{"id":288,"date":"2026-05-12T18:40:17","date_gmt":"2026-05-12T21:40:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/?p=288"},"modified":"2026-05-12T18:40:18","modified_gmt":"2026-05-12T21:40:18","slug":"pra-tudo-comecar-na-quinta-feira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/2026\/05\/12\/pra-tudo-comecar-na-quinta-feira\/","title":{"rendered":"Pra tudo come\u00e7ar na quinta-feira\u00a0"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por \u00c9dson Dutra<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro dia, rolando o feed do Instagram, me deparei com um post \u2013 recomendado pelos algoritmos da vida \u2013 que trazia um v\u00eddeo de um menino fazendo o seguinte questionamento: \u201cComo eu fa\u00e7o para explicar, para quem n\u00e3o \u00e9 da bolha do carnaval, que agora eu n\u00e3o estou em 2026, mas sim em 2027? Que 2026 j\u00e1 terminou e que estou vivendo os primeiros passos de 2027?\u201d. O v\u00eddeo traz um questionamento ir\u00f4nico e divertido, que brinca com o rito de quem vive o carnaval de escola de samba no Brasil. Aquela m\u00e1xima de que \u201co ano s\u00f3 come\u00e7a depois do carnaval\u201d \u00e9 real para aqueles que participam do universo carnavalesco, mas com este pequeno detalhe: o ano novo que come\u00e7a \u00e9 o seguinte, e n\u00e3o o corrente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta brincadeira faz lembrar o samba enredo que Martinho da Vila comp\u00f4s para a sua Unidos de Vila Isabel no carnaval carioca de 1983. <em>\u201cPara Tudo se Acabar na Quarta-Feira\u201d <\/em>fala sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o do desfile de uma escola de samba, que perpassa os meses do ano atrav\u00e9s da escolha do enredo, da composi\u00e7\u00e3o do samba, elabora\u00e7\u00e3o de fantasias e alegorias, ensaios, prepara\u00e7\u00e3o dos destaques, o grande momento do desfile nos dias de carnaval. E que tudo isso se acaba na quarta-feira de cinzas\u2026<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A grande paix\u00e3o, que foi inspira\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Do poeta \u00e9 o enredo<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Que emociona a velha guarda<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>L\u00e1 na comiss\u00e3o de frente como a diretoria<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>[&#8230;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O sambista \u00e9 um artista<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>E o nosso Tom \u00e9 o diretor de harmonia<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Os foli\u00f5es s\u00e3o embalados<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Pelo pessoal da bateria<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Sonho de rei, de pirata e jardineira<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Pra tudo se acabar na quarta-feira [&#8230;]<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quarta-feira de cinzas, a grosso modo, podemos dizer que \u00e9 o dia 31 de dezembro dos carnavalescos. A finaliza\u00e7\u00e3o do carnaval, do \u00e1pice da disputa na avenida, a revela\u00e7\u00e3o do resultado de um trabalho de um ano inteiro. E se a quarta-feira de cinzas \u00e9 o dia 31 de dezembro, a quinta-feira \u00e9 o primeiro do ano novo, o come\u00e7o de uma nova etapa de organiza\u00e7\u00e3o carnavalesca. Tudo come\u00e7a na quinta-feira\u2026 Assim, dando partida para o \u201cpensar o pr\u00f3ximo carnaval\u201d e, mais do que isso, repens\u00e1-lo enquanto hist\u00f3ria e seus agentes (trans)formadores, que o historiador Luiz Ant\u00f4nio Simas, e o jornalista F\u00e1bio Fabato, lan\u00e7aram, em 2015, o livro <strong><em>\u201cPra Tudo Come\u00e7ar na Quinta-Feira: o Enredo dos Enredos\u201d<\/em><\/strong>, que ganhou segunda edi\u00e7\u00e3o revisitada e ampliada neste ano de 2026.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"400\" height=\"567\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/01.-CAPA-LIVRO.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-289\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/01.-CAPA-LIVRO.jpg 400w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/01.