{"id":314,"date":"2026-05-26T20:13:29","date_gmt":"2026-05-26T23:13:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/?p=314"},"modified":"2026-05-26T20:13:31","modified_gmt":"2026-05-26T23:13:31","slug":"dos-cadaveres-escondidos-na-bagagem-abandonada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/2026\/05\/26\/dos-cadaveres-escondidos-na-bagagem-abandonada\/","title":{"rendered":"Dos cad\u00e1veres escondidos na bagagem abandonada"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Tiago Segabinazzi<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 poucas semanas, defendi minha tese de doutorado, intitulada \u201cO nada, o caos e os signos: imagens de pensamento e a tradu\u00e7\u00e3o do contempor\u00e2neo\u201d. Trabalhei nela nos \u00faltimos quatro anos. Durante esse per\u00edodo, muita coisa foi escrita e ficou de fora do texto final; por motivos variados: certas an\u00e1lises n\u00e3o puderam ser terminadas por falta de tempo, alguns ensaios ocupariam muito espa\u00e7o nas j\u00e1 infladas trezentas p\u00e1ginas e, ainda, outras reflex\u00f5es, como a que compartilharei a seguir, n\u00e3o pareciam fazer sentido ou acabaram perdendo a pertin\u00eancia que j\u00e1 tiveram, devido ao rumo que a pesquisa seguiu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais ou menos um ano antes de concluir a tese, me debrucei por v\u00e1rias horas sobre um desses trechos que ficariam pelo caminho. Na \u00e9poca, parecia fundamental abordar uma quest\u00e3o importante para a semi\u00f3tica e para a filosofia, apesar de n\u00e3o sentir muita seguran\u00e7a em discuti-la: o dinamismo do real e a estabilidade da representa\u00e7\u00e3o. Era para ser o gatilho da discuss\u00e3o te\u00f3rico-epistemol\u00f3gica que constituiria a primeira parte de meu trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para n\u00e3o perder a concentra\u00e7\u00e3o, fiquei sem almo\u00e7ar naquele dia. Comi amendoins e tomei caf\u00e9. Quando cansava de encarar o branco do editor de texto, buscava ref\u00fagio na luz amarela que iluminava minha mesa. Foi praticamente um dia de trabalho nisso. Avancei pouco. E o projeto estava atrasado. Depois de fracassar em tentar fazer a tese orbit\u00e1-lo, lamentei o tempo investido em um ensaio abstrato e in\u00fatil, que sequer pude resolv\u00ea-lo para mim mesmo. Leio, hoje, os v\u00e1rios par\u00e1grafos a seguir sem reconhecer com nitidez o pano de fundo que os motivou, estranhando as imagens mobilizadas, sem lembrar das frases que havia por escrever e que tornariam coerentes aquelas j\u00e1 escritas. O pre\u00e7o a pagar por ter cedido \u00e0quele impulso de curiosidade urgente \u00e9 ter que viajar novamente para busc\u00e1-las sem pressa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aquele trecho tinha o seguinte t\u00edtulo e assim se desenrolava e enrolava:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Na curva de um rio, rio, rio, rio, rio, rio&#8230;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">1<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por mais que tenhamos bebido daquela fonte com Her\u00e1clito, que entende que o real \u00e9 devir e movimento, ou seja, que n\u00e3o h\u00e1 como segurar em conceito qualquer ess\u00eancia do emp\u00edrico (que, por estar condenado a sempre diferir de si mesmo, n\u00e3o a possui), sabemos tamb\u00e9m que n\u00e3o precisamos entrar na \u00e1gua duas vezes para termos certeza de que iremos nos molhar. Na pr\u00e1tica, sequer precisamos <em>saber<\/em> que iremos nos molhar, basta <em>acreditarmos<\/em> nisso para agirmos de acordo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para