{"id":231,"date":"2025-10-28T14:56:23","date_gmt":"2025-10-28T17:56:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/?p=231"},"modified":"2025-10-28T14:56:24","modified_gmt":"2025-10-28T17:56:24","slug":"do-medo-a-satisfacao-economias-emocionais-em-regimes-de-vigilancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/2025\/10\/28\/do-medo-a-satisfacao-economias-emocionais-em-regimes-de-vigilancia\/","title":{"rendered":"Do medo \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o: economias emocionais em regimes de vigil\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Vin\u00edcios Serr\u00e3o:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Este pequeno artigo tem como objetivo comparar os regimes de vigil\u00e2ncia e governamento descritos por Foucault (1987) com o atual modelo de vigil\u00e2ncia \u2014 em especial o imanente \u00e0s redes sociais \u2014 a partir de suas economias afetivas. Parto da hip\u00f3tese de que, enquanto nos regimes medievais e modernos o medo se apresentava como o afeto motor do poder espetacular, o regime contempor\u00e2neo das plataformas digitais articula uma governamentalidade centrada na satisfa\u00e7\u00e3o. Para analisar essa transforma\u00e7\u00e3o, mobilizo contribui\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise (Freud) e da neuroci\u00eancia cr\u00edtica (Courtwright; Lembke), buscando compreender como afetos distintos \u2014 medo e satisfa\u00e7\u00e3o \u2014 operam, legitimam e renovam as tecnologias de controle social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A genealogia do medo no sin\u00f3ptico e pan\u00f3ptico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fil\u00f3sofo e historiador Michel Foucault (1926-1984) dedicou seu lac\u00f4nico legado em estudar temas sociais inspirado pela fenomenologia, marxismo e filosofia existencial. A sua preocupa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria era compreender \u201ccomo foi poss\u00edvel o que \u00e9?\u201d Em outras palavras, suas principais inquieta\u00e7\u00f5es giravam em torno da rela\u00e7\u00e3o entre saber, poder e subjetividade \u2014 ou seja, de que modo o conhecimento e as formas de poder produziam modos de ser, pensar e agir nos indiv\u00edduos e nas sociedades. Afirmou: \u201cmeu objetivo tem sido criar uma hist\u00f3ria dos diferentes modos pelos quais, na nossa cultura, os seres humanos s\u00e3o transformados em sujeitos\u201d (Foucault, 1982, p. 208).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"699\" height=\"699\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/download-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-233\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/download-1.jpeg 699w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/download-1-300x300.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/download-1-150x150.jpeg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/download-1-75x75.jpeg 75w\" sizes=\"auto, (max-width: 699px) 100vw, 699px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um de seus textos mais conhecidos \u00e9 o Vigiar e punir (1987 [1975]), que trata fundamentalmente da hist\u00f3ria do direito penal e da hist\u00f3ria das pris\u00f5es. Em termos gerais, o livro se prop\u00f5e a tra\u00e7ar uma hist\u00f3ria correlativa da alma moderna e de um novo poder de julgar, apresentando uma genealogia do atual complexo cient\u00edfico-judici\u00e1rio onde o poder de punir se fundamenta e recebe suas regras. O tema central da obra \u00e9 a metamorfose dos m\u00e9todos punitivos que ocorreu na passagem dos castigos corporais e espetaculares (os supl\u00edcios) para o sistema carcer\u00e1rio moderno. Como bom historiador, Michel Foucault faz uma an\u00e1lise hist\u00f3rico-cr\u00edtica das formas de disciplinamento social e encontra pistas importantes nos modelos de puni\u00e7\u00e3o criados pelos governos ocidentais da Idade M\u00e9dia \u00e0 Moderna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Idade M\u00e9dia, o governo lan\u00e7ava m\u00e3o, mais especialmente, do espet\u00e1culo e da puni\u00e7\u00e3o sobre o corpo como forma de disciplinamento social. N\u00e3o obstante, no in\u00edcio de &#8220;Vigiar e punir&#8221; (1987), Foucault apresenta uma narra\u00e7\u00e3o em que um personagem \u00e9 brutalmente esquartejado e morto em espa\u00e7o p\u00fablico, em meio \u00e0 multid\u00e3o, retrato do que acontecia naquele per\u00edodo. O sin\u00f3ptico (que permite ver o conjunto em um s\u00f3 golpe de vista) era o principal dispositivo de controle social (muitos olham um). Nesse contexto, o medo era o principal afeto explorado: \u201cmelhor obedecer que ser esquartejado!\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica do medo tinha o objetivo de fazer com que a manifesta\u00e7\u00e3o do poder fosse sentida de forma intensa e aterradora: o castigo era executado em p\u00fablico para provocar um &#8220;efeito de terror&#8221; pelo espet\u00e1culo do poder triunfando sobre o culpado. Essa pol\u00edtica visava tornar sens\u00edvel a todos, sobre o corpo do criminoso, a presen\u00e7a encolerizada do soberano. O supl\u00edcio, ao inv\u00e9s de apenas restabelecer a justi\u00e7a, reativava o poder. A inten\u00e7\u00e3o era que o exemplo da pena ficasse profundamente inscrito no cora\u00e7\u00e3o dos homens (Foucault, 1987, p. 67).