{"id":345,"date":"2026-07-07T18:15:46","date_gmt":"2026-07-07T21:15:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/?p=345"},"modified":"2026-07-07T18:15:47","modified_gmt":"2026-07-07T21:15:47","slug":"cultivo-algoritmico-uma-reflexao-interdisciplinar-sobre-a-modulacao-da-subjetividade-nas-redes-sociais-digitais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/2026\/07\/07\/cultivo-algoritmico-uma-reflexao-interdisciplinar-sobre-a-modulacao-da-subjetividade-nas-redes-sociais-digitais\/","title":{"rendered":"Cultivo algor\u00edtmico: uma reflex\u00e3o interdisciplinar sobre a modula\u00e7\u00e3o da subjetividade nas redes sociais digitais"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Vin\u00edcios Serr\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"986\" height=\"791\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Cultivo.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-346\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Cultivo.png 986w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Cultivo-300x241.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Cultivo-768x616.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 986px) 100vw, 986px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em>Fonte: Elaborada por meio de IA<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Passar aproximadamente nove horas por dia conectado \u00e0 internet, como ocorre com a popula\u00e7\u00e3o brasileira, significa permanecer uma parcela expressiva da experi\u00eancia cotidiana imersa em um ambiente digital que atravessa rela\u00e7\u00f5es sociais, pr\u00e1ticas culturais, formas de trabalho, consumo, entretenimento e processos de constru\u00e7\u00e3o da subjetividade. A internet deixa, assim, de representar apenas um instrumento de comunica\u00e7\u00e3o para assumir caracter\u00edsticas de um espa\u00e7o existencial no qual afetos, percep\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as, h\u00e1bitos e modos de agir s\u00e3o continuamente produzidos, reorganizados e refor\u00e7ados. Quando a experi\u00eancia humana passa a ser vivida de forma intensa dentro de uma arquitetura comunicacional permanentemente conectada, torna-se pertinente compreender esse ambiente como um agente ativo na forma\u00e7\u00e3o do sujeito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esta reflex\u00e3o re\u00fane contribui\u00e7\u00f5es da comunica\u00e7\u00e3o, da psican\u00e1lise, da neuroci\u00eancia, da filosofia e da sociologia para discutir como as redes sociais digitais participam da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da subjetividade. O conceito de bios midi\u00e1tico, desenvolvido por Muniz Sodr\u00e9 (2002, 2006), oferece a compreens\u00e3o da internet como uma nova forma de vida social; a teoria do ambiente facilitador, de Donald Winnicott, permite compreender como os ambientes moldam o desenvolvimento emocional; a teoria do cultivo, de George Gerbner, evidencia o papel da repeti\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica na constru\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o da realidade; enquanto os estudos sobre neuroplasticidade, repeti\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e sociedades de controle ampliam a compreens\u00e3o acerca dos mecanismos pelos quais os ambientes digitais reorganizam disposi\u00e7\u00f5es cognitivas, emocionais e comportamentais. A articula\u00e7\u00e3o desses referenciais conduz \u00e0 no\u00e7\u00e3o de cultivo algor\u00edtmico, compreendido como um processo permanente de modelagem da experi\u00eancia realizado pela arquitetura computacional das plataformas digitais.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>2. O bios midi\u00e1tico e a constitui\u00e7\u00e3o do ambiente digital&nbsp;<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conceito de bios midi\u00e1tico, elaborado por Muniz Sodr\u00e9, parte do entendimento de que a m\u00eddia deixou de funcionar apenas como um canal de transmiss\u00e3o de mensagens para constituir um ambiente que reorganiza a pr\u00f3pria experi\u00eancia social. A media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica transforma as rela\u00e7\u00f5es entre tempo, espa\u00e7o, identidade e sociabilidade, fazendo com que grande parte da exist\u00eancia cotidiana passe a ocorrer dentro de fluxos cont\u00ednuos de imagens, informa\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es digitais. As redes sociais deixam de ocupar uma posi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica na vida social e passam a integrar o pr\u00f3prio modo como os indiv\u00edduos percebem o mundo, constroem v\u00ednculos e atribuem sentido \u00e0s suas experi\u00eancias. Essa reorganiza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana modifica profundamente a produ\u00e7\u00e3o da subjetividade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O bios midi\u00e1tico constitui uma recria\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica do ethos social, reorganizando h\u00e1bitos, sensibilidades, formas de cogni\u00e7\u00e3o e padr\u00f5es afetivos segundo uma l\u00f3gica marcada pela circula\u00e7\u00e3o permanente de conte\u00fados e pela valoriza\u00e7\u00e3o da visibilidade. O sujeito passa a viver simultaneamente em uma realidade material e em uma realidade continuamente reconstru\u00edda por imagens, narrativas e intera\u00e7\u00f5es digitais. A internet converte-se, assim, em uma ambi\u00eancia existencial cuja influ\u00eancia ultrapassa a comunica\u00e7\u00e3o propriamente dita para alcan\u00e7ar os modos de sentir, interpretar e habitar o mundo. \u201cUma realidade imaginarizada, isto \u00e9, feita de fluxos de imagens e d\u00edgitos, que reinterpretam continuamente com novos suportes tecnol\u00f3gicos \u00e0s representa\u00e7\u00f5es tradicionais do real\u201d (Sodr\u00e9, 2006, p.122)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, Sodr\u00e9 (2006) destaca que a gest\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es ocupa posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na organiza\u00e7\u00e3o da vida social contempor\u00e2nea. As m\u00eddias operam sobre afetos capazes de mobilizar pertencimentos, produzir identifica\u00e7\u00f5es coletivas e orientar comportamentos. Emo\u00e7\u00f5es como medo, indigna\u00e7\u00e3o, entusiasmo e pertencimento deixam de surgir apenas das experi\u00eancias imediatas para serem continuamente alimentadas por narrativas, s\u00edmbolos e imagens cuidadosamente distribu\u00eddas. A hist\u00f3ria demonstra que diferentes regimes pol\u00edticos recorreram \u00e0 explora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos afetos como instrumento de organiza\u00e7\u00e3o social, indicando que a manipula\u00e7\u00e3o emocional constitui uma tecnologia de poder muito anterior ao ambiente digital, embora encontre nas plataformas contempor\u00e2neas condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas incomparavelmente mais sofisticadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As redes sociais ampliam essa capacidade de modula\u00e7\u00e3o afetiva ao incorporarem algoritmos capazes de monitorar continuamente os comportamentos dos usu\u00e1rios e reorganizar os fluxos informacionais em tempo real. A experi\u00eancia digital deixa de ser determinada apenas pelas escolhas conscientes do indiv\u00edduo e passa a resultar de processos autom\u00e1ticos de sele\u00e7\u00e3o, recomenda\u00e7\u00e3o e personaliza\u00e7\u00e3o que definem aquilo que ser\u00e1 visto, compartilhado e valorizado. Informa\u00e7\u00e3o, entretenimento, consumo e sociabilidade passam a convergir em um mesmo ecossistema comunicacional, transformando a aten\u00e7\u00e3o em um recurso continuamente explorado. A consequ\u00eancia \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de ambientes altamente responsivos que retroalimentam prefer\u00eancias anteriores e produzem experi\u00eancias progressivamente personalizadas, estabelecendo as bases do que pode ser compreendido como um cultivo algor\u00edtmico da subjetividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>3. O ambiente facilitador e a plasticidade da experi\u00eancia humana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compreens\u00e3o do ambiente digital como espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o da subjetividade aproxima-se da teoria do ambiente facilitador desenvolvida por Donald Winnicott (2024 [1971]). Para o psicanalista, o desenvolvimento emocional n\u00e3o decorre exclusivamente de disposi\u00e7\u00f5es internas do indiv\u00edduo, mas da qualidade das rela\u00e7\u00f5es estabelecidas com o ambiente ao longo da vida. Desde os primeiros momentos da exist\u00eancia, o sujeito depende de um ambiente suficientemente bom para integrar experi\u00eancias, desenvolver espontaneidade e consolidar um sentimento de continuidade do ser. Embora essa depend\u00eancia absoluta diminua com o amadurecimento, o ambiente jamais deixa de exercer influ\u00eancia sobre a organiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. Ao contr\u00e1rio, a criatividade, a autonomia e a autenticidade permanecem continuamente relacionadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais nas quais o indiv\u00edduo vive. Essa perspectiva permite compreender que as redes sociais digitais, devido \u00e0 intensidade de sua presen\u00e7a na vida cotidiana, participam ativamente dos processos de desenvolvimento subjetivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As contribui\u00e7\u00f5es da neuroci\u00eancia fortalecem essa interpreta\u00e7\u00e3o ao demonstrar que o c\u00e9rebro permanece em constante reorganiza\u00e7\u00e3o diante das experi\u00eancias vividas. Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio (2012 [1996]) mostra que os circuitos neurais s\u00e3o continuamente modificados pela intera\u00e7\u00e3o entre organismo e ambiente, tornando a experi\u00eancia um elemento estruturador da arquitetura cerebral. Esse processo, posteriormente denominado neuroplasticidade (Estanislau, 2023), revela que pensamentos, emo\u00e7\u00f5es, h\u00e1bitos e formas de percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o permanecem est\u00e1ticos, sendo continuamente reorganizados conforme os est\u00edmulos recebidos. A plasticidade cerebral confere ao ambiente um papel decisivo na consolida\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es cognitivos e afetivos, pois experi\u00eancias reiteradas fortalecem determinadas conex\u00f5es neurais enquanto outras tendem a enfraquecer. O c\u00e9rebro, portanto, incorpora a hist\u00f3ria das experi\u00eancias vividas, convertendo a repeti\u00e7\u00e3o em um mecanismo biol\u00f3gico de aprendizagem e adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando se articulam as formula\u00e7\u00f5es de Sodr\u00e9, Winnicott (2024 [1971]) e Dam\u00e1sio (2012 [1996]), torna-se poss\u00edvel compreender o ambiente digital como um ecossistema capaz de produzir efeitos simultaneamente culturais, ps\u00edquicos e neurobiol\u00f3gicos. O bios midi\u00e1tico organiza pr\u00e1ticas sociais; o ambiente facilitador evidencia a import\u00e2ncia da qualidade das experi\u00eancias para a constitui\u00e7\u00e3o do <em>self<\/em>; e a neuroplasticidade explica como essas experi\u00eancias deixam marcas relativamente duradouras na organiza\u00e7\u00e3o cerebral. As redes sociais deixam de representar apenas plataformas de comunica\u00e7\u00e3o para constitu\u00edrem ambientes de desenvolvimento permanente, nos quais milhares de intera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias participam da reorganiza\u00e7\u00e3o dos processos de aten\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria, percep\u00e7\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o e tomada de decis\u00e3o. Quanto maior o tempo de exposi\u00e7\u00e3o, maior tende a ser a influ\u00eancia desse ambiente sobre a consolida\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es subjetivos relativamente est\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Winnicott (2024 [1971], p. 170) afirma que \u201co ambiente suficientemente bom (&#8230;) \u00e9 absolutamente essencial para o desenvolvimento natural do ser humano\u201d. Aquilo que ele chama de <em>self<\/em> verdadeiro \u00e9 resultado desse ambiente que facilita o desenvolvimento de uma personalidade dotada de espontaneidade, criatividade e riqueza. Um ambiente que n\u00e3o contribui para a forma\u00e7\u00e3o do eu, desenvolve um \u2018falso <em>self\u2019<\/em>, estruturado \u201csobre uma base de submiss\u00e3o e se relaciona com as exig\u00eancias da realidade externa de forma passiva\u201d (Winnicott, 2024 [1971], p. 142). A organiza\u00e7\u00e3o do falso <em>self<\/em> \u00e9 uma consequ\u00eancia do fracasso da adapta\u00e7\u00e3o ativa, que no caso dos beb\u00eas, se d\u00e1 por meio da m\u00e3e (pai ou outro cuidador) ao \u2018falhar \u2018no cuidado e\/ou na castra\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, nos est\u00e1gios iniciais do desenvolvimento emocional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sob essa perspectiva, os algoritmos passam a desempenhar uma fun\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0 media\u00e7\u00e3o exercida pelo ambiente descrito por Winnicott, por\u00e9m, estimulando a cria\u00e7\u00e3o de um <em>self<\/em> falso, n\u00e3o espont\u00e2neo. Nesse contexto, os algor\u00edtimos organizam os encontros poss\u00edveis, selecionam experi\u00eancias, regulam a visibilidade dos conte\u00fados e determinam quais est\u00edmulos ser\u00e3o continuamente apresentados ao usu\u00e1rio. Diferentemente do ambiente suficientemente bom, cuja finalidade consiste em favorecer o amadurecimento emocional mediante um equil\u00edbrio entre prote\u00e7\u00e3o, liberdade e frustra\u00e7\u00e3o, a arquitetura algor\u00edtmica \u00e9 orientada prioritariamente pela maximiza\u00e7\u00e3o do tempo de perman\u00eancia, do engajamento e da rentabilidade econ\u00f4mica das plataformas. A adapta\u00e7\u00e3o permanente \u00e0s prefer\u00eancias previamente registradas reduz o contato com a alteridade, diminui a imprevisibilidade da experi\u00eancia e enfraquece oportunidades de elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica produzidas pelo encontro com o diferente. Em vez de ampliar progressivamente a autonomia do sujeito, o ambiente digital tende a consolidar circuitos de confirma\u00e7\u00e3o, reconhecimento e satisfa\u00e7\u00e3o imediata, estabelecendo condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para a forma\u00e7\u00e3o de uma subjetividade continuamente modulada pelos mecanismos de personaliza\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>4. Cultivo algor\u00edtmico, repeti\u00e7\u00e3o e controle emocional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria da cultiva\u00e7\u00e3o, desenvolvida por George Gerbner et al (2022), oferece uma importante chave interpretativa para compreender os efeitos cumulativos da exposi\u00e7\u00e3o prolongada aos meios de comunica\u00e7\u00e3o sobre a percep\u00e7\u00e3o da realidade. Ao investigar durante d\u00e9cadas a programa\u00e7\u00e3o televisiva, Gerbner demonstrou que a influ\u00eancia da m\u00eddia n\u00e3o decorre de mensagens isoladas, mas da recorr\u00eancia de determinados padr\u00f5es narrativos que, lentamente, passam a estruturar a maneira como os indiv\u00edduos interpretam o mundo. A televis\u00e3o cultivava percep\u00e7\u00f5es relativamente homog\u00eaneas porque expunha milh\u00f5es de pessoas \u00e0s mesmas narrativas. No ambiente digital, entretanto, esse processo adquire uma configura\u00e7\u00e3o in\u00e9dita. A repeti\u00e7\u00e3o permanece sendo o principal mecanismo de cultivo, por\u00e9m deixa de ser uniforme para tornar-se personalizada, din\u00e2mica e continuamente ajustada pelos algoritmos, configurando aquilo que pode ser denominado cultivo algor\u00edtmico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cultivo algor\u00edtmico corresponde \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o permanente da experi\u00eancia digital por sistemas computacionais que aprendem continuamente com o comportamento do usu\u00e1rio. Cada curtida, coment\u00e1rio, compartilhamento, tempo de perman\u00eancia, pausa durante a rolagem da tela ou clique constitui um dado incorporado pelos algoritmos para antecipar interesses futuros e reorganizar o ambiente informacional. O resultado \u00e9 um circuito de retroalimenta\u00e7\u00e3o no qual o sujeito encontra repetidamente conte\u00fados compat\u00edveis com suas prefer\u00eancias anteriores, produzindo uma experi\u00eancia progressivamente previs\u00edvel e afetivamente confort\u00e1vel. A arquitetura algor\u00edtmica reduz a diversidade de experi\u00eancias ao privilegiar informa\u00e7\u00f5es estatisticamente mais capazes de manter a aten\u00e7\u00e3o, transformando a repeti\u00e7\u00e3o em uma tecnologia de estabiliza\u00e7\u00e3o perceptiva. O ambiente digital passa, assim, a cultivar formas espec\u00edficas de interpretar acontecimentos, pessoas, valores e emo\u00e7\u00f5es, favorecendo a consolida\u00e7\u00e3o de determinadas disposi\u00e7\u00f5es subjetivas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A efic\u00e1cia desse processo torna-se ainda mais evidente quando considerada \u00e0 luz da neuroplasticidade. Como demonstram Dam\u00e1sio (2012 [1996]) e os estudos contempor\u00e2neos da neuroci\u00eancia, experi\u00eancias repetidas fortalecem circuitos neurais espec\u00edficos, tornando determinadas formas de perceber, sentir e responder progressivamente mais acess\u00edveis e autom\u00e1ticas. A repeti\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica deixa de representar apenas uma estrat\u00e9gia comunicacional para converter-se em um mecanismo que incide sobre processos biol\u00f3gicos de aprendizagem. Quanto maior a frequ\u00eancia com que determinados est\u00edmulos s\u00e3o apresentados, maior tende a ser o fortalecimento das redes neurais associadas a eles. O cultivo algor\u00edtmico encontra, portanto, na plasticidade cerebral