{"id":208,"date":"2025-10-13T11:10:36","date_gmt":"2025-10-13T14:10:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/?p=208"},"modified":"2025-10-13T11:10:36","modified_gmt":"2025-10-13T14:10:36","slug":"o-black-metal-como-territorio-queer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/2025\/10\/13\/o-black-metal-como-territorio-queer\/","title":{"rendered":"O black metal como territ\u00f3rio queer"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Ta\u00eds Severo:<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>This is not a playlist. This is not a vibe. It is a demand.\u00a0<br>[\u2026] Leah\u2019s songs move differently: grounded in queer history and AIDS-era literature, amid the suffocating fog of the present, they carry the weight of survival as daily ritual. Her writing asks how to honor queer community and collective struggle without turning it into identity branding or personal mythmaking: how to stay honest, how to stay present.<\/p><cite>\u2013 Agriculture, The Spiritual Sound (2025)<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atrav\u00e9s de bandas como Iskra, Agriculture, Violet Cold, Feminazg\u00fbl, Panopticon e Liturgy, o estilo conhecido como <em>black metal<\/em> tem se posicionado como a vanguarda de temas <em>queer<\/em>, feministas e antifascistas dentro do <em>heavy metal<\/em>. No entanto, o subg\u00eanero tamb\u00e9m serve de esconderijo a bandas e artistas que apoiam a extrema direita e o neonazismo. Como chegamos at\u00e9 aqui, e o que esse nicho musical oferece em particular?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As ra\u00edzes da hist\u00f3ria do <em>heavy metal<\/em> est\u00e3o expostas. Surgido na Europa do final dos anos 1960 como express\u00e3o de descontentamento da classe trabalhadora diante dos escombros da Segunda Guerra Mundial, o estilo sombrio e de enfrentamento desenvolveu-se ao longo da d\u00e9cada seguinte incorporando elementos do <em>rock <\/em>progressivo: virtuosidade musical, temas complexos e comercializa\u00e7\u00e3o dos artistas como \u00eddolos acima das massas. Tal movimento auxiliou a popularidade do g\u00eanero, mas trouxe tamb\u00e9m descontentamento entre certos artistas que, bebendo da contracultura e do <em>ethos punk<\/em>, denunciaram a elitiza\u00e7\u00e3o e o distanciamento de sua raiz pol\u00edtica.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos anos 1980, as bandas de <em>heavy metal<\/em> buscavam incorporar a agressividade \u00e0 composi\u00e7\u00e3o musical. De um lado, o <em>speed metal<\/em> era um caminho evolutivo que testava a velocidade como artefato est\u00e9tico, empregando elementos de m\u00fasica neocl\u00e1ssica; de outro, o <em>thrash metal<\/em> n\u00e3o se contentava somente com a rapidez, mas tamb\u00e9m trazia elementos impuros para contrapor \u00e0 virtuosidade elitizada, como o <em>punk <\/em>tamb\u00e9m fazia, e retornar aos temas politizados. Em uma cena <em>underground <\/em>e internacional alicer\u00e7ada no envio e na troca de fitas cassete copiadas artesanalmente, bandas como Venom, da Inglaterra, Hellhammer, da Su\u00ed\u00e7a, e Bathory, da Su\u00e9cia, influenciaram e foram influenciadas por outras como as brasileiras Mystifier e Sarc\u00f3fago, al\u00e9m da colombiana Parabellum. Entre elas, os elementos comuns eram o de uma crescente revolta social, junto \u00e0 resist\u00eancia aos valores crist\u00e3os; musicalmente, o estilo se voltava \u00e0 simplicidade nos <em>riffs <\/em>e \u00e0s grava\u00e7\u00f5es que capturavam o <em>lo-fi <\/em>como est\u00e9tica de oposi\u00e7\u00e3o ao <em>mainstream<\/em>.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi nesse esteio que, na d\u00e9cada de 1990, o <em>black metal<\/em> mergulhou em uma \u00eanfase misantr\u00f3pica. Solidificado na Noruega atrav\u00e9s de bandas como Darkthrone, Mayhem e Burzum, o subg\u00eanero teve definidas suas caracter\u00edsticas principais: vocais que evocam o inumano, mixagem fora dos padr\u00f5es esperados e abrasividade sonora que o aproxima dos territ\u00f3rios do <em>noise<\/em> e do inintelig\u00edvel, criando barreiras \u00e0 assimila\u00e7\u00e3o pelo <em>mainstream<\/em> e trazendo uma atitude que testava os limites do art\u00edstico \u2013 incluindo sacrif\u00edcios animais, automutila\u00e7\u00e3o, suic\u00eddio, e mesmo crimes como assassinato e inc\u00eandios em igrejas (Christe, 2003). A contraposi\u00e7\u00e3o aos valores sociais contempor\u00e2neos tamb\u00e9m levou a um outro desenvolvimento: n\u00e3o s\u00f3 na Noruega, mas tamb\u00e9m em pa\u00edses como R\u00fassia, Pol\u00f4nia, Fran\u00e7a e os Estados Unidos, o <em>black metal<\/em> foi usado como ferramenta de dissemina\u00e7\u00e3o e recrutamento de ideologias racistas e neonazistas, formando o NSBM (<em>National Socialist black metal<\/em>) como subg\u00eanero (Patterson, 2013). Embora representem uma minoria dentro do estilo, tais artistas s\u00e3o uma inc\u00f4moda presen\u00e7a que exemplifica como o descontentamento com os sistemas correntes pode tomar caminhos igualmente, ou ainda mais indesejados.<br><br><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"1008\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mossgolem-2-1-1024x1008.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-218\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mossgolem-2-1-1024x1008.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mossgolem-2-1-300x295.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mossgolem-2-1-768x756.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mossgolem-2-1-1140x1122.jpg 1140w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mossgolem-2-1-75x75.jpg 75w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/mossgolem-2-1.jpg 1200w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><br>Embora a maioria das bandas de <em>black metal<\/em> utilize os temas misantr\u00f3picos como recurso fant\u00e1stico e liter\u00e1rio para abordar aspectos latentes da vida na m\u00fasica em geral, como a morte, a desilus\u00e3o e as rea\u00e7\u00f5es \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, outras buscam fazer frente aos ide\u00e1rios da extrema direita. Tal movimento inclusive acarretou um outro subg\u00eanero, o RABM (<em>Red and Anarchist black metal<\/em>), como resposta. Embora menos vis\u00edvel e definido do que sua contraparte oposta, o estilo ataca o nacionalismo, o racismo e o sexismo enquanto trata de tem\u00e1ticas pr\u00f3ximas \u00e0 esquerda do espectro pol\u00edtico.\u00a0\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, o <em>black metal<\/em> demonstra uma caracter\u00edstica curiosa: formalmente, \u00e9 m\u00fasica de e para <em>outsiders<\/em>. Est\u00e1 em conten\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas com o <em>mainstream <\/em>art\u00edstico em geral, mas tamb\u00e9m dentro do pr\u00f3prio <em>heavy metal<\/em>. N\u00e3o surpreende, portanto, que diversas ideologias pol\u00edticas extremas orbitem ao redor do estilo \u2013 como tamb\u00e9m havia ocorrido com o <em>punk<\/em>, cujos caminhos rizom\u00e1ticos desembocaram em cenas insulares como o <em>straight edge<\/em>, o <em>nazi<\/em> <em>punk <\/em>e seu oposto, o <em>crust punk<\/em>. Ao empregar os signos da controv\u00e9rsia e do confronto, o <em>black metal<\/em>, em si, n\u00e3o \u00e9 uma ideologia pol\u00edtica; mas um ve\u00edculo para as discuss\u00f5es do poder, inclusive as mais espinhosas e complexas, uma vez que a oposi\u00e7\u00e3o aos sistemas correntes \u00e9 parte da pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do metal como g\u00eanero (Hjelm; Kahn-Harris; LeVine, 2011).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse pensamento remete, paralelamente, a certos avan\u00e7os das teorias <em>queer<\/em>. Com abrang\u00eancia, evoca o chamado \u00e0 negatividade proposto por Edelman (2004): para o autor, a ess\u00eancia do <em>queer <\/em>s\u00f3 pode estar na descoberta e na aceita\u00e7\u00e3o de que as semioses relacionadas aos ideais do futuro s\u00e3o ferramentas de opress\u00e3o estrutural. Recusar a insist\u00eancia da esperan\u00e7a enquanto afirma\u00e7\u00e3o est\u00e9tica produz os registros do impens\u00e1vel, do irrespons\u00e1vel, do desumano; espa\u00e7os justamente habitados pelo <em>black metal<\/em>, inclusive na indument\u00e1ria que inclui o <em>corpse paint<\/em> \u2013 a pintura corporal que retrata os artistas como cad\u00e1veres. A negatividade simb\u00f3lica, assim, pode se tornar uma for\u00e7a aliada na constru\u00e7\u00e3o de presentes onde o <em>queer <\/em>n\u00e3o \u00e9 assimil\u00e1vel, mas a pot\u00eancia irredut\u00edvel diante das no\u00e7\u00f5es, mais do que das pr\u00e1ticas, do normal e da normatividade. Sob essa \u00f3tica, o <em>black metal <\/em>foi, desde sempre, muito pr\u00f3ximo ao <em>queer <\/em>\u2013 em uma abertura que, diametralmente, foi porosa \u00e0 entrada de ideologias conservadoras e racistas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>Our queerness has nothing to offer a Symbolic that lives by denying that nothingness except an insistence on the haunting excess that this nothingness entails, an insistence on the negativity that pierces the fantasy screen of futurity, shattering narrative temporality with irony&#8217;s always explosive force. And so what is queerest about us, queerest within us, and queerest despite us is this willingness to insist intransitively \u2013 to insist that the future stop here.\u00a0<\/p><cite>Edelman, 2004, p. 31<\/cite><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, j\u00e1 n\u00e3o surpreende que o <em>black metal<\/em> tamb\u00e9m caminhe pelo feminismo e pelo <em>queer<\/em>. Seu grito vai contra as ideologias do preconceito, mas tamb\u00e9m contra a pr\u00f3pria aliena\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio nicho musical e cultural, em sua grande parte um espa\u00e7o masculino e heteronormativo. H\u00e1 uma deliciosa ironia: o vigor e a linguagem musical cooptadas por ideologias retr\u00f3gradas \u00e9 retrabalhada para servir de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e propor horizontes <em>queer<\/em>. A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 seguida, mas sem remiss\u00e3o a qualquer ideia de purismo: esses artistas aderem \u00e0s aberturas do <em>black metal <\/em>em suas associa\u00e7\u00f5es com estilos como o <em>ambient<\/em>, <em>shoegaze <\/em>e <em>synthpop <\/em>para gerar micro g\u00eaneros como o <em>dungeon synth<\/em>, o <em>blackgaze <\/em>e o <em>post-black metal.<\/em> Iniciativas como o <a href=\"https:\/\/blackmetalrainbows.bandcamp.com\/album\/black-metal-rainbows\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Black Metal Rainbows<\/a>, que reuniu 130 artistas <em>queer <\/em>e de esquerda, s\u00e3o erigidas com orgulho; ao mesmo tempo, o antropoceno toma parte das discuss\u00f5es cr\u00edticas de artistas, inclusive no Brasil, como <a href=\"https:\/\/pessimista.bandcamp.com\/album\/apodrecendo-a-terra\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Pessimista<\/a>. Retomar a subversividade como estrat\u00e9gia \u00e9 parte da resist\u00eancia tanto \u00e0 pacifica\u00e7\u00e3o do <em>black metal<\/em> quanto \u00e0s tentativas de captura por ide\u00e1rios exclusivistas, e as possibilidades de sua negatividade s\u00e3o intensamente produtivas.<br><br><br><strong>Imagem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/serpentsswordrecords.bandcamp.com\/album\/the-woods-of-galdura\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Moss Golem, The Woods of Galdura (2020)<\/a>.<br><br><br><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Christe, Ian. <strong>The Sound of the Beast<\/strong>. New York: Harper Collins, 2003.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Edelman, Lee. <strong>No Future<\/strong>: Queer Theory and the Death Drive. Durham: Duke University Press, 2004.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hjelm, Titus; Kahn-Harris, Keith; LeVine, Mark. Heavy Metal as Controversy and Counterculture. <strong>Popular Music History<\/strong>, n.6.1, p. 5-18, 2011.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Patterson, Dayal. <strong>Black Metal<\/strong>: Evolution of the Cult. Washington: Feral House, 2013.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ta\u00eds Severo: This is not a playlist. This is not a vibe. It is a demand.\u00a0[\u2026] Leah\u2019s songs move differently: grounded in queer history and AIDS-era literature, amid the suffocating fog of the present, they carry the weight of survival as daily ritual. Her writing asks how to honor queer community and collective struggle without turning it into identity branding or personal mythmaking: how to stay honest, how to stay present. \u2013 Agriculture, The Spiritual Sound (2025) Atrav\u00e9s de bandas como Iskra, Agriculture, Violet Cold, Feminazg\u00fbl, Panopticon e Liturgy, o estilo conhecido como black metal tem se posicionado como a vanguarda de temas queer, feministas e antifascistas dentro do heavy metal. No entanto, o subg\u00eanero tamb\u00e9m serve de esconderijo a bandas e artistas que apoiam a extrema direita e o neonazismo. Como chegamos at\u00e9 aqui, e o que esse nicho musical oferece em particular? As ra\u00edzes da hist\u00f3ria do heavy metal est\u00e3o expostas. Surgido na Europa do final dos anos 1960 como express\u00e3o de descontentamento da classe trabalhadora diante dos escombros da Segunda Guerra Mundial, o estilo sombrio e de enfrentamento desenvolveu-se ao longo da d\u00e9cada seguinte incorporando elementos do rock progressivo: virtuosidade musical, temas complexos e comercializa\u00e7\u00e3o dos artistas como \u00eddolos acima das massas. Tal movimento auxiliou a popularidade do g\u00eanero, mas trouxe tamb\u00e9m descontentamento entre certos artistas que, bebendo da contracultura e do ethos punk, denunciaram a elitiza\u00e7\u00e3o e o distanciamento de sua raiz pol\u00edtica.&nbsp;&nbsp; Nos anos 1980, as bandas de heavy metal buscavam incorporar a agressividade \u00e0 composi\u00e7\u00e3o musical. De um lado, o speed metal era um caminho evolutivo que testava a velocidade como artefato est\u00e9tico, empregando elementos de m\u00fasica neocl\u00e1ssica; de outro, o thrash metal n\u00e3o se contentava somente com a rapidez, mas tamb\u00e9m trazia elementos impuros para contrapor \u00e0 virtuosidade elitizada, como o punk tamb\u00e9m fazia, e retornar aos temas politizados. Em uma cena underground e internacional alicer\u00e7ada no envio e na troca de fitas cassete copiadas artesanalmente, bandas como Venom, da Inglaterra, Hellhammer, da Su\u00ed\u00e7a, e Bathory, da Su\u00e9cia, influenciaram e foram influenciadas por outras como as brasileiras Mystifier e Sarc\u00f3fago, al\u00e9m da colombiana Parabellum. Entre elas, os elementos comuns eram o de uma crescente revolta social, junto \u00e0 resist\u00eancia aos valores crist\u00e3os; musicalmente, o estilo se voltava \u00e0 simplicidade nos riffs e \u00e0s grava\u00e7\u00f5es que capturavam o lo-fi como est\u00e9tica de oposi\u00e7\u00e3o ao mainstream.&nbsp;&nbsp; Foi nesse esteio que, na d\u00e9cada de 1990, o black metal mergulhou em uma \u00eanfase misantr\u00f3pica. Solidificado na Noruega atrav\u00e9s de bandas como Darkthrone, Mayhem e Burzum, o subg\u00eanero teve definidas suas caracter\u00edsticas principais: vocais que evocam o inumano, mixagem fora dos padr\u00f5es esperados e abrasividade sonora que o aproxima dos territ\u00f3rios do noise e do inintelig\u00edvel, criando barreiras \u00e0 assimila\u00e7\u00e3o pelo mainstream e trazendo uma atitude que testava os limites do art\u00edstico \u2013 incluindo sacrif\u00edcios animais, automutila\u00e7\u00e3o, suic\u00eddio, e mesmo crimes como assassinato e inc\u00eandios em igrejas (Christe, 2003). A contraposi\u00e7\u00e3o aos valores sociais contempor\u00e2neos tamb\u00e9m levou a um outro desenvolvimento: n\u00e3o s\u00f3 na Noruega, mas tamb\u00e9m em pa\u00edses como R\u00fassia, Pol\u00f4nia, Fran\u00e7a e os Estados Unidos, o black metal foi usado como ferramenta de dissemina\u00e7\u00e3o e recrutamento de ideologias racistas e neonazistas, formando o NSBM (National Socialist black metal) como subg\u00eanero (Patterson, 2013). Embora representem uma minoria dentro do estilo, tais artistas s\u00e3o uma inc\u00f4moda presen\u00e7a que exemplifica como o descontentamento com os sistemas correntes pode tomar caminhos igualmente, ou ainda mais indesejados. Embora a maioria das bandas de black metal utilize os temas misantr\u00f3picos como recurso fant\u00e1stico e liter\u00e1rio para abordar aspectos latentes da vida na m\u00fasica em geral, como a morte, a desilus\u00e3o e as rea\u00e7\u00f5es \u00e0s institui\u00e7\u00f5es, outras buscam fazer frente aos ide\u00e1rios da extrema direita. Tal movimento inclusive acarretou um outro subg\u00eanero, o RABM (Red and Anarchist black metal), como resposta. Embora menos vis\u00edvel e definido do que sua contraparte oposta, o estilo ataca o nacionalismo, o racismo e o sexismo enquanto trata de tem\u00e1ticas pr\u00f3ximas \u00e0 esquerda do espectro pol\u00edtico.\u00a0\u00a0 Nesse sentido, o black metal demonstra uma caracter\u00edstica curiosa: formalmente, \u00e9 m\u00fasica de e para outsiders. Est\u00e1 em conten\u00e7\u00e3o n\u00e3o apenas com o mainstream art\u00edstico em geral, mas tamb\u00e9m dentro do pr\u00f3prio heavy metal. N\u00e3o surpreende, portanto, que diversas ideologias pol\u00edticas extremas orbitem ao redor do estilo \u2013 como tamb\u00e9m havia ocorrido com o punk, cujos caminhos rizom\u00e1ticos desembocaram em cenas insulares como o straight edge, o nazi punk e seu oposto, o crust punk. Ao empregar os signos da controv\u00e9rsia e do confronto, o black metal, em si, n\u00e3o \u00e9 uma ideologia pol\u00edtica; mas um ve\u00edculo para as discuss\u00f5es do poder, inclusive as mais espinhosas e complexas, uma vez que a oposi\u00e7\u00e3o aos sistemas correntes \u00e9 parte da pr\u00f3pria constitui\u00e7\u00e3o do metal como g\u00eanero (Hjelm; Kahn-Harris; LeVine, 2011).&nbsp; Esse pensamento remete, paralelamente, a certos avan\u00e7os das teorias queer. Com abrang\u00eancia, evoca o chamado \u00e0 negatividade proposto por Edelman (2004): para o autor, a ess\u00eancia do queer s\u00f3 pode estar na descoberta e na aceita\u00e7\u00e3o de que as semioses relacionadas aos ideais do futuro s\u00e3o ferramentas de opress\u00e3o estrutural. Recusar a insist\u00eancia da esperan\u00e7a enquanto afirma\u00e7\u00e3o est\u00e9tica produz os registros do impens\u00e1vel, do irrespons\u00e1vel, do desumano; espa\u00e7os justamente habitados pelo black metal, inclusive na indument\u00e1ria que inclui o corpse paint \u2013 a pintura corporal que retrata os artistas como cad\u00e1veres. A negatividade simb\u00f3lica, assim, pode se tornar uma for\u00e7a aliada na constru\u00e7\u00e3o de presentes onde o queer n\u00e3o \u00e9 assimil\u00e1vel, mas a pot\u00eancia irredut\u00edvel diante das no\u00e7\u00f5es, mais do que das pr\u00e1ticas, do normal e da normatividade. Sob essa \u00f3tica, o black metal foi, desde sempre, muito pr\u00f3ximo ao queer \u2013 em uma abertura que, diametralmente, foi porosa \u00e0 entrada de ideologias conservadoras e racistas.