{"id":119,"date":"2025-07-18T11:38:25","date_gmt":"2025-07-18T14:38:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/?p=119"},"modified":"2025-07-18T15:17:41","modified_gmt":"2025-07-18T18:17:41","slug":"notas-de-uma-maternidade-academica-ou-de-uma-pesquisadora-academica-que-tambem-e-mae","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/2025\/07\/18\/notas-de-uma-maternidade-academica-ou-de-uma-pesquisadora-academica-que-tambem-e-mae\/","title":{"rendered":"Notas de uma maternidade acad\u00eamica (ou de uma pesquisadora acad\u00eamica que tamb\u00e9m \u00e9 m\u00e3e)"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Let\u00edcia Sim\u00f5es:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1. Estou na reta final, final\u00edssima da escrita da tese de doutorado, orientada pela prof. Dra. N\u00edsia Martins do Ros\u00e1rio. Esse semestre, em um dos encontros que tivemos do nosso grupo de pesquisa, ao inv\u00e9s de partilhar um dos cap\u00edtulos escritos, apresentei como extens\u00e3o da minha investiga\u00e7\u00e3o, o mais recente longa-metragem por mim realizado \u2013 al\u00e9m de doutoranda, sou tamb\u00e9m, cineasta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA Vida Secreta de Meus Tr\u00eas Homens\u201d (2025) \u00e9 um document\u00e1rio fabular, document\u00e1rio de cria\u00e7\u00e3o ou f\u00e1bula hist\u00f3rica, como os cr\u00edticos o t\u00eam chamado, no qual parti de uma pesquisa hist\u00f3rica em torno das performances masculinas da viol\u00eancia no Nordeste do s\u00e9culo XX para pensar poss\u00edveis estrat\u00e9gias de sa\u00edda dessa mesma viol\u00eancia atrav\u00e9s da linguagem ou da cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">2. Esse filme \u00e9 dedicado \u00e0 minha filha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">3. A minha filha tem exatamente a mesma idade da minha pesquisa acad\u00eamica. Eu estava gr\u00e1vida quando escrevi meu projeto de pesquisa \u00e0 universidade e ela nasceu em fevereiro de 2021, semanas antes das aulas online come\u00e7arem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">4. Nesse encontro realizado no N\u00facleo de Pesquisas Corporalidades, um colega me perguntou qual rela\u00e7\u00e3o eu estabelecia entre a pesquisa acad\u00eamica e pr\u00e1tica cinematogr\u00e1fica; ou em que medida uma havia influenciado a outra, no caso espec\u00edfico do longa-metragem apresentado \u00e0 discuss\u00e3o. Foi uma pergunta tect\u00f4nica, dessas que estremecem as bases do (meu) territ\u00f3rio \u2013 justamente porque, pela primeira vez em quatro anos, me deparei com o (talvez \u00f3bvio?) fato de que essas duas inst\u00e2ncias \u2013 a pesquisa acad\u00eamica e a maternidade \u2013 transformaram radicalmente a minha forma de habitar a linguagem cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">5. No pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o brasileira do livro de bell hooks, \u201cErguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra\u201d (2019), originalmente publicado em 1989, a primeira experi\u00eancia de hooks em uma escrita acad\u00eamica que abarcasse a dimens\u00e3o da sua experi\u00eancia em uma tentativa de historicizar a sua rela\u00e7\u00e3o com a teoria feminista, a professora e pesquisadora em hist\u00f3ria cultural Maril\u00e9a de Almeida escreve que o livro articula \u201csimultaneamente corpo (a voz), pr\u00e1tica (a coragem) e \u00e9tica (compromisso com a dignidade humana)\u201d (hooks, 2019, p. 9), sendo \u201co primeiro livro de bell hooks em que, no \u00e2mbito acad\u00eamico, ela radicaliza a m\u00e1xima feminista de que o pessoal \u00e9 pol\u00edtico\u201d (hooks, 2019, p. 10). A escrita da minha pesquisa, desenvolvida nesses quatro anos, \u00e9 apoiada justamente numa aposta em dispositivos de escrita aparentemente n\u00e3o acad\u00eamicos: di\u00e1logos imaginados, cartas, escrita endere\u00e7ada