uma condi\u00e7\u00e3o privilegiada para consolidar h\u00e1bitos cognitivos, repert\u00f3rios emocionais e padr\u00f5es de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade. A arquitetura digital deixa de apenas distribuir informa\u00e7\u00f5es para participar continuamente da reorganiza\u00e7\u00e3o dos processos atencionais, afetivos e comportamentais dos indiv\u00edduos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa din\u00e2mica produz importantes consequ\u00eancias para o controle emocional exercido pelas plataformas digitais. A repeti\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de conte\u00fados que despertam indigna\u00e7\u00e3o, medo, entusiasmo, pertencimento ou recompensa fortalece circuitos emocionais espec\u00edficos e aumenta a probabilidade de que determinadas respostas afetivas se tornem habituais diante de novos acontecimentos. Paralelamente, os algoritmos selecionam conte\u00fados capazes de maximizar o engajamento exatamente porque emo\u00e7\u00f5es intensas prolongam o tempo de perman\u00eancia e ampliam a circula\u00e7\u00e3o das publica\u00e7\u00f5es. O ambiente digital transforma-se, desse modo, em um espa\u00e7o de treinamento emocional permanente, no qual afetos deixam de emergir exclusivamente das experi\u00eancias concretas para serem continuamente modulados pela recorr\u00eancia das mesmas narrativas, imagens e enquadramentos. O controle emocional n\u00e3o decorre apenas do conte\u00fado consumido, mas principalmente da regularidade com que determinados estados afetivos s\u00e3o reativados, fortalecidos e incorporados aos modos cotidianos de perceber e responder ao mundo. O cultivo algor\u00edtmico evidencia, assim, que repeti\u00e7\u00e3o, neuroplasticidade e arquitetura computacional constituem processos profundamente articulados na produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da subjetividade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>5. Da modula\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da subjetividade contempor\u00e2nea<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As implica\u00e7\u00f5es do cultivo algor\u00edtmico tornam-se ainda mais evidentes quando observadas sob a perspectiva das sociedades de controle descritas por Gilles Deleuze (1992). Enquanto as sociedades disciplinares organizavam os comportamentos por meio de institui\u00e7\u00f5es relativamente fechadas, os ambientes digitais operam atrav\u00e9s de processos cont\u00ednuos de modula\u00e7\u00e3o. Os algoritmos ajustam permanentemente os fluxos de informa\u00e7\u00e3o, reorganizam os regimes de visibilidade, acompanham padr\u00f5es de intera\u00e7\u00e3o e recalibram continuamente a experi\u00eancia do usu\u00e1rio, \u201ccomo uma moldagem auto-deformante que muda continuamente, a cada instante, ou como uma peneira cujas malhas mudam de um ponto a outro\u201d (Deleuze, 1992, p. 221).&nbsp; O controle deixa de depender de mecanismos coercitivos expl\u00edcitos para ocorrer mediante pequenas interven\u00e7\u00f5es distribu\u00eddas ao longo da experi\u00eancia cotidiana. Cada recomenda\u00e7\u00e3o, cada reorganiza\u00e7\u00e3o do feed e cada conte\u00fado sugerido constituem microajustes que, acumulados ao longo do tempo, orientam a circula\u00e7\u00e3o dos afetos, das aten\u00e7\u00f5es e das formas de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade. A governamentalidade digital passa a operar sobre probabilidades de comportamento, administrando continuamente os ambientes nos quais a subjetividade \u00e9 produzida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa din\u00e2mica aproxima-se da compreens\u00e3o de Gilles Deleuze e F\u00e9lix Guattari (2010 [1972]) acerca das m\u00e1quinas desejantes, segundo a qual o desejo participa de agenciamentos sociais, econ\u00f4micos e t\u00e9cnicos que orientam sua circula\u00e7\u00e3o. As plataformas digitais constituem dispositivos que articulam interesses econ\u00f4micos, tecnologias computacionais e fluxos afetivos em um mesmo circuito operacional. A captura da aten\u00e7\u00e3o deixa de representar um objetivo exclusivamente mercadol\u00f3gico para tornar-se um processo permanente de administra\u00e7\u00e3o do desejo. O reconhecimento social, a expectativa por novas notifica\u00e7\u00f5es, a antecipa\u00e7\u00e3o de recompensas simb\u00f3licas e a busca incessante por valida\u00e7\u00e3o alimentam uma din\u00e2mica de participa\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria que refor\u00e7a continuamente a ades\u00e3o \u00e0s plataformas. O controle emocional emerge, assim, como consequ\u00eancia da incorpora\u00e7\u00e3o cotidiana dessas rotinas de intera\u00e7\u00e3o, nas quais prazer, expectativa, pertencimento e reconhecimento passam a ser continuamente administrados pela l\u00f3gica algor\u00edtmica. Nesse sentido, as formula\u00e7\u00f5es de Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio (2012 [1996]) e Jacques Lacan (1985 [1954-1955]) permitem aprofundar esse processo ao evidenciarem que a repeti\u00e7\u00e3o constitui uma dimens\u00e3o fundamental da experi\u00eancia humana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dam\u00e1sio (2012 [1996]) demonstra que emo\u00e7\u00f5es, h\u00e1bitos e decis\u00f5es se estabilizam por meio da reativa\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de circuitos neurais, enquanto Lacan (1985 [1954-1955]) compreende a repeti\u00e7\u00e3o como um movimento estrutural do sujeito que insiste para al\u00e9m da satisfa\u00e7\u00e3o imediata. As plataformas digitais exploram simultaneamente essas duas dimens\u00f5es. De um lado, favorecem a consolida\u00e7\u00e3o neurobiol\u00f3gica de h\u00e1bitos por meio da recorr\u00eancia dos est\u00edmulos; de outro, organizam fluxos informacionais capazes de reencenar continuamente expectativas, desejos e formas de gozo que mant\u00eam o sujeito vinculado ao ambiente digital. A repeti\u00e7\u00e3o deixa de constituir apenas um mecanismo ps\u00edquico ou biol\u00f3gico e converte-se em uma estrat\u00e9gia comunicacional