{"id":302,"date":"2026-05-20T16:30:40","date_gmt":"2026-05-20T19:30:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/?p=302"},"modified":"2026-05-20T16:30:41","modified_gmt":"2026-05-20T19:30:41","slug":"pequenos-laboratorios-da-atencao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/2026\/05\/20\/pequenos-laboratorios-da-atencao\/","title":{"rendered":"Pequenos laborat\u00f3rios da aten\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Danielle Miranda<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/corporalidades\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/Captura-de-Tela-2026-05-08-as-6.20.45-AM-1024x248.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3952\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Elaborado a partir do <em>Vocabul\u00e1rio Ampliado de Aten\u00e7\u00e3o<\/em> desenvolvido em <em>Laborat\u00f3rio est\u00e9tico de aten\u00e7\u00e3o: o cultivo da aten\u00e7\u00e3o conjunta<\/em> (KASTRUP; CALIMAN, 2025)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">I<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Inicialmente, pensei que este texto seria uma resenha tradicional. O objetivo seria sugerir a leitura de <em>Laborat\u00f3rio est\u00e9tico de aten\u00e7\u00e3o: o cultivo da aten\u00e7\u00e3o conjunta<\/em>, organizado por Virg\u00ednia Kastrup e Luciana Caliman (2025, Editora CRV).&nbsp; O livro partilha com os leitores a experimenta\u00e7\u00e3o de conceitos relacionados \u00e0 aten\u00e7\u00e3o na contemporaneidade por meio de proposi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas realizadas em grupo, em sala de aula, no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O Laborat\u00f3rio est\u00e9tico de aten\u00e7\u00e3o busca sustentar a complexidade da tarefa relacionada a aten\u00e7\u00e3o e aposta na pot\u00eancia de um dispositivo grupal para novas configura\u00e7\u00f5es mais cuidadosas da aten\u00e7\u00e3o na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo, com as pessoas e de cada um consigo mesmo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Kenneth Rogers (2024) define como o \u201ccomplexo da aten\u00e7\u00e3o\u201d um regime de poder que articula diferentes campos do conhecimento, interesses econ\u00f4micos, tecnologias digitais, ind\u00fastria farmac\u00eautica, agendas ideol\u00f3gicas, pol\u00edticas, pedag\u00f3gicas e de sa\u00fade. O complexo atencional mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es estreitas com o mundo dominado pelo capital, pelo colonialismo, pelo patriarcado, pelo capacitismo e que de diversas formas condiciona o que deve ser visto, notado, atendido e valorado coletivamente.&nbsp; (KASTRUP; CALIMAN, 2025, p.9)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de discutir criticamente um diagn\u00f3stico da aten\u00e7\u00e3o na contemporaneidade, os diversos autores relatam atividades realizadas em sala de aula para \u201cchegar no pr\u00f3prio corpo\u201d, tendo em vista que, com a acelera\u00e7\u00e3o do dia a dia, nem sempre estamos de fato presentes na experi\u00eancia. H\u00e1 um conjunto de atividades com o prop\u00f3sito de produzir uma desacelera\u00e7\u00e3o cognitiva e experimentar a abertura dos corpos para sua multissensorialidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">uma aten\u00e7\u00e3o dotada de espessura<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">uma aten\u00e7\u00e3o encarnada<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro coloca o desafio de constru\u00e7\u00e3o de uma perspectiva ampliada do problema atual do entrela\u00e7amento entre aten\u00e7\u00e3o e tecnologias digitais, na medida em que a subjetividade contempor\u00e2nea \u00e9 marcada pela presen\u00e7a maci\u00e7a em nossas vidas, reguladas majoritariamente pelo que Jonathan Crary (2023) denomina \u201ccomplexo inform\u00e1tico\u201d. Para Kastrup e Caliman (2025), as tecnologias digitais s\u00e3o projetadas para abolir o tempo e suscitar a ilus\u00e3o de instantaneidade, produzindo subjetividades marcadas pelo imediatismo sens\u00f3rio-motor, em que prevalece uma grande limita\u00e7\u00e3o temporal, espacial e material. A extrema velocidade das conex\u00f5es online, para as autoras, tem rela\u00e7\u00e3o indissoci\u00e1vel com o capitalismo, que se nutre do sentimento de urg\u00eancia que molda o mundo do trabalho e a rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas.&nbsp; Simultaneamente \u00e0 realoca\u00e7\u00e3o da vida social, econ\u00f4mica e privada para as plataformas digitais, o complexo atencional contempor\u00e2neo torna obsoleto o tempo cronol\u00f3gico e o tempo em sua dimens\u00e3o de dura\u00e7\u00e3o, presente na aten\u00e7\u00e3o sustentada, na aten\u00e7\u00e3o refletida e no acionamento do pensamento e do desejo.