{"id":282,"date":"2026-05-05T17:45:36","date_gmt":"2026-05-05T20:45:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/?p=282"},"modified":"2026-05-05T17:45:37","modified_gmt":"2026-05-05T20:45:37","slug":"mnemosine-hypomnemata-memoria-como-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/2026\/05\/05\/mnemosine-hypomnemata-memoria-como-midia\/","title":{"rendered":"Mnem\u00f3sine, Hypomnemata: mem\u00f3ria como m\u00eddia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Rodrigo Fernandez<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mnem\u00f3sine, tit\u00e2nide e deusa da mem\u00f3ria, filha de Urano com Gaia, deu \u00e0 luz nove musas, cada uma respons\u00e1vel por representar um punhado de pr\u00e1ticas: Cal\u00edope era dedicada \u00e0 poesia \u00e9pica; Clio \u00e0 hist\u00f3ria, Euterpe \u00e0 m\u00fasica e Ur\u00e2nia \u00e0 astronomia. A mem\u00f3ria, na alegoria mitol\u00f3gica grega, \u00e9 a matriz de onde descende uma ampla variedade de cria\u00e7\u00f5es \u2014 das po\u00e9ticas \u00e0s pragm\u00e1ticas. Em Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles e, mais tarde, nos sistemas ret\u00f3ricos latinos, como o de C\u00edcero, a mem\u00f3ria \u00e9 gradualmente despojada de sua ancoragem m\u00edtica e reinscrita no dom\u00ednio das faculdades humanas, passando por um processo de seculariza\u00e7\u00e3o conceitual. Essa passagem, no entanto, resguardou ao menos uma caracter\u00edstica que, aqui, gostar\u00edamos de destacar \u2014 sen\u00e3o como hip\u00f3tese, como imagem produtiva: ela permanece sendo concebida a partir das rela\u00e7\u00f5es tensas que estabelece com os meios que dispomos para exterioriz\u00e1-la.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Herman Parret (2004, p. 39) argumenta que o funcionamento da mem\u00f3ria pode ser descrito como <em>quasi-<\/em>arquiv\u00edstico: \u201cuma mem\u00f3ria sem ordenamento seria como uma biblioteca sem cat\u00e1logo\u201d. Qualquer opera\u00e7\u00e3o mnem\u00f4nica dependeria, em alguma medida, de triagem e organiza\u00e7\u00e3o. Serge Margel (2017, p. 126) \u00e9 ainda mais radical: segundo ele, \u201cj\u00e1 existe mem\u00f3ria na fala e arquivo na mem\u00f3ria; portanto, que n\u00e3o h\u00e1 fala, nem gesto, nem voz, nem tampouco sopro, olhar, escuta, sem um arquivo\u201d. \u00c9 uma hip\u00f3tese forte, potencialmente generalizante e dif\u00edcil de assinar embaixo, mas que serve como exemplo desse imbr\u00f3glio cuja genealogia remete ao menos a Plat\u00e3o, que na sua descri\u00e7\u00e3o farmacol\u00f3gica da escrita j\u00e1 sugere um entendimento da mem\u00f3ria nos termos de uma tecnologia de inscri\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diremos, pois, que se trata de uma d\u00e1diva de Mnemenosine, m\u00e3e das Musas, e que sempre que queremos lembrar-nos de algo visto ou ouvido, ou mesmo pensado, calcamos a cera mole sobre nossas sensa\u00e7\u00f5es ou pensamentos e nela os <em>gravamos em relevo<\/em>, como se d\u00e1 com os sinetes dos an\u00e9is. Do que fica <em>impresso<\/em>, temos lembran\u00e7a \u0435 conhecimento enquanto persiste a imagem; o que se apaga ou n\u00e3o p\u00f4de ser impresso, esquecemos e ignoramos (Plat\u00e3o, [369 AEC] 1988, p. 71, grifos nossos).