ao leitor, escancarando a subjetividade de quem escreve. Por \u00f3bvia consequ\u00eancia, o estudo acabou se encaminhando por um caminho concomitante \u00e0 m\u00e1xima feminista. O pessoal pode ser, tamb\u00e9m, te\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>Pequenos grupos de pessoas engajando-se juntos numa discuss\u00e3o feminista, numa luta dial\u00e9tica, criam um espa\u00e7o onde o \u201cpessoal \u00e9 pol\u00edtico\u201d como ponto de partida da educa\u00e7\u00e3o para a consci\u00eancia cr\u00edtica \u2013 e, como tal, pode ser estendido a uma politiza\u00e7\u00e3o do eu focada em compreender as maneiras pelas quais sexo, ra\u00e7a e classe, juntos, determinam nosso destino individual e nossa experi\u00eancia coletiva. <\/p><cite>hooks, 2019, p. 66-67<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">6. Uma tese viria antes ou depois de uma gravidez? Quando antes, certamente dispor de tempo para os estudos e para a escrita, \u00e9 um trunfo. Quando depois, talvez a biologia cobre algum pre\u00e7o. A minha gravidez n\u00e3o foi planejada e, dessa forma, a pergunta somente se imp\u00f4s quando j\u00e1 n\u00e3o havia mais o que fazer. Para algumas colegas, contudo, \u00e9 um dilema di\u00e1rio. Algumas conclu\u00edram o Mestrado, engravidaram, alguns anos passaram e t\u00eam medo de criar um projeto de pesquisa doutoral por n\u00e3o saber se haver\u00e1 tempo, se a academia conseguir\u00e1 receb\u00ea-las, ou at\u00e9, se a vis\u00e3o de mundo completamente modificada pelas lentes da maternidade conseguir\u00e1 se conciliar \u00e0 realidade do cotidiano dentro da Universidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">7. Ao longo destes quatro anos de pesquisa e de maternidade, minha tese terminou por se debru\u00e7ar, tamb\u00e9m, sobre a dimens\u00e3o da pr\u00f3pria pesquisa\/escrita acad\u00eamica alterada pela dimens\u00e3o da maternidade. Ou seja, na tese, passei a forjar espa\u00e7os de escuta para uma sensibilidade de pesquisa. O que alguns nomearam de fabula\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em outras \u00e1reas do conhecimento, na comunica\u00e7\u00e3o, entendi ser uma tecnologia de sobreviv\u00eancia e persist\u00eancia atrav\u00e9s da linguagem. Furos e dribles, liderados, na maior parte das vezes, por mulheres. Escancarava-se a porta da teoria feminista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">8. O que \u00e9, o que deseja e como se comporta o feminismo? Desde o surgimento da palavra enquanto um conceito de m\u00e9todo cr\u00edtico dentro dos Estudos Culturais, logo associado a uma postura ativa de mulheres na sociedade civil, a articula\u00e7\u00e3o feminista se caracteriza por \u201credes pol\u00edtico-comunicativas\u201d, como caracteriza a professora Ana Carolina Escosteguy: \u201cesses campos tamb\u00e9m se articulam <em>discursivamente<\/em> atrav\u00e9s de linguagens, sentidos, <em>vis\u00f5es de mundo<\/em> pelo menos parcialmente <em>compartilhadas<\/em>\u201d (Escosteguy, 2020, p. 18). E nessa intera\u00e7\u00e3o entre a cria\u00e7\u00e3o de um mundo atrav\u00e9s da linguagem, do enfrentamento da historiciza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via deste mundo, dos c\u00f3digos performatizados e da participa\u00e7\u00e3o mais ou menos ativa nos ditames da comunidade, uma nova forma de sistematiza\u00e7\u00e3o do conhecimento come\u00e7a a ser proposta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso do Brasil, como Margareth Rago aponta, \u201c(\u2026) n\u00e3o h\u00e1 nem clarezas nem certezas em rela\u00e7\u00e3o a uma teoria feminista do conhecimento. N\u00e3o apenas a quest\u00e3o \u00e9 pouco debatida, como em geral o pr\u00f3prio debate nos vem pronto, traduzido pelas publica\u00e7\u00f5es de autores do Hemisf\u00e9rio Norte\u201d (Rago, 2019, p. 372). Dadas as devidas propor\u00e7\u00f5es da dist\u00e2ncia hist\u00f3rica, pontuando que, ao redor dos \u00faltimos dez anos, o Brasil vive um processo de revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica, estimulado muitas vezes pela problem\u00e1tica em torno do \u201clugar de fala\u201d, conceito popularizado pelo livro \u201cO que \u00e9 o lugar de fala?