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"696\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/laboratorio-estetico-da-atencao.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-304\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/laboratorio-estetico-da-atencao.jpeg 696w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/laboratorio-estetico-da-atencao-209x300.jpeg 209w\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">II<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00a0Desde a primeira semana de 2026 tenho colocado em pr\u00e1tica um acordo comigo: n\u00e3o utilizar o Instagram pela manh\u00e3, muito menos ao acordar. O foco n\u00e3o \u00e9 uma disciplina de produtividade, nem um detox digital, mas uma tentativa de experimentar outra espessura temporal. Principalmente, de adiar diariamente o contato com os modos de aten\u00e7\u00e3o alerta e dispersos que ambientes como o Instagram convocam: uma aten\u00e7\u00e3o intensa e breve, em volume alto, excitada, com muitas opini\u00f5es, mas incapaz de sustentar dura\u00e7\u00e3o. As plataformas digitais n\u00e3o disputam apenas nosso tempo; disputam as condi\u00e7\u00f5es mesmas de dura\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A experi\u00eancia \u00e9 o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. N\u00e3o o que se passa, n\u00e3o o que acontece ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, por\u00e9m, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa est\u00e1 organizado para que nada nos aconte\u00e7a. Walter Benjamin, em um texto c\u00e9lebre, j\u00e1 observava a pobreza da experi\u00eancia. O que caracteriza o nosso mundo? Nunca se passaram tantas coisas, mas a experi\u00eancia \u00e9 cada vez mais rara. (LARROSSA BOND\u00cdA, 2002, p. 21)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">a aten\u00e7\u00e3o sustentada requer um n\u00edvel elevado de engajamento<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">nem scrool, nem m\u00e9tricas<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">nos faz observar, ficar, habitar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">habitar = morar e <em>de<\/em>-morar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">aquele que habita transforma-se em criador de lugares<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">III&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lembro aqui de uma micro-experi\u00eancia est\u00e9tica da aten\u00e7\u00e3o que me chega como proposta pelo email h\u00e1 alguns meses e at\u00e9 hoje n\u00e3o a realizei.&nbsp; \u00c9 simples: o formato \u201c<em>10-Minute Challenge<\/em>\u201d, do The New York Times, publicado geralmente na primeira segunda-feira de cada m\u00eas, com a possibilidade de subscrever um lembrete por e-mail, prop\u00f5e olhar para uma \u00fanica obra de arte durante dez minutos inteiros, observar atentamente detalhes, rela\u00e7\u00f5es formais, texturas, conex\u00f5es intertextuais produzidas pela obra.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"269\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/10minute-1-1024x269.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-305\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/10minute-1-1024x269.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/10minute-1-300x79.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/10minute-1-768x202.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/10minute-1-1536x403.png 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/10minute-1-2048x538.png 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/05\/10minute-1-1140x299.png 1140w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fonte: 10-Minute Challenge, New York Times.\u00a0<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desafio contraria os regimes acelerados de aten\u00e7\u00e3o t\u00edpicos do ambiente digital. Aparentemente, chega ao nosso e-mail como uma esp\u00e9cie de lembrete delicado para desacelerar o olhar. E a\u00ed, entre compromissos e notifica\u00e7\u00f5es, \u201c10 minutos\u201d hoje parecem excessivos, quase absurdos. Um cron\u00f4metro registra quanto tempo permanecemos diante da obra. At\u00e9 hoje, n\u00e3o conclu\u00ed 10 minutos em nenhuma, pois sempre decido pular para outra tarefa (mais urgente, mais s\u00e9ria, mais eficiente, mais produtiva).