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda segundo Parret (2004), da mesma maneira, as elabora\u00e7\u00f5es sobre a mem\u00f3ria tanto de Arist\u00f3teles quanto de Santo Agostinho s\u00e3o atravessadas pela ideia de uma superf\u00edcie em que se incide uma inscri\u00e7\u00e3o; Freud tamb\u00e9m pensa no seu funcionamento a partir do peculiar Bloco M\u00e1gico [<em>Wunderblock<\/em>] e Kittler (2019, p. 58\u201359) a aproxima do funcionamento do fon\u00f3grafo \u2014 em uma bonita passagem, o te\u00f3rico alem\u00e3o das m\u00eddias prop\u00f5e que o c\u00e9rebro, assim como a fonografia, ap\u00f3s receber e preservar uma grava\u00e7\u00e3o, pode traz\u00ea-la de volta \u00e0 vida incitando novas vibra\u00e7\u00f5es no objeto. A primeira inscri\u00e7\u00e3o \u00e9 violenta e desestabilizadora, mas o movimento de seguir a lembran\u00e7a \u00e9 o de deixar-se deslizar ao longo de uma inclina\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tend\u00eancia a pensar os mecanismos mnem\u00f4nicos a partir dos meios de sua passagem \u00e0 exterioridade parece ser resultado de uma inevit\u00e1vel constata\u00e7\u00e3o: toda mem\u00f3ria \u00e9 confrontada pela sua \u201cpossibilidade de perda, sua insufici\u00eancia ou, mais ainda, sua incapacidade de conservar a singularidade de uma fala\u201d (Margel, 2017, p. 127). Freud \u00e9 categ\u00f3rico em dizer que temos motivos para desconfiar da nossa pr\u00f3pria mem\u00f3ria; \u00e9 poss\u00edvel, no entanto, diz o austr\u00edaco, \u201ccompletar e garantir sua fun\u00e7\u00e3o tomando notas\u201d (Freud, 2001, p. 242). \u00c9 dessa falta origin\u00e1ria da mem\u00f3ria viva e interior, por consequ\u00eancia, que decorre a divis\u00e3o grega entre <em>anamn\u00e9sis<\/em>, a mem\u00f3ria primeira, psicol\u00f3gica e acess\u00edvel pela cogni\u00e7\u00e3o, e seu suplemento: <em>hyp\u00f3mnema<\/em>, \u201ca mem\u00f3ria instrumental, a mem\u00f3ria t\u00e9cnica, mnemot\u00e9cnica, gr\u00e1fica, iconogr\u00e1fica, em breve fotogr\u00e1fica e \u00e1udio-videogr\u00e1fica\u201d (Margel, 2017, p. 128).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freud (2011) descreve, no entanto, em um curto e sucinto texto, o problema que atravessaria a maior parte das t\u00e9cnicas de <em>hypomnemata<\/em>: quase nenhuma estaria adequadamente projetada \u00e0 semelhan\u00e7a do nosso aparelho ps\u00edquico. Por um lado, suportes como o papel preservam suas notas por tempo indeterminado, mas rapidamente se exaurem porque, claro, o espa\u00e7o termina. Uma lousa grafada com giz, ao contr\u00e1rio, pode ter as anota\u00e7\u00f5es apagadas sem dano significativo ao suporte e, com isso, receber anota\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas, mas n\u00e3o duradouras. Nossa cogni\u00e7\u00e3o, numa terceira via, \u201ctem ilimitada capacidade de receber novas percep\u00e7\u00f5es e cria duradouros \u2014 mas n\u00e3o imut\u00e1veis \u2014 tra\u00e7os mnem\u00f4nicos delas\u201d (Freud, 2011, p. 243). O modelo adequado de representa\u00e7\u00e3o do aparelho ps\u00edquico seria o simples Bloco M\u00e1gico: \u201cuma tabuinha de escrever em que as anota\u00e7\u00f5es podem ser apagadas com um simples movimento de m\u00e3o\u201d (Freud, 2011, p. 244). Feita de cera ou resina, sobre as margens de papel\u00e3o h\u00e1 uma fina e transl\u00facida folha, presa \u00e0 cera na parte de cima e livre na parte de baixo. A folha possui duas camadas, sendo a de cima uma