Relatos e percepções sobre o terceiro dia da capacitação 10 anos da lei de Cotas nas Universidades Federais: construindo o futuro

Por Jorge Fernando João (Estudante de Serviço Social) bolsista do Programa Por Dentro da UFRGS.

 

Neste dia 24/08/21 (terça-feira), quando eram 17h, horário de Brasília, ocorreu o terceiro encontro da capacitação organizado pelo DEDS ( Departamento de Educação e Desenvolvimento Social) sobre o tema: 10 anos da Lei de Cotas nas Universidades Federais: construindo o futuro, evento este que vêm sendo transmitido no Facebook, na página oficial do DEDS: https://www.facebook.com/dedsufrgs.ufrgs.

 

No terceiro encontro, com o tema: Cotas nas Universidades Federais: Pretos e Pardos, a perspectiva foi  refletir sobre os temas do racismo e da discriminação racial nas Universidades, um breve olhar na macro-história e nos desafios que estão expostos. E com isso, se almejava promover a discussão sobre a importância das cotas para negro/as no ensino superior e realizar um diagnóstico do quanto as cotas contribuem não só para a ascensão social, mas também para o desenvolvimento do país.

 

Para esta etapa, foram convidados intelectuais com lugar de falas quanto ao assunto sobre pesquisa, lutas e escritos das ações afirmativas e políticas de cotas.

 

Os convidados foram: Amauri Pereira que é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Edilson Nabarro, ex-Pró-Reitor de Assuntos Estudantis e atualmente  gestor da Coordenadoria de Acompanhamento do Programa de Ações Afirmativas (CAF/ UFRGS) e  Liziane Guedes que é Psicóloga Clínica e doutoranda em Psicologia pela UFRGS. Na mediação da capacitação esteve o professor e pesquisador de história José Antônio dos Santos (DEDS/UFRGS).

 

O evento começou com o vídeo de poesia “Gota do que não se esgota” de Cuti Silva. Declamado pelo/as estudantes e colaboradores  do curso popular PEAC (Projeto Educacional Alternativa Cidadã). Poesia esta que reforça as ressignificações  para se reavaliar e desestruturar as raízes discriminatórias e escravistas do passado da sociedade brasileira. Ainda que por muitos anos suas vozes fossem silenciadas, pessoas de resistência negra colocaram no centro da discussão a própria identidade, a luta pela liberdade e a herança dos seus antepassados. 

 

  • Professor Amauri, abriu as falas entre os convidados, destacando as lutas das classes dos Negros, que nas suas palavras ” Acabou destampando a fossa” ou seja, o Professor estava nos remetendo as resistências no passado, das pessoas majoritariamente contrárias as políticas compensatórias. E que só foram possíveis estas conquistas através das lutas.
  • Edilson Nabarro, ativista importante e fiscalizador das políticas de ações afirmativas na UFRGS, fez um relato de convergência sobre as Políticas Raciais, apontando alguns fatores importantes na história das lutas Negras: a quebra de mitos; a necessidade de demonstrar as negações de que  no Brasil não existia racismo.  E depois, a desmistificação das políticas; o incremento das políticas assistencialistas como se fossem a única opção para redução das desigualdades raciais. 

Um dos relatos que o Edilson trouxe, foi o dos episódios das fraudes nas políticas de cotas no curso de Medicina da UFRGS. Ele exemplificou que, ao se fazer os cálculos do   custo total de um curso de medicina em uma universidade privada, que gira em torno de 500 mil reais, as pessoas Brancas, naquele momento almejavam e muito ser Negro/as para ter direito a Cotas Raciais. E que mesmo assim, muitos ousaram e acabaram fraudando a declaração racial.

 

E isso, nos serve de alerta. As conquistas e a manutenção das políticas raciais foram causas ganhas advindas de muito suor, de muitas batalhas, e como o Professor Amauri disse “Precisou-se destampar a fossa” referência essa muito importante. Para isso, precisamos ser fiscalizadores quanto às aplicações das mesmas políticas. Precisamos estar atentos a todo momento e em constante alerta para questionarmos qualquer tentativa de retrocesso e se for necessário, voltar a destampar as fossas que com o passar dos anos destas conquistas, poderão ou virão a ser entupidas.

 

  • Liziane Guedes, na sua fala, trouxe relatos práticos e emocionantes. Durante os três encontros desta capacitação, têm-se verificado uma aderência considerável de participantes. Temos verificado a presença de representantes de vários segmentos da sociedade, e literalmente de todo o Brasil. Em um dos  momentos impactantes do evento, foi a  fala da Liziane, ao ler um trecho do seu estudo de pesquisa no mestrado em Psicologia Social. Aqueles escritos, e na voz de sua autora soaram como poesia, poesia está forjada de resistência, de luta e de representatividade.   A Psicóloga de formação e ainda uma mulher negra, trouxe  relatos de vivências acadêmicas de quase 10 anos de uma estudante, frequentando um espaço que até pouco tempo atrás era exclusivo a uma classe média, alta, e de pessoas brancas. Aquelas narrações das dificuldades, dos anseios, das artimanhas para sobreviver no curso, dos medos e dos seus questionamentos, remeteu a muitos participantes aos mesmos sentimentos que ela passa ou passou, e isso verificou-se nos comentários da transmissão da live.

Por fim, começo fechando este texto, com o sentimento de privilégio. Privilégio da liberdade advinda de um país democrático. E esta liberdade que nos permite discutirmos e debatermos sobre variados assuntos pertinentes à sociedade! E as políticas de ações afirmativas, ou seja, as políticas compensatórias, é um debate que precisa abranger todas as classes da sociedade, independente da escolaridade, da cor, do aporte financeiro. E felizmente as mais de 617 pessoas tiveram este privilégio de angariar mais conhecimento metodológico.

 

Como o Professor Amauri reforçou… “precisamos celebrar as cotas nas Universidades, e os ganhos das ações afirmativas, porém, compreendo que precisamos aprofundá-las”.

 

Edilson, finalizou com o reforço estrutural de que as classes sociais e de lutas das ações afirmativas precisam se reaver sem vergonha alguma de assumir onde deixaram de fazer ou falharam, porque em muitos casos, não foi por falta de capacidade, mas sim por falta de oportunidade ou liberdade. O mesmo destacou ainda, a responsabilidade que os gestores e futuros gestores principalmente Negