{"id":105,"date":"2025-07-11T11:01:40","date_gmt":"2025-07-11T14:01:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/?p=105"},"modified":"2025-07-11T12:04:07","modified_gmt":"2025-07-11T15:04:07","slug":"distincoes-e-intelectualismos-que-nos-cercam-uma-resenha-de-retorno-a-reims-de-didier-eribon","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/2025\/07\/11\/distincoes-e-intelectualismos-que-nos-cercam-uma-resenha-de-retorno-a-reims-de-didier-eribon\/","title":{"rendered":"Distin\u00e7\u00f5es e intelectualismos que nos cercam: Uma resenha de &#8220;Retorno a Reims&#8221; de Didier Eribon"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Gilmar Montargil:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>O livro<\/strong><br><br><em>Retorno a Reims<\/em>, do soci\u00f3logo franc\u00eas Didier Eribon, foi publicado originalmente em 2009 e traduzido para o Brasil em 2022 pela Editora \u00c2yin\u00e9. Longe de ser uma apresenta\u00e7\u00e3o de conceitos sociol\u00f3gicos, Eribon desnuda-se ao se abrir para impress\u00f5es pessoais, m\u00e1goas, mem\u00f3rias, entre outros aspectos de cunho pessoal que dimensionam a sua experi\u00eancia de retorno a sua cidade de inf\u00e2ncia. Retornar a Reims mostra-se muito mais que um reencontro com familiares, com momentos dolorosos, com a morte de um pai. Retornar a Reims acaba sendo para Didier Eribon uma busca de si mesmo, um choque de um intelectual renomado da Fran\u00e7a (desses que d\u00e3o entrevistas na televis\u00e3o) que de certa forma repele sua origem oper\u00e1ria interiorana; um exerc\u00edcio de contraste para a sua teoriza\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica sobre subjetiva\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o e causas gay.<br><br><br><strong><em>Retorno a Reims<\/em><\/strong><br><br>Essa origem \u00e9 revelada a partir da hist\u00f3ria da sua m\u00e3e. Uma mulher de origem humilde, que n\u00e3o conhece o pai e acaba sendo preterida pela pr\u00f3pria m\u00e3e no contexto da Segunda Guerra Mundial, indo parar em um orfanato e anos mais tarde se reencontrando novamente com seus familiares. Essa rela\u00e7\u00e3o d\u00fabia entre m\u00e3e e av\u00f3 \u00e9 o ponto de an\u00e1lise. No contexto europeu e das classes oper\u00e1rias, Eribon adverte para essas constru\u00e7\u00f5es familiares menos r\u00edgidas, isto \u00e9, filhos de v\u00e1rios pais e at\u00e9 mesmo de nacionalidades diferentes, \u201cuma cacofonia gen\u00e9tica\u201d. Al\u00e9m disso, n\u00e3o havia anticoncepcional, e, dado esse contraste com o mundo burgu\u00eas mais r\u00edgido e moralista, as mulheres muitas vezes tinham de optar pelo aborto (considerado um crime) ou por abandonar os filhos em prol da liberdade sexual no contexto das classes menos abastadas. Logo, essa m\u00e1goa entre m\u00e3e e filha n\u00e3o \u00e9 vista somente pelo olhar hist\u00f3rico (a av\u00f3 que some por algum tempo porque vai trabalhar na guerra), mas, sobretudo, pelo vi\u00e9s sociol\u00f3gico da luta de classes.<br><br>Outro ponto importante \u00e9 que sua m\u00e3e n\u00e3o teve oportunidade de estudar, apesar de querer muito. Acabou sendo uma esp\u00e9cie de dom\u00e9stica ou trabalhando em f\u00e1bricas. Seu destino amoroso ent\u00e3o j\u00e1 estava tra\u00e7ado: casar-se com um oper\u00e1rio, ao qual nunca se deu bem, com brigas constantes no ambiente dom\u00e9stico. Mesmo querendo separar, a m\u00e3e de Didier Eribon n\u00e3o s\u00f3 cuidou do marido at\u00e9 os \u00faltimos dias de Alzheimer, como nunca tomou essa atitude anos antes para n\u00e3o prejudicar os filhos. A l\u00f3gica era: os pais trabalham para que os filhos estudem. No entanto, conforme Didier Eribon ia se intelectualizando, iam surgindo diferen\u00e7as com essa fam\u00edlia e tamb\u00e9m uma vergonha dele de ter nascido ali.<br><br>Assim, Didier Eribon constata o paradoxo dos pais que trabalham para os filhos estudarem, e, justamente, a intelectualiza\u00e7\u00e3o dos filhos que v\u00e3o aos poucos marcando diferen\u00e7as e distin\u00e7\u00f5es sociais, para usar um conceito de Bourdieu. Um modo de falar diferente, de agir, de se vestir, de circular por espa\u00e7os diferentes \u2013 o que causa certos conflitos familiares e situa\u00e7\u00f5es constrangedoras (fingir por exemplo que n\u00e3o conhece um irm\u00e3o na rua). Mais do que isso, Eribon escancara outro paradoxo: o fato de as classes oper\u00e1rias serem em sua origem interligadas \u00e0s esquerdas, por\u00e9m, as esquerdas p\u00f3s maio de 68 acabaram por se diluir e se intelectualizar ao ponto de perder v\u00ednculo com as classes menos abastadas. Ler Marx, Althusser, Sartre s\u00e3o mais estrat\u00e9gias da constitui\u00e7\u00e3o de um saber que lhe distingue socialmente, e, portanto, que lhe aparte dessa origem humilde, do que estrat\u00e9gia em prol do povo ou qualquer discurso semelhante.<br><br>Eribon recorre tamb\u00e9m aos irm\u00e3os e as causas desse distanciamento (que, inclusive, em nenhum momento omite sua culpa nisso). Ele se questiona se seus irm\u00e3os fossem jornalistas, soci\u00f3logos, juristas, entre outros, se talvez ele tivesse mantido contato, uma vez que manter la\u00e7os com a fam\u00edlia \u00e9 tamb\u00e9m estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia, principalmente os que tem profiss\u00f5es consideradas elevadas no tecido social. Mas o que de fato Eribon argumenta \u00e9 que existem for\u00e7as que estacionam os indiv\u00edduos em determinadas condi\u00e7\u00f5es e modos de vida, e assim foi com seus irm\u00e3os, que vivem vidas consideradas simples: casados ou divorciados, pedreiros, policiais, militares, com filhos para cuidar. A escola ent\u00e3o surge como um ponto de cr\u00edtica, pois ela \u00e9 defendida como o lugar transformador de vidas, mas o que Eribon adverte \u00e9 que ela, pelo contr\u00e1rio, pode ser muito engessadora, sobretudo nesse contexto interiorano franc\u00eas. Logo, uma constata\u00e7\u00e3o, de um lado Eribon e sua intelectualidade progressista parisiense, de outra seus parentes com vidas simples, mas que votam na Frente Nacional (partido de direita com nuances de extrema-direita).<br><br>Eribon destoa entre relatos biogr\u00e1ficos marcantes repletos de emo\u00e7\u00e3o e momentos de pura teoriza\u00e7\u00e3o com linguagem rebuscada que parecem ser tamb\u00e9m uma fuga desses conflitos que ele traz \u00e0 tona. Pulamos de uma briga com o pai para a sua paix\u00e3o ao ler <em>Hist\u00f3ria da Loucura<\/em> de Michel Foucault. Num momento lhe acompanhamos como zelador de hotel para pagar seus estudos, em outro, estamos junto a ele no liceu ou nas aulas de filosofia.<br><br>Fica evidente seu apre\u00e7o por autores como Sartre, Bourdieu e Foucault ao mesmo tempo que execra outros sem pudor algum. Al\u00e9m disso, n\u00e3o tem medo de apresentar cr\u00edticas a Bourdieu (seu amigo pessoal) e a Foucault. \u00c9 desse ponto, um pouco mais te\u00f3rico, que ele adentra no modo como ser gay em Reims moldou sua intelectualidade, seus gostos, suas m\u00fasicas, seus sonhos. Segue trecho do livro sobre como tais quest\u00f5es se conectam:<br><br><em>\u201cMesmo se n\u00e3o despejasse a homofobia que reinava no Partido Comunista ou nos movimentos maoistas, a milit\u00e2ncia trotskista era fundamentalmente heterossexista e de toda maneira pouco acolhedora da homossexualidade. Nela se recitava um catequismo reichiano sobre a \u201crevolu\u00e7\u00e3o sexual\u201d, um freudo-marxismo em que a condena\u00e7\u00e3o da homossexualidade pelo marxismo tradicional se misturava com a conduzida pela psican\u00e1lise: a ideia segundo a qual a sociedade burguesa repousaria sobre a repress\u00e3o da libido e sobre o desvio da energia libidinal para a for\u00e7a de trabalho, e que, como consequ\u00eancia, a libera\u00e7\u00e3o sexual contribuiria para a chegada de outro sistema social e pol\u00edtico, continha um julgamento depreciativo sobre a homossexualidade, considerada um mero efeito dos tabus sexuais, destinada a desaparecer com eles. Na realidade, eu sentia todos os dias que n\u00e3o havia lugar para mim no marxismo, e, dentro desse contexto como em toda parte, eu teria de viver uma vida dividida. Eu estava dividido em dois: metade trotskista, metade gay. Duas identidades separadas, que pareciam irreconcili\u00e1veis e que, de fato, eu tinha muita dificuldade em conciliar e que, cada vez mais, tinha dificuldade em manter juntas\u201d (Eribon, 2022 [2009], p. 150).<\/em><br><br><br><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"675\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/2-675x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-106\" style=\"width:310px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/2-675x1024.jpg 675w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/2-198x300.jpg 198w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/2-768x1165.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/2.jpg 856w\" sizes=\"auto, (max-width: 675px) 100vw, 675px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Capa da nova edi\u00e7\u00e3o do livro &#8220;Retorno a Reims&#8221; de Didier Eribon<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>A quest\u00e3o homossexual<\/strong><br><br>Eribon conta que sua dissid\u00eancia sexual apareceu cedo e na sua juventude foi deixando o seu cabelo crescer \u2013 mais uma forma de se distanciar da fam\u00edlia e do social. Ele fala da import\u00e2ncia do primeiro amor, anos antes, o modo como a paix\u00e3o por outro menino lhe fez querer ascender socialmente por meio do conhecimento, resgatando discuss\u00f5es bourdiesianas, para falar desse <em>ethos<\/em> cultural (crian\u00e7as que recitam poemas, leem livros liter\u00e1rios, escutam m\u00fasica considerada elevada), da <em>distin\u00e7\u00e3o social<\/em> que se estabelecia entre os dois, e, j\u00e1 no campo te\u00f3rico, sua n\u00e3o concord\u00e2ncia com o fato de Bourdieu ser um pouco binarista quando difere os esportistas dos estetas. A palavra \u201cesteta\u201d aqui tem conota\u00e7\u00e3o pejorativa, marca n\u00e3o s\u00f3 a diferen\u00e7a dos rapazes que fazem esportes dos que estudam, como tamb\u00e9m tem conota\u00e7\u00f5es de delicadeza, timidez, e, claro, ser gay. Como bem diz Didier, \u201ceu sou um esteta\u201d.<br><br>Seu relato sobre o \u201cmundo gay\u201d em Reims torna o final do livro muito potente, esse mundo gay das estrat\u00e9gias sociais para que dois homens conseguissem se relacionar de forma secreta, sem desconfian\u00e7as, nos anos 1970. Eribon exp\u00f5e esse seu desejo de experimentar esse mundo gay ao mesmo tempo que demonstra certa ojeriza a baladas, esquinas, banheir\u00f5es e outras pornotopias gays, vide a essa sua distin\u00e7\u00e3o intelectual almejada. Mas, claro, essa desconfian\u00e7a das pessoas e dos parentes acerca do \u201cser gay\u201d tamb\u00e9m faz parte de uma certa maquinaria para fazer vidas LGBTQIAPN+ inferiores, que passa desde agress\u00f5es f\u00edsicas at\u00e9 verbais, indo mais al\u00e9m, em situa\u00e7\u00f5es, fofoquinhas na empresa, adjetivos, apelidos e outras formas discursivas de ordem subliminar e n\u00e3o menos violentas \u2013 todas contadas pelo autor.<br><br>Entre m\u00e1goas e passagens demasiadas te\u00f3ricas, talvez um pouco bourdiesianas em excesso, Didier Eribon retrata um contexto gay perfeitamente replic\u00e1vel no Brasil: gays que se intelectualizam, que fogem para capitais, que n\u00e3o tem la\u00e7os com a fam\u00edlia, que tem hist\u00f3rias de viol\u00eancias para contar, que flertam por a\u00ed. Mas cabe a n\u00f3s problematizar e complexificar tais quest\u00f5es sem homogeneizar essas viv\u00eancias considerando que no Brasil o capital econ\u00f4mico tem mais import\u00e2ncia na defini\u00e7\u00e3o das classes e das distin\u00e7\u00f5es sociais que o capital de ordem cultural (boa educa\u00e7\u00e3o, sobrenome, saber literatura), possibilitando trazer para a \u00f3tica de an\u00e1lise gays de direita, por exemplo. Didier Eribon at\u00e9 trata desse tema quando lida com o conceito de desindentifica\u00e7\u00e3o de gays e l\u00e9sbicas, mas sem muito aprumo, preferindo mais reconhecer os elementos de estagna\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o que acabam marcando essas vidas na luta intensa com as rupturas, abandonos, mudan\u00e7as sociais e de classe.<br><br>Por fim, cabe replicar uma das frases de Sartre que mais gosta para dar o tom do livro e de sua vida: \u201c<em>O que importa n\u00e3o \u00e9 o que fazemos de n\u00f3s, mas o que n\u00f3s mesmos fazemos com o que \u00e9 feito da gente<\/em>\u201d.<br><br><br><strong>Imagem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o.<br><br><br><strong>Refer\u00eancia<\/strong><br><br>ERIBON, Didier. <strong>Retorno a Reims<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o Cecilia Schuback. 1 ed. Belo Horizonte, MG: Editora \u00c2yin\u00e9, 2022.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Gilmar Montargil: O livro Retorno a Reims, do soci\u00f3logo franc\u00eas Didier Eribon, foi publicado originalmente em 2009 e traduzido para o Brasil em 2022 pela Editora \u00c2yin\u00e9. Longe de ser uma apresenta\u00e7\u00e3o de conceitos sociol\u00f3gicos, Eribon desnuda-se ao se abrir para impress\u00f5es pessoais, m\u00e1goas, mem\u00f3rias, entre outros aspectos de cunho pessoal que dimensionam a sua experi\u00eancia de retorno a sua cidade de inf\u00e2ncia. Retornar a Reims mostra-se muito mais que um reencontro com familiares, com momentos dolorosos, com a morte de um pai. Retornar a Reims acaba sendo para Didier Eribon uma busca de si mesmo, um choque de um intelectual renomado da Fran\u00e7a (desses que d\u00e3o entrevistas na televis\u00e3o) que de certa forma repele sua origem oper\u00e1ria interiorana; um exerc\u00edcio de contraste para a sua teoriza\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica sobre subjetiva\u00e7\u00e3o, domina\u00e7\u00e3o e causas gay. Retorno a Reims Essa origem \u00e9 revelada a partir da hist\u00f3ria da sua m\u00e3e. Uma mulher de origem humilde, que n\u00e3o conhece o pai e acaba sendo preterida pela pr\u00f3pria m\u00e3e no contexto da Segunda Guerra Mundial, indo parar em um orfanato e anos mais tarde se reencontrando novamente com seus familiares. Essa rela\u00e7\u00e3o d\u00fabia entre m\u00e3e e av\u00f3 \u00e9 o ponto de an\u00e1lise. No contexto europeu e das classes oper\u00e1rias, Eribon adverte para essas constru\u00e7\u00f5es familiares menos r\u00edgidas, isto \u00e9, filhos de v\u00e1rios pais e at\u00e9 mesmo de nacionalidades diferentes, \u201cuma cacofonia gen\u00e9tica\u201d. Al\u00e9m disso, n\u00e3o havia anticoncepcional, e, dado esse contraste com o mundo burgu\u00eas mais r\u00edgido e moralista, as mulheres muitas vezes tinham de optar pelo aborto (considerado um crime) ou por abandonar os filhos em prol da liberdade sexual no contexto das classes menos abastadas. Logo, essa m\u00e1goa entre m\u00e3e e filha n\u00e3o \u00e9 vista somente pelo olhar hist\u00f3rico (a av\u00f3 que some por algum tempo porque vai trabalhar na guerra), mas, sobretudo, pelo vi\u00e9s sociol\u00f3gico da luta de classes. Outro ponto importante \u00e9 que sua m\u00e3e n\u00e3o teve oportunidade de estudar, apesar de querer muito. Acabou sendo uma esp\u00e9cie de dom\u00e9stica ou trabalhando em f\u00e1bricas. Seu destino amoroso ent\u00e3o j\u00e1 estava tra\u00e7ado: casar-se com um oper\u00e1rio, ao qual nunca se deu bem, com brigas constantes no ambiente dom\u00e9stico. Mesmo querendo separar, a m\u00e3e de Didier Eribon n\u00e3o s\u00f3 cuidou do marido at\u00e9 os \u00faltimos dias de Alzheimer, como nunca tomou essa atitude anos antes para n\u00e3o prejudicar os filhos. A l\u00f3gica era: os pais trabalham para que os filhos estudem. No entanto, conforme Didier Eribon ia se intelectualizando, iam surgindo diferen\u00e7as com essa fam\u00edlia e tamb\u00e9m uma vergonha dele de ter nascido ali. Assim, Didier Eribon constata o paradoxo dos pais que trabalham para os filhos estudarem, e, justamente, a intelectualiza\u00e7\u00e3o dos filhos que v\u00e3o aos poucos marcando diferen\u00e7as e distin\u00e7\u00f5es sociais, para usar um conceito de Bourdieu. Um modo de falar diferente, de agir, de se vestir, de circular por espa\u00e7os diferentes \u2013 o que causa certos conflitos familiares e situa\u00e7\u00f5es constrangedoras (fingir por exemplo que n\u00e3o conhece um irm\u00e3o na rua). Mais do que isso, Eribon escancara outro paradoxo: o fato de as classes oper\u00e1rias serem em sua origem interligadas \u00e0s esquerdas, por\u00e9m, as esquerdas p\u00f3s maio de 68 acabaram por se diluir e se intelectualizar ao ponto de perder v\u00ednculo com as classes menos abastadas. Ler Marx, Althusser, Sartre s\u00e3o mais estrat\u00e9gias da constitui\u00e7\u00e3o de um saber que lhe distingue socialmente, e, portanto, que lhe aparte dessa origem humilde, do que estrat\u00e9gia em prol do povo ou qualquer discurso semelhante. Eribon recorre tamb\u00e9m aos irm\u00e3os e as causas desse distanciamento (que, inclusive, em nenhum momento omite sua culpa nisso). Ele se questiona se seus irm\u00e3os fossem jornalistas, soci\u00f3logos, juristas, entre outros, se talvez ele tivesse mantido contato, uma vez que manter la\u00e7os com a fam\u00edlia \u00e9 tamb\u00e9m estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia, principalmente os que tem profiss\u00f5es consideradas elevadas no tecido social. Mas o que de fato Eribon argumenta \u00e9 que existem for\u00e7as que estacionam os indiv\u00edduos em determinadas condi\u00e7\u00f5es e modos de vida, e assim foi com seus irm\u00e3os, que vivem vidas consideradas simples: casados ou divorciados, pedreiros, policiais, militares, com filhos para cuidar. A