cuidadosamente explorada pelas arquiteturas algor\u00edtmicas para prolongar o engajamento e estabilizar padr\u00f5es de comportamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A articula\u00e7\u00e3o entre bios midi\u00e1tico, ambiente facilitador, cultivo algor\u00edtmico, neuroplasticidade, repeti\u00e7\u00e3o e controle emocional permite compreender as redes sociais digitais como ecossistemas de subjetiva\u00e7\u00e3o que atuam simultaneamente sobre dimens\u00f5es culturais, ps\u00edquicas, cognitivas e afetivas da experi\u00eancia humana. O ambiente digital organiza as condi\u00e7\u00f5es de visibilidade, seleciona est\u00edmulos, refor\u00e7a determinadas narrativas, favorece padr\u00f5es recorrentes de intera\u00e7\u00e3o e cultiva disposi\u00e7\u00f5es emocionais relativamente est\u00e1veis por meio da repeti\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. Quanto maior a perman\u00eancia dos indiv\u00edduos nesse ambiente, maiores tendem a ser os efeitos cumulativos produzidos sobre os modos de perceber, sentir, recordar, desejar e agir. O cultivo algor\u00edtmico emerge, portanto, como uma categoria capaz de sintetizar esse conjunto de processos, descrevendo a maneira pela qual a arquitetura computacional das plataformas transforma a repeti\u00e7\u00e3o em um princ\u00edpio organizador da subjetividade contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A aproxima\u00e7\u00e3o entre comunica\u00e7\u00e3o, psican\u00e1lise, neuroci\u00eancia e filosofia evidencia que a internet, especialmente as redes sociais digitais, consolidou-se como um ambiente estruturante da experi\u00eancia contempor\u00e2nea. Permanecer conectado durante aproximadamente nove horas di\u00e1rias significa habitar um ecossistema que participa continuamente da organiza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o, da circula\u00e7\u00e3o dos afetos, da consolida\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos e da forma\u00e7\u00e3o dos modos de interpretar a realidade. O conceito de bios midi\u00e1tico permite compreender essa transforma\u00e7\u00e3o da m\u00eddia em forma de vida; o ambiente facilitador demonstra que a qualidade das experi\u00eancias ambientais permanece decisiva para o desenvolvimento do self; a teoria da cultiva\u00e7\u00e3o revela que a repeti\u00e7\u00e3o constitui um mecanismo central na constru\u00e7\u00e3o das percep\u00e7\u00f5es sociais; enquanto a neuroplasticidade explica como essas experi\u00eancias reiteradas reorganizam continuamente os circuitos neurais. Integrados, esses referenciais permitem compreender o cultivo algor\u00edtmico como um processo permanente de modelagem da subjetividade realizado pela arquitetura das plataformas digitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa perspectiva amplia a compreens\u00e3o das redes sociais para al\u00e9m das abordagens centradas na circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es ou nos efeitos imediatos da comunica\u00e7\u00e3o. Os algoritmos administram condi\u00e7\u00f5es de experi\u00eancia, selecionam recorr\u00eancias, distribuem regimes de visibilidade, organizam economias afetivas e cultivam padr\u00f5es relativamente est\u00e1veis de percep\u00e7\u00e3o e comportamento. A modula\u00e7\u00e3o da subjetividade passa a ocorrer pela converg\u00eancia entre repeti\u00e7\u00e3o comunicacional, plasticidade neural e gest\u00e3o algor\u00edtmica da aten\u00e7\u00e3o, tornando o controle emocional uma consequ\u00eancia da pr\u00f3pria arquitetura do ambiente digital. Compreender esses processos significa reconhecer que a disputa contempor\u00e2nea pela aten\u00e7\u00e3o constitui, simultaneamente, uma disputa pela forma\u00e7\u00e3o das sensibilidades, pela produ\u00e7\u00e3o dos modos de exist\u00eancia e pelos horizontes de autonomia poss\u00edveis na cultura digital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>REFER\u00caNCIAS<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DAM\u00c1SIO, Ant\u00f3nio R. <strong>O erro de Descartes: emo\u00e7\u00e3o, raz\u00e3o e c\u00e9rebro humano<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2012 [1996].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DELEUZE, Gilles. <strong>Post-scriptum sobre as sociedades de controle.<\/strong> Conversa\u00e7\u00f5es: 1972-1990. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DELEUZE, Gilles; GUATTARI, F\u00e9lix. <strong>O anti-\u00c9dipo: capitalismo e esquizofrenia<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Editora 34, 2010 [1972].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ESTANISLAU, J\u00falia. <strong>C\u00e9rebro tem capacidade de se reconfigurar e ser treinado para melhores resultados<\/strong>. <strong>Jornal da USP<\/strong>, S\u00e3o Paulo, 2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GERBNER, George et al. Growing up with television: cultivation processes. In: BRYANT, Jennings; ZILLMANN, Dolf (org.). <strong>Media Effects: Advances in Theory and Research<\/strong>. 2002.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LACAN, Jacques. <strong>Semin\u00e1rio, livro 2:<\/strong> <strong>O Eu na teoria de Freud e na t\u00e9cnica da psican\u00e1lise (1954-1955).<\/strong> Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SODR\u00c9, Muniz. <strong>Antropol\u00f3gica do espelho: uma teoria da comunica\u00e7\u00e3o linear e em rede<\/strong>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2002.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SODR\u00c9, Muniz. <strong>As estrat\u00e9gias sens\u00edveis: afeto, m\u00eddia e pol\u00edtica<\/strong>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2006.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">WINNICOTT, Donald W. <strong>Natureza humana<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Ubu \/ WMF Martins Fontes, 2024.