{"id":94,"date":"2025-06-13T14:24:02","date_gmt":"2025-06-13T17:24:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/?p=94"},"modified":"2025-06-13T19:37:11","modified_gmt":"2025-06-13T22:37:11","slug":"a-natureza-humana-em-rede-reflexoes-sobre-afetos-subjetivacao-e-contemporaneidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/popcicom\/2025\/06\/13\/a-natureza-humana-em-rede-reflexoes-sobre-afetos-subjetivacao-e-contemporaneidade\/","title":{"rendered":"A natureza humana em rede: reflex\u00f5es sobre afetos, subjetiva\u00e7\u00e3o e contemporaneidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Por Vin\u00edcios Serr\u00e3o:<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>1. Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste pequeno artigo, proponho uma s\u00edntese do meu universo de pesquisa que articula perspectivas da Psican\u00e1lise, da Neuroci\u00eancia, da Filosofia e da Comunica\u00e7\u00e3o, com o objetivo de compreender os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o \u2014 mecanismos pelos quais nos tornamos sujeitos \u2014 atravessado pela esfera midi\u00e1tica contempor\u00e2nea, com \u00eanfase no papel estruturante dos afetos. Parto da premissa de que a comunica\u00e7\u00e3o produz subjetividades atrav\u00e9s de tecnologias exploradoras do sens\u00edvel, onde emo\u00e7\u00f5es e sentimentos operam como vetores camuflados de poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reflex\u00e3o desdobrar-se-\u00e1 em tr\u00eas atos: \u201cO Eu\u201d em que reflito a forma\u00e7\u00e3o do <em>self<\/em> a partir do inconsciente coletivo e das experi\u00eancias psicof\u00edsicas; \u201cO N\u00f3s\u201d em que exploro como a cultura molda coletivos; e \u201cEle e a M\u00eddia\u201d em que discuto sobre a produ\u00e7\u00e3o de desigualdades pelo regime colonial-patriarcal-racializante-capital\u00edstico, trazendo como exemplos as <em>fake news<\/em> e os discursos de \u00f3dio nas redes digitais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>2. O Eu<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cada ser humano \u00e9 constitu\u00eddo por constela\u00e7\u00f5es quase infinitas de DNAs, genes, cromossomos e outras qualidades psicof\u00edsicas que o torna singular frente aos demais. Ningu\u00e9m jamais foi ou ser\u00e1 id\u00eantico a mim, a voc\u00ea, a ela, ele ou elo. Entretanto, apesar dessa particularidade inerente a cada <em>self<\/em>, todos somos frutos de um \u201cinconsciente coletivo\u201d, conforme compreendido pela psican\u00e1lise (JUNG, 2011). Cada modo de ser, pensar, agir, julgar e viver deriva de elementos \u201caprior\u00edsticos\u201d \u2014 herdados geneticamente de pais e antepassados \u2014 e \u201caposterior\u00edsticos\u201d \u2014 constru\u00eddos pela experi\u00eancia p\u00f3s-nascimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nascemos imersos em subjetividades pr\u00e9-definidas: nomes, classes sociais, religi\u00f5es, identidades pol\u00edticas e afilia\u00e7\u00f5es culturais. No mundo social, crescemos em meio a um infinito de subjetividades sugeridas pelos grupos e institui\u00e7\u00f5es que frequentamos, absorvidas por meio de sentimentos de pertencimento, muitas vezes, sem julgamentos e estranhamentos. Na maturidade, o inconsciente \u2014 essa &#8216;caixa preta&#8217; ps\u00edquica que det\u00e9m aproximadamente 95% do nosso conte\u00fado mental \u2014 acumula incont\u00e1veis ideias, imagens e infer\u00eancias que fundamentam nossa mov\u00eancia no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outrossim, \u00e9 importante destacar que cada subjetividade, antes de sua internaliza\u00e7\u00e3o, passa por um \u201ccircuito psicof\u00edsico\u201d, comandado pelos afetos. Os afetos \u2014 com suas