-CAPA-LIVRO-212x300.jpg 212w\" sizes=\"auto, (max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Luiz Ant\u00f4nio Simas \u00e9 um dos grandes expoentes dos estudos sobre cultura afro-brasileira, sobretudo o samba e a religiosidade afro, nos \u00faltimos anos. Professor, compositor e escritor vencedor do Pr\u00eamio Jabuti, Simas destaca-se tamb\u00e9m pelas conhecidas aulas abertas em pra\u00e7as e espa\u00e7os p\u00fablicos, al\u00e9m de vasta produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria sobre a hist\u00f3ria social do Brasil sob a \u00f3tica de quem vivencia as ruas, os terreiros e as periferias urbanas. A forma como Simas discorre sobre suas pesquisas e conhecimentos trama um caminho que envolve leitores e espectadores atentamente. Trama esta que se encontra tamb\u00e9m com o caminho do jornalista e escritor F\u00e1bio Fabato, ex\u00edmio conhecedor das escolas de samba (tal qual Simas) e que dedica parte de sua obra \u00e0 falar sobre a vida destas escolas. Fabato tem, entre suas principais cria\u00e7\u00f5es, a s\u00e9rie de livros chamada \u201cFam\u00edlias do Samba\u201d, onde resgata a hist\u00f3ria de cada uma das principais escolas de samba do carnaval carioca. O \u201cbi\u00f3grafo\u201d das escolas tamb\u00e9m \u00e9 comentarista de carnaval para diversos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os estilos de Simas e Fabato se misturam, criando uma narrativa \u00fanica, onde a cada p\u00e1gina \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar a hist\u00f3ria, os personagens, as situa\u00e7\u00f5es e o desenrolar dos fatos num ritmo leve, cont\u00ednuo. No livro, o enredo \u00e9 muito mais que componente do desfile carnavalesco. Ele \u00e9 a pr\u00f3pria hist\u00f3ria das escolas de samba no carnaval do Rio de Janeiro, o ber\u00e7o desta manifesta\u00e7\u00e3o cultural. Os autores defendem a ideia de que a est\u00e9tica do desfile &#8211; visual, discursiva, argumentativa &#8211; \u00e9 cal\u00e7ada inteiramente na produ\u00e7\u00e3o do enredo, da sua intencionalidade e pot\u00eancia (afetiva, cultural, pol\u00edtica). Assim, o enredo passa a ser o fio condutor de um importante registro liter\u00e1rio sobre o desfile das escolas de samba cariocas, tendo duas perspectivas bem marcantes: a evolu\u00e7\u00e3o dos desfiles das escolas de samba e os artistas carnavalescos que moldaram este espet\u00e1culo considerado o maior a c\u00e9u aberto do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escola de samba, desde seu surgimento nos primeiros anos da d\u00e9cada de 1920, sempre foi espa\u00e7o org\u00e2nico que dialoga diretamente com a sociedade e suas constantes mudan\u00e7as. Este di\u00e1logo acontece tanto pelo seu corpo formador &#8211; de origem negra e perif\u00e9rica em sua maioria &#8211; quanto pela sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e intelectual. E sobre este \u00faltimo ponto, destaca-se o papel do enredo, a narrativa da hist\u00f3ria a ser contada na avenida atrav\u00e9s dos desfilantes, de fantasias, alegorias, ritmo e dan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde as primeiras p\u00e1ginas, os autores apresentam ao leitor a proposta de olhar o carnaval, seus sambas e enredos como dispositivos poss\u00edveis e palp\u00e1veis de observa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, ideol\u00f3gica, al\u00e9m de afetiva. A narrativa das escolas de samba \u00e9 constru\u00edda com vigor e seriedade mas sem o peso do academicismo, mantendo o olhar e encanto populares atribu\u00eddos \u00e0 elas. \u00c9 a hist\u00f3ria das escolas de samba &#8211; e seus agentes criativos &#8211; contando hist\u00f3rias ao longo dos quase cem anos de desfiles. O texto traz uma linguagem acess\u00edvel ao grande p\u00fablico, numa medida bem pensada que mescla o erudito e o popular sem fugir da naturalidade de uma conversa entre amigos. Mais do que um livro voltado para aqueles que vivem o carnaval, \u00e9 um livro que abra\u00e7a todos aqueles interessados, sobretudo, na cultura popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A escola de samba e suas hist\u00f3rias fazendo Hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira parte do livro j\u00e1 apresenta no nome o fio condutor do passeio liter\u00e1rio: A inspira\u00e7\u00e3o do poeta \u00e9 o enredo. Com esta premissa, os autores discorrem sobre a hist\u00f3ria das escolas de samba e o ingresso destas nos festejos carnavalescos, que culmina com a primeira competi\u00e7\u00e3o oficial de escolas de samba do pa\u00eds, em 1932, promovida pelo jornal Mundo Esportivo. O desfile das escolas de samba transforma o cen\u00e1rio cultural do Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital nacional, e tamb\u00e9m reflete em decis\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tudo isso porque, conforme mostram os autores, o governo enxerga nas escolas de samba, potentes instrumentos de arregimenta\u00e7\u00e3o popular, uma forma de expandir suas ferramentas de controle social. O passo a passo da influ\u00eancia pol\u00edtica no carnaval das escolas de samba e a constante necessidade de adapta\u00e7\u00e3o das escolas de samba \u00e0s tens\u00f5es das mais diversas ordens (pol\u00edticas, sociais e tamb\u00e9m culturais) s\u00e3o mostradas de forma clara, sem a m\u00e1scara para disfar\u00e7ar um carnaval perfeito. Pelo contr\u00e1rio, Simas e Fabato fazem quest\u00e3o de frisar que as escolas de samba est\u00e3o totalmente inseridas num ambiente de alta disputa de narrativas, que segue pulsante desde o primeiro desfile oficial.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"320\" height=\"284\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/02.-Fonte-Galeria-do-Samba.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-290\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/02.-Fonte-Galeria-do-Samba.jpg 320w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/02.-Fonte-Galeria-do-Samba-300x266.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 320px) 100vw, 320px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a imprensa teve papel fundamental neste processo de disputa e expans\u00e3o do carnaval carioca, principalmente ap\u00f3s o ingresso da televis\u00e3o para a transmiss\u00e3o dos desfiles a partir dos anos 70. O livro destaca que o gigantismo alcan\u00e7ado pelas apresenta\u00e7\u00f5es carnavalescas na avenida teve a proje\u00e7\u00e3o da imagem na tela como fator consider\u00e1vel para sua perman\u00eancia nos moldes de ent\u00e3o. Cresceram os carros aleg\u00f3ricos e fantasias, cresceram as arquibancadas e chegaram os camarotes para autoridades e convidados\u2026 Chegou o samb\u00f3dromo, em 1984, espa\u00e7o destinado para o desfile das escolas de samba, o primeiro no Brasil e modelo para o pa\u00eds inteiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O gigantismo excessivo e todos os seus impactos s\u00e3o observados pelos autores, que sinalizam que, por vezes, o enredo ficou de lado em detrimento do visual, do luxo pelo luxo, de uma certa panfletagem que tomou conta da festa por um longo tempo, sobretudo na primeira metade dos anos 2000. Enquanto a primeira edi\u00e7\u00e3o encerrava seus registros no carnaval de 2015, a segunda aborda a retomada da valoriza\u00e7\u00e3o do enredo, que surge justamente a partir de 2016, com novos carnavalescos despontando na festa. E por falar em carnavalescos, s\u00e3o eles quem ganham a vez na narrativa do enredo da segunda parte do livro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os carnavalescos ganham papel de destaque<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cArtistas do povo\u201d. \u00c9 assim que se chama a segunda parte do livro, dedicada aos carnavalescos que marcaram a hist\u00f3ria dos desfiles das escolas de samba. Na verdade, muito mais do que simplesmente marcar a hist\u00f3ria, estes artistas deram o tom de como os desfiles seriam e s\u00e3o, at\u00e9 hoje. Refer\u00eancias na proje\u00e7\u00e3o de alegorias e fantasias, na perspic\u00e1cia do argumento, no trabalho de cores, na intencionalidade do desfile, na revolu\u00e7\u00e3o das ideias que reverberam para al\u00e9m da passarela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Simas e Fabato apresentam nomes fundantes deste of\u00edcio que se tornou fundamental dentro da escola de samba. O carnavalesco, enquanto profissional que pensa, cria e executa o carnaval de uma escola de samba, n\u00e3o surge de imediato dentro deste universo. Ele aparece mais de 30 anos depois do primeiro desfile oficial. No entanto, os autores tratam de apresentar estes profissionais n\u00e3o como artistas que aportam \u201cdo nada\u201d na escola de samba e fazem seu trabalho. O retrato dedicado a estas pessoas \u00e9 de total proximidade, mostrados como leg\u00edtimos artistas surgidos do povo, \u201cgente como a gente\u201d que, a partir do seu talento, consegue marcar seu espa\u00e7o neste universo on\u00edrico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda no in\u00edcio da primeira parte, a figura de Fernando Pamplona \u00e9 destacada como sendo o \u201cPai de Todos\u201d. Cen\u00f3grafo do Theatro