pel\u00edcula de celul\u00f3ide transparente e a de baixo um papel encerado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao utiliz\u00e1-lo, escreve-se na pel\u00edcula com um estilete que arranha a superf\u00edcie, mas n\u00e3o age diretamente na cera. Ao inv\u00e9s disso, \u201cpressiona o verso do papel encerado contra a tabuinha de cera, nos locais em que toca, e as ranhuras tornam-se vis\u00edveis como caracteres escuros\u201d (Freud, 2011, p. 244). Levantando cuidadosamente a folha de celul\u00f3ide, o contato do papel encerado com o fundo do aparelho \u00e9 desfeito. A inscri\u00e7\u00e3o se apaga e o bloco fica vazio, mas com um detalhe: levantando a cobertura inteira, celul\u00f3ide e papel de cera, se percebe que o que foi escrito segue grafado ao fundo da t\u00e1bua e, em ilumina\u00e7\u00e3o adequada, pode ser lido. Essa seria precisamente a forma de opera\u00e7\u00e3o da nossa mem\u00f3ria:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s possuir\u00edamos um sistema Pcp-Cs, que acolhe as percep\u00e7\u00f5es mas n\u00e3o conserva tra\u00e7o duradouro delas, podendo se comportar como uma folha em branco diante de cada nova percep\u00e7\u00e3o. Os tra\u00e7os duradouros das excita\u00e7\u00f5es recebidas se produziriam em \u201csistemas mnem\u00f4nicos\u201d situados por tr\u00e1s dele (Freud, 2011, p. 243).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Indo al\u00e9m, Freud prop\u00f5e que a consci\u00eancia resulta de um funcionamento descont\u00ednuo do sistema perceptivo: ele \u00e9 periodicamente ativado pelo inconsciente para captar est\u00edmulos e imediatamente desativado, deixando apenas seus tra\u00e7os na mem\u00f3ria profunda, continuamente grafados uns sobre os outros. Essa pulsa\u00e7\u00e3o explicaria a seletividade da percep\u00e7\u00e3o e seria perfeitamente figurada por uma opera\u00e7\u00e3o do Bloco M\u00e1gico em que, de maneira intermitente, uma m\u00e3o escreve e a outra levanta a folha de cobertura. De toda forma, a partir desse modelo baseado em um peculiar instrumento de inscri\u00e7\u00e3o, a psican\u00e1lise demarca sua concep\u00e7\u00e3o de um \u201carquivo ps\u00edquico\u201d (Derrida, 2001, p. 31). Nele, segundo a leitura derrideana, constitui-se numa esp\u00e9cie de exterioridade mesmo <em>no interior<\/em> \u2014 um \u201cexterior dom\u00e9stico\u201d, que \u201cn\u00e3o se reduz nem a <em>mneme <\/em>nem a <em>anamnesis<\/em>\u201d (Derrida, 2001, p. 119), baseado portanto numa <em>superf\u00edcie <\/em>sem a qual \u201cn\u00e3o h\u00e1 nem consigna\u00e7\u00e3o, registro ou impress\u00e3o nem repress\u00e3o, censura ou recalque\u201d (Derrida, 2001, p. 31).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O modelo freudiano da mem\u00f3ria, na leitura de Derrida, \u00e9 resultado direto da op\u00e7\u00e3o de descrev\u00ea-lo \u00e0 exemplo do Bloco M\u00e1gico e n\u00e3o de outras t\u00e9cnicas que lhe eram contempor\u00e2neas. A partir disso, o fil\u00f3sofo franco-argelino levanta, retoricamente, duas hip\u00f3teses irredut\u00edveis uma \u00e0 outra: (1) a mudan\u00e7a nas t\u00e9cnicas de arquivamento levaria a um \u201cprogresso cont\u00ednuo na representa\u00e7\u00e3o\u201d do aparelho ps\u00edquico; ou (2) a mudan\u00e7a nas t\u00e9cnicas de arquivamento faria com que o aparelho ps\u00edquico fosse <em>diretamente afetado<\/em> por