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na modernidade, houve uma complexifica\u00e7\u00e3o nas formas de controle por meio do sistema arquitet\u00f3nico prisional pan\u00f3ptico &#8211; que significa \u2018vis\u00e3o-total\u2019 (um vendo muitos) -, &#8220;desapareceu o corpo como alvo principal da repreens\u00e3o penal&#8221;, isto \u00e9, as repress\u00f5es penais deslocaram-se para a pris\u00e3o, conferindo uma &#8220;puni\u00e7\u00e3o restrita \u00e0 alma&#8221; (Foucault, 1987, p. 13), por meio do isolamento e repress\u00e3o sobre os corpos infratores. O pan\u00f3ptico se tratava de um edif\u00edcio em forma de c\u00edrculo, que no meio existia um p\u00e1tio com uma torre no centro. O anel se dividia em pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior e no topo da torre havia um &#8220;poss\u00edvel&#8221; vigilante que podia ver todas as cabines\/prisioneiros, por\u00e9m, n\u00e3o poderia ser visto pelos prisioneiros, gra\u00e7as ao design engenhoso das janelas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo de vigil\u00e2ncia identificado no pan\u00f3ptico, de acordo com Foucault (1987, p. 156), induzia ao detento &#8220;um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento autom\u00e1tico do poder&#8221;. \u00c9 sob essa percep\u00e7\u00e3o que o pensador conseguiu identificar que o governo cria dispositivos de poder que t\u00eam como objetivo disciplinar. As disciplinas operavam em uma escala \u2018infinitesimal\u2019 e minuciosa do controle (Ibid., p. 69). Elas n\u00e3o visavam o corpo &#8220;em massa&#8221;, mas sim o detalhe dos movimentos, gestos, atitudes e rapidez. O objetivo era fabricar &#8220;corpos submissos e exercitados, corpos \u2018d\u00f3ceis\u2019&#8221; (Ibid., p.162). Ou seja, as disciplinas utilizavam instrumentos simples, mas eficazes: \u201ca vigil\u00e2ncia hier\u00e1rquica\u201d &#8211; o olhar que obriga e controla-, \u201ca san\u00e7\u00e3o normalizadora\u201d &#8211; que reduz os desvios em rela\u00e7\u00e3o a uma norma-, \u201ce o exame\u201d &#8211; que combina a hierarquia e a san\u00e7\u00e3o para qualificar e classificar (Ibid., p.163).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na modernidade, com a reforma penal e o desaparecimento progressivo dos supl\u00edcios, o uso do medo n\u00e3o foi eliminado, mas sim transferido e otimizado, passando do terror f\u00edsico e intermitente para uma coer\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e cont\u00ednua: A penalidade reformada buscava um castigo que fosse racional e econ\u00f4mico. A longa dura\u00e7\u00e3o de uma pena, por exemplo, como priva\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, visava renovar incessantemente aos olhos do povo a lembran\u00e7a das leis, fazendo &#8220;a todos os momentos reviver um terror salutar&#8221; (Foucault, 1987, p. 128). O castigo passa a se dirigir \u00e0 alma, ao intelecto e \u00e0s representa\u00e7\u00f5es. O legislador deveria garantir que a ideia do supl\u00edcio (ou da desvantagem da pena) estivesse sempre presente no cora\u00e7\u00e3o do homem fraco e dominasse o sentimento que o arrastava para o crime.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em resumo, para Foucault a vigil\u00e2ncia, o espet\u00e1culo e o medo atuavam como motores hist\u00f3ricos, t\u00e9cnicos e econ\u00f4micos fundamentais, primeiro, como o objeto da pol\u00edtica ostensiva da soberania; depois, como o princ\u00edpio racionalizado de intimida\u00e7\u00e3o na reforma penal e a tens\u00e3o psicol\u00f3gica constante da vigil\u00e2ncia na sociedade disciplinar. Mas, a vigil\u00e2ncia e o espet\u00e1culo continuam como dispositivo central do governo dos corpos? O medo continua como afeto principal explorado nas din\u00e2micas de poder?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 not\u00e1vel que a vigil\u00e2ncia e o espet\u00e1culo continuam como dispositivos centrais nas din\u00e2micas de controle, por\u00e9m, mais desenvolvidos, variados e distribu\u00eddos. Estruturam-se entre c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia nas reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, semip\u00fablicas e privadas; sat\u00e9lites e aplicativos de geolocaliza\u00e7\u00e3o; algoritmos coletadores de rastros; <em>hardwares<\/em> e <em>softwares<\/em> de m\u00faltiplos modelos. As redes sociais, por exemplo, podem ser vistas como m\u00e1quinas de vigil\u00e2ncia, espet\u00e1culo e disciplina que, por\u00e9m, ultrapassam tanto o modelo pan\u00f3ptico de Bentham quanto qualquer outra tecnologia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Satisfa\u00e7\u00e3o e redes sociais digitais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas redes sociais digitais, a exposi\u00e7\u00e3o permanente e o espet\u00e1culo tornam\u2011se vetores essenciais de forma\u00e7\u00e3o subjetiva, ao passo que algoritmos e pr\u00e1ticas cotidianas entrela\u00e7am visibilidade, controle e resist\u00eancia. Essa din\u00e2mica retoma t\u00e9cnicas de ordenamento social descritas por Foucault (1987, p.