emo\u00e7\u00f5es e sentimentos \u2014 s\u00e3o as tecnologias primitivas e primordiais para aprendizagem, conhecimento e adapta\u00e7\u00e3o ao mundo. Funcionam como \u201cvetores de subjetiva\u00e7\u00e3o\u201d, que definem a personalidade, os valores, as cren\u00e7as e os desejos que carregamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os afetos s\u00e3o \u2018as ideias sobre o estado do corpo\u2019 constru\u00eddas pela experi\u00eancia, conferindo flexibilidade comportamental atrav\u00e9s da introspec\u00e7\u00e3o. Sua g\u00eanese e regula\u00e7\u00e3o prim\u00e1rias radicam nesta hierarquia neural integrada: afetos fornecem a base fisiol\u00f3gica, emo\u00e7\u00f5es geram respostas autom\u00e1ticas, e sentimentos permitem a elabora\u00e7\u00e3o consciente e deliberada da experi\u00eancia afetiva (Dam\u00e1sio, 2004).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A neuroci\u00eancia confirma o que a filosofia j\u00e1 nos alertava: \u201cA raz\u00e3o \u00e9, e deve ser, apenas a escrava das paix\u00f5es, e n\u00e3o pode aspirar a outra fun\u00e7\u00e3o al\u00e9m de servir e obedecer a elas\u201d (HUME, 2009 [1740], p.451). Dessa forma, \u00e9 insustent\u00e1vel dissociar o pensar e o viver, isto \u00e9, pensar numa raz\u00e3o pura, como compreende Kant (2021 [1781]), e numa dualidade entre mente e corpo, como compreendia Descartes (1996 [1637]). As emo\u00e7\u00f5es e sentimentos (ou paix\u00f5es) sempre atuar\u00e3o junto com a raz\u00e3o, por\u00e9m, sobre ela, det\u00e9m primazia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>3. O N\u00f3s<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A &#8220;virada afetiva&#8221; revela seu papel disruptivo: coloca o racionalismo em crise, ao demostrar que o afeto precede a ideia, isto \u00e9, que a racionalidade \u00e9 fruto das afeta\u00e7\u00f5es corporais. Quero dizer que o amor, o medo, o \u00f3dio, o desamparo, a alegria, a tristeza etc. s\u00e3o os verdadeiros condutores da vida. \u201cO medo nos leva a caminhos recuados; o desamparo gera esperan\u00e7a; a alegria nos seduz; a satisfa\u00e7\u00e3o traz contentamento; a coragem impulsiona tentativas; a tristeza nos det\u00e9m.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, h\u00e1 uma nuance crucial: embora os afetos sejam tecnologias individuais, eles s\u00f3 ser\u00e3o acionados pelo \u2018choque entre corpos\u2019. N\u00e3o h\u00e1 afeto sem rela\u00e7\u00e3o \u2014 sem intera\u00e7\u00e3o entre o Eu e o Outro (vivo ou n\u00e3o-vivo). E n\u00e3o s\u00f3 isso: \u2018os afetos possuem dimens\u00f5es coletivas\u2019. Quando habitam o &#8220;N\u00f3s&#8221; e os &#8220;Outros&#8221;, podem mover multid\u00f5es e transformar realidades, ancoradas em sentimentos como o amor, o \u00f3dio, o pertencimento e o ressentimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Freud (1996 [1905]) j\u00e1 nos dizia que nossas qualidades libidinais nos impelem constantemente ao outro \u2014 seja para imit\u00e1-lo, desej\u00e1-lo, transform\u00e1-lo ou, mesmo, elimin\u00e1-lo. Desse choque corporal emerge uma paleta de modifica\u00e7\u00f5es sens\u00edveis que define como agimos conosco e perante o igual e o diferente. Nesse movimento, podemos at\u00e9 nos esquecer de quem somos; sendo escravizados por desejos alheios, imbu\u00eddos por \u2018causas inadequadas\u2019, como compreende Espinosa (2021 [1677]).