&nbsp;&nbsp; Our queerness has nothing to offer a Symbolic that lives by denying that nothingness except an insistence on the haunting excess that this nothingness entails, an insistence on the negativity that pierces the fantasy screen of futurity, shattering narrative temporality with irony&#8217;s always explosive force. And so what is queerest about us, queerest within us, and queerest despite us is this willingness to insist intransitively \u2013 to insist that the future stop here.\u00a0 Edelman, 2004, p. 31 Assim, j\u00e1 n\u00e3o surpreende que o black metal tamb\u00e9m caminhe pelo feminismo e pelo queer. Seu grito vai contra as ideologias do preconceito, mas tamb\u00e9m contra a pr\u00f3pria aliena\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio nicho musical e cultural, em sua grande parte um espa\u00e7o masculino e heteronormativo. H\u00e1 uma deliciosa ironia: o vigor e a linguagem musical cooptadas por ideologias retr\u00f3gradas \u00e9 retrabalhada para servir de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e propor horizontes queer. A tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 seguida, mas sem remiss\u00e3o a qualquer ideia de purismo: esses artistas aderem \u00e0s aberturas do black metal em suas associa\u00e7\u00f5es com estilos como o ambient, shoegaze e synthpop para gerar micro g\u00eaneros como o dungeon synth, o blackgaze e o post-black metal. Iniciativas como o Black Metal Rainbows, que reuniu 130 artistas queer e de esquerda, s\u00e3o erigidas com orgulho; ao mesmo tempo, o antropoceno toma parte das discuss\u00f5es cr\u00edticas de artistas, inclusive no Brasil, como Pessimista. Retomar a subversividade como estrat\u00e9gia \u00e9 parte da resist\u00eancia tanto \u00e0 pacifica\u00e7\u00e3o do black metal quanto \u00e0s tentativas de captura por ide\u00e1rios exclusivistas, e as possibilidades de sua negatividade s\u00e3o intensamente produtivas. Imagem Moss Golem, The Woods of Galdura (2020). Refer\u00eancias Christe, Ian. The Sound of the Beast. New York: Harper Collins, 2003.&nbsp;&nbsp; Edelman, Lee. No Future: Queer Theory and the Death Drive. Durham: Duke University Press, 2004.&nbsp; Hjelm, Titus; Kahn-Harris, Keith; LeVine, Mark. Heavy Metal as Controversy and Counterculture. Popular Music History, n.6.1, p. 5-18, 2011.&nbsp; Patterson, Dayal. Black Metal: Evolution of the Cult. Washington: Feral House, 2013.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":210,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[3,21,30],"class_list":["post-208","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog","tag-comunicacao","tag-musica","tag-queer"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/208","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=208"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/208\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":222,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/208\/revisions\/222"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media\/210"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=208"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=208"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=208"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}