fortalecer a cren\u00e7a e facilitar o transporte de uma reflex\u00e3o como essa heraclitiana, criamos imagens que servem como dep\u00f3sitos e ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o e de experi\u00eancia: \u201cNenhum homem pode entrar no mesmo rio duas vezes, pois nem o rio nem o homem se mant\u00eam os mesmos\u201d, disse o pr\u00e9-socr\u00e1tico. Um signo-par\u00e1bola desses possibilita que reflitamos com ele sem precisar de conceitos como devir ou ess\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por\u00e9m, essa imagem n\u00e3o \u00e9 como um jarro imperme\u00e1vel que comporta um conte\u00fado sem perdas para ser despejado em outro lugar. Ao mediar a reflex\u00e3o, esse jarro tamb\u00e9m absorve pelos seus poros aquilo que cont\u00e9m, a ponto de se tornar, em alguma medida e cada vez mais, a pr\u00f3pria coisa que continha: \u00e9 assim que se converte numa imagem idol\u00e1trica. Bastaria decorar o prov\u00e9rbio e nada mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 que lamber o jarro que absorveu a \u00e1gua n\u00e3o sacia nossa sede, poder\u00edamos criar outro continente para transportar e manter o conte\u00fado l\u00edquido: \u201cpara desmanchar profundas verdades bastam \u00e1guas rasas\u201d \u2013 essa imagem, por\u00e9m, seria pouco \u00fatil enquanto dep\u00f3sito de experi\u00eancia a outras \u00e9pocas, pois exp\u00f5e demasiadamente seu conte\u00fado, a ponto dele se evaporar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">2<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Saber se a \u00e1gua do rio segue ou n\u00e3o segue sendo a mesma \u00e9 uma quest\u00e3o cient\u00edfica, pois trata do objeto de estudo. Saber se n\u00f3s restamos os mesmos \u00e9 uma quest\u00e3o filos\u00f3fica, pois trata do sujeito do conhecimento. A segunda quest\u00e3o \u00e9 negada em nome da primeira: \u00e9 suficiente supor que vamos nos molhar, logo, pouco importa o que nos tornar\u00edamos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A perspectiva objetiva, que olha para as modifica\u00e7\u00f5es do mundo sem se importar se continuamos os mesmos, \u00e9 a utilit\u00e1ria. A que \u00e9 ignorada, que trata do autoconhecimento e do humanismo, \u00e9 a in\u00fatil. \u00c9 uma hierarquia que se estabelece ao natural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sujeito do conhecimento n\u00e3o precisa ser conhecido nem questionado se houver mudan\u00e7a constante dos objetos ao seu redor. A curiosidade foi monopolizada pelo que \u00e9 \u00fatil. Para tornar o in\u00fatil algo \u00fatil, restou aos fil\u00f3sofos, aos poetas e \u00e0 toda sorte de questionadores de si ocupar o espa\u00e7o intermedi\u00e1rio entre os sujeitos e os objetos: tiveram que se tornar artistas, redatores e, com o tempo, influenciadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No epis\u00f3dio que ficou conhecido como <em>A silenciosa revolta dos intermedi\u00e1rios<\/em>, a imagem do homem e do rio tamb\u00e9m passou por um <em>rebranding<\/em>: \u201ca cria\u00e7\u00e3o das vitrines cria seus observadores\u201d. A moderniza\u00e7\u00e3o do <em>slogan<\/em> alterou tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">3<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da cria\u00e7\u00e3o de signos como a reflex\u00e3o de Her\u00e1clito, \u00e9 poss\u00edvel dizer at\u00e9 mesmo que a realidade n\u00e3o permaneceu a mesma: \u00e9 um acontecimento cogitar a imperman\u00eancia em um mundo que sugere a ess\u00eancia, ou que a deseja. A realidade passou a ser uma disputa sobre o que \u00e9 o real; mas o curioso \u00e9 