Municipal, Pamplona foi jurado dos desfiles, ainda na d\u00e9cada de 50, e foi o respons\u00e1vel por reunir e lan\u00e7ar os talentos fundantes dos estilos carnavalescos que marcaram &#8211; e marcam &#8211; a festa at\u00e9 hoje. Verdadeiros intelectuais da avenida &#8211; e da cultura popular brasileira &#8211; nomes como Arlindo Rodrigues, Jo\u00e3osinho Trinta, Rosa Magalh\u00e3es, Maria Augusta Rodrigues, Fernando Pinto, Renato Lage, Viriato Ferreira, Max Lopes e Oswaldo Jardim, entre outros, surgem como incr\u00edveis g\u00eanios da arte. Parcerias, vit\u00f3rias, derrotas e fofocas \u00e0 parte &#8211; sim, o livro tamb\u00e9m traz hist\u00f3rias curiosas do \u201cdisse me disse\u201d dos bastidores carnavalescos &#8211; as cria\u00e7\u00f5es destes artistas persistem at\u00e9 hoje, gerando seguidores e inspirando artistas da nova gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"460\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/03.-Carro-DNA.-Fonte-LIESA.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-291\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/03.-Carro-DNA.-Fonte-LIESA.jpeg 720w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/03.-Carro-DNA.-Fonte-LIESA-300x192.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro \u00e9 perspicaz ao trazer um destaque para Paulo Barros, o carnavalesco que mudou os rumos est\u00e9ticos da festa nos primeiros anos da d\u00e9cada de 2000, ao se destacar pelos enredos de tem\u00e1tica abstrata e pelas alegorias humanas. A imagem do carro aleg\u00f3rico do DNA rodou o mundo. A chegada de Barros provocou frisson e dividiu opini\u00f5es. Desfile de carnaval ou parada da Disney? Eis a quest\u00e3o. O fato \u00e9 que a chegada de Paulo Barros coincide com um momento delicado dos desfiles. \u00c9 o auge dos enredos patrocinados por cidades, Estados e pa\u00edses, grandes marcas, personalidades e artistas que, embora tenham alcance popular, est\u00e3o fora do mundo do samba. Desfiles com muito luxo e pouca mensagem, sambas enredo que duram apenas os 60 minutos de desfile e ap\u00f3s o fim da apresenta\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m mais lembra. A festa estava rumando para um grande balc\u00e3o de neg\u00f3cios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 neste contexto que o livro aborda os carnavalescos que despontam a partir de 2016,&nbsp; provocando novas revolu\u00e7\u00f5es e adapta\u00e7\u00f5es \u00e0 festa, mostrando que o desfile das escolas de samba \u00e9 org\u00e2nico, se reinventa e renova o fasc\u00ednio do p\u00fablico. Assim, Leandro Vieira, Leonardo Bora e Gabriel Haddad, Tarc\u00edsio Zanon e Jo\u00e3o Vitor Ara\u00fajo recebem suas men\u00e7\u00f5es como disc\u00edpulos dos grandes mestres, mas tamb\u00e9m como verdadeiras pot\u00eancias de inventividade art\u00edstica e resist\u00eancia cultural.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A segunda parte do livro ainda apresenta uma homenagem emocionante para tr\u00eas grandes mulheres que fizeram hist\u00f3ria na cria\u00e7\u00e3o dos desfiles das escolas de samba: Maria Augusta Rodrigues, M\u00e1rcia Lage e Rosa Magalh\u00e3es. Cada uma \u00e0 sua maneira, marcaram a avenida. Todas j\u00e1 falecidas, ainda s\u00e3o veneradas por suas cria\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m levadas como bandeira para que o espa\u00e7o feminino na ponta da cria\u00e7\u00e3o carnavalesca n\u00e3o se perca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O carnaval e sua dimens\u00e3o pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algo que j\u00e1 estava disposto na primeira edi\u00e7\u00e3o mas que nesta segunda ganha um olhar mais apurado dos autores \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o do carnaval como um significativo espa\u00e7o pol\u00edtico. Desde a escolha dos enredos at\u00e9 passando pelos versos dos sambas, as escolas de samba nunca foram neutras ao passar da hist\u00f3ria. Pelo contr\u00e1rio, sempre buscaram manter viva a narrativa de elementos ligados \u00e0 cultura afro-brasileira, pessoas e fatos ignorados pela hist\u00f3ria oficial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Justamente estas escolhas carregam simbolismos importantes, principalmente em per\u00edodos onde a cultura popular foi duramente atacada e reprimida. H\u00e1 o cuidado dos autores de n\u00e3o encaixar o desfile da escola de samba como mero instrumento ideol\u00f3gico, mas sim