\u201d (2017), de Djamila Ribeiro, o fato \u00e9 que a grande parte das refer\u00eancias em torno da discuss\u00e3o sobre existir ou n\u00e3o um pensamento feminista, ou de que forma ele se comporta (e ainda, suas linhas de discuss\u00e3o) ainda se reporta \u00e0s te\u00f3ricas anglo-sax\u00e3s e europeias. Mas como podemos pensar uma produ\u00e7\u00e3o de conhecimento diversa daquela que nos foi sempre dada como \u00fanica via cient\u00edfica: racional, imparcial, fundamentada numa observa\u00e7\u00e3o quantificada e organizada por um indiv\u00edduo que parte da identifica\u00e7\u00e3o de um problema para alcan\u00e7ar uma verdade?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A discuss\u00e3o sobre o feminismo \u00e9 marcada pela valoriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia em detrimento da imparcialidade do sujeito unida a uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o processo de constru\u00e7\u00e3o da identidade de determinados atores da sociedade. Por isso, o estudo da linguagem e a revis\u00e3o hist\u00f3rica se tornam metodologias fundamentais na pr\u00e1tica feminista, como \u00e9 o caso da escrita desta tese.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando partimos, por exemplo, do pensamento sobre o que significa \u201cepistemologia\u201d \u2013 a forma como procedemos \u00e0 an\u00e1lise do saber, como constru\u00edmos nosso conhecimento, como decodificamos cientificamente a realidade e suas opera\u00e7\u00f5es estruturais \u2013 come\u00e7amos a compreender a defesa por uma epistemologia feminista. Afinal, \u201cas mulheres trazem uma experi\u00eancia hist\u00f3rica e cultural diferenciada da dos homens, uma experi\u00eancia que v\u00e1rias j\u00e1 classificaram como das margens, da constru\u00e7\u00e3o mi\u00fada, da gest\u00e3o do detalhe, que se expressa na busca de uma nova linguagem ou na produ\u00e7\u00e3o de um contradiscurso\u201d (Rago, 2019, p. 373).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\">9. Seria o meu filme um drible cinematogr\u00e1fico sobre crescer, sendo uma mulher, em uma sociedade t\u00e3o patriarcalmente injusta como a nordestina, a brasileira? No filme, uma mulher sem nome aparente \u2013 a Narradora \u2013 convoca tr\u00eas fantasmas de sua dimens\u00e3o familiar para abord\u00e1-los, confront\u00e1-los e escut\u00e1-los em torno do registro da viol\u00eancia. Um av\u00f4 que teria feito parte do movimento do canga\u00e7o quando crian\u00e7a, um pai que teria trabalhado como agente civil para o Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00f5es da ditadura militar, um padrinho que tirou a pr\u00f3pria vida ap\u00f3s perder o companheiro em um ataque homof\u00f3bico e que deixou, como uma esp\u00e9cie de heran\u00e7a, centenas de fotografias dom\u00e9sticas de familiares e de amigos para essa futura afilhada. As respostas oferecidas pelo filme est\u00e3o em dimens\u00f5es como a poesia, a pesquisa hist\u00f3rica, o gesto de fabula\u00e7\u00e3o. A fic\u00e7\u00e3o; uma fic\u00e7\u00e3o que come\u00e7a numa hist\u00f3ria de si, mas que se nega ao fechamento desse ato em si pr\u00f3prio.