\u202f33) em sua genealogia dos modos de governos medievais e modernos, e ganha maior amplitude e sutileza ao se apoiar em fluxos de dados e <em>feedbacks<\/em> em tempo real. Entretanto, o medo deixa de seu aparato econ\u00f4mico, dando espa\u00e7o para v\u00e1rios outros afetos &#8211; do encantamento e da empatia \u00e0 inveja e ao ressentimento &#8211; gerada e amplificada por indiv\u00edduos, coletivos e institui\u00e7\u00f5es; por meios das curtidas, coment\u00e1rios dentre outros recursos. Essa multiplicidade de afetos n\u00e3o apenas fortalece as din\u00e2micas de vigil\u00e2ncia, tornando-as mais difusas e descentralizadas, mas tamb\u00e9m sustenta circuitos de engajamento e consumo que atravessam a experi\u00eancia dentro e fora do digital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, percebo que na contemporaneidade, embora a alma permane\u00e7a o alvo central da puni\u00e7\u00e3o &#8211; tal como na sociedade disciplinar (Foucault, 1987, p.\u202f20) -, as novas tecnologias de visibilidade, especialmente as redes sociais, deslocam-se para uma \u2018disciplina por recompensa\u2019: em vez da coer\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, operam, especialmente, por meio de est\u00edmulos e refor\u00e7os positivos que incentivam comportamentos desejados (normas), tornando o controle mais sutil e adaptativo. Narrativas centradas na prosperidade, no autocontrole emocional e no otimismo, amplamente difundidas por discursos da psicologia positiva e <em>coaching<\/em>, contribuem para a constru\u00e7\u00e3o de um \u201cnovo normal\u201d pautado na obriga\u00e7\u00e3o de ser feliz, deslocando quest\u00f5es estruturais e pol\u00edticas para o \u00e2mbito da responsabilidade individual (Cabanas e Illouz, 2018, p. 151).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Penso que na contemporaneidade, por meio da \u201cvirada dem\u00f3tica\u201d a ostenta\u00e7\u00e3o do soberano ou no vigia do pan\u00f3ptico \u00e9 reposicionada, migrando para o indiv\u00edduo comum, fazendo de cada perfil <em>online<\/em> um potencial agente de vigil\u00e2ncia e autovigil\u00e2ncia (Silva, 2021). Assim, em lugar da coer\u00e7\u00e3o direta sobre corpo ou alma, as plataformas valem-se de uma sujei\u00e7\u00e3o mais sutil, alicer\u00e7ada em recompensas infinitas \u2014 curtidas, compartilhamentos, coment\u00e1rios e <em>Feeds<\/em> moldados aos gostos individuais \u2014 que refor\u00e7am continuamente padr\u00f5es de comportamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o obstante que no ano passado, 2024, o termo <em>&#8216;brain<\/em> <em>rot&#8217;<\/em> (deteriora\u00e7\u00e3o cerebral) foi eleita a palavra do ano pelo Dicion\u00e1rio <em>Oxford<\/em>, um conceito popularizado pela Gera\u00e7\u00e3o Z para descrever a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e9voa mental e o decl\u00ednio cognitivo associados \u00e0 &#8216;rolagem infinita&#8217; (<em>infinite<\/em> <em>scrolling<\/em>). Outrossim, um estudo publicado na revista <em>NeuroImage<\/em> investigou os efeitos psicol\u00f3gicos e neurol\u00f3gicos do v\u00edcio em v\u00eddeos curtos, combinando an\u00e1lise comportamental, imagens cerebrais e modelos computacionais de decis\u00e3o. Os resultados revelam que o consumo excessivo desse tipo de conte\u00fado interfere na forma como o c\u00e9rebro processa recompensas, riscos e escolhas, tendo como consequ\u00eancias principais o processamento de informa\u00e7\u00e3o mais lento, fadiga mental e decis\u00f5es menos eficientes (Liu, et. al., 2025, p. 9).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das rolagens infinitas, h\u00e1 os efeitos gerados por IA, a ultra-alta qualidade de defini\u00e7\u00e3o de imagem e a variedade de recursos de edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos (cortes r\u00e1pidos, sons saturados), que tornam os microv\u00eddeos est\u00edmulos cada vez mais potentes. Os algoritmos de recomenda\u00e7\u00e3o tanto facilitam o acesso ao conte\u00fado, como otimizam a entrega dos est\u00edmulos dopamin\u00e9rgicos, pois ao aprenderem e preverem o que captura a aten\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio, criam um fluxo incessante de recompensas imediatas, arquitetando o consumo compulsivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre os diversos afetos mobilizados nas redes sociais, a satisfa\u00e7\u00e3o (ou o \u2018gozo\u2019) distingue\u2011se pela sua natureza ef\u00eamera e orientada ao imediato, configura\u2011se como um prazer pontual, estreitamente ligado a est\u00edmulos externos e \u00e0 libera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de dopamina no sistema l\u00edmbico humano (Courtwright, 2019, p.10). Estudos em neuroci\u00eancia evidenciam que essa descarga <em>phasic<\/em> de dopamina (principal neurotransmissor da motiva\u00e7\u00e3o) refor\u00e7a comportamentos de busca por recompensas instant\u00e2neas, criando um circuito de <em>feedback<\/em> positivo que sustenta o consumo compulsivo de conte\u00fados digitais, como os famosos microv\u00eddeos do <em>Instagram<\/em>, \u201cnarrativas da dopamina\u201d.