esses dispositivos. Qualquer que fosse a resposta, a premissa de fundo \u00e9 a mesma: uma mudan\u00e7a nas tecnologias mediais descritas por Freud ou no ambiente midi\u00e1tico no qual escreveu n\u00e3o ocasionaria apenas um ajuste no estatuto de conserva\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria da psican\u00e1lise que se desenrolaria da mesma forma, mas uma transforma\u00e7\u00e3o radical no seu pr\u00f3prio arquivo e, assim, em todo o pensamento do s\u00e9culo XX. Nisso, Derrida se enreda em uma empreitada at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita, como nota Elsaesser (2009), de ler Freud como um te\u00f3rico da m\u00eddia que haveria enfim sistematizado a tomada da mem\u00f3ria como um aparelho de inscri\u00e7\u00e3o e armazenamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DERRIDA, Jacques. <strong>Mal de arquivo: uma impress\u00e3o freudiana<\/strong>. Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1, 2001.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ELSAESSER, Thomas. Freud as a media theorist: Mystic Writing Pads and the matter of memory. <strong>Screen<\/strong>, Oxford, v. 50, n. 1, p. 100\u2013113, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FREUD, Sigmund. Nota sobre o \u201cBloco M\u00e1gico\u201d (1925). In: FREUD, Sigmund. <strong>O eu e o id, autobiografia e outros textos (1923\u20131925)<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KITTLER, Friedrich. <strong>Gramofone, filme, typewriter<\/strong>. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2019.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">MARGEL, Serge. <strong>Arqueologias do fantasma (t\u00e9cnica, cinema, etnografia, arquivo)<\/strong>. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2017.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PARRET, Herman. Vestige, archive et trace: pr\u00e9sences du temps pass\u00e9. <strong>Prot\u00e9e<\/strong>, v. 32, n. 2, p. 37\u201346, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">PLAT\u00c3O. <strong>Teeteto; Cr\u00e1tilo<\/strong>. Bel\u00e9m: Universidade Federal do Par\u00e1, 1988.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Rodrigo Fernandez Mnem\u00f3sine, tit\u00e2nide e deusa da mem\u00f3ria, filha de Urano com Gaia, deu \u00e0 luz nove musas, cada uma respons\u00e1vel por representar um punhado de pr\u00e1ticas: Cal\u00edope era dedicada \u00e0 poesia \u00e9pica; Clio \u00e0 hist\u00f3ria, Euterpe \u00e0 m\u00fasica e Ur\u00e2nia \u00e0 astronomia. A mem\u00f3ria, na alegoria mitol\u00f3gica grega, \u00e9 a matriz de onde descende uma ampla variedade de cria\u00e7\u00f5es \u2014 das po\u00e9ticas \u00e0s pragm\u00e1ticas. Em Plat\u00e3o e Arist\u00f3teles e, mais tarde, nos sistemas ret\u00f3ricos latinos, como o de C\u00edcero, a mem\u00f3ria \u00e9 gradualmente despojada de sua ancoragem m\u00edtica e reinscrita no dom\u00ednio das faculdades humanas, passando por um processo de seculariza\u00e7\u00e3o conceitual. Essa passagem, no entanto, resguardou ao menos uma caracter\u00edstica que, aqui, gostar\u00edamos de destacar \u2014 sen\u00e3o como hip\u00f3tese, como imagem produtiva: ela permanece sendo concebida a partir das rela\u00e7\u00f5es tensas que estabelece com os meios que dispomos para exterioriz\u00e1-la.