um espa\u00e7o de negocia\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rios, mem\u00f3rias e conflitos. A valoriza\u00e7\u00e3o da religiosidade afro-brasileira \u00e9 um exemplo deste processo. Ao longo dos anos, a pr\u00f3pria m\u00eddia por vezes tratou de embranquecer os desfiles, tirando-lhes o peso da import\u00e2ncia do maci\u00e7o contingente negro de exaltar suas ra\u00edzes e ancestralidade. No entanto, os autores destacam que os \u00faltimos anos t\u00eam nos apresentado movimentos de resist\u00eancia \u00e0 estas a\u00e7\u00f5es, servindo como pontos de resgate da valoriza\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica da cultura afro-brasileira no pa\u00eds. \u00c9 a tentativa de reconex\u00e3o do carnaval com as suas ra\u00edzes.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"483\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/04.-Fonte-Alexandre-Brum-Agencia-Enquadrar.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-292\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/04.-Fonte-Alexandre-Brum-Agencia-Enquadrar.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/04.-Fonte-Alexandre-Brum-Agencia-Enquadrar-300x189.jpg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Apropria\u00e7\u00e3o do que \u00e9 nosso<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais do que mostrar como os enredos funcionam, os autores destacam os porqu\u00eas dos enredos serem importantes &#8211; n\u00e3o apenas para a escola de samba, mas para entender um pouco mais do Brasil sob uma \u00f3tica cultural. \u00c9 onde o pa\u00eds \u00e9 passado a limpo, personagens marginalizados ganham destaque, a hist\u00f3ria oficial \u00e9 desafiada, onde a sociedade \u00e9 debatida e refletida com ironia, leveza ou den\u00fancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro, acima de tudo, entrega ao leitor um breve hist\u00f3rico de uma das manifesta\u00e7\u00f5es culturais mais marcantes deste pa\u00eds. O \u201cpa\u00eds do carnaval\u201d necessita se apropriar da sua pr\u00f3pria cultura &#8211; reconhecida internacionalmente. Embora a base da narrativa do livro seja o universo do carnaval carioca e seus nomes e refer\u00eancias, \u00e9 v\u00e1lido ao leitor esta aproxima\u00e7\u00e3o do cerne do carnaval de escola de samba. \u00c9 poss\u00edvel identificar que a partir do carnaval carioca, este mecanismo cultural chamado escola de samba se espalha por todo o pa\u00eds, perpetuando a mesma forma de apresenta\u00e7\u00e3o, de conta\u00e7\u00e3o de hist\u00f3ria, a mesma linguagem narrativa com alas, fantasias, carros aleg\u00f3ricos e samba enredo como trilha. Modelo este que se espalhou pelo mundo, ganhando espa\u00e7o de destaque em pa\u00edses da Europa e no Jap\u00e3o!<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta nova edi\u00e7\u00e3o apresenta-se como importante fonte de estudo para aqueles que pesquisam sobre carnaval. Mas, para al\u00e9m, \u00e9 um verdadeiro convite \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da cultura popular brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SIMAS, Luiz Antonio; FABATO, Fabio. Pra tudo come\u00e7ar na quinta-feira: o enredo dos enredos. 2 ed. Rio de Janeiro: Editora M\u00f3rula, 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por \u00c9dson Dutra Outro dia, rolando o feed do Instagram, me deparei com um post \u2013 recomendado pelos algoritmos da vida \u2013 que trazia um v\u00eddeo de um menino fazendo o seguinte questionamento: \u201cComo eu fa\u00e7o para explicar, para quem n\u00e3o \u00e9 da bolha do carnaval, que agora eu n\u00e3o estou em 2026, mas sim em 2027? Que 2026 j\u00e1 terminou e que estou vivendo os primeiros passos de 2027?\u201d. O v\u00eddeo traz um questionamento ir\u00f4nico e divertido, que brinca com o rito de quem vive o carnaval de escola de samba no Brasil. Aquela m\u00e1xima de que \u201co ano s\u00f3 come\u00e7a depois do carnaval\u201d \u00e9 real para aqueles que participam do universo carnavalesco, mas com este pequeno detalhe: o ano novo que come\u00e7a \u00e9 o seguinte, e n\u00e3o o corrente. Esta brincadeira faz lembrar o samba enredo que Martinho da Vila comp\u00f4s para a sua Unidos de Vila Isabel no carnaval carioca de 1983. \u201cPara Tudo se Acabar na Quarta-Feira\u201d fala sobre o processo de cria\u00e7\u00e3o do desfile de uma escola de samba, que perpassa os meses do ano atrav\u00e9s da escolha do enredo, da composi\u00e7\u00e3o do