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Vin\u00edcios Serr\u00e3o 1. Introdu\u00e7\u00e3o Passar aproximadamente nove horas por dia conectado \u00e0 internet, como ocorre com a popula\u00e7\u00e3o brasileira, significa permanecer uma parcela expressiva da experi\u00eancia cotidiana imersa em um ambiente digital que atravessa rela\u00e7\u00f5es sociais, pr\u00e1ticas culturais, formas de trabalho, consumo, entretenimento e processos de constru\u00e7\u00e3o da subjetividade. A internet deixa, assim, de representar apenas um instrumento de comunica\u00e7\u00e3o para assumir caracter\u00edsticas de um espa\u00e7o existencial no qual afetos, percep\u00e7\u00f5es, cren\u00e7as, h\u00e1bitos e modos de agir s\u00e3o continuamente produzidos, reorganizados e refor\u00e7ados. Quando a experi\u00eancia humana passa a ser vivida de forma intensa dentro de uma arquitetura comunicacional permanentemente conectada, torna-se pertinente compreender esse ambiente como um agente ativo na forma\u00e7\u00e3o do sujeito. Esta reflex\u00e3o re\u00fane contribui\u00e7\u00f5es da comunica\u00e7\u00e3o, da psican\u00e1lise, da neuroci\u00eancia, da filosofia e da sociologia para discutir como as redes sociais digitais participam da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da subjetividade. O conceito de bios midi\u00e1tico, desenvolvido por Muniz Sodr\u00e9 (2002, 2006), oferece a compreens\u00e3o da internet como uma nova forma de vida social; a teoria do ambiente facilitador, de Donald Winnicott, permite compreender como os ambientes moldam o desenvolvimento emocional; a teoria do cultivo, de George Gerbner, evidencia o papel da repeti\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica na constru\u00e7\u00e3o da percep\u00e7\u00e3o da realidade; enquanto os estudos sobre neuroplasticidade, repeti\u00e7\u00e3o ps\u00edquica e sociedades de controle ampliam a compreens\u00e3o acerca dos mecanismos pelos quais os ambientes digitais reorganizam disposi\u00e7\u00f5es cognitivas, emocionais e comportamentais. A articula\u00e7\u00e3o desses referenciais conduz \u00e0 no\u00e7\u00e3o de cultivo algor\u00edtmico, compreendido como um processo permanente de modelagem da experi\u00eancia realizado pela arquitetura computacional das plataformas digitais. 2. O bios midi\u00e1tico e a constitui\u00e7\u00e3o do ambiente digital&nbsp; O conceito de bios midi\u00e1tico, elaborado por Muniz Sodr\u00e9, parte do entendimento de que a m\u00eddia deixou de funcionar apenas como um canal de transmiss\u00e3o de mensagens para constituir um ambiente que reorganiza a pr\u00f3pria experi\u00eancia social. A media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica transforma as rela\u00e7\u00f5es entre tempo, espa\u00e7o, identidade e sociabilidade, fazendo com que grande parte da exist\u00eancia cotidiana passe a ocorrer dentro de fluxos cont\u00ednuos de imagens, informa\u00e7\u00f5es e conex\u00f5es digitais. As redes sociais deixam de ocupar uma posi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica na vida social e passam a integrar o pr\u00f3prio modo como os indiv\u00edduos percebem o mundo, constroem v\u00ednculos e atribuem sentido \u00e0s suas experi\u00eancias. Essa reorganiza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana modifica profundamente a produ\u00e7\u00e3o da subjetividade.&nbsp; O bios midi\u00e1tico constitui uma recria\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica do ethos social, reorganizando h\u00e1bitos, sensibilidades, formas de cogni\u00e7\u00e3o e padr\u00f5es afetivos segundo uma l\u00f3gica marcada pela circula\u00e7\u00e3o permanente de conte\u00fados e pela valoriza\u00e7\u00e3o da visibilidade. O sujeito passa a viver simultaneamente em uma realidade material e em uma realidade continuamente reconstru\u00edda por imagens, narrativas e intera\u00e7\u00f5es digitais. A internet converte-se, assim, em uma ambi\u00eancia existencial cuja influ\u00eancia ultrapassa a comunica\u00e7\u00e3o propriamente dita para alcan\u00e7ar os modos de sentir, interpretar e habitar o mundo. \u201cUma realidade imaginarizada, isto \u00e9, feita de fluxos de imagens e d\u00edgitos, que reinterpretam continuamente com novos suportes tecnol\u00f3gicos \u00e0s representa\u00e7\u00f5es tradicionais do real\u201d (Sodr\u00e9, 2006, p.122) Nesse contexto, Sodr\u00e9 (2006) destaca que a gest\u00e3o das emo\u00e7\u00f5es ocupa posi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica na organiza\u00e7\u00e3o da vida social contempor\u00e2nea. As m\u00eddias operam sobre afetos capazes de mobilizar pertencimentos, produzir identifica\u00e7\u00f5es coletivas e orientar comportamentos. Emo\u00e7\u00f5es como medo, indigna\u00e7\u00e3o, entusiasmo e pertencimento deixam de surgir apenas das experi\u00eancias imediatas para serem continuamente alimentadas por narrativas, s\u00edmbolos e imagens cuidadosamente distribu\u00eddas. A hist\u00f3ria demonstra que diferentes regimes pol\u00edticos recorreram \u00e0 explora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica dos afetos como instrumento de organiza\u00e7\u00e3o social, indicando que a manipula\u00e7\u00e3o emocional constitui uma tecnologia de poder muito anterior ao ambiente digital, embora encontre nas plataformas contempor\u00e2neas condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas incomparavelmente mais sofisticadas. As redes sociais ampliam essa capacidade de modula\u00e7\u00e3o afetiva ao incorporarem algoritmos capazes de monitorar continuamente os comportamentos dos usu\u00e1rios e reorganizar os fluxos informacionais em tempo real. A experi\u00eancia digital deixa de ser determinada apenas pelas escolhas conscientes do indiv\u00edduo e passa a resultar de processos autom\u00e1ticos de sele\u00e7\u00e3o, recomenda\u00e7\u00e3o e personaliza\u00e7\u00e3o que definem aquilo que ser\u00e1 visto, compartilhado e valorizado. Informa\u00e7\u00e3o, entretenimento, consumo e sociabilidade passam a convergir em um mesmo ecossistema comunicacional, transformando a aten\u00e7\u00e3o em um recurso continuamente explorado. A consequ\u00eancia \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de ambientes altamente responsivos que retroalimentam prefer\u00eancias anteriores e produzem experi\u00eancias progressivamente personalizadas, estabelecendo as bases do que pode ser compreendido como um cultivo algor\u00edtmico da subjetividade. 