&nbsp; Herman Parret (2004, p. 39) argumenta que o funcionamento da mem\u00f3ria pode ser descrito como quasi-arquiv\u00edstico: \u201cuma mem\u00f3ria sem ordenamento seria como uma biblioteca sem cat\u00e1logo\u201d. Qualquer opera\u00e7\u00e3o mnem\u00f4nica dependeria, em alguma medida, de triagem e organiza\u00e7\u00e3o. Serge Margel (2017, p. 126) \u00e9 ainda mais radical: segundo ele, \u201cj\u00e1 existe mem\u00f3ria na fala e arquivo na mem\u00f3ria; portanto, que n\u00e3o h\u00e1 fala, nem gesto, nem voz, nem tampouco sopro, olhar, escuta, sem um arquivo\u201d. \u00c9 uma hip\u00f3tese forte, potencialmente generalizante e dif\u00edcil de assinar embaixo, mas que serve como exemplo desse imbr\u00f3glio cuja genealogia remete ao menos a Plat\u00e3o, que na sua descri\u00e7\u00e3o farmacol\u00f3gica da escrita j\u00e1 sugere um entendimento da mem\u00f3ria nos termos de uma tecnologia de inscri\u00e7\u00e3o: Diremos, pois, que se trata de uma d\u00e1diva de Mnemenosine, m\u00e3e das Musas, e que sempre que queremos lembrar-nos de algo visto ou ouvido, ou mesmo pensado, calcamos a cera mole sobre nossas sensa\u00e7\u00f5es ou pensamentos e nela os gravamos em relevo, como se d\u00e1 com os sinetes dos an\u00e9is. Do que fica impresso, temos lembran\u00e7a \u0435 conhecimento enquanto persiste a imagem; o que se apaga ou n\u00e3o p\u00f4de ser impresso, esquecemos e ignoramos (Plat\u00e3o, [369 AEC] 1988, p. 71, grifos nossos). Ainda segundo Parret (2004), da mesma maneira, as elabora\u00e7\u00f5es sobre a mem\u00f3ria tanto de Arist\u00f3teles quanto de Santo Agostinho s\u00e3o atravessadas pela ideia de uma superf\u00edcie em que se incide uma inscri\u00e7\u00e3o; Freud tamb\u00e9m pensa no seu funcionamento a partir do peculiar Bloco M\u00e1gico [Wunderblock] e Kittler (2019, p. 58\u201359) a aproxima do funcionamento do fon\u00f3grafo \u2014 em uma bonita passagem, o te\u00f3rico alem\u00e3o das m\u00eddias prop\u00f5e que o c\u00e9rebro, assim como a fonografia, ap\u00f3s receber e preservar uma grava\u00e7\u00e3o, pode traz\u00ea-la de volta \u00e0 vida incitando novas vibra\u00e7\u00f5es no objeto. A primeira inscri\u00e7\u00e3o \u00e9 violenta e desestabilizadora, mas o movimento de seguir a lembran\u00e7a \u00e9 o de deixar-se deslizar ao longo de uma inclina\u00e7\u00e3o.&nbsp; A tend\u00eancia a pensar os mecanismos mnem\u00f4nicos a partir dos meios de sua passagem \u00e0 exterioridade parece ser resultado de uma inevit\u00e1vel constata\u00e7\u00e3o: toda mem\u00f3ria \u00e9 confrontada pela sua \u201cpossibilidade de perda, sua insufici\u00eancia ou, mais ainda, sua incapacidade de conservar a singularidade de uma fala\u201d (Margel, 2017, p. 127). Freud \u00e9 categ\u00f3rico em dizer que temos motivos para desconfiar da nossa pr\u00f3pria mem\u00f3ria; \u00e9 poss\u00edvel, no entanto, diz o austr\u00edaco, \u201ccompletar e garantir sua fun\u00e7\u00e3o tomando notas\u201d (Freud, 2001, p. 242). \u00c9 dessa falta origin\u00e1ria da mem\u00f3ria viva e interior, por consequ\u00eancia, que decorre a divis\u00e3o grega entre anamn\u00e9sis, a mem\u00f3ria primeira, psicol\u00f3gica e acess\u00edvel pela cogni\u00e7\u00e3o, e seu suplemento: hyp\u00f3mnema, \u201ca mem\u00f3ria instrumental, a mem\u00f3ria t\u00e9cnica, mnemot\u00e9cnica, gr\u00e1fica, iconogr\u00e1fica, em breve fotogr\u00e1fica e \u00e1udio-videogr\u00e1fica\u201d (Margel, 2017, p. 