samba, elabora\u00e7\u00e3o de fantasias e alegorias, ensaios, prepara\u00e7\u00e3o dos destaques, o grande momento do desfile nos dias de carnaval. E que tudo isso se acaba na quarta-feira de cinzas\u2026 A grande paix\u00e3o, que foi inspira\u00e7\u00e3o Do poeta \u00e9 o enredo Que emociona a velha guarda L\u00e1 na comiss\u00e3o de frente como a diretoria [&#8230;] O sambista \u00e9 um artista E o nosso Tom \u00e9 o diretor de harmonia Os foli\u00f5es s\u00e3o embalados Pelo pessoal da bateria Sonho de rei, de pirata e jardineira Pra tudo se acabar na quarta-feira [&#8230;] A quarta-feira de cinzas, a grosso modo, podemos dizer que \u00e9 o dia 31 de dezembro dos carnavalescos. A finaliza\u00e7\u00e3o do carnaval, do \u00e1pice da disputa na avenida, a revela\u00e7\u00e3o do resultado de um trabalho de um ano inteiro. E se a quarta-feira de cinzas \u00e9 o dia 31 de dezembro, a quinta-feira \u00e9 o primeiro do ano novo, o come\u00e7o de uma nova etapa de organiza\u00e7\u00e3o carnavalesca. Tudo come\u00e7a na quinta-feira\u2026 Assim, dando partida para o \u201cpensar o pr\u00f3ximo carnaval\u201d e, mais do que isso, repens\u00e1-lo enquanto hist\u00f3ria e seus agentes (trans)formadores, que o historiador Luiz Ant\u00f4nio Simas, e o jornalista F\u00e1bio Fabato, lan\u00e7aram, em 2015, o livro \u201cPra Tudo Come\u00e7ar na Quinta-Feira: o Enredo dos Enredos\u201d, que ganhou segunda edi\u00e7\u00e3o revisitada e ampliada neste ano de 2026. Luiz Ant\u00f4nio Simas \u00e9 um dos grandes expoentes dos estudos sobre cultura afro-brasileira, sobretudo o samba e a religiosidade afro, nos \u00faltimos anos. Professor, compositor e escritor vencedor do Pr\u00eamio Jabuti, Simas destaca-se tamb\u00e9m pelas conhecidas aulas abertas em pra\u00e7as e espa\u00e7os p\u00fablicos, al\u00e9m de vasta produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria sobre a hist\u00f3ria social do Brasil sob a \u00f3tica de quem vivencia as ruas, os terreiros e as periferias urbanas. A forma como Simas discorre sobre suas pesquisas e conhecimentos trama um caminho que envolve leitores e espectadores atentamente. Trama esta que se encontra tamb\u00e9m com o caminho do jornalista e escritor F\u00e1bio Fabato, ex\u00edmio conhecedor das escolas de samba (tal qual Simas) e que dedica parte de sua obra \u00e0 falar sobre a vida destas escolas. Fabato tem, entre suas principais cria\u00e7\u00f5es, a s\u00e9rie de livros chamada \u201cFam\u00edlias do Samba\u201d, onde resgata a hist\u00f3ria de cada uma das principais escolas de samba do carnaval carioca. O \u201cbi\u00f3grafo\u201d das escolas tamb\u00e9m \u00e9 comentarista de carnaval para diversos ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o.&nbsp; Os estilos de Simas e Fabato se misturam, criando uma narrativa \u00fanica, onde a cada p\u00e1gina \u00e9 poss\u00edvel vislumbrar a hist\u00f3ria, os personagens, as situa\u00e7\u00f5es e o desenrolar dos fatos num ritmo leve, cont\u00ednuo. No livro, o enredo \u00e9 muito mais que componente do desfile carnavalesco. Ele \u00e9 a pr\u00f3pria hist\u00f3ria das escolas de samba no carnaval do Rio de Janeiro, o ber\u00e7o desta manifesta\u00e7\u00e3o cultural. Os autores defendem a ideia de que a est\u00e9tica do desfile &#8211; visual, discursiva, argumentativa &#8211; \u00e9 cal\u00e7ada inteiramente na produ\u00e7\u00e3o do enredo, da sua intencionalidade e pot\u00eancia (afetiva, cultural, pol\u00edtica). Assim, o enredo passa a ser o fio condutor de um importante registro liter\u00e1rio sobre o desfile das escolas de samba cariocas, tendo duas perspectivas bem marcantes: a evolu\u00e7\u00e3o dos desfiles das escolas de samba e os artistas carnavalescos que moldaram este espet\u00e1culo considerado o maior a c\u00e9u aberto do mundo. A escola de samba, desde seu surgimento nos primeiros anos da d\u00e9cada de 1920, sempre foi espa\u00e7o org\u00e2nico que dialoga diretamente com a sociedade e suas constantes mudan\u00e7as. Este di\u00e1logo acontece tanto pelo seu corpo formador &#8211; de origem negra e perif\u00e9rica em sua maioria &#8211; quanto pela sua produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e intelectual. E sobre este \u00faltimo ponto, destaca-se o papel do enredo, a narrativa da hist\u00f3ria a ser contada na avenida atrav\u00e9s dos desfilantes, de fantasias, alegorias, ritmo e dan\u00e7a. Desde as primeiras p\u00e1ginas, os autores apresentam ao leitor a proposta