<br><br><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Still-01-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-121\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Still-01-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Still-01-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Still-01-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Still-01-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Still-01-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/Still-01-1140x760.jpg 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><br>10. Porque falar de si virou produto, e talvez nunca tenha sido t\u00e3o rent\u00e1vel narrar a pr\u00f3pria vida. Vivemos um tempo em que a escrita de si e a fabula\u00e7\u00e3o parecem ter atingido um ponto de satura\u00e7\u00e3o, uma exaust\u00e3o est\u00e9tica e pol\u00edtica. Gestos que antes pareciam subversivos \u2013 emergir a dimens\u00e3o do \u00edntimo &#8211; tornaram-se promessa de engajamento, atrav\u00e9s de uma moeda simb\u00f3lica. Mas \u00e9 entre esses dois extremos, o da descoberta inaugural e o do esgotamento capital\u00edstico, que me situo. Enquanto pr\u00e1tica feminista, sigo acreditando ferozmente na pot\u00eancia da experi\u00eancia subjetiva como metodologia para a (minha) pesquisa acad\u00eamica e pr\u00e1tica cinematogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">11. Assim como a maternidade \u00e9 uma coreografia insalubre entre observar o outro, apresentar-lhe o mundo a partir de si e criar algo na fric\u00e7\u00e3o entre esses dois gestos, talvez eu tenha compreendido que essa experi\u00eancia provocou em mim uma altera\u00e7\u00e3o profunda na forma como digiro o outro, nessa experi\u00eancia radical de alteridade, a ponto de tornar imposs\u00edvel, nos estudos da Comunica\u00e7\u00e3o, ignorar essa dimens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">12. \u201cA Vida Secreta de Meus Tr\u00eas Homens\u201d (2025), est\u00e1 percorrendo o circuito de festivais internacionais e deve chegar aos cinemas brasileiros no primeiro semestre de 2026. A minha tese ser\u00e1 defendida ainda no segundo semestre desse ano. A minha filha far\u00e1 cinco anos em fevereiro do ano que vem.<br><br><br><strong>Imagens<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cr\u00e9dito: Fotogramas de &#8220;A Vida Secreta de Meus Tr\u00eas Homens\u201d (2025).<br><br><br><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ESCOSTEGUY, Ana Carolina Damboriarena. Estudos culturais feministas: a import\u00e2ncia de afirmar uma nomea\u00e7\u00e3o.\u202f<strong>L\u00cdBERO<\/strong>, n. 46, p. 10-25, 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/seer.casperlibero.edu.br\/index.php\/libero\/article\/view\/1207.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HOOKS, bell. <strong>Erguer a voz<\/strong>: pensar como feminista, pensar como negra. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">RAGO, Margareth. Epistemologia feminista, g\u00eanero e hist\u00f3ria. IN: HOLLANDA, Helo\u00edsa Buarque de. (org.) <strong>Pensamento feminista brasileiro \u2013 Forma\u00e7\u00e3o e contexto<\/strong>. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019, p. 371-387.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Let\u00edcia Sim\u00f5es: 1. Estou na reta final, final\u00edssima da escrita da tese de doutorado, orientada pela prof. Dra. N\u00edsia Martins do Ros\u00e1rio. Esse semestre, em um dos encontros que tivemos do nosso grupo de pesquisa, ao inv\u00e9s de partilhar um dos cap\u00edtulos escritos, apresentei como extens\u00e3o da minha investiga\u00e7\u00e3o, o mais recente longa-metragem por mim realizado \u2013 al\u00e9m de doutoranda, sou tamb\u00e9m, cineasta. \u201cA Vida Secreta de Meus Tr\u00eas Homens\u201d (2025) \u00e9 um document\u00e1rio fabular, document\u00e1rio de cria\u00e7\u00e3o ou f\u00e1bula hist\u00f3rica, como os cr\u00edticos o t\u00eam chamado, no qual parti de uma pesquisa hist\u00f3rica em torno das performances masculinas da viol\u00eancia no Nordeste do s\u00e9culo XX para pensar poss\u00edveis estrat\u00e9gias de sa\u00edda dessa mesma viol\u00eancia atrav\u00e9s da linguagem ou da cria\u00e7\u00e3o. 2. Esse filme \u00e9 dedicado \u00e0 minha filha. 