&nbsp; Isto \u00e9, o ac\u00famulo do prazer na sociedade contempor\u00e2nea (seja por meio de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas, pornografias, redes sociais entre outras formas de consumo) estrutura uma economia de dopamina que t\u00eam por consequ\u00eancia muitos danos para a sa\u00fade individual e coletiva (Lembke 2022, p.183).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Perspectivas da neuroci\u00eancia e da psican\u00e1lise sobre o medo e a satisfa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com o <em>Oxford English Dictionary<\/em> medo e a satisfa\u00e7\u00e3o s\u00e3o emo\u00e7\u00f5es (manifesta\u00e7\u00f5es ps\u00edquico-f\u00edsicas mais r\u00e1pidas e fortemente ligadas a excita\u00e7\u00e3o corporal). O medo \u00e9 um estado afetivo aversivo e de alto excita\u00e7\u00e3o, desencadeado pela percep\u00e7\u00e3o ou avalia\u00e7\u00e3o de uma amea\u00e7a real ou potencial; mobiliza respostas fisiol\u00f3gicas imediatas (taquicardia, sudorese, ativa\u00e7\u00e3o do eixo HPA), orienta comportamentos de fuga, evita\u00e7\u00e3o ou imobiliza\u00e7\u00e3o e tem fun\u00e7\u00e3o adaptativa de prote\u00e7\u00e3o da integridade corporal e da vida. Cognitivamente, envolve aprecia\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas de risco e conting\u00eancia, fen\u00f4meno cerebral fortemente associado \u00e0 ativa\u00e7\u00e3o da am\u00edgdala e de circuitos de resposta ao perigo (Oxford, 2025, s\/p).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 um estado afetivo positivo que sinaliza a consecu\u00e7\u00e3o de um fim, a redu\u00e7\u00e3o de uma necessidade ou o cumprimento de uma expectativa; costuma envolver sensa\u00e7\u00e3o de contentamento, bem-estar e redu\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o motivacional, favorecendo a aproxima\u00e7\u00e3o, a repeti\u00e7\u00e3o e a consolida\u00e7\u00e3o de comportamentos. Neurobiologicamente relaciona-se a circuitos de recompensa (sistema dopamin\u00e9rgico, estriado ventral) e, psicologicamente, promove sensa\u00e7\u00e3o de fechamento ou homeostase subjetiva, legitimando pr\u00e1ticas e h\u00e1bitos que a produziram (Courtweight, 2019, p. 17).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em contraste operativo: o medo orienta para prote\u00e7\u00e3o e evita\u00e7\u00e3o (ruptura da continuidade), enquanto a satisfa\u00e7\u00e3o orienta para manuten\u00e7\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o (reprodu\u00e7\u00e3o de comportamentos); ambos, por serem respostas ps\u00edquico-f\u00edsicas r\u00e1pidas e intensas, s\u00e3o centrais na forma\u00e7\u00e3o de subjetividades e na regula\u00e7\u00e3o social.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Freud, medo (<em>furcht<\/em>) \u00e9 a palavra empregada quando a ang\u00fastia encontrou um objeto e ang\u00fastia (<em>angst<\/em>) refere-se ao estado afetivo que possui uma qualidade de indetermina\u00e7\u00e3o e aus\u00eancia de objeto; \u00e9 um afeto prim\u00e1rio, intimamente ligado ao medo e a ansiedade (Freud, 1996 [1925-1926], p.103), atividade de todo o aparelho ps\u00edquico \u00e9 regulada pela s\u00e9rie de sensa\u00e7\u00f5es prazer-desprazer (Freud, 1996 [1925-1926], p. 59). De acordo com o psicanalista &#8211; no n\u00edvel mais fundamental da economia ps\u00edquica &#8211; a dor (ou desprazer) e a ang\u00fastia, s\u00e3o distintas, mas est\u00e3o intimamente ligadas em termos de origem, fun\u00e7\u00e3o de sinal e economia ps\u00edquica, sendo, por\u00e9m, opostas a satisfa\u00e7\u00e3o (prazer).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conclus\u00e3o&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise empreendida demonstra que as categorias foucaultianas \u2014 saber, poder e subjetividade \u2014 continuam heur\u00edsticas essenciais para compreender as transforma\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas do controle social: o deslocamento dos supl\u00edcios p\u00fablicos para as pris\u00f5es e, subsequentemente, para dispositivos digitais n\u00e3o eliminou a fun\u00e7\u00e3o reguladora do poder, apenas a redesenhou; hoje a vigil\u00e2ncia capilar se combina com regimes de recompensa e micro-refor\u00e7o, produzindo formas sutis de autovigil\u00e2ncia e normaliza\u00e7\u00e3o por meio da atra\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas do medo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mudan\u00e7a de polo \u2014 da primazia do terror para uma pluralidade de afetos, especialmente a satisfa\u00e7\u00e3o \u2014 amplia e torna mais difusa a governamentalidade, enquanto algoritmos e arquiteturas de intera\u00e7\u00e3o transformam os usu\u00e1rios em centros de observa\u00e7\u00e3o, classifica\u00e7\u00e3o e otimiza\u00e7\u00e3o, com