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>4. Ele e a M\u00eddia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea, como eu, habita um pa\u00eds globalizado \u00e9, provavelmente, &#8216;cafetinado&#8217; por uma macro-m\u00e1quina produtora de subjetividades \u2014 o que Rolnik (2023) denomina &#8216;regime de inconsciente colonial, patriarcal, racializante e capital\u00edstico&#8217;. Tal estrutura n\u00e3o apenas explica fen\u00f4menos sociais que perpetuam desigualdades e privil\u00e9gios, mas opera silenciosamente atrav\u00e9s de normas, padr\u00f5es e desejos pr\u00e9-estabelecidos. S\u00e3o inibidores da criatividade. Desde o nascimento, esse regime molda grande parte do nosso inconsciente, atuando como arquiteto oculto de nossos modos de ser, pensar e agir \u2014 naturalizando assim estruturas de poder que beneficiam classes, corpos e g\u00eaneros espec\u00edficos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, o poder pol\u00edtico-econ\u00f4mico instrumentaliza afetos para o \u2018controle social\u2019, fazendo funcionar aquilo que podemos nominar de \u2018produ\u00e7\u00e3o de subjetividades\u2019 (Guattari e Rolnik, 1996); as m\u00eddias instrumentalizam o sens\u00edvel, manipulando afetos mediante estrat\u00e9gias que escapam \u00e0 consci\u00eancia (Sodr\u00e9, 2006); a pol\u00edtica gere circuitos afetivos que anulam alteridade e toler\u00e2ncia (Safatle,2021); afetos socialmente constru\u00eddos, em per\u00edodos de tens\u00e3o cultural, legitimam persegui\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas como ocorreu com as mulheres dos s\u00e9culos XVI, XVII e XVIII, acusadas de bruxas (Lotman 2008); emo\u00e7\u00f5es refor\u00e7am hierarquias que marginalizam grupos vulner\u00e1veis, como os imigrantes (Ahmed, 2014 [2004]).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os autores supracitados convergem em um diagn\u00f3stico: afetos negativos, estrategicamente mobilizados, alimentam desigualdades e inibem a\u00e7\u00f5es transformadoras. Para melhor tatear, podemos dar como exemplos as <em>fake news<\/em> e os discursos de \u00f3dio nas redes sociais digitais, que emergem como dispositivos estrat\u00e9gicos de subjetiva\u00e7\u00e3o, tendo a desigualdade como principal eixo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os discursos de \u00f3dio operam pela manifesta\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do \u00f3dio como rea\u00e7\u00e3o violenta \u00e0 alteridade, visando estigmatizar e agredir grupos marginalizados. As <em>fake news<\/em>, por sua vez, atuam predominantemente atrav\u00e9s da circula\u00e7\u00e3o do medo, construindo narrativas de amea\u00e7a iminente \u2014 \u00e0 seguran\u00e7a pessoal, \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 na\u00e7\u00e3o ou a privil\u00e9gios estabelecidos \u2014 que exploram vulnerabilidades sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ambos funcionam como tecnologias de subjetiva\u00e7\u00e3o: associam grupos espec\u00edficos (mulheres, negros, pessoas LGBTQIAPN+, gordos, deficientes, pobres) a perigos imagin\u00e1rios, normalizam preconceitos, legitimam viol\u00eancia e, crucialmente, reduzem a pot\u00eancia coletiva de agir. Ao fragmentar o tecido social, esses mecanismos perpetuam ciclos de discrimina\u00e7\u00e3o e consolidam l\u00f3gicas de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>5. Considera\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O estudo nos leva \u00e0 urg\u00eancia de uma alfabetiza\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, capaz de mobilizar as pessoas para uma vis\u00e3o mais cr\u00edtica da realidade. Tal fen\u00f4meno deve ocorrer por meio de uma comunica\u00e7\u00e3o que permita mais <em>feedbacks<\/em>, ru\u00eddos, questionamentos e diverg\u00eancias. Pr\u00e1ticas comunicativas fundamentadas na emancipa\u00e7\u00e3o coletiva, centradas na \u00e9tica do cuidado e no di\u00e1logo intersubjetivo, ligando as pessoas \u00e0s causas comuns. Deseja-se, uma comunica\u00e7\u00e3o que colabore para o cultivo da toler\u00e2ncia e dos fatos, reivindicando afetos ativos para o desempenho da