3. A minha filha tem exatamente a mesma idade da minha pesquisa acad\u00eamica. Eu estava gr\u00e1vida quando escrevi meu projeto de pesquisa \u00e0 universidade e ela nasceu em fevereiro de 2021, semanas antes das aulas online come\u00e7arem. 4. Nesse encontro realizado no N\u00facleo de Pesquisas Corporalidades, um colega me perguntou qual rela\u00e7\u00e3o eu estabelecia entre a pesquisa acad\u00eamica e pr\u00e1tica cinematogr\u00e1fica; ou em que medida uma havia influenciado a outra, no caso espec\u00edfico do longa-metragem apresentado \u00e0 discuss\u00e3o. Foi uma pergunta tect\u00f4nica, dessas que estremecem as bases do (meu) territ\u00f3rio \u2013 justamente porque, pela primeira vez em quatro anos, me deparei com o (talvez \u00f3bvio?) fato de que essas duas inst\u00e2ncias \u2013 a pesquisa acad\u00eamica e a maternidade \u2013 transformaram radicalmente a minha forma de habitar a linguagem cinematogr\u00e1fica. 5. No pref\u00e1cio \u00e0 edi\u00e7\u00e3o brasileira do livro de bell hooks, \u201cErguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra\u201d (2019), originalmente publicado em 1989, a primeira experi\u00eancia de hooks em uma escrita acad\u00eamica que abarcasse a dimens\u00e3o da sua experi\u00eancia em uma tentativa de historicizar a sua rela\u00e7\u00e3o com a teoria feminista, a professora e pesquisadora em hist\u00f3ria cultural Maril\u00e9a de Almeida escreve que o livro articula \u201csimultaneamente corpo (a voz), pr\u00e1tica (a coragem) e \u00e9tica (compromisso com a dignidade humana)\u201d (hooks, 2019, p. 9), sendo \u201co primeiro livro de bell hooks em que, no \u00e2mbito acad\u00eamico, ela radicaliza a m\u00e1xima feminista de que o pessoal \u00e9 pol\u00edtico\u201d (hooks, 2019, p. 10). A escrita da minha pesquisa, desenvolvida nesses quatro anos, \u00e9 apoiada justamente numa aposta em dispositivos de escrita aparentemente n\u00e3o acad\u00eamicos: di\u00e1logos imaginados, cartas, escrita endere\u00e7ada ao leitor, escancarando a subjetividade de quem escreve. Por \u00f3bvia consequ\u00eancia, o estudo acabou se encaminhando por um caminho concomitante \u00e0 m\u00e1xima feminista. O pessoal pode ser, tamb\u00e9m, te\u00f3rico. Pequenos grupos de pessoas engajando-se juntos numa discuss\u00e3o feminista, numa luta dial\u00e9tica, criam um espa\u00e7o onde o \u201cpessoal \u00e9 pol\u00edtico\u201d como ponto de partida da educa\u00e7\u00e3o para a consci\u00eancia cr\u00edtica \u2013 e, como tal, pode ser estendido a uma politiza\u00e7\u00e3o do eu focada em compreender as maneiras pelas quais sexo, ra\u00e7a e classe, juntos, determinam nosso destino individual e nossa experi\u00eancia coletiva. hooks, 2019, p. 66-67 6. Uma tese viria antes ou depois de uma gravidez? Quando antes, certamente dispor de tempo para os estudos e para a escrita, \u00e9 um trunfo. Quando depois, talvez a biologia cobre algum pre\u00e7o. A minha gravidez n\u00e3o foi planejada e, dessa forma, a pergunta somente se imp\u00f4s quando j\u00e1 n\u00e3o havia mais o que fazer. Para algumas colegas, contudo, \u00e9 um dilema di\u00e1rio. Algumas conclu\u00edram o Mestrado, engravidaram, alguns anos passaram e t\u00eam medo de criar um projeto de pesquisa doutoral por n\u00e3o saber se haver\u00e1 tempo, se a academia conseguir\u00e1 receb\u00ea-las, ou at\u00e9, se a vis\u00e3o de mundo completamente modificada pelas lentes da maternidade conseguir\u00e1 se conciliar \u00e0 realidade do cotidiano dentro da Universidade. 7. Ao longo destes quatro anos de pesquisa e de maternidade, minha tese terminou por se debru\u00e7ar, tamb\u00e9m, sobre a dimens\u00e3o da pr\u00f3pria pesquisa\/escrita acad\u00eamica alterada pela dimens\u00e3o da maternidade. Ou seja, na tese, passei a forjar espa\u00e7os de escuta para uma sensibilidade de pesquisa. O que alguns nomearam de fabula\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica em outras \u00e1reas do conhecimento, na comunica\u00e7\u00e3o, entendi ser uma tecnologia de sobreviv\u00eancia e persist\u00eancia atrav\u00e9s da linguagem. Furos e dribles, liderados, na maior parte das vezes, por mulheres. Escancarava-se a porta da teoria feminista. 