3. O ambiente facilitador e a plasticidade da experi\u00eancia humana A compreens\u00e3o do ambiente digital como espa\u00e7o de forma\u00e7\u00e3o da subjetividade aproxima-se da teoria do ambiente facilitador desenvolvida por Donald Winnicott (2024 [1971]). Para o psicanalista, o desenvolvimento emocional n\u00e3o decorre exclusivamente de disposi\u00e7\u00f5es internas do indiv\u00edduo, mas da qualidade das rela\u00e7\u00f5es estabelecidas com o ambiente ao longo da vida. Desde os primeiros momentos da exist\u00eancia, o sujeito depende de um ambiente suficientemente bom para integrar experi\u00eancias, desenvolver espontaneidade e consolidar um sentimento de continuidade do ser. Embora essa depend\u00eancia absoluta diminua com o amadurecimento, o ambiente jamais deixa de exercer influ\u00eancia sobre a organiza\u00e7\u00e3o ps\u00edquica. Ao contr\u00e1rio, a criatividade, a autonomia e a autenticidade permanecem continuamente relacionadas \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais nas quais o indiv\u00edduo vive. Essa perspectiva permite compreender que as redes sociais digitais, devido \u00e0 intensidade de sua presen\u00e7a na vida cotidiana, participam ativamente dos processos de desenvolvimento subjetivo. As contribui\u00e7\u00f5es da neuroci\u00eancia fortalecem essa interpreta\u00e7\u00e3o ao demonstrar que o c\u00e9rebro permanece em constante reorganiza\u00e7\u00e3o diante das experi\u00eancias vividas. Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio (2012 [1996]) mostra que os circuitos neurais s\u00e3o continuamente modificados pela intera\u00e7\u00e3o entre organismo e ambiente, tornando a experi\u00eancia um elemento estruturador da arquitetura cerebral. Esse processo, posteriormente denominado neuroplasticidade (Estanislau, 2023), revela que pensamentos, emo\u00e7\u00f5es, h\u00e1bitos e formas de percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o permanecem est\u00e1ticos, sendo continuamente reorganizados conforme os est\u00edmulos recebidos. A plasticidade cerebral confere ao ambiente um papel decisivo na consolida\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es cognitivos e afetivos, pois experi\u00eancias reiteradas fortalecem determinadas conex\u00f5es neurais enquanto outras tendem a enfraquecer. O c\u00e9rebro, portanto, incorpora a hist\u00f3ria das experi\u00eancias vividas, convertendo a repeti\u00e7\u00e3o em um mecanismo biol\u00f3gico de aprendizagem e adapta\u00e7\u00e3o. Quando se articulam as formula\u00e7\u00f5es de Sodr\u00e9, Winnicott (2024 [1971]) e Dam\u00e1sio (2012 [1996]), torna-se poss\u00edvel compreender o ambiente digital como um ecossistema capaz de produzir efeitos simultaneamente culturais, ps\u00edquicos e neurobiol\u00f3gicos. O bios midi\u00e1tico organiza pr\u00e1ticas sociais; o ambiente facilitador evidencia a import\u00e2ncia da qualidade das experi\u00eancias para a constitui\u00e7\u00e3o do self; e a neuroplasticidade explica como essas experi\u00eancias deixam marcas relativamente duradouras na organiza\u00e7\u00e3o cerebral. As redes sociais deixam de representar apenas plataformas de comunica\u00e7\u00e3o para constitu\u00edrem ambientes de desenvolvimento permanente, nos quais milhares de intera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias participam da reorganiza\u00e7\u00e3o dos processos de aten\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria, percep\u00e7\u00e3o, emo\u00e7\u00e3o e tomada de decis\u00e3o. Quanto maior o tempo de exposi\u00e7\u00e3o, maior tende a ser a influ\u00eancia desse ambiente sobre a consolida\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es subjetivos relativamente est\u00e1veis. Winnicott (2024 [1971], p. 170) afirma que \u201co ambiente suficientemente bom (&#8230;) \u00e9 absolutamente essencial para o desenvolvimento natural do ser humano\u201d. Aquilo que ele chama de self verdadeiro \u00e9 resultado desse ambiente que facilita o desenvolvimento de uma personalidade dotada de espontaneidade, criatividade e riqueza. Um ambiente que n\u00e3o contribui para a forma\u00e7\u00e3o do eu, desenvolve um \u2018falso self\u2019, estruturado \u201csobre uma base de submiss\u00e3o e se relaciona com as exig\u00eancias da realidade externa de forma passiva\u201d (Winnicott, 2024 [1971], p. 142). A organiza\u00e7\u00e3o do falso self \u00e9 uma consequ\u00eancia do fracasso da adapta\u00e7\u00e3o ativa, que no caso dos beb\u00eas, se d\u00e1 por meio da m\u00e3e (pai ou outro cuidador) ao \u2018falhar \u2018no cuidado e\/ou na castra\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a, nos est\u00e1gios iniciais do desenvolvimento emocional. Sob essa perspectiva, os algoritmos passam a desempenhar uma fun\u00e7\u00e3o compar\u00e1vel \u00e0 media\u00e7\u00e3o exercida pelo ambiente descrito por Winnicott, por\u00e9m, estimulando a cria\u00e7\u00e3o de um self falso, n\u00e3o espont\u00e2neo. Nesse contexto, os algor\u00edtimos organizam os encontros poss\u00edveis, selecionam experi\u00eancias, regulam a visibilidade dos conte\u00fados e determinam quais est\u00edmulos ser\u00e3o continuamente apresentados ao usu\u00e1rio. Diferentemente do ambiente suficientemente bom, cuja finalidade consiste em favorecer o amadurecimento emocional mediante um equil\u00edbrio entre prote\u00e7\u00e3o, liberdade e frustra\u00e7\u00e3o, a arquitetura algor\u00edtmica \u00e9 orientada prioritariamente pela maximiza\u00e7\u00e3o do tempo de perman\u00eancia, do engajamento e da rentabilidade econ\u00f4mica das plataformas. A adapta\u00e7\u00e3o permanente \u00e0s prefer\u00eancias previamente registradas reduz o contato com a alteridade, diminui a imprevisibilidade da experi\u00eancia e enfraquece oportunidades de elabora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica produzidas pelo encontro com o diferente. Em