que, apesar de essa ser a querela, n\u00e3o \u00e9 o real que importa, mas seu enquadramento como devir ou como ess\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maior parte das argumenta\u00e7\u00f5es que seguiram essa par\u00e1bola-acontecimento fixaram resid\u00eancia em margens opostas: a ontologia buscava tratar da constitui\u00e7\u00e3o do rio e a epistemologia se interessava por quem poderia mergulhar nele. Nessa tens\u00e3o residem as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade do conhecimento: se o sujeito e o objeto est\u00e3o em constante devir, n\u00e3o h\u00e1 como repetir experi\u00eancia alguma, n\u00e3o h\u00e1 como fazer ci\u00eancia moderna sem ser hip\u00f3crita.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, mas ser\u00e1 mesmo que se tratava de ter certeza quanto \u00e0 imperman\u00eancia do real? Se nos concentrarmos naquilo que sequer teve inten\u00e7\u00e3o de resolver o irresoluto, ou seja, se apenas olharmos para a pol\u00eamica, veremos claramente a m\u00e3o de Her\u00e1clito, mas perdemos de vista o que ele estava a apontar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia uma terceira margem do rio, dizem, onde signos transparentes refletiam luzes de origem desconhecida. Correspondendo ou n\u00e3o \u00e0quilo que anunciavam, foram tomados como ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o que poderiam abrigar algum conte\u00fado significativo; por\u00e9m, como nunca transportaram nada nem chegaram a qualquer lugar, esses sinais se tornaram a coisa em si, destinada a estar al\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A realidade, tanto na zona da ess\u00eancia quanto no imperialismo do devir, n\u00e3o restou a mesma ap\u00f3s a apari\u00e7\u00e3o do que era certeiro, por\u00e9m ainda indecifr\u00e1vel. Visto da seguran\u00e7a das margens da ess\u00eancia e do devir, se tornou signo da loucura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Her\u00e1clito apontou para a imperman\u00eancia, seu gesto maior n\u00e3o foi o de negar a possibilidade da ess\u00eancia: com o indicador inequivocamente em dire\u00e7\u00e3o ao objeto, mas com os outros tr\u00eas dedos espontaneamente se revolvendo para a palma da m\u00e3o, sua maravilha era perceber que imagens im\u00f3veis insistiam em emanar do tal fluxo do devir \u2013 que, ao ser chamado assim, j\u00e1 n\u00e3o se parecia mais com o interregno inomin\u00e1vel que se estendia entre as duas margens, \u201crio abaixo, rio a fora, rio adentro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">4<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para fazer ci\u00eancia, \u00e9 preciso fazer na pergunta que era filos\u00f3fica um giro pragm\u00e1tico: se as coisas est\u00e3o em um eterno deixar-de-ser, como podemos dizer qualquer coisa delas? Como podemos criar signos minimamente pertinentes? Como imagens de pensamento captam o caos do contempor\u00e2neo sempre em mudan\u00e7a?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A entropia faz com que o universo se expanda e se desfa\u00e7a na velocidade da luz \u2013 ou com ainda maior velocidade ou for\u00e7a ou seja l\u00e1 o que for esse mist\u00e9rio que ocorre no interior dos buracos-negros que pacientemente desintegrar\u00e3o tudo que n\u00e3o for eles mesmos. Como podemos, apesar desse constante deixar-de-ser do universo, ainda olhar para cima e encontrar as mesmas constela\u00e7\u00f5es e que guiaram nossos ancestrais?