8. O que \u00e9, o que deseja e como se comporta o feminismo? Desde o surgimento da palavra enquanto um conceito de m\u00e9todo cr\u00edtico dentro dos Estudos Culturais, logo associado a uma postura ativa de mulheres na sociedade civil, a articula\u00e7\u00e3o feminista se caracteriza por \u201credes pol\u00edtico-comunicativas\u201d, como caracteriza a professora Ana Carolina Escosteguy: \u201cesses campos tamb\u00e9m se articulam discursivamente atrav\u00e9s de linguagens, sentidos, vis\u00f5es de mundo pelo menos parcialmente compartilhadas\u201d (Escosteguy, 2020, p. 18). E nessa intera\u00e7\u00e3o entre a cria\u00e7\u00e3o de um mundo atrav\u00e9s da linguagem, do enfrentamento da historiciza\u00e7\u00e3o pr\u00e9via deste mundo, dos c\u00f3digos performatizados e da participa\u00e7\u00e3o mais ou menos ativa nos ditames da comunidade, uma nova forma de sistematiza\u00e7\u00e3o do conhecimento come\u00e7a a ser proposta. No caso do Brasil, como Margareth Rago aponta, \u201c(\u2026) n\u00e3o h\u00e1 nem clarezas nem certezas em rela\u00e7\u00e3o a uma teoria feminista do conhecimento. N\u00e3o apenas a quest\u00e3o \u00e9 pouco debatida, como em geral o pr\u00f3prio debate nos vem pronto, traduzido pelas publica\u00e7\u00f5es de autores do Hemisf\u00e9rio Norte\u201d (Rago, 2019, p. 372). Dadas as devidas propor\u00e7\u00f5es da dist\u00e2ncia hist\u00f3rica, pontuando que, ao redor dos \u00faltimos dez anos, o Brasil vive um processo de revis\u00e3o bibliogr\u00e1fica, estimulado muitas vezes pela problem\u00e1tica em torno do \u201clugar de fala\u201d, conceito popularizado pelo livro \u201cO que \u00e9 o lugar de fala?\u201d (2017), de Djamila Ribeiro, o fato \u00e9 que a grande parte das refer\u00eancias em torno da discuss\u00e3o sobre existir ou n\u00e3o um pensamento feminista, ou de que forma ele se comporta (e ainda, suas linhas de discuss\u00e3o) ainda se reporta \u00e0s te\u00f3ricas anglo-sax\u00e3s e europeias. Mas como podemos pensar uma produ\u00e7\u00e3o de conhecimento diversa daquela que nos foi sempre dada como \u00fanica via cient\u00edfica: racional, imparcial, fundamentada numa observa\u00e7\u00e3o quantificada e organizada por um indiv\u00edduo que parte da identifica\u00e7\u00e3o de um problema para alcan\u00e7ar uma verdade? A discuss\u00e3o sobre o feminismo \u00e9 marcada pela valoriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia em detrimento da imparcialidade do sujeito unida a uma investiga\u00e7\u00e3o sobre o processo de constru\u00e7\u00e3o da identidade de determinados atores da sociedade. Por isso, o estudo da linguagem e a revis\u00e3o hist\u00f3rica se tornam metodologias fundamentais na pr\u00e1tica feminista, como \u00e9 o caso da escrita desta tese. Quando partimos, por exemplo, do pensamento sobre o que significa \u201cepistemologia\u201d \u2013 a forma como procedemos \u00e0 an\u00e1lise do saber, como constru\u00edmos nosso conhecimento, como decodificamos cientificamente a realidade e suas opera\u00e7\u00f5es estruturais \u2013 come\u00e7amos a compreender a defesa por uma epistemologia feminista. Afinal, \u201cas mulheres trazem uma experi\u00eancia hist\u00f3rica e cultural diferenciada da dos homens, uma experi\u00eancia que v\u00e1rias j\u00e1 classificaram como das margens, da constru\u00e7\u00e3o mi\u00fada, da gest\u00e3o do detalhe, que se expressa na busca de uma nova linguagem ou na produ\u00e7\u00e3o de um contradiscurso\u201d (Rago, 2019, p. 373). 