impactos mensur\u00e1veis sobre a cogni\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade mental. As mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas possibilitam uma amplia\u00e7\u00e3o dos modos de governan\u00e7a, disciplinando por meio da satisfa\u00e7\u00e3o do consumo. Assim, a converg\u00eancia entre t\u00e9cnicas disciplinares cl\u00e1ssicas e dispositivos digitais configura um novo regime de subjetiva\u00e7\u00e3o que exige n\u00e3o s\u00f3 diagn\u00f3stico te\u00f3rico, mas tamb\u00e9m interven\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e pr\u00e1ticas coletivas capazes de problematizar as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas de possibilidade do presente e abrir espa\u00e7os para outras formas de cuidado de si e de resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Imagem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Obra &#8220;O Grito&#8221; de Edvard Munch. Fonte: Modificado por meio de IA<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CABANAS, Edgar; EVA, Illouz. <strong>Happycracia: C\u00f3mo la ciencia y la industria de la felicidad controlan nuestras vidas. <\/strong>&nbsp;Barcelona: Paid\u00f3s, 2019<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">COURTWRIGHT, <strong>David<\/strong> T. <strong>The Age of Addiction: How Bad Habits Became Big Business. <\/strong>Cambridge, MA: Belknap Press, 2019. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.4159\/9780674239241\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/doi.org\/10.4159\/9780674239241<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FREUD, Sigmund. <strong>Um estudo autobiogr\u00e1fico, inibi\u00e7\u00f5es, sintomas e ansiedade, an\u00e1lise leiga e outros trabalhos (1925 \u2013 1926)<\/strong>. v.20. S\u00e3o Paulo: Imago, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FOUCAULT, Michel.<strong> Vigiar e punir. <\/strong>Petr\u00f3polis: Vozes, 1987.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FOUCAULT, Michael. \u201cThe Subject and Power\u201d. In: <strong>DREYFUS, H.&amp; RABINOW, P. (eds). Michael Foucault: Beyond Structuralism and Hermeneutics<\/strong>. Chicago, II: University of Chigado Press, 1982.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LEMBKE, Anna. <strong>Na\u00e7\u00e3o dopamina: por que estamos viciados e como manter o equil\u00edbrio na era do excesso<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Julia Eliza M. Guimar\u00e3es. Rio de Janeiro: Zahar, 2022. 268p.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LIU, Chang; WANG, Jinlian; LI, Hanbing; SHANGGUAN, Qianyi; JIN, Weipeng; ZHU, Wenwei; WANG, Pinchun; CHEN, Xuyi; WANG, Qiang. Loss aversion and evidence accumulation in short-video addiction: a behavioral and neuroimaging investigation. <strong>NeuroImage<\/strong><strong><em>,<\/em><\/strong> v. 313 (121250), 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SATISFA\u00c7AO. In: <strong>Dicion\u00e1rio Oxford<\/strong>, [S. l.], [2025]. Dispon\u00edvel em: &lt;https:\/\/www.oxfordlearnersdictionaries.com\/us\/&gt;. Acesso em: 27\/10\/2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SILVA, Heriton Vin\u00edcios Serr\u00e3o. <strong>Subjetividades Instagram\u00e1veis, cartografias da autovigil\u00e2ncia no <\/strong><strong><em>Instagram<\/em><\/strong>. Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado apresentada ao Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Piau\u00ed \u2013 Teresina, 2021.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Vin\u00edcios Serr\u00e3o: Introdu\u00e7\u00e3o Este pequeno artigo tem como objetivo comparar os regimes de vigil\u00e2ncia e governamento descritos por Foucault (1987) com o atual modelo de vigil\u00e2ncia \u2014 em especial o imanente \u00e0s redes sociais \u2014 a partir de suas economias afetivas. Parto da hip\u00f3tese de que, enquanto nos regimes medievais e modernos o medo se apresentava como o afeto motor do poder espetacular, o regime contempor\u00e2neo das plataformas digitais articula uma governamentalidade centrada na satisfa\u00e7\u00e3o. Para analisar essa transforma\u00e7\u00e3o, mobilizo contribui\u00e7\u00f5es da psican\u00e1lise (Freud) e da neuroci\u00eancia cr\u00edtica (Courtwright; Lembke), buscando compreender como afetos distintos \u2014 medo e satisfa\u00e7\u00e3o \u2014 operam, legitimam e renovam as tecnologias de controle social. A genealogia do medo no sin\u00f3ptico e pan\u00f3ptico O fil\u00f3sofo e historiador Michel Foucault (1926-1984) dedicou seu lac\u00f4nico legado em estudar temas sociais inspirado pela fenomenologia, marxismo e filosofia existencial. A sua preocupa\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria era compreender \u201ccomo foi poss\u00edvel o que \u00e9?