128). Freud (2011) descreve, no entanto, em um curto e sucinto texto, o problema que atravessaria a maior parte das t\u00e9cnicas de hypomnemata: quase nenhuma estaria adequadamente projetada \u00e0 semelhan\u00e7a do nosso aparelho ps\u00edquico. Por um lado, suportes como o papel preservam suas notas por tempo indeterminado, mas rapidamente se exaurem porque, claro, o espa\u00e7o termina. Uma lousa grafada com giz, ao contr\u00e1rio, pode ter as anota\u00e7\u00f5es apagadas sem dano significativo ao suporte e, com isso, receber anota\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas, mas n\u00e3o duradouras. Nossa cogni\u00e7\u00e3o, numa terceira via, \u201ctem ilimitada capacidade de receber novas percep\u00e7\u00f5es e cria duradouros \u2014 mas n\u00e3o imut\u00e1veis \u2014 tra\u00e7os mnem\u00f4nicos delas\u201d (Freud, 2011, p. 243). O modelo adequado de representa\u00e7\u00e3o do aparelho ps\u00edquico seria o simples Bloco M\u00e1gico: \u201cuma tabuinha de escrever em que as anota\u00e7\u00f5es podem ser apagadas com um simples movimento de m\u00e3o\u201d (Freud, 2011, p. 244). Feita de cera ou resina, sobre as margens de papel\u00e3o h\u00e1 uma fina e transl\u00facida folha, presa \u00e0 cera na parte de cima e livre na parte de baixo. A folha possui duas camadas, sendo a de cima uma pel\u00edcula de celul\u00f3ide transparente e a de baixo um papel encerado.&nbsp; Ao utiliz\u00e1-lo, escreve-se na pel\u00edcula com um estilete que arranha a superf\u00edcie, mas n\u00e3o age diretamente na cera. Ao inv\u00e9s disso, \u201cpressiona o verso do papel encerado contra a tabuinha de cera, nos locais em que toca, e as ranhuras tornam-se vis\u00edveis como caracteres escuros\u201d (Freud, 2011, p. 244). Levantando cuidadosamente a folha de celul\u00f3ide, o contato do papel encerado com o fundo do aparelho \u00e9 desfeito. A inscri\u00e7\u00e3o se apaga e o bloco fica vazio, mas com um detalhe: levantando a cobertura inteira, celul\u00f3ide e papel de cera, se percebe que o que foi escrito segue grafado ao fundo da t\u00e1bua e, em ilumina\u00e7\u00e3o adequada, pode ser lido. Essa seria precisamente a forma de opera\u00e7\u00e3o da nossa mem\u00f3ria: N\u00f3s possuir\u00edamos um sistema Pcp-Cs, que acolhe as percep\u00e7\u00f5es mas n\u00e3o conserva tra\u00e7o duradouro delas, podendo se comportar como uma folha em branco diante de cada nova percep\u00e7\u00e3o. Os tra\u00e7os duradouros das excita\u00e7\u00f5es recebidas se produziriam em \u201csistemas mnem\u00f4nicos\u201d situados por tr\u00e1s dele (Freud, 2011, p. 243). Indo al\u00e9m, Freud prop\u00f5e que a consci\u00eancia resulta de um funcionamento descont\u00ednuo do sistema perceptivo: ele \u00e9 periodicamente ativado pelo inconsciente para captar est\u00edmulos e imediatamente desativado, deixando apenas seus tra\u00e7os na mem\u00f3ria profunda, continuamente grafados uns sobre os outros. Essa pulsa\u00e7\u00e3o explicaria a seletividade da percep\u00e7\u00e3o e seria perfeitamente figurada por uma opera\u00e7\u00e3o do Bloco M\u00e1gico em que, de maneira intermitente, uma m\u00e3o escreve e a outra levanta a folha de cobertura. De toda forma, a partir desse modelo baseado em um peculiar instrumento de inscri\u00e7\u00e3o, a psican\u00e1lise demarca sua concep\u00e7\u00e3o de um \u201carquivo ps\u00edquico\u201d (Derrida, 2001, p. 31). Nele, segundo a leitura derrideana, constitui-se numa esp\u00e9cie de exterioridade mesmo no interior \u2014 um \u201cexterior dom\u00e9stico\u201d, que \u201cn\u00e3o se reduz nem a mneme nem a anamnesis\u201d (Derrida, 2001, p. 119), baseado portanto numa superf\u00edcie sem a qual \u201cn\u00e3o h\u00e1 nem consigna\u00e7\u00e3o, registro ou impress\u00e3o nem repress\u00e3o, censura ou recalque\u201d (Derrida, 2001, p. 31).