9. Seria o meu filme um drible cinematogr\u00e1fico sobre crescer, sendo uma mulher, em uma sociedade t\u00e3o patriarcalmente injusta como a nordestina, a brasileira? No filme, uma mulher sem nome aparente \u2013 a Narradora \u2013 convoca tr\u00eas fantasmas de sua dimens\u00e3o familiar para abord\u00e1-los, confront\u00e1-los e escut\u00e1-los em torno do registro da viol\u00eancia. Um av\u00f4 que teria feito parte do movimento do canga\u00e7o quando crian\u00e7a, um pai que teria trabalhado como agente civil para o Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00f5es da ditadura militar, um padrinho que tirou a pr\u00f3pria vida ap\u00f3s perder o companheiro em um ataque homof\u00f3bico e que deixou, como uma esp\u00e9cie de heran\u00e7a, centenas de fotografias dom\u00e9sticas de familiares e de amigos para essa futura afilhada. As respostas oferecidas pelo filme est\u00e3o em dimens\u00f5es como a poesia, a pesquisa hist\u00f3rica, o gesto de fabula\u00e7\u00e3o. A fic\u00e7\u00e3o; uma fic\u00e7\u00e3o que come\u00e7a numa hist\u00f3ria de si, mas que se nega ao fechamento desse ato em si pr\u00f3prio. 10. Porque falar de si virou produto, e talvez nunca tenha sido t\u00e3o rent\u00e1vel narrar a pr\u00f3pria vida. Vivemos um tempo em que a escrita de si e a fabula\u00e7\u00e3o parecem ter atingido um ponto de satura\u00e7\u00e3o, uma exaust\u00e3o est\u00e9tica e pol\u00edtica. Gestos que antes pareciam subversivos \u2013 emergir a dimens\u00e3o do \u00edntimo &#8211; tornaram-se promessa de engajamento, atrav\u00e9s de uma moeda simb\u00f3lica. Mas \u00e9 entre esses dois extremos, o da descoberta inaugural e o do esgotamento capital\u00edstico, que me situo. Enquanto pr\u00e1tica feminista, sigo acreditando ferozmente na pot\u00eancia da experi\u00eancia subjetiva como metodologia para a (minha) pesquisa acad\u00eamica e pr\u00e1tica cinematogr\u00e1fica. 11. Assim como a maternidade \u00e9 uma coreografia insalubre entre observar o outro, apresentar-lhe o mundo a partir de si e criar algo na fric\u00e7\u00e3o entre esses dois gestos, talvez eu tenha compreendido que essa experi\u00eancia provocou em mim uma altera\u00e7\u00e3o profunda na forma como digiro o outro, nessa experi\u00eancia radical de alteridade, a ponto de tornar imposs\u00edvel, nos estudos da Comunica\u00e7\u00e3o, ignorar essa dimens\u00e3o. 12. \u201cA Vida Secreta de Meus Tr\u00eas Homens\u201d (2025), est\u00e1 percorrendo o circuito de festivais internacionais e deve chegar aos cinemas brasileiros no primeiro semestre de 2026. A minha tese ser\u00e1 defendida ainda no segundo semestre desse ano. A minha filha far\u00e1 cinco anos em fevereiro do ano que vem. Imagens Cr\u00e9dito: Fotogramas de &#8220;A Vida Secreta de Meus Tr\u00eas Homens\u201d (2025). Refer\u00eancias ESCOSTEGUY, Ana Carolina Damboriarena. Estudos culturais feministas: a import\u00e2ncia de afirmar uma nomea\u00e7\u00e3o.\u202fL\u00cdBERO, n. 46, p. 10-25, 2020. Dispon\u00edvel em: https:\/\/seer.casperlibero.edu.br\/index.php\/libero\/article\/view\/1207. HOOKS, bell. Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra. S\u00e3o Paulo: Elefante, 2019. RAGO, Margareth. Epistemologia feminista, g\u00eanero e hist\u00f3ria. IN: HOLLANDA, Helo\u00edsa Buarque de. (org.) Pensamento feminista brasileiro \u2013 Forma\u00e7\u00e3o e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019, p. 371-387.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":120,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[14,3,15,16],"class_list":["post-119","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-cinema","tag-comunicacao","tag-maternidade","tag-pesquisa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=119"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":127,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/119\/revisions\/127"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media\/120"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=119"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=119"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=119"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}