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">lentificar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">re-parar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">sustentar a perman\u00eancia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">sustentar a experi\u00eancia<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A experi\u00eancia, a possibilidade de que algo nos aconte\u00e7a ou nos toque, requer um gesto de interrup\u00e7\u00e3o, um gesto que \u00e9 quase imposs\u00edvel nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opini\u00e3o, suspender o ju\u00edzo, suspender a vontade, suspender o automatismo da a\u00e7\u00e3o, cultivar a aten\u00e7\u00e3o e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentid\u00e3o, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paci\u00eancia e dar-se tempo e espa\u00e7o. (LARROSSA BOND\u00cdA, 2002, p. 24)<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar, olhar, escutar mais devagar, tudo mais devagar: aprender a lentid\u00e3o. O <em>Laborat\u00f3rio est\u00e9tico da aten\u00e7\u00e3o<\/em> diz respeito a cultivar uma aten\u00e7\u00e3o sustentada, concentrada e aberta. Resultado de encontros regulares realizados ao longo de dois anos, est\u00e1 claro que o livro e o Laborat\u00f3rio n\u00e3o pretendem opor a vida ativa e vida contemplativa, pois a contempla\u00e7\u00e3o envolve engajamento sens\u00edvel, intelectual e afetivo, al\u00e9m de intensa atividade cognitiva. Um regime atencional envolve um conjunto de gestos articulados; n\u00e3o \u00e9 apenas uma a\u00e7\u00e3o mental, j\u00e1 que a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 distribu\u00edda por todo o corpo (KASTRUP; CALIMAN, 2025). A partir de Crary (2023), as autoras do livro aqui sugerido discutem como a presen\u00e7a de tecnologias digitais na atualidade \u00e9 vetor dominante nos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o, que produz efeitos not\u00e1veis na cogni\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea e colocam problemas, sobretudo, \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o na tentativa de regula\u00e7\u00e3o ostensiva da nossa aten\u00e7\u00e3o. Em oposi\u00e7\u00e3o a estes modos de aten\u00e7\u00e3o, prop\u00f5em suscitar um adensamento da experi\u00eancia, criando condi\u00e7\u00f5es para acionar processos de aten\u00e7\u00e3o corporificada. A sua aposta \u00e9 o encontro com o corpo e o cultivo da aten\u00e7\u00e3o conjunta tem um potencial de ativar modos de aten\u00e7\u00e3o que vem sendo constantemente limitados e inibidos em nossas experi\u00eancias online e presenciais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">se deixar impregnar&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">evitando a interrup\u00e7\u00e3o precipitada que \u00e9 pr\u00f3pria da experi\u00eancia da recogni\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">suspender<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">manter a aten\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">praticar&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">abrir frestas (um lugar por onde entra luz)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">cultivar<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">outra exist\u00eancia<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">mais exist\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">CRARY, J. Terra arrasada. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KASTRUP, V.; CALIMAN, L. (org.). Laborat\u00f3rio est\u00e9tico de aten\u00e7\u00e3o: o cultivo da aten\u00e7\u00e3o conjunta. Curitiba: Editora CRV, 2025.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LARROSA BOND\u00cdA, J. Notas sobre a experi\u00eancia e o saber de experi\u00eancia. <em>Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o<\/em>, Rio de Janeiro, n. 19, p. 20\u201328, jan.\/fev.\/mar.\/abr. 2002. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbedu\/a\/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC\/?format=pdf&amp;lang=pt&amp;utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 8 maio 2026.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Danielle Miranda I Inicialmente, pensei que este texto seria uma resenha tradicional. O objetivo seria sugerir a leitura de Laborat\u00f3rio est\u00e9tico de aten\u00e7\u00e3o: o cultivo da aten\u00e7\u00e3o conjunta, organizado por Virg\u00ednia Kastrup e Luciana Caliman (2025, Editora CRV).&nbsp; O livro partilha com os leitores a experimenta\u00e7\u00e3o de conceitos relacionados \u00e0 aten\u00e7\u00e3o na contemporaneidade por meio de proposi\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas realizadas em grupo, em sala de aula, no Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O Laborat\u00f3rio est\u00e9tico de aten\u00e7\u00e3o busca sustentar a complexidade da tarefa relacionada a aten\u00e7\u00e3o e aposta na pot\u00eancia de um dispositivo grupal para novas configura\u00e7\u00f5es mais cuidadosas da aten\u00e7\u00e3o na sua rela\u00e7\u00e3o com o mundo, com as pessoas e de cada um consigo mesmo.