escola ent\u00e3o surge como um ponto de cr\u00edtica, pois ela \u00e9 defendida como o lugar transformador de vidas, mas o que Eribon adverte \u00e9 que ela, pelo contr\u00e1rio, pode ser muito engessadora, sobretudo nesse contexto interiorano franc\u00eas. Logo, uma constata\u00e7\u00e3o, de um lado Eribon e sua intelectualidade progressista parisiense, de outra seus parentes com vidas simples, mas que votam na Frente Nacional (partido de direita com nuances de extrema-direita). Eribon destoa entre relatos biogr\u00e1ficos marcantes repletos de emo\u00e7\u00e3o e momentos de pura teoriza\u00e7\u00e3o com linguagem rebuscada que parecem ser tamb\u00e9m uma fuga desses conflitos que ele traz \u00e0 tona. Pulamos de uma briga com o pai para a sua paix\u00e3o ao ler Hist\u00f3ria da Loucura de Michel Foucault. Num momento lhe acompanhamos como zelador de hotel para pagar seus estudos, em outro, estamos junto a ele no liceu ou nas aulas de filosofia. Fica evidente seu apre\u00e7o por autores como Sartre, Bourdieu e Foucault ao mesmo tempo que execra outros sem pudor algum. Al\u00e9m disso, n\u00e3o tem medo de apresentar cr\u00edticas a Bourdieu (seu amigo pessoal) e a Foucault. \u00c9 desse ponto, um pouco mais te\u00f3rico, que ele adentra no modo como ser gay em Reims moldou sua intelectualidade, seus gostos, suas m\u00fasicas, seus sonhos. Segue trecho do livro sobre como tais quest\u00f5es se conectam: \u201cMesmo se n\u00e3o despejasse a homofobia que reinava no Partido Comunista ou nos movimentos maoistas, a milit\u00e2ncia trotskista era fundamentalmente heterossexista e de toda maneira pouco acolhedora da homossexualidade. Nela se recitava um catequismo reichiano sobre a \u201crevolu\u00e7\u00e3o sexual\u201d, um freudo-marxismo em que a condena\u00e7\u00e3o da homossexualidade pelo marxismo tradicional se misturava com a conduzida pela psican\u00e1lise: a ideia segundo a qual a sociedade burguesa repousaria sobre a repress\u00e3o da libido e sobre o desvio da energia libidinal para a for\u00e7a de trabalho, e que, como consequ\u00eancia, a libera\u00e7\u00e3o sexual contribuiria para a chegada de outro sistema social e pol\u00edtico, continha um julgamento depreciativo sobre a homossexualidade, considerada um mero efeito dos tabus sexuais, destinada a desaparecer com eles. Na realidade, eu sentia todos os dias que n\u00e3o havia lugar para mim no marxismo, e, dentro desse contexto como em toda parte, eu teria de viver uma vida dividida. Eu estava dividido em dois: metade trotskista, metade gay. Duas identidades separadas, que pareciam irreconcili\u00e1veis e que, de fato, eu tinha muita dificuldade em conciliar e que, cada vez mais, tinha dificuldade em manter juntas\u201d (Eribon, 2022 [2009], p. 150). A quest\u00e3o homossexual Eribon conta que sua dissid\u00eancia sexual apareceu cedo e na sua juventude foi deixando o seu cabelo crescer \u2013 mais uma forma de se distanciar da fam\u00edlia e do social. Ele fala da import\u00e2ncia do primeiro amor, anos antes, o modo como a paix\u00e3o por outro menino lhe fez querer ascender socialmente por meio do conhecimento, resgatando discuss\u00f5es bourdiesianas, para falar desse ethos cultural (crian\u00e7as que recitam poemas, leem livros liter\u00e1rios, escutam m\u00fasica considerada elevada), da distin\u00e7\u00e3o social que se estabelecia entre os dois, e, j\u00e1 no campo te\u00f3rico, sua n\u00e3o concord\u00e2ncia com o fato de Bourdieu ser um pouco binarista quando difere os esportistas dos estetas. A palavra \u201cesteta\u201d aqui tem