\u201d Em outras palavras, suas principais inquieta\u00e7\u00f5es giravam em torno da rela\u00e7\u00e3o entre saber, poder e subjetividade \u2014 ou seja, de que modo o conhecimento e as formas de poder produziam modos de ser, pensar e agir nos indiv\u00edduos e nas sociedades. Afirmou: \u201cmeu objetivo tem sido criar uma hist\u00f3ria dos diferentes modos pelos quais, na nossa cultura, os seres humanos s\u00e3o transformados em sujeitos\u201d (Foucault, 1982, p. 208). Um de seus textos mais conhecidos \u00e9 o Vigiar e punir (1987 [1975]), que trata fundamentalmente da hist\u00f3ria do direito penal e da hist\u00f3ria das pris\u00f5es. Em termos gerais, o livro se prop\u00f5e a tra\u00e7ar uma hist\u00f3ria correlativa da alma moderna e de um novo poder de julgar, apresentando uma genealogia do atual complexo cient\u00edfico-judici\u00e1rio onde o poder de punir se fundamenta e recebe suas regras. O tema central da obra \u00e9 a metamorfose dos m\u00e9todos punitivos que ocorreu na passagem dos castigos corporais e espetaculares (os supl\u00edcios) para o sistema carcer\u00e1rio moderno. Como bom historiador, Michel Foucault faz uma an\u00e1lise hist\u00f3rico-cr\u00edtica das formas de disciplinamento social e encontra pistas importantes nos modelos de puni\u00e7\u00e3o criados pelos governos ocidentais da Idade M\u00e9dia \u00e0 Moderna. Na Idade M\u00e9dia, o governo lan\u00e7ava m\u00e3o, mais especialmente, do espet\u00e1culo e da puni\u00e7\u00e3o sobre o corpo como forma de disciplinamento social. N\u00e3o obstante, no in\u00edcio de &#8220;Vigiar e punir&#8221; (1987), Foucault apresenta uma narra\u00e7\u00e3o em que um personagem \u00e9 brutalmente esquartejado e morto em espa\u00e7o p\u00fablico, em meio \u00e0 multid\u00e3o, retrato do que acontecia naquele per\u00edodo. O sin\u00f3ptico (que permite ver o conjunto em um s\u00f3 golpe de vista) era o principal dispositivo de controle social (muitos olham um). Nesse contexto, o medo era o principal afeto explorado: \u201cmelhor obedecer que ser esquartejado!\u201d&nbsp; A pol\u00edtica do medo tinha o objetivo de fazer com que a manifesta\u00e7\u00e3o do poder fosse sentida de forma intensa e aterradora: o castigo era executado em p\u00fablico para provocar um &#8220;efeito de terror&#8221; pelo espet\u00e1culo do poder triunfando sobre o culpado. Essa pol\u00edtica visava tornar sens\u00edvel a todos, sobre o corpo do criminoso, a presen\u00e7a encolerizada do soberano. O supl\u00edcio, ao inv\u00e9s de apenas restabelecer a justi\u00e7a, reativava o poder. A inten\u00e7\u00e3o era que o exemplo da pena ficasse profundamente inscrito no cora\u00e7\u00e3o dos homens (Foucault, 1987, p. 67). Na modernidade, houve uma complexifica\u00e7\u00e3o nas formas de controle por meio do sistema arquitet\u00f3nico prisional pan\u00f3ptico &#8211; que significa \u2018vis\u00e3o-total\u2019 (um vendo muitos) -, &#8220;desapareceu o corpo como alvo principal da repreens\u00e3o penal&#8221;, isto \u00e9, as repress\u00f5es penais deslocaram-se para a pris\u00e3o, conferindo uma &#8220;puni\u00e7\u00e3o restrita \u00e0 alma&#8221; (Foucault, 1987, p. 13), por meio do isolamento e repress\u00e3o sobre os corpos infratores. O pan\u00f3ptico se tratava de um edif\u00edcio em forma de c\u00edrculo, que no meio existia um p\u00e1tio com uma torre no centro. O anel se dividia em pequenas celas que davam tanto para o interior quanto para o exterior e no topo da torre havia um &#8220;poss\u00edvel&#8221; vigilante que podia ver todas as cabines\/prisioneiros, por\u00e9m, n\u00e3o poderia ser visto pelos prisioneiros, gra\u00e7as ao design engenhoso das janelas. O modelo de vigil\u00e2ncia identificado no pan\u00f3ptico, de acordo com Foucault (1987, p. 156), induzia ao detento &#8220;um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento autom\u00e1tico do poder&#8221;. \u00c9 sob essa percep\u00e7\u00e3o que o pensador conseguiu identificar que o governo cria dispositivos de poder que t\u00eam como objetivo disciplinar. As disciplinas operavam em uma escala \u2018infinitesimal\u2019 e minuciosa do controle (Ibid., p. 69). Elas n\u00e3o visavam o corpo &#8220;em massa&#8221;, mas sim o detalhe dos movimentos, gestos, atitudes e rapidez. O objetivo era fabricar &#8220;corpos submissos e exercitados, corpos \u2018d\u00f3ceis\u2019&#8221; (Ibid., p.162). Ou seja, as disciplinas utilizavam instrumentos simples, mas eficazes: \u201ca vigil\u00e2ncia hier\u00e1rquica\u201d &#8211; o olhar que obriga e controla-, \u201ca san\u00e7\u00e3o normalizadora\u201d &#8211; que reduz os desvios em rela\u00e7\u00e3o a uma norma-, \u201ce o exame\u201d &#8211; que combina a hierarquia e a san\u00e7\u00e3o para qualificar e classificar (Ibid., p.163). Na modernidade, com a reforma penal e o desaparecimento progressivo dos supl\u00edcios, o uso do medo n\u00e3o foi eliminado, mas sim transferido e otimizado, passando do terror f\u00edsico e intermitente para uma coer\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica e cont\u00ednua: A penalidade reformada buscava um castigo que fosse racional e econ\u00f4mico. A longa dura\u00e7\u00e3o de uma pena, por exemplo, como priva\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, visava renovar incessantemente aos olhos do povo a lembran\u00e7a das leis, fazendo &#8220;a todos os momentos reviver um terror salutar&#8221; (Foucault, 1987, p. 128). O castigo passa a se dirigir \u00e0 alma, ao intelecto e \u00e0s representa\u00e7\u00f5es. O legislador deveria garantir que a ideia do supl\u00edcio (ou da desvantagem da pena) estivesse sempre presente no cora\u00e7\u00e3o do homem fraco e dominasse o sentimento que o arrastava para o crime.&nbsp; Em resumo, para Foucault a vigil\u00e2ncia, o espet\u00e1culo e o medo atuavam como motores hist\u00f3ricos, t\u00e9cnicos e econ\u00f4micos fundamentais, primeiro, como o objeto da pol\u00edtica ostensiva da soberania; depois, como o princ\u00edpio racionalizado de intimida\u00e7\u00e3o na reforma penal e a tens\u00e3o psicol\u00f3gica constante da vigil\u00e2ncia na sociedade disciplinar. Mas, a vigil\u00e2ncia e o espet\u00e1culo continuam como dispositivo central do governo dos corpos? O medo continua como afeto principal explorado nas din\u00e2micas de poder? \u00c9 not\u00e1vel que a vigil\u00e2ncia e o espet\u00e1culo continuam como dispositivos centrais nas din\u00e2micas de controle, por\u00e9m, mais desenvolvidos, variados e distribu\u00eddos. Estruturam-se entre c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia nas reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, semip\u00fablicas e privadas; sat\u00e9lites e aplicativos de geolocaliza\u00e7\u00e3o; algoritmos coletadores de rastros; hardwares e softwares de m\u00faltiplos modelos. As redes sociais, por exemplo, podem ser vistas como m\u00e1quinas de vigil\u00e2ncia, espet\u00e1culo e disciplina que, por\u00e9m, ultrapassam tanto o modelo pan\u00f3ptico de Bentham quanto qualquer outra tecnologia.&nbsp; Satisfa\u00e7\u00e3o e redes sociais digitais Nas redes sociais digitais, a exposi\u00e7\u00e3o permanente e o espet\u00e1culo tornam\u2011se vetores essenciais de forma\u00e7\u00e3o subjetiva, ao passo que algoritmos e pr\u00e1ticas cotidianas entrela\u00e7am visibilidade, controle e resist\u00eancia. Essa din\u00e2mica retoma t\u00e9cnicas de ordenamento social descritas por Foucault (1987, p.\u202f33) em sua genealogia dos modos de governos medievais e modernos, e ganha maior amplitude e sutileza ao se apoiar em fluxos de dados e feedbacks em tempo real. Entretanto, o medo deixa de seu aparato econ\u00f4mico, dando espa\u00e7o para v\u00e1rios outros afetos &#8211; do encantamento e da empatia \u00e0 inveja e ao ressentimento &#8211; gerada e amplificada por indiv\u00edduos, coletivos e institui\u00e7\u00f5es; por meios das curtidas, coment\u00e1rios dentre outros recursos. Essa multiplicidade de afetos n\u00e3o apenas fortalece as din\u00e2micas de vigil\u00e2ncia, tornando-as mais difusas e descentralizadas, mas tamb\u00e9m sustenta circuitos de engajamento e consumo que atravessam a experi\u00eancia dentro e fora do digital.&nbsp; Al\u00e9m disso, percebo que na contemporaneidade, embora a alma permane\u00e7a o alvo central da puni\u00e7\u00e3o &#8211; tal como na sociedade disciplinar (Foucault, 1987, p.\u202f20) -, as novas tecnologias de visibilidade, especialmente as redes sociais, deslocam-se para uma \u2018disciplina por recompensa\u2019: em vez da coer\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, operam, especialmente, por meio de est\u00edmulos e refor\u00e7os positivos que incentivam comportamentos desejados (normas), tornando o controle mais sutil e adaptativo. Narrativas centradas na prosperidade, no autocontrole emocional e no otimismo, amplamente difundidas por discursos da psicologia positiva e coaching, contribuem para a constru\u00e7\u00e3o de um \u201cnovo normal\u201d pautado na obriga\u00e7\u00e3o de ser feliz, deslocando quest\u00f5es estruturais e pol\u00edticas para o \u00e2mbito da responsabilidade individual (Cabanas e Illouz, 2018, p. 151). Penso que na contemporaneidade, por meio da \u201cvirada dem\u00f3tica\u201d a ostenta\u00e7\u00e3o do soberano ou no vigia do pan\u00f3ptico \u00e9 reposicionada, migrando para o indiv\u00edduo comum, fazendo de cada perfil online um potencial agente de vigil\u00e2ncia e autovigil\u00e2ncia (Silva, 2021). Assim, em lugar da coer\u00e7\u00e3o direta sobre corpo ou alma, as plataformas valem-se de uma sujei\u00e7\u00e3o mais sutil, alicer\u00e7ada em recompensas infinitas \u2014 curtidas, compartilhamentos, coment\u00e1rios e Feeds moldados aos gostos individuais \u2014 que refor\u00e7am continuamente padr\u00f5es de comportamento. N\u00e3o obstante que no ano passado, 2024, o termo &#8216;brain rot&#8217; (deteriora\u00e7\u00e3o cerebral) foi eleita a palavra do ano pelo Dicion\u00e1rio Oxford, um conceito popularizado pela Gera\u00e7\u00e3o Z para descrever a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e9voa mental e o decl\u00ednio cognitivo associados \u00e0 &#8216;rolagem infinita&#8217; (infinite scrolling). Outrossim, um estudo publicado na revista NeuroImage investigou os efeitos psicol\u00f3gicos e neurol\u00f3gicos do v\u00edcio em v\u00eddeos curtos, combinando an\u00e1lise comportamental, imagens cerebrais e modelos computacionais de decis\u00e3o. Os resultados