de olhar o carnaval, seus sambas e enredos como dispositivos poss\u00edveis e palp\u00e1veis de observa\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, ideol\u00f3gica, al\u00e9m de afetiva. A narrativa das escolas de samba \u00e9 constru\u00edda com vigor e seriedade mas sem o peso do academicismo, mantendo o olhar e encanto populares atribu\u00eddos \u00e0 elas. \u00c9 a hist\u00f3ria das escolas de samba &#8211; e seus agentes criativos &#8211; contando hist\u00f3rias ao longo dos quase cem anos de desfiles. O texto traz uma linguagem acess\u00edvel ao grande p\u00fablico, numa medida bem pensada que mescla o erudito e o popular sem fugir da naturalidade de uma conversa entre amigos. Mais do que um livro voltado para aqueles que vivem o carnaval, \u00e9 um livro que abra\u00e7a todos aqueles interessados, sobretudo, na cultura popular. A escola de samba e suas hist\u00f3rias fazendo Hist\u00f3ria A primeira parte do livro j\u00e1 apresenta no nome o fio condutor do passeio liter\u00e1rio: A inspira\u00e7\u00e3o do poeta \u00e9 o enredo. Com esta premissa, os autores discorrem sobre a hist\u00f3ria das escolas de samba e o ingresso destas nos festejos carnavalescos, que culmina com a primeira competi\u00e7\u00e3o oficial de escolas de samba do pa\u00eds, em 1932, promovida pelo jornal Mundo Esportivo. O desfile das escolas de samba transforma o cen\u00e1rio cultural do Rio de Janeiro, ent\u00e3o capital nacional, e tamb\u00e9m reflete em decis\u00f5es pol\u00edticas. Tudo isso porque, conforme mostram os autores, o governo enxerga nas escolas de samba, potentes instrumentos de arregimenta\u00e7\u00e3o popular, uma forma de expandir suas ferramentas de controle social. O passo a passo da influ\u00eancia pol\u00edtica no carnaval das escolas de samba e a constante necessidade de adapta\u00e7\u00e3o das escolas de samba \u00e0s tens\u00f5es das mais diversas ordens (pol\u00edticas, sociais e tamb\u00e9m culturais) s\u00e3o mostradas de forma clara, sem a m\u00e1scara para disfar\u00e7ar um carnaval perfeito. Pelo contr\u00e1rio, Simas e Fabato fazem quest\u00e3o de frisar que as escolas de samba est\u00e3o totalmente inseridas num ambiente de alta disputa de narrativas, que segue pulsante desde o primeiro desfile oficial.&nbsp; E a imprensa teve papel fundamental neste processo de disputa e expans\u00e3o do carnaval carioca, principalmente ap\u00f3s o ingresso da televis\u00e3o para a transmiss\u00e3o dos desfiles a partir dos anos 70. O livro destaca que o gigantismo alcan\u00e7ado pelas apresenta\u00e7\u00f5es carnavalescas na avenida teve a proje\u00e7\u00e3o da imagem na tela como fator consider\u00e1vel para sua perman\u00eancia nos moldes de ent\u00e3o. Cresceram os carros aleg\u00f3ricos e fantasias, cresceram as arquibancadas e chegaram os camarotes para autoridades e convidados\u2026 Chegou o samb\u00f3dromo, em 1984, espa\u00e7o destinado para o desfile das escolas de samba, o primeiro no Brasil e modelo para o pa\u00eds inteiro.&nbsp; O gigantismo excessivo e todos os seus impactos s\u00e3o observados pelos autores, que sinalizam que, por vezes, o enredo ficou de lado em detrimento do visual, do luxo pelo luxo, de uma certa panfletagem que tomou conta da festa por um longo tempo, sobretudo na primeira metade dos anos 2000. Enquanto a primeira edi\u00e7\u00e3o encerrava seus registros no carnaval de 2015, a segunda aborda a retomada da valoriza\u00e7\u00e3o do enredo, que surge justamente a partir de 2016, com novos carnavalescos despontando na festa. E por falar em carnavalescos, s\u00e3o eles quem ganham a vez na narrativa do enredo da segunda parte do livro. Os carnavalescos ganham papel de destaque \u201cArtistas do povo\u201d. \u00c9 assim que se chama a segunda parte do livro, dedicada aos carnavalescos que marcaram a hist\u00f3ria dos desfiles das escolas de samba. Na verdade, muito mais do que simplesmente marcar a hist\u00f3ria, estes artistas deram o tom de como os desfiles seriam e s\u00e3o, at\u00e9 hoje. Refer\u00eancias na proje\u00e7\u00e3o de alegorias e fantasias, na perspic\u00e1cia do argumento, no trabalho de cores, na intencionalidade do desfile, na revolu\u00e7\u00e3o das ideias que reverberam para al\u00e9m da passarela.