sa\u00fade individual e coletiva. Uma comunica\u00e7\u00e3o humana, cient\u00edfica e reflexiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A busca por uma m\u00eddia verdadeiramente emancipat\u00f3ria reflete, em ess\u00eancia, uma disputa sobre o modelo de sociedade que almejamos construir. Como fundamenta Espinosa (2021 [1677]), a liberdade aut\u00eantica emerge de afetos que ampliam nossa pot\u00eancia de existir e agir. \u00c9 nesta dimens\u00e3o afetiva transformadora, capaz de superar divis\u00f5es e fomentar solidariedade, que reside a confian\u00e7a de uma humanidade mais integrada e menos cindida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Imagem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O homem vitruviano (Leonardo da Vinci, 1492) modificado por IA.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">AHMED, Sara. <strong>The Cultural Politics of Emotion<\/strong>. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2014 [2004].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DAM\u00c1SIO, Ant\u00f3nio. <strong>Em busca de Espinosa<\/strong>: prazer e dor na ci\u00eancia dos sentimentos. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">DESCARTES, Ren\u00e9. <strong>Discurso do m\u00e9todo<\/strong>. Trad. Jacob Guinsburg e Beto Prado J\u00fanior. Paris: J. Vrin, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ESPINOZA, Benedictus de. <strong>\u00c9tica<\/strong>. 1. ed., 2. Reimpr. \u2013 S\u00e3o Paulo: Editora da Universidade de S\u00e3o Paulo, 2021, c. [1677].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FREUD, Sigmund. Os tr\u00eas ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: <strong>__<\/strong>. <strong>Edi\u00e7\u00e3o Standard Brasileira das Obras Psicol\u00f3gicas Completas de Sigmund Freud<\/strong>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jayme Salom\u00e3o. Rio de Janeiro: Imago, 1996 [1905]. v. 7, p. 119-231.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">GUATTARI, F.; ROLNIK, S. <strong>Micropol\u00edtica<\/strong>: Cartografias do Desejo. Petr\u00f3polis: Vozes, 1996.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">HUME, David. <strong>Tratado da natureza humana<\/strong>: uma tentativa de introduzir o m\u00e9todo experimental de racioc\u00ednio nos assuntos morais. 2.ed. S\u00e3o Paulo: Editora UNESR, 2009.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">JUNG, C. <strong>O eu e o inconsciente<\/strong>. S\u00e3o Paulo: Vozes, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">KANT, Immanuel. <strong>Cr\u00edtica da raz\u00e3o pura<\/strong>. Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Moruj\u00e3o. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">LOTMAN, Yuri. <strong>Caza de brujas<\/strong>. La semi\u00f3tica del miedo. Revista de Occidente, Madrid, n. 329, p. 5-33, 2008.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">ROLNIK, Suely. O regime de inconsciente colonial-racializante-capital\u00edstico. Sugest\u00f5es para abolir a monocultura espiritual (Segunda parte). <strong>Atl\u00e1ntica, nueva etapa<\/strong>: revista de arte y pensamento. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.revistaatlantica.com\/suely-rolnik-portugues\/. Acesso em: 18\/10\/2023.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SAFATLE, V. <strong>O circuito dos afetos<\/strong>: corpos pol\u00edticos, desamparo e o fim do indiv\u00edduo. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2021.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">SODR\u00c9, Muniz. <strong>As estrat\u00e9gias sens\u00edveis<\/strong>: afeto, m\u00eddia e pol\u00edtica. Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2006. 110p.