revelam que o consumo excessivo desse tipo de conte\u00fado interfere na forma como o c\u00e9rebro processa recompensas, riscos e escolhas, tendo como consequ\u00eancias principais o processamento de informa\u00e7\u00e3o mais lento, fadiga mental e decis\u00f5es menos eficientes (Liu, et. al., 2025, p. 9). Al\u00e9m das rolagens infinitas, h\u00e1 os efeitos gerados por IA, a ultra-alta qualidade de defini\u00e7\u00e3o de imagem e a variedade de recursos de edi\u00e7\u00e3o de v\u00eddeos (cortes r\u00e1pidos, sons saturados), que tornam os microv\u00eddeos est\u00edmulos cada vez mais potentes. Os algoritmos de recomenda\u00e7\u00e3o tanto facilitam o acesso ao conte\u00fado, como otimizam a entrega dos est\u00edmulos dopamin\u00e9rgicos, pois ao aprenderem e preverem o que captura a aten\u00e7\u00e3o do usu\u00e1rio, criam um fluxo incessante de recompensas imediatas, arquitetando o consumo compulsivo. Entre os diversos afetos mobilizados nas redes sociais, a satisfa\u00e7\u00e3o (ou o \u2018gozo\u2019) distingue\u2011se pela sua natureza ef\u00eamera e orientada ao imediato, configura\u2011se como um prazer pontual, estreitamente ligado a est\u00edmulos externos e \u00e0 libera\u00e7\u00e3o r\u00e1pida de dopamina no sistema l\u00edmbico humano (Courtwright, 2019, p.10). Estudos em neuroci\u00eancia evidenciam que essa descarga phasic de dopamina (principal neurotransmissor da motiva\u00e7\u00e3o) refor\u00e7a comportamentos de busca por recompensas instant\u00e2neas, criando um circuito de feedback positivo que sustenta o consumo compulsivo de conte\u00fados digitais, como os famosos microv\u00eddeos do Instagram, \u201cnarrativas da dopamina\u201d.&nbsp; Isto \u00e9, o ac\u00famulo do prazer na sociedade contempor\u00e2nea (seja por meio de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas, pornografias, redes sociais entre outras formas de consumo) estrutura uma economia de dopamina que t\u00eam por consequ\u00eancia muitos danos para a sa\u00fade individual e coletiva (Lembke 2022, p.183). Perspectivas da neuroci\u00eancia e da psican\u00e1lise sobre o medo e a satisfa\u00e7\u00e3o De acordo com o Oxford English Dictionary medo e a satisfa\u00e7\u00e3o s\u00e3o emo\u00e7\u00f5es (manifesta\u00e7\u00f5es ps\u00edquico-f\u00edsicas mais r\u00e1pidas e fortemente ligadas a excita\u00e7\u00e3o corporal). O medo \u00e9 um estado afetivo aversivo e de alto excita\u00e7\u00e3o, desencadeado pela percep\u00e7\u00e3o ou avalia\u00e7\u00e3o de uma amea\u00e7a real ou potencial; mobiliza respostas fisiol\u00f3gicas imediatas (taquicardia, sudorese, ativa\u00e7\u00e3o do eixo HPA), orienta comportamentos de fuga, evita\u00e7\u00e3o ou imobiliza\u00e7\u00e3o e tem fun\u00e7\u00e3o adaptativa de prote\u00e7\u00e3o da integridade corporal e da vida. Cognitivamente, envolve aprecia\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas de risco e conting\u00eancia, fen\u00f4meno cerebral fortemente associado \u00e0 ativa\u00e7\u00e3o da am\u00edgdala e de circuitos de resposta ao perigo (Oxford, 2025, s\/p). A satisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 um estado afetivo positivo que sinaliza a consecu\u00e7\u00e3o de um fim, a redu\u00e7\u00e3o de uma necessidade ou o cumprimento de uma expectativa; costuma envolver sensa\u00e7\u00e3o de contentamento, bem-estar e redu\u00e7\u00e3o da tens\u00e3o motivacional, favorecendo a aproxima\u00e7\u00e3o, a repeti\u00e7\u00e3o e a consolida\u00e7\u00e3o de comportamentos. Neurobiologicamente relaciona-se a circuitos de recompensa (sistema dopamin\u00e9rgico, estriado ventral) e, psicologicamente, promove sensa\u00e7\u00e3o de fechamento ou homeostase subjetiva, legitimando pr\u00e1ticas e h\u00e1bitos que a produziram (Courtweight, 2019, p. 17).&nbsp; Em contraste operativo: o medo orienta para prote\u00e7\u00e3o e evita\u00e7\u00e3o (ruptura da continuidade), enquanto a satisfa\u00e7\u00e3o orienta para manuten\u00e7\u00e3o e repeti\u00e7\u00e3o (reprodu\u00e7\u00e3o de comportamentos); ambos, por serem respostas ps\u00edquico-f\u00edsicas r\u00e1pidas e intensas, s\u00e3o centrais na forma\u00e7\u00e3o de subjetividades e na regula\u00e7\u00e3o social.&nbsp; Para Freud, medo (furcht) \u00e9 a palavra empregada quando a ang\u00fastia encontrou um objeto e ang\u00fastia (angst) refere-se ao estado afetivo que possui&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":232,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-231","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/231","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=231"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/231\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":234,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/231\/revisions\/234"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media\/232"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=231"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=231"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=231"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}