&nbsp; Kenneth Rogers (2024) define como o \u201ccomplexo da aten\u00e7\u00e3o\u201d um regime de poder que articula diferentes campos do conhecimento, interesses econ\u00f4micos, tecnologias digitais, ind\u00fastria farmac\u00eautica, agendas ideol\u00f3gicas, pol\u00edticas, pedag\u00f3gicas e de sa\u00fade. O complexo atencional mant\u00e9m rela\u00e7\u00f5es estreitas com o mundo dominado pelo capital, pelo colonialismo, pelo patriarcado, pelo capacitismo e que de diversas formas condiciona o que deve ser visto, notado, atendido e valorado coletivamente.&nbsp; (KASTRUP; CALIMAN, 2025, p.9) Al\u00e9m de discutir criticamente um diagn\u00f3stico da aten\u00e7\u00e3o na contemporaneidade, os diversos autores relatam atividades realizadas em sala de aula para \u201cchegar no pr\u00f3prio corpo\u201d, tendo em vista que, com a acelera\u00e7\u00e3o do dia a dia, nem sempre estamos de fato presentes na experi\u00eancia. H\u00e1 um conjunto de atividades com o prop\u00f3sito de produzir uma desacelera\u00e7\u00e3o cognitiva e experimentar a abertura dos corpos para sua multissensorialidade.&nbsp; uma aten\u00e7\u00e3o dotada de espessura uma aten\u00e7\u00e3o encarnada O livro coloca o desafio de constru\u00e7\u00e3o de uma perspectiva ampliada do problema atual do entrela\u00e7amento entre aten\u00e7\u00e3o e tecnologias digitais, na medida em que a subjetividade contempor\u00e2nea \u00e9 marcada pela presen\u00e7a maci\u00e7a em nossas vidas, reguladas majoritariamente pelo que Jonathan Crary (2023) denomina \u201ccomplexo inform\u00e1tico\u201d. Para Kastrup e Caliman (2025), as tecnologias digitais s\u00e3o projetadas para abolir o tempo e suscitar a ilus\u00e3o de instantaneidade, produzindo subjetividades marcadas pelo imediatismo sens\u00f3rio-motor, em que prevalece uma grande limita\u00e7\u00e3o temporal, espacial e material. A extrema velocidade das conex\u00f5es online, para as autoras, tem rela\u00e7\u00e3o indissoci\u00e1vel com o capitalismo, que se nutre do sentimento de urg\u00eancia que molda o mundo do trabalho e a rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas.&nbsp; Simultaneamente \u00e0 realoca\u00e7\u00e3o da vida social, econ\u00f4mica e privada para as plataformas digitais, o complexo atencional contempor\u00e2neo torna obsoleto o tempo cronol\u00f3gico e o tempo em sua dimens\u00e3o de dura\u00e7\u00e3o, presente na aten\u00e7\u00e3o sustentada, na aten\u00e7\u00e3o refletida e no acionamento do pensamento e do desejo.&nbsp; II \u00a0Desde a primeira semana de 2026 tenho colocado em pr\u00e1tica um acordo comigo: n\u00e3o utilizar o Instagram pela manh\u00e3, muito menos ao acordar. O foco n\u00e3o \u00e9 uma disciplina de produtividade, nem um detox digital, mas uma tentativa de experimentar outra espessura temporal. Principalmente, de adiar diariamente o contato com os modos de aten\u00e7\u00e3o alerta e dispersos que ambientes como o Instagram convocam: uma aten\u00e7\u00e3o intensa e breve, em volume alto, excitada, com muitas opini\u00f5es, mas incapaz de sustentar dura\u00e7\u00e3o. As plataformas digitais n\u00e3o disputam apenas nosso tempo; disputam as condi\u00e7\u00f5es mesmas de dura\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia. A experi\u00eancia \u00e9 o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. N\u00e3o o que se passa, n\u00e3o o que acontece ou o que toca. A cada dia se passam muitas coisas, por\u00e9m, ao mesmo tempo, quase nada nos acontece. Dir-se-ia que tudo o que se passa est\u00e1 organizado para que nada nos aconte\u00e7a. Walter Benjamin, em um texto c\u00e9lebre, j\u00e1 observava a pobreza da experi\u00eancia. O que caracteriza o nosso mundo? Nunca se passaram tantas coisas, mas a experi\u00eancia \u00e9 cada vez mais rara. (LARROSSA BOND\u00cdA, 2002, p. 21) a aten\u00e7\u00e3o sustentada requer um n\u00edvel elevado de engajamento nem scrool, nem m\u00e9tricas nos faz observar, ficar, habitar habitar = morar e de-morar aquele que habita transforma-se em criador de lugares III&nbsp; Lembro aqui de uma micro-experi\u00eancia est\u00e9tica da aten\u00e7\u00e3o que me chega como proposta pelo email h\u00e1 alguns meses e at\u00e9 hoje n\u00e3o a realizei.&nbsp; \u00c9 simples: o formato \u201c10-Minute Challenge\u201d, do The New York Times, publicado geralmente na primeira segunda-feira de cada m\u00eas, com a possibilidade de subscrever um lembrete por e-mail, prop\u00f5e olhar para uma \u00fanica obra de arte durante dez minutos inteiros, observar atentamente detalhes, rela\u00e7\u00f5es formais, texturas, conex\u00f5es intertextuais produzidas pela obra.