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Vin\u00edcios Serr\u00e3o: 1. Introdu\u00e7\u00e3o Neste pequeno artigo, proponho uma s\u00edntese do meu universo de pesquisa que articula perspectivas da Psican\u00e1lise, da Neuroci\u00eancia, da Filosofia e da Comunica\u00e7\u00e3o, com o objetivo de compreender os processos de subjetiva\u00e7\u00e3o \u2014 mecanismos pelos quais nos tornamos sujeitos \u2014 atravessado pela esfera midi\u00e1tica contempor\u00e2nea, com \u00eanfase no papel estruturante dos afetos. Parto da premissa de que a comunica\u00e7\u00e3o produz subjetividades atrav\u00e9s de tecnologias exploradoras do sens\u00edvel, onde emo\u00e7\u00f5es e sentimentos operam como vetores camuflados de poder. A reflex\u00e3o desdobrar-se-\u00e1 em tr\u00eas atos: \u201cO Eu\u201d em que reflito a forma\u00e7\u00e3o do self a partir do inconsciente coletivo e das experi\u00eancias psicof\u00edsicas; \u201cO N\u00f3s\u201d em que exploro como a cultura molda coletivos; e \u201cEle e a M\u00eddia\u201d em que discuto sobre a produ\u00e7\u00e3o de desigualdades pelo regime colonial-patriarcal-racializante-capital\u00edstico, trazendo como exemplos as fake news e os discursos de \u00f3dio nas redes digitais. 2. O Eu Cada ser humano \u00e9 constitu\u00eddo por constela\u00e7\u00f5es quase infinitas de DNAs, genes, cromossomos e outras qualidades psicof\u00edsicas que o torna singular frente aos demais. Ningu\u00e9m jamais foi ou ser\u00e1 id\u00eantico a mim, a voc\u00ea, a ela, ele ou elo. Entretanto, apesar dessa particularidade inerente a cada self, todos somos frutos de um \u201cinconsciente coletivo\u201d, conforme compreendido pela psican\u00e1lise (JUNG, 2011). Cada modo de ser, pensar, agir, julgar e viver deriva de elementos \u201caprior\u00edsticos\u201d \u2014 herdados geneticamente de pais e antepassados \u2014 e \u201caposterior\u00edsticos\u201d \u2014 constru\u00eddos pela experi\u00eancia p\u00f3s-nascimento. Nascemos imersos em subjetividades pr\u00e9-definidas: nomes, classes sociais, religi\u00f5es, identidades pol\u00edticas e afilia\u00e7\u00f5es culturais. No mundo social, crescemos em meio a um infinito de subjetividades sugeridas pelos grupos e institui\u00e7\u00f5es que frequentamos, absorvidas por meio de sentimentos de pertencimento, muitas vezes, sem julgamentos e estranhamentos. Na maturidade, o inconsciente \u2014 essa &#8216;caixa preta&#8217; ps\u00edquica que det\u00e9m aproximadamente 95% do nosso conte\u00fado mental \u2014 acumula incont\u00e1veis ideias, imagens e infer\u00eancias que fundamentam nossa mov\u00eancia no mundo. Outrossim, \u00e9 importante destacar que cada subjetividade, antes de sua internaliza\u00e7\u00e3o, passa por um \u201ccircuito psicof\u00edsico\u201d, comandado pelos afetos. Os afetos \u2014 com suas emo\u00e7\u00f5es e sentimentos \u2014 s\u00e3o as tecnologias primitivas e primordiais para aprendizagem, conhecimento e adapta\u00e7\u00e3o ao mundo. Funcionam como \u201cvetores de subjetiva\u00e7\u00e3o\u201d, que definem a personalidade, os valores, as cren\u00e7as e os desejos que carregamos. Os afetos s\u00e3o \u2018as ideias sobre o estado do corpo\u2019 constru\u00eddas pela experi\u00eancia, conferindo flexibilidade comportamental atrav\u00e9s da introspec\u00e7\u00e3o. Sua g\u00eanese e regula\u00e7\u00e3o prim\u00e1rias radicam nesta hierarquia neural integrada: afetos fornecem a base fisiol\u00f3gica, emo\u00e7\u00f5es geram respostas autom\u00e1ticas, e sentimentos permitem a elabora\u00e7\u00e3o consciente e deliberada da experi\u00eancia afetiva (Dam\u00e1sio, 2004). A neuroci\u00eancia confirma o que a filosofia j\u00e1 nos alertava: \u201cA raz\u00e3o \u00e9, e deve ser, apenas a escrava das paix\u00f5es, e n\u00e3o pode aspirar a outra fun\u00e7\u00e3o al\u00e9m de servir e obedecer a elas\u201d (HUME, 2009 [1740], p.451). Dessa forma, \u00e9 insustent\u00e1vel dissociar o pensar e o viver, isto \u00e9, pensar numa raz\u00e3o pura, como compreende Kant (2021 [1781]), e numa dualidade entre mente e corpo, como compreendia Descartes (1996 [1637]). As emo\u00e7\u00f5es e sentimentos (ou paix\u00f5es) sempre atuar\u00e3o junto com a raz\u00e3o, por\u00e9m, sobre ela, det\u00e9m primazia. 