vez de ampliar progressivamente a autonomia do sujeito, o ambiente digital tende a consolidar circuitos de confirma\u00e7\u00e3o, reconhecimento e satisfa\u00e7\u00e3o imediata, estabelecendo condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para a forma\u00e7\u00e3o de uma subjetividade continuamente modulada pelos mecanismos de personaliza\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica. 4. Cultivo algor\u00edtmico, repeti\u00e7\u00e3o e controle emocional A teoria da cultiva\u00e7\u00e3o, desenvolvida por George Gerbner et al (2022), oferece uma importante chave interpretativa para compreender os efeitos cumulativos da exposi\u00e7\u00e3o prolongada aos meios de comunica\u00e7\u00e3o sobre a percep\u00e7\u00e3o da realidade. Ao investigar durante d\u00e9cadas a programa\u00e7\u00e3o televisiva, Gerbner demonstrou que a influ\u00eancia da m\u00eddia n\u00e3o decorre de mensagens isoladas, mas da recorr\u00eancia de determinados padr\u00f5es narrativos que, lentamente, passam a estruturar a maneira como os indiv\u00edduos interpretam o mundo. A televis\u00e3o cultivava percep\u00e7\u00f5es relativamente homog\u00eaneas porque expunha milh\u00f5es de pessoas \u00e0s mesmas narrativas. No ambiente digital, entretanto, esse processo adquire uma configura\u00e7\u00e3o in\u00e9dita. A repeti\u00e7\u00e3o permanece sendo o principal mecanismo de cultivo, por\u00e9m deixa de ser uniforme para tornar-se personalizada, din\u00e2mica e continuamente ajustada pelos algoritmos, configurando aquilo que pode ser denominado cultivo algor\u00edtmico. O cultivo algor\u00edtmico corresponde \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o permanente da experi\u00eancia digital por sistemas computacionais que aprendem continuamente com o comportamento do usu\u00e1rio. Cada curtida, coment\u00e1rio, compartilhamento, tempo de perman\u00eancia, pausa durante a rolagem da tela ou clique constitui um dado incorporado pelos algoritmos para antecipar interesses futuros e reorganizar o ambiente informacional. O resultado \u00e9 um circuito de retroalimenta\u00e7\u00e3o no qual o sujeito encontra repetidamente conte\u00fados compat\u00edveis com suas prefer\u00eancias anteriores, produzindo uma experi\u00eancia progressivamente previs\u00edvel e afetivamente confort\u00e1vel. A arquitetura algor\u00edtmica reduz a diversidade de experi\u00eancias ao privilegiar informa\u00e7\u00f5es estatisticamente mais capazes de manter a aten\u00e7\u00e3o, transformando a repeti\u00e7\u00e3o em uma tecnologia de estabiliza\u00e7\u00e3o perceptiva. O ambiente digital passa, assim, a cultivar formas espec\u00edficas de interpretar acontecimentos, pessoas, valores e emo\u00e7\u00f5es, favorecendo a consolida\u00e7\u00e3o de determinadas disposi\u00e7\u00f5es subjetivas. A efic\u00e1cia desse processo torna-se ainda mais evidente quando considerada \u00e0 luz da neuroplasticidade. Como demonstram Dam\u00e1sio (2012 [1996]) e os estudos contempor\u00e2neos da neuroci\u00eancia, experi\u00eancias repetidas fortalecem circuitos neurais espec\u00edficos, tornando determinadas formas de perceber, sentir e responder progressivamente mais acess\u00edveis e autom\u00e1ticas. A repeti\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica deixa de representar apenas uma estrat\u00e9gia comunicacional para converter-se em um mecanismo que incide sobre processos biol\u00f3gicos de aprendizagem. Quanto maior a frequ\u00eancia com que determinados est\u00edmulos s\u00e3o apresentados, maior tende a ser o fortalecimento das redes neurais associadas a eles. O cultivo algor\u00edtmico encontra, portanto, na plasticidade cerebral uma condi\u00e7\u00e3o privilegiada para consolidar h\u00e1bitos cognitivos, repert\u00f3rios emocionais e padr\u00f5es de interpreta\u00e7\u00e3o da realidade. A arquitetura digital deixa de apenas distribuir informa\u00e7\u00f5es para participar continuamente da reorganiza\u00e7\u00e3o dos processos atencionais, afetivos e comportamentais dos indiv\u00edduos. Essa din\u00e2mica produz importantes consequ\u00eancias para o controle emocional exercido pelas plataformas digitais. A repeti\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de conte\u00fados que despertam indigna\u00e7\u00e3o, medo, entusiasmo, pertencimento ou recompensa fortalece circuitos emocionais espec\u00edficos e aumenta a probabilidade de que determinadas respostas afetivas se tornem habituais diante de novos acontecimentos. Paralelamente, os algoritmos selecionam conte\u00fados capazes de maximizar o engajamento exatamente porque emo\u00e7\u00f5es intensas prolongam o tempo de perman\u00eancia e ampliam a circula\u00e7\u00e3o das publica\u00e7\u00f5es. O ambiente digital transforma-se, desse modo, em um espa\u00e7o de treinamento emocional permanente, no qual afetos deixam de emergir exclusivamente das experi\u00eancias concretas para serem continuamente modulados pela recorr\u00eancia das mesmas narrativas, imagens e enquadramentos. O controle emocional n\u00e3o decorre apenas do conte\u00fado consumido, mas principalmente da regularidade com que determinados estados afetivos s\u00e3o reativados, fortalecidos e incorporados aos modos cotidianos de perceber e responder ao mundo. O cultivo algor\u00edtmico evidencia, assim, que repeti\u00e7\u00e3o, neuroplasticidade e arquitetura computacional constituem processos profundamente articulados na produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea da subjetividade. 5. Da modula\u00e7\u00e3o algor\u00edtmica \u00e0 produ\u00e7\u00e3o da subjetividade contempor\u00e2nea As implica\u00e7\u00f5es do cultivo algor\u00edtmico tornam-se ainda mais evidentes quando observadas sob a perspectiva das sociedades de controle descritas por Gilles Deleuze (1992). Enquanto as sociedades disciplinares organizavam os comportamentos por meio de institui\u00e7\u00f5es relativamente fechadas, os ambientes digitais operam atrav\u00e9s de processos cont\u00ednuos de modula\u00e7\u00e3o. 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