&nbsp; O desafio contraria os regimes acelerados de aten\u00e7\u00e3o t\u00edpicos do ambiente digital. Aparentemente, chega ao nosso e-mail como uma esp\u00e9cie de lembrete delicado para desacelerar o olhar. E a\u00ed, entre compromissos e notifica\u00e7\u00f5es, \u201c10 minutos\u201d hoje parecem excessivos, quase absurdos. Um cron\u00f4metro registra quanto tempo permanecemos diante da obra. At\u00e9 hoje, n\u00e3o conclu\u00ed 10 minutos em nenhuma, pois sempre decido pular para outra tarefa (mais urgente, mais s\u00e9ria, mais eficiente, mais produtiva). lentificar re-parar sustentar a perman\u00eancia sustentar a experi\u00eancia A experi\u00eancia, a possibilidade de que algo nos aconte\u00e7a ou nos toque, requer um gesto de interrup\u00e7\u00e3o, um gesto que \u00e9 quase imposs\u00edvel nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opini\u00e3o, suspender o ju\u00edzo, suspender a vontade, suspender o automatismo da a\u00e7\u00e3o, cultivar a aten\u00e7\u00e3o e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentid\u00e3o, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paci\u00eancia e dar-se tempo e espa\u00e7o. (LARROSSA BOND\u00cdA, 2002, p. 24) Pensar, olhar, escutar mais devagar, tudo mais devagar: aprender a lentid\u00e3o. O Laborat\u00f3rio est\u00e9tico da aten\u00e7\u00e3o diz respeito a cultivar uma aten\u00e7\u00e3o sustentada, concentrada e aberta. Resultado de encontros regulares realizados ao longo de dois anos, est\u00e1 claro que o livro e o Laborat\u00f3rio n\u00e3o pretendem opor a vida ativa e vida contemplativa, pois a contempla\u00e7\u00e3o envolve engajamento sens\u00edvel, intelectual e afetivo, al\u00e9m de intensa atividade cognitiva. Um regime atencional envolve um conjunto de gestos articulados; n\u00e3o \u00e9 apenas uma a\u00e7\u00e3o mental, j\u00e1 que a aten\u00e7\u00e3o \u00e9 distribu\u00edda por todo o corpo (KASTRUP; CALIMAN, 2025). A partir de Crary (2023), as autoras do livro aqui sugerido discutem como a presen\u00e7a de tecnologias digitais na atualidade \u00e9 vetor dominante nos processos de subjetiva\u00e7\u00e3o, que produz efeitos not\u00e1veis na cogni\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea e colocam problemas, sobretudo, \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o na tentativa de regula\u00e7\u00e3o ostensiva da nossa aten\u00e7\u00e3o. Em oposi\u00e7\u00e3o a estes modos de aten\u00e7\u00e3o, prop\u00f5em suscitar um adensamento da experi\u00eancia, criando condi\u00e7\u00f5es para acionar processos de aten\u00e7\u00e3o corporificada. A sua aposta \u00e9 o encontro com o corpo e o cultivo da aten\u00e7\u00e3o conjunta tem um potencial de ativar modos de aten\u00e7\u00e3o que vem sendo constantemente limitados e inibidos em nossas experi\u00eancias online e presenciais.&nbsp; se deixar impregnar&nbsp; evitando a interrup\u00e7\u00e3o precipitada que \u00e9 pr\u00f3pria da experi\u00eancia da recogni\u00e7\u00e3o suspender manter a aten\u00e7\u00e3o praticar&nbsp; abrir frestas (um lugar por onde entra luz) cultivar outra exist\u00eancia mais exist\u00eancia.&nbsp; Refer\u00eancias CRARY, J. Terra arrasada. S\u00e3o Paulo: Cosac Naify, 2023. KASTRUP, V.; CALIMAN, L. (org.). Laborat\u00f3rio est\u00e9tico de aten\u00e7\u00e3o: o cultivo da aten\u00e7\u00e3o conjunta. Curitiba: Editora CRV, 2025. LARROSA BOND\u00cdA, J. Notas sobre a experi\u00eancia e o saber de experi\u00eancia. Revista Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o, Rio de Janeiro, n. 19, p. 20\u201328, jan.\/fev.\/mar.\/abr. 2002. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.scielo.br\/j\/rbedu\/a\/Ycc5QDzZKcYVspCNspZVDxC\/?format=pdf&amp;lang=pt&amp;utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 8 maio 2026.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":306,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-302","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/302","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=302"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/302\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":307,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/302\/revisions\/307"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media\/306"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=302"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=302"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=302"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}