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o mundo est\u00e1 em devir, como signos s\u00e3o poss\u00edveis? Ser\u00e1 pela insist\u00eancia daquilo que chamamos raz\u00e3o em acreditar mais no quanto uma estrela j\u00e1 brilhou do que em seu estado atual \u2013 da mesma forma que se olha mais para o r\u00f3tulo de um vinho do que para aquilo que desce pela garganta? Para isso, ter\u00edamos que admitir que o mundo \u00e9 outro e que continuamos a acreditar em coisas mais antigas do que aquilo em que ele se tornou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse ponto confuso, tive uma certeza: estou fugindo do escopo da tese.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Tiago Segabinazzi H\u00e1 poucas semanas, defendi minha tese de doutorado, intitulada \u201cO nada, o caos e os signos: imagens de pensamento e a tradu\u00e7\u00e3o do contempor\u00e2neo\u201d. Trabalhei nela nos \u00faltimos quatro anos. Durante esse per\u00edodo, muita coisa foi escrita e ficou de fora do texto final; por motivos variados: certas an\u00e1lises n\u00e3o puderam ser terminadas por falta de tempo, alguns ensaios ocupariam muito espa\u00e7o nas j\u00e1 infladas trezentas p\u00e1ginas e, ainda, outras reflex\u00f5es, como a que compartilharei a seguir, n\u00e3o pareciam fazer sentido ou acabaram perdendo a pertin\u00eancia que j\u00e1 tiveram, devido ao rumo que a pesquisa seguiu.&nbsp; Mais ou menos um ano antes de concluir a tese, me debrucei por v\u00e1rias horas sobre um desses trechos que ficariam pelo caminho. Na \u00e9poca, parecia fundamental abordar uma quest\u00e3o importante para a semi\u00f3tica e para a filosofia, apesar de n\u00e3o sentir muita seguran\u00e7a em discuti-la: o dinamismo do real e a estabilidade da representa\u00e7\u00e3o. Era para ser o gatilho da discuss\u00e3o te\u00f3rico-epistemol\u00f3gica que constituiria a primeira parte de meu trabalho. Para n\u00e3o perder a concentra\u00e7\u00e3o, fiquei sem almo\u00e7ar naquele dia. Comi amendoins e tomei caf\u00e9. Quando cansava de encarar o branco do editor de texto, buscava ref\u00fagio na luz amarela que iluminava minha mesa. Foi praticamente um dia de trabalho nisso. Avancei pouco. E o projeto estava atrasado. Depois de fracassar em tentar fazer a tese orbit\u00e1-lo, lamentei o tempo investido em um ensaio abstrato e in\u00fatil, que sequer pude resolv\u00ea-lo para mim mesmo. Leio, hoje, os v\u00e1rios par\u00e1grafos a seguir sem reconhecer com nitidez o pano de fundo que os motivou, estranhando as imagens mobilizadas, sem lembrar das frases que havia por escrever e que tornariam coerentes aquelas j\u00e1 escritas. O pre\u00e7o a pagar por ter cedido \u00e0quele impulso de curiosidade urgente \u00e9 ter que viajar novamente para busc\u00e1-las sem pressa. Aquele trecho tinha o seguinte t\u00edtulo e assim se desenrolava e enrolava: Na curva de um rio, rio, rio, rio, rio, rio&#8230; 1 Por mais que tenhamos bebido daquela fonte com Her\u00e1clito, que entende que o real \u00e9 devir e movimento, ou seja, que n\u00e3o h\u00e1 como segurar em conceito qualquer ess\u00eancia do emp\u00edrico (que, por estar condenado a sempre diferir de si mesmo, n\u00e3o a possui), sabemos tamb\u00e9m que n\u00e3o precisamos entrar na \u00e1gua duas vezes para termos certeza de que iremos nos molhar. Na pr\u00e1tica, sequer precisamos saber que iremos nos molhar, basta acreditarmos nisso para agirmos de acordo. Para fortalecer a cren\u00e7a e facilitar o transporte de uma reflex\u00e3o como essa heraclitiana, criamos imagens que servem como dep\u00f3sitos e ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o e de experi\u00eancia: \u201cNenhum homem pode entrar no mesmo rio duas vezes, pois nem o rio nem o homem se mant\u00eam os mesmos\u201d, disse o pr\u00e9-socr\u00e1tico. Um signo-par\u00e1bola desses possibilita que reflitamos com ele sem precisar de conceitos como devir ou ess\u00eancia.