&nbsp; Simas e Fabato apresentam nomes fundantes deste of\u00edcio que se tornou fundamental dentro da escola de samba. O carnavalesco, enquanto profissional que pensa, cria e executa o carnaval de uma escola de samba, n\u00e3o surge de imediato dentro deste universo. Ele aparece mais de 30 anos depois do primeiro desfile oficial. No entanto, os autores tratam de apresentar estes profissionais n\u00e3o como artistas que aportam \u201cdo nada\u201d na escola de samba e fazem seu trabalho. O retrato dedicado a estas pessoas \u00e9 de total proximidade, mostrados como leg\u00edtimos artistas surgidos do povo, \u201cgente como a gente\u201d que, a partir do seu talento, consegue marcar seu espa\u00e7o neste universo on\u00edrico. Ainda no in\u00edcio da primeira parte, a figura de Fernando Pamplona \u00e9 destacada como sendo o \u201cPai de Todos\u201d. Cen\u00f3grafo do Theatro Municipal, Pamplona foi jurado dos desfiles, ainda na d\u00e9cada de 50, e foi o respons\u00e1vel por reunir e lan\u00e7ar os talentos fundantes dos estilos carnavalescos que marcaram &#8211; e marcam &#8211; a festa at\u00e9 hoje. Verdadeiros intelectuais da avenida &#8211; e da cultura popular brasileira &#8211; nomes como Arlindo Rodrigues, Jo\u00e3osinho Trinta, Rosa Magalh\u00e3es, Maria Augusta Rodrigues, Fernando Pinto, Renato Lage, Viriato Ferreira, Max Lopes e Oswaldo Jardim, entre outros, surgem como incr\u00edveis g\u00eanios da arte. Parcerias, vit\u00f3rias, derrotas e fofocas \u00e0 parte &#8211; sim, o livro tamb\u00e9m traz hist\u00f3rias curiosas do \u201cdisse me disse\u201d dos bastidores carnavalescos &#8211; as cria\u00e7\u00f5es destes artistas persistem at\u00e9 hoje, gerando seguidores e inspirando artistas da nova gera\u00e7\u00e3o. O livro \u00e9 perspicaz ao trazer um destaque para Paulo Barros, o carnavalesco que mudou os rumos est\u00e9ticos da festa nos primeiros anos da d\u00e9cada de 2000, ao se destacar pelos enredos de tem\u00e1tica abstrata e pelas alegorias humanas. A imagem do carro aleg\u00f3rico do DNA rodou o mundo. A chegada de Barros provocou frisson e dividiu opini\u00f5es. Desfile de carnaval ou parada da Disney? Eis a quest\u00e3o. O fato \u00e9 que a chegada de Paulo Barros coincide com um momento delicado dos desfiles. \u00c9 o auge dos enredos patrocinados por cidades, Estados e pa\u00edses, grandes marcas, personalidades e artistas que, embora tenham alcance popular, est\u00e3o fora do mundo do samba. Desfiles com muito luxo e pouca mensagem, sambas enredo que duram apenas os 60 minutos de desfile e ap\u00f3s o fim da apresenta\u00e7\u00e3o, ningu\u00e9m mais lembra. A festa estava rumando para um grande balc\u00e3o de neg\u00f3cios. \u00c9 neste contexto que o livro aborda os carnavalescos que despontam a partir de 2016,&nbsp; provocando novas revolu\u00e7\u00f5es e adapta\u00e7\u00f5es \u00e0 festa, mostrando que o desfile das escolas de samba \u00e9 org\u00e2nico, se reinventa e renova o fasc\u00ednio do p\u00fablico. Assim, Leandro Vieira, Leonardo Bora e Gabriel Haddad, Tarc\u00edsio Zanon e Jo\u00e3o Vitor Ara\u00fajo recebem suas men\u00e7\u00f5es como disc\u00edpulos dos grandes mestres, mas tamb\u00e9m como verdadeiras pot\u00eancias de inventividade art\u00edstica e resist\u00eancia cultural.&nbsp; A segunda parte do livro ainda apresenta uma homenagem emocionante para tr\u00eas grandes mulheres que fizeram hist\u00f3ria na cria\u00e7\u00e3o dos desfiles das escolas de samba: Maria Augusta Rodrigues, M\u00e1rcia Lage e Rosa Magalh\u00e3es. Cada uma \u00e0 sua maneira, marcaram a avenida. Todas j\u00e1 falecidas, ainda s\u00e3o veneradas por suas cria\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m levadas como bandeira para que o espa\u00e7o feminino na ponta da cria\u00e7\u00e3o carnavalesca n\u00e3o se perca. O carnaval e sua dimens\u00e3o pol\u00edtica Algo que j\u00e1 estava disposto na primeira edi\u00e7\u00e3o mas que nesta segunda ganha um olhar mais apurado dos autores \u00e9 a percep\u00e7\u00e3o do carnaval como um significativo espa\u00e7o pol\u00edtico. Desde a escolha dos&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":289,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-288","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=288"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":293,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/288\/revisions\/293"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media\/289"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=288"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=288"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=288"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}