3. O N\u00f3s A &#8220;virada afetiva&#8221; revela seu papel disruptivo: coloca o racionalismo em crise, ao demostrar que o afeto precede a ideia, isto \u00e9, que a racionalidade \u00e9 fruto das afeta\u00e7\u00f5es corporais. Quero dizer que o amor, o medo, o \u00f3dio, o desamparo, a alegria, a tristeza etc. s\u00e3o os verdadeiros condutores da vida. \u201cO medo nos leva a caminhos recuados; o desamparo gera esperan\u00e7a; a alegria nos seduz; a satisfa\u00e7\u00e3o traz contentamento; a coragem impulsiona tentativas; a tristeza nos det\u00e9m.\u201d Contudo, h\u00e1 uma nuance crucial: embora os afetos sejam tecnologias individuais, eles s\u00f3 ser\u00e3o acionados pelo \u2018choque entre corpos\u2019. N\u00e3o h\u00e1 afeto sem rela\u00e7\u00e3o \u2014 sem intera\u00e7\u00e3o entre o Eu e o Outro (vivo ou n\u00e3o-vivo). E n\u00e3o s\u00f3 isso: \u2018os afetos possuem dimens\u00f5es coletivas\u2019. Quando habitam o &#8220;N\u00f3s&#8221; e os &#8220;Outros&#8221;, podem mover multid\u00f5es e transformar realidades, ancoradas em sentimentos como o amor, o \u00f3dio, o pertencimento e o ressentimento. Freud (1996 [1905]) j\u00e1 nos dizia que nossas qualidades libidinais nos impelem constantemente ao outro \u2014 seja para imit\u00e1-lo, desej\u00e1-lo, transform\u00e1-lo ou, mesmo, elimin\u00e1-lo. Desse choque corporal emerge uma paleta de modifica\u00e7\u00f5es sens\u00edveis que define como agimos conosco e perante o igual e o diferente. Nesse movimento, podemos at\u00e9 nos esquecer de quem somos; sendo escravizados por desejos alheios, imbu\u00eddos por \u2018causas inadequadas\u2019, como compreende Espinosa (2021 [1677]). 4. Ele e a M\u00eddia Se voc\u00ea, como eu, habita um pa\u00eds globalizado \u00e9, provavelmente, &#8216;cafetinado&#8217; por uma macro-m\u00e1quina produtora de subjetividades \u2014 o que Rolnik (2023) denomina &#8216;regime de inconsciente colonial, patriarcal, racializante e capital\u00edstico&#8217;. Tal estrutura n\u00e3o apenas explica fen\u00f4menos sociais que perpetuam desigualdades e privil\u00e9gios, mas opera silenciosamente atrav\u00e9s de normas, padr\u00f5es e desejos pr\u00e9-estabelecidos. S\u00e3o inibidores da criatividade. Desde o nascimento, esse regime molda grande parte do nosso inconsciente, atuando como arquiteto oculto de nossos modos de ser, pensar e agir \u2014 naturalizando assim estruturas de poder que beneficiam classes, corpos e g\u00eaneros espec\u00edficos. Nesse contexto, o poder pol\u00edtico-econ\u00f4mico instrumentaliza afetos para o \u2018controle social\u2019, fazendo funcionar aquilo que podemos nominar de \u2018produ\u00e7\u00e3o de subjetividades\u2019 (Guattari e Rolnik, 1996); as m\u00eddias instrumentalizam o sens\u00edvel, manipulando afetos mediante estrat\u00e9gias que escapam \u00e0 consci\u00eancia (Sodr\u00e9, 2006); a pol\u00edtica gere circuitos afetivos que anulam alteridade e toler\u00e2ncia (Safatle,2021); afetos socialmente constru\u00eddos, em per\u00edodos de tens\u00e3o cultural, legitimam persegui\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas como ocorreu com as mulheres dos s\u00e9culos XVI, XVII e XVIII, acusadas de bruxas (Lotman 2008); emo\u00e7\u00f5es refor\u00e7am hierarquias que marginalizam grupos vulner\u00e1veis, como os imigrantes (Ahmed, 2014 [2004]). Os autores