&nbsp; Por\u00e9m, essa imagem n\u00e3o \u00e9 como um jarro imperme\u00e1vel que comporta um conte\u00fado sem perdas para ser despejado em outro lugar. Ao mediar a reflex\u00e3o, esse jarro tamb\u00e9m absorve pelos seus poros aquilo que cont\u00e9m, a ponto de se tornar, em alguma medida e cada vez mais, a pr\u00f3pria coisa que continha: \u00e9 assim que se converte numa imagem idol\u00e1trica. Bastaria decorar o prov\u00e9rbio e nada mais. J\u00e1 que lamber o jarro que absorveu a \u00e1gua n\u00e3o sacia nossa sede, poder\u00edamos criar outro continente para transportar e manter o conte\u00fado l\u00edquido: \u201cpara desmanchar profundas verdades bastam \u00e1guas rasas\u201d \u2013 essa imagem, por\u00e9m, seria pouco \u00fatil enquanto dep\u00f3sito de experi\u00eancia a outras \u00e9pocas, pois exp\u00f5e demasiadamente seu conte\u00fado, a ponto dele se evaporar. 2 Saber se a \u00e1gua do rio segue ou n\u00e3o segue sendo a mesma \u00e9 uma quest\u00e3o cient\u00edfica, pois trata do objeto de estudo. Saber se n\u00f3s restamos os mesmos \u00e9 uma quest\u00e3o filos\u00f3fica, pois trata do sujeito do conhecimento. A segunda quest\u00e3o \u00e9 negada em nome da primeira: \u00e9 suficiente supor que vamos nos molhar, logo, pouco importa o que nos tornar\u00edamos.&nbsp; A perspectiva objetiva, que olha para as modifica\u00e7\u00f5es do mundo sem se importar se continuamos os mesmos, \u00e9 a utilit\u00e1ria. A que \u00e9 ignorada, que trata do autoconhecimento e do humanismo, \u00e9 a in\u00fatil. \u00c9 uma hierarquia que se estabelece ao natural. O sujeito do conhecimento n\u00e3o precisa ser conhecido nem questionado se houver mudan\u00e7a constante dos objetos ao seu redor. A curiosidade foi monopolizada pelo que \u00e9 \u00fatil. Para tornar o in\u00fatil algo \u00fatil, restou aos fil\u00f3sofos, aos poetas e \u00e0 toda sorte de questionadores de si ocupar o espa\u00e7o intermedi\u00e1rio entre os sujeitos e os objetos: tiveram que se tornar artistas, redatores e, com o tempo, influenciadores. No epis\u00f3dio que ficou conhecido como A silenciosa revolta dos intermedi\u00e1rios, a imagem do homem e do rio tamb\u00e9m passou por um rebranding: \u201ca cria\u00e7\u00e3o das vitrines cria seus observadores\u201d. A moderniza\u00e7\u00e3o do slogan alterou tamb\u00e9m a rela\u00e7\u00e3o entre sujeito e objeto.&nbsp; 3 A partir da cria\u00e7\u00e3o de signos como a reflex\u00e3o de Her\u00e1clito, \u00e9 poss\u00edvel dizer at\u00e9 mesmo que a realidade n\u00e3o permaneceu a mesma: \u00e9 um acontecimento cogitar a imperman\u00eancia em um mundo que sugere a ess\u00eancia, ou que a deseja. A realidade passou a ser uma disputa sobre o que \u00e9 o real; mas o curioso \u00e9 que, apesar de essa ser a querela, n\u00e3o \u00e9 o real que importa, mas seu enquadramento como devir ou como ess\u00eancia.&nbsp; A maior parte das argumenta\u00e7\u00f5es que seguiram essa par\u00e1bola-acontecimento fixaram resid\u00eancia em margens opostas: a ontologia buscava tratar da constitui\u00e7\u00e3o do rio e a epistemologia se interessava por quem poderia mergulhar nele. Nessa tens\u00e3o residem as condi\u00e7\u00f5es de possibilidade do conhecimento: se o sujeito e o objeto est\u00e3o em constante devir, n\u00e3o h\u00e1 como repetir experi\u00eancia alguma, n\u00e3o h\u00e1 como fazer ci\u00eancia moderna sem ser hip\u00f3crita.