&nbsp; O modelo freudiano da mem\u00f3ria, na leitura de Derrida, \u00e9 resultado direto da op\u00e7\u00e3o de descrev\u00ea-lo \u00e0 exemplo do Bloco M\u00e1gico e n\u00e3o de outras t\u00e9cnicas que lhe eram contempor\u00e2neas. A partir disso, o fil\u00f3sofo franco-argelino levanta, retoricamente, duas hip\u00f3teses irredut\u00edveis uma \u00e0 outra: (1) a mudan\u00e7a nas t\u00e9cnicas de arquivamento levaria a um \u201cprogresso cont\u00ednuo na representa\u00e7\u00e3o\u201d do aparelho ps\u00edquico; ou (2) a mudan\u00e7a nas t\u00e9cnicas de arquivamento faria com que o aparelho ps\u00edquico fosse diretamente afetado por esses dispositivos. Qualquer que fosse a resposta, a premissa de fundo \u00e9 a mesma: uma mudan\u00e7a nas tecnologias mediais descritas por Freud ou no ambiente midi\u00e1tico no qual escreveu n\u00e3o ocasionaria apenas um ajuste no estatuto de conserva\u00e7\u00e3o de uma hist\u00f3ria da psican\u00e1lise que se desenrolaria da mesma forma, mas uma transforma\u00e7\u00e3o radical no seu pr\u00f3prio arquivo e, assim, em todo o pensamento do s\u00e9culo XX. Nisso, Derrida se enreda em uma empreitada at\u00e9 ent\u00e3o in\u00e9dita, como nota Elsaesser (2009), de ler Freud como um te\u00f3rico da m\u00eddia que haveria enfim sistematizado a tomada da mem\u00f3ria como um aparelho de inscri\u00e7\u00e3o e armazenamento.&nbsp; Refer\u00eancias DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impress\u00e3o freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumar\u00e1, 2001. ELSAESSER, Thomas. Freud as a media theorist: Mystic Writing Pads and the matter of memory. Screen, Oxford, v. 50, n. 1, p. 100\u2013113, 2009. FREUD, Sigmund. Nota sobre o \u201cBloco M\u00e1gico\u201d (1925). In: FREUD, Sigmund. O eu e o id, autobiografia e outros textos (1923\u20131925). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011. KITTLER, Friedrich. Gramofone, filme, typewriter. Rio de Janeiro: Editora UERJ, 2019. MARGEL, Serge. Arqueologias do fantasma (t\u00e9cnica, cinema, etnografia, arquivo). Belo Horizonte: Relic\u00e1rio, 2017.&nbsp; PARRET, Herman. Vestige, archive et trace: pr\u00e9sences du temps pass\u00e9. Prot\u00e9e, v. 32, n. 2, p. 37\u201346, 2004. PLAT\u00c3O. Teeteto; Cr\u00e1tilo. Bel\u00e9m: Universidade Federal do Par\u00e1, 1988.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":283,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-282","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=282"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":284,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/282\/revisions\/284"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media\/283"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=282"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=282"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=282"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}