supracitados convergem em um diagn\u00f3stico: afetos negativos, estrategicamente mobilizados, alimentam desigualdades e inibem a\u00e7\u00f5es transformadoras. Para melhor tatear, podemos dar como exemplos as fake news e os discursos de \u00f3dio nas redes sociais digitais, que emergem como dispositivos estrat\u00e9gicos de subjetiva\u00e7\u00e3o, tendo a desigualdade como principal eixo. Os discursos de \u00f3dio operam pela manifesta\u00e7\u00e3o expl\u00edcita do \u00f3dio como rea\u00e7\u00e3o violenta \u00e0 alteridade, visando estigmatizar e agredir grupos marginalizados. As fake news, por sua vez, atuam predominantemente atrav\u00e9s da circula\u00e7\u00e3o do medo, construindo narrativas de amea\u00e7a iminente \u2014 \u00e0 seguran\u00e7a pessoal, \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0 na\u00e7\u00e3o ou a privil\u00e9gios estabelecidos \u2014 que exploram vulnerabilidades sociais. Ambos funcionam como tecnologias de subjetiva\u00e7\u00e3o: associam grupos espec\u00edficos (mulheres, negros, pessoas LGBTQIAPN+, gordos, deficientes, pobres) a perigos imagin\u00e1rios, normalizam preconceitos, legitimam viol\u00eancia e, crucialmente, reduzem a pot\u00eancia coletiva de agir. Ao fragmentar o tecido social, esses mecanismos perpetuam ciclos de discrimina\u00e7\u00e3o e consolidam l\u00f3gicas de domina\u00e7\u00e3o. 5. Considera\u00e7\u00f5es O estudo nos leva \u00e0 urg\u00eancia de uma alfabetiza\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, capaz de mobilizar as pessoas para uma vis\u00e3o mais cr\u00edtica da realidade. Tal fen\u00f4meno deve ocorrer por meio de uma comunica\u00e7\u00e3o que permita mais feedbacks, ru\u00eddos, questionamentos e diverg\u00eancias. Pr\u00e1ticas comunicativas fundamentadas na emancipa\u00e7\u00e3o coletiva, centradas na \u00e9tica do cuidado e no di\u00e1logo intersubjetivo, ligando as pessoas \u00e0s causas comuns. Deseja-se, uma comunica\u00e7\u00e3o que colabore para o cultivo da toler\u00e2ncia e dos fatos, reivindicando afetos ativos para o desempenho da sa\u00fade individual e coletiva. Uma comunica\u00e7\u00e3o humana, cient\u00edfica e reflexiva. A busca por uma m\u00eddia verdadeiramente emancipat\u00f3ria reflete, em ess\u00eancia, uma disputa sobre o modelo de sociedade que almejamos construir. Como fundamenta Espinosa (2021 [1677]), a liberdade aut\u00eantica emerge de afetos que ampliam nossa pot\u00eancia de existir e agir. \u00c9 nesta dimens\u00e3o afetiva transformadora, capaz de superar divis\u00f5es e fomentar solidariedade, que reside a confian\u00e7a de uma humanidade mais integrada e menos cindida. Imagem O homem vitruviano (Leonardo da Vinci, 1492) modificado por IA. Refer\u00eancias AHMED, Sara. The Cultural Politics of Emotion. Edinburgh: Edinburgh University Press, 2014 [2004]. DAM\u00c1SIO, Ant\u00f3nio. 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Cr\u00edtica da raz\u00e3o pura. Trad. Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Moruj\u00e3o. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 2021. LOTMAN, Yuri. Caza de brujas. La semi\u00f3tica del miedo. Revista de Occidente, Madrid, n. 329, p. 5-33, 2008. ROLNIK, Suely. O regime de inconsciente colonial-racializante-capital\u00edstico. Sugest\u00f5es para abolir a monocultura espiritual (Segunda parte). Atl\u00e1ntica, nueva etapa: revista de arte y pensamento. Dispon\u00edvel em: https:\/\/www.revistaatlantica.com\/suely-rolnik-portugues\/. Acesso em: 18\/10\/2023. SAFATLE, V. O circuito dos afetos: corpos pol\u00edticos, desamparo e o fim do indiv\u00edduo. Belo Horizonte: Aut\u00eantica, 2021. SODR\u00c9, Muniz. As estrat\u00e9gias sens\u00edveis: afeto, m\u00eddia e pol\u00edtica. 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