&nbsp; Ora, mas ser\u00e1 mesmo que se tratava de ter certeza quanto \u00e0 imperman\u00eancia do real? Se nos concentrarmos naquilo que sequer teve inten\u00e7\u00e3o de resolver o irresoluto, ou seja, se apenas olharmos para a pol\u00eamica, veremos claramente a m\u00e3o de Her\u00e1clito, mas perdemos de vista o que ele estava a apontar.&nbsp; Havia uma terceira margem do rio, dizem, onde signos transparentes refletiam luzes de origem desconhecida. Correspondendo ou n\u00e3o \u00e0quilo que anunciavam, foram tomados como ve\u00edculos de informa\u00e7\u00e3o que poderiam abrigar algum conte\u00fado significativo; por\u00e9m, como nunca transportaram nada nem chegaram a qualquer lugar, esses sinais se tornaram a coisa em si, destinada a estar al\u00e9m.&nbsp; A realidade, tanto na zona da ess\u00eancia quanto no imperialismo do devir, n\u00e3o restou a mesma ap\u00f3s a apari\u00e7\u00e3o do que era certeiro, por\u00e9m ainda indecifr\u00e1vel. Visto da seguran\u00e7a das margens da ess\u00eancia e do devir, se tornou signo da loucura.&nbsp; Quando Her\u00e1clito apontou para a imperman\u00eancia, seu gesto maior n\u00e3o foi o de negar a possibilidade da ess\u00eancia: com o indicador inequivocamente em dire\u00e7\u00e3o ao objeto, mas com os outros tr\u00eas dedos espontaneamente se revolvendo para a palma da m\u00e3o, sua maravilha era perceber que imagens im\u00f3veis insistiam em emanar do tal fluxo do devir \u2013 que, ao ser chamado assim, j\u00e1 n\u00e3o se parecia mais com o interregno inomin\u00e1vel que se estendia entre as duas margens, \u201crio abaixo, rio a fora, rio adentro\u201d. 4 Para fazer ci\u00eancia, \u00e9 preciso fazer na pergunta que era filos\u00f3fica um giro pragm\u00e1tico: se as coisas est\u00e3o em um eterno deixar-de-ser, como podemos dizer qualquer coisa delas? Como podemos criar signos minimamente pertinentes? Como imagens de pensamento captam o caos do contempor\u00e2neo sempre em mudan\u00e7a?&nbsp; A entropia faz com que o universo se expanda e se desfa\u00e7a na velocidade da luz \u2013 ou com ainda maior velocidade ou for\u00e7a ou seja l\u00e1 o que for esse mist\u00e9rio que ocorre no interior dos buracos-negros que pacientemente desintegrar\u00e3o tudo que n\u00e3o for eles mesmos. Como podemos, apesar desse constante deixar-de-ser do universo, ainda olhar para cima e encontrar as mesmas constela\u00e7\u00f5es e que guiaram nossos ancestrais? Se o mundo est\u00e1 em devir, como signos s\u00e3o poss\u00edveis? Ser\u00e1 pela insist\u00eancia daquilo que chamamos raz\u00e3o em acreditar mais no quanto uma estrela j\u00e1 brilhou do que em seu estado atual \u2013 da mesma forma que se olha mais para o r\u00f3tulo de um vinho do que para aquilo que desce pela garganta? Para isso, ter\u00edamos que admitir que o mundo \u00e9 outro e que continuamos a acreditar em coisas mais antigas do que aquilo em que ele se tornou. Nesse ponto confuso, tive uma certeza: estou fugindo do escopo da tese.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":315,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-314","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-blog"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/314","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=314"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/314\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":317,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/314\/revisions\/317"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media\/315"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=314"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=314"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=314"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}