conota\u00e7\u00e3o pejorativa, marca n\u00e3o s\u00f3 a diferen\u00e7a dos rapazes que fazem esportes dos que estudam, como tamb\u00e9m tem conota\u00e7\u00f5es de delicadeza, timidez, e, claro, ser gay. Como bem diz Didier, \u201ceu sou um esteta\u201d. Seu relato sobre o \u201cmundo gay\u201d em Reims torna o final do livro muito potente, esse mundo gay das estrat\u00e9gias sociais para que dois homens conseguissem se relacionar de forma secreta, sem desconfian\u00e7as, nos anos 1970. Eribon exp\u00f5e esse seu desejo de experimentar esse mundo gay ao mesmo tempo que demonstra certa ojeriza a baladas, esquinas, banheir\u00f5es e outras pornotopias gays, vide a essa sua distin\u00e7\u00e3o intelectual almejada. Mas, claro, essa desconfian\u00e7a das pessoas e dos parentes acerca do \u201cser gay\u201d tamb\u00e9m faz parte de uma certa maquinaria para fazer vidas LGBTQIAPN+ inferiores, que passa desde agress\u00f5es f\u00edsicas at\u00e9 verbais, indo mais al\u00e9m, em situa\u00e7\u00f5es, fofoquinhas na empresa, adjetivos, apelidos e outras formas discursivas de ordem subliminar e n\u00e3o menos violentas \u2013 todas contadas pelo autor. Entre m\u00e1goas e passagens demasiadas te\u00f3ricas, talvez um pouco bourdiesianas em excesso, Didier Eribon retrata um contexto gay perfeitamente replic\u00e1vel no Brasil: gays que se intelectualizam, que fogem para capitais, que n\u00e3o tem la\u00e7os com a fam\u00edlia, que tem hist\u00f3rias de viol\u00eancias para contar, que flertam por a\u00ed. Mas cabe a n\u00f3s problematizar e complexificar tais quest\u00f5es sem homogeneizar essas viv\u00eancias considerando que no Brasil o capital econ\u00f4mico tem mais import\u00e2ncia na defini\u00e7\u00e3o das classes e das distin\u00e7\u00f5es sociais que o capital de ordem cultural (boa educa\u00e7\u00e3o, sobrenome, saber literatura), possibilitando trazer para a \u00f3tica de an\u00e1lise gays de direita, por exemplo. Didier Eribon at\u00e9 trata desse tema quando lida com o conceito de desindentifica\u00e7\u00e3o de gays e l\u00e9sbicas, mas sem muito aprumo, preferindo mais reconhecer os elementos de estagna\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o que acabam marcando essas vidas na luta intensa com as rupturas, abandonos, mudan\u00e7as sociais e de classe. Por fim, cabe replicar uma das frases de Sartre que mais gosta para dar o tom do livro e de sua vida: \u201cO que importa n\u00e3o \u00e9 o que fazemos de n\u00f3s, mas o que n\u00f3s mesmos fazemos com o que \u00e9 feito da gente\u201d. Imagem Cr\u00e9dito: Reprodu\u00e7\u00e3o. Refer\u00eancia ERIBON, Didier. Retorno a Reims. Tradu\u00e7\u00e3o Cecilia Schuback. 1 ed. Belo Horizonte, MG: Editora \u00c2yin\u00e9, 2022.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":111,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[3,13],"class_list":["post-105","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-comunicacao","tag-sociologia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/105","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=105"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/105\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":117,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/105\/revisions\/117"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media\/111"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=105"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=105"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=105"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}