\u00e7\u00e3o para se tornar um atalho que facilita a reprodu\u00e7\u00e3o da destrui\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Diante de tudo isso, fica evidente que a ret\u00f3rica oficial da sustentabilidade muitas vezes camufla uma continuidade do modelo predat\u00f3rio: protocolos e leis funcionam mais como apar\u00eancias de prote\u00e7\u00e3o do que como barreiras reais contra a destrui\u00e7\u00e3o. Se desastres como Mariana e Brumadinho ocorreram sob o ar da legalidade, e se agora se flexibilizam regras para o agroneg\u00f3cio e a minera\u00e7\u00e3o, a urg\u00eancia deixa de ser apenas ambiental ou econ\u00f4mica, torna-se cultural e \u00e9tica. O verdadeiro desafio n\u00e3o est\u00e1 em celebrar discursos verdes, mas em repensar nossas pr\u00e1ticas, modos de produ\u00e7\u00e3o e a forma como nos relacionamos com a natureza.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">Entre promessas e contradi\u00e7\u00f5es verdes<\/span><\/b><span data-ccp-props=\"{&quot;134245418&quot;:true,&quot;134245529&quot;:true}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Talvez ainda n\u00e3o seja tarde para aprender com as popula\u00e7\u00f5es que h\u00e1 s\u00e9culos convivem de maneira equilibrada com o meio ambiente, e talvez isso custe bem menos do que insistir em modelos de desenvolvimento predat\u00f3rios. Percebemos que a mudan\u00e7a cultural e de sistema econ\u00f4mico seja a \u00fanica salva\u00e7\u00e3o para o Antropoceno. \u00c9 tempo de retomada: nossas bases, sejam elas produtivas ou culturais precisam ser repensadas, e devemos observar com aten\u00e7\u00e3o e integrar aos debates os povos origin\u00e1rios e as comunidades tradicionais, que praticam a sustentabilidade muito antes de o conceito sequer existir. No contexto do Brasil, pa\u00eds-sede da COP30, a reflex\u00e3o se torna ainda mais urgente, pois a sustentabilidade, na pr\u00e1tica, parece seguir em segundo plano diante das press\u00f5es do agroneg\u00f3cio, da minera\u00e7\u00e3o e de interesses econ\u00f4micos de curto prazo.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">Talvez, pensar que o desenvolvimento n\u00e3o seja o caminho. Como diz Nego Bispo: \u201cvamos pegar as palavras do inimigo que est\u00e3o potentes e vamos enfraquec\u00ea-las. E vamos pegar as nossas palavras que est\u00e3o enfraquecidas e vamos potencializ\u00e1-las. Por exemplo, se o inimigo adora dizer desenvolvimento, n\u00f3s vamos dizer que o desenvolvimento desconecta, que o desenvolvimento \u00e9 uma variante da cosmofobia. Vamos dizer que a cosmofobia \u00e9 um v\u00edrus e botar para ferrar com a palavra desenvolvimento. Porque a palavra boa \u00e9 envolvimento\u201d.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">O discurso da COP30 sobre desenvolvimento muitas vezes se ancora na promessa de conciliar crescimento econ\u00f4mico com sustentabilidade, mas a realidade mostra que essas estrat\u00e9gias pouco se traduzem em mudan\u00e7as efetivas. Ao colocar o Brasil como protagonista das negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, enfatizando energias renov\u00e1veis, agricultura de baixo carbono e biocombust\u00edveis, o evento corre o risco de transformar o pa\u00eds em uma vitrine de boas inten\u00e7\u00f5es, sem lidar com as contradi\u00e7\u00f5es estruturais do modelo econ\u00f4mico que historicamente explora os biomas e \u00e1guas de forma verdadeiramente insustent\u00e1vel.\u00a0<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">O problema central est\u00e1 na pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o de \u201cdesenvolvimento\u201d que orienta essas pol\u00edticas: m\u00e9tricas como emprego, renda e crescimento econ\u00f4mico s\u00e3o usadas como indicadores absolutos, invisibilizando modos de vida sustent\u00e1veis baseados no autoconsumo, na economia circular e na conviv\u00eancia harmoniosa com a natureza. Projetos de minera\u00e7\u00e3o, grandes hidrel\u00e9tricas e expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio seguem avan\u00e7ando sob a justificativa de gerar emprego, renda e progresso, enquanto comunidades locais e ecossistemas pagam o pre\u00e7o mais alto. Assim, as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, quilombolas e agroextrativistas permanecem \u00e0 margem, enquanto o que realmente determina decis\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas \u00e9 o lucro imediato sobre os recursos naturais.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-contrast=\"auto\">A transforma\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica e social que o planeta precisa exigir mais do que metas de emiss\u00e3o e pain\u00e9is de energia renov\u00e1vel: exige repensar os conceitos de progresso e riqueza, valorizar modos de vida sustent\u00e1veis, reconhecer os saberes ancestrais de comunidades tradicionais e integrar essas perspectivas nas decis\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas. Sem essa mudan\u00e7a de paradigma, a confer\u00eancia pode, mais uma vez, acabar refor\u00e7ando o mesmo sistema que provoca desastres ambientais, desigualdade e crises socioambientais, transformando o que deveria ser um ponto de virada em mais um epis\u00f3dio de \u201c<\/span><i><span data-contrast=\"auto\">greenwashing<\/span><\/i><span data-contrast=\"auto\">\u201d global. At\u00e9 essa virada de chave, todo o brilho da COP30 corre o risco de servir apenas como fachada, enquanto a floresta, seus povos e o futuro do planeta pagam o pre\u00e7o da continuidade de velhos padr\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o.<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">Andr\u00e9ia Anschau<\/span><\/b><span data-contrast=\"auto\">\u00a0\u00e9 bacharel em Ci\u00eancias Econ\u00f4micas pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestre em Planejamento do Desenvolvimento pela Universidade Federal do Par\u00e1 (PPGDSTU\/NAEA\/UFPA) e atualmente est\u00e1 doutoranda pelo Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Desenvolvimento Rural na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR\/UFRGS). \u00c9 membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Alimenta\u00e7\u00e3o, Consumo e Cultura (GEPAC) e do ReExisTerra (Grupo de Pesquisa sobre Povos Ind\u00edgenas e Tradicionais em Tempos de Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas).<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">Beatriz Ribeiro Rocha<\/span><\/b><span data-contrast=\"auto\">\u00a0\u00e9 bacharel em Rela\u00e7\u00f5es Internacionais pela Universidade Federal da Para\u00edba (UFPB), mestre em Pol\u00edticas P\u00fablicas pela Universidade Federal do Paran\u00e1 (4P\/UFPR), e atualmente est\u00e1 doutoranda pelo Programa de P\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o em Desenvolvimento Rural na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR\/UFRGS). \u00c9 membro do Grupo de Pesquisa em Agricultura, Alimenta\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento (GEPAD).<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b><span data-contrast=\"auto\">Erick Jos\u00e9 de Paula Sim\u00e3o<\/span><\/b><span data-contrast=\"auto\">\u00a0\u00e9 agr\u00f4nomo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestre em Sociedade, Ambiente e Territ\u00f3rio pela Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade Estadual de Montes Claros (SAT\/UFMG e UNIMONTES), atualmente est\u00e1 doutorando pelo Programa de P\u00f3s Gradua\u00e7\u00e3o em Desenvolvimento Rural na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PGDR\/UFRGS). \u00c9 membro do Grupo de Pesquisa em Agricultura, Alimenta\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento (GEPAD).<\/span><span data-ccp-props=\"{}\">\u00a0<\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto retirado do site: https:\/\/diplomatique.org.br\/por-que-essa-estrategia-de-desenvolvimento-nao-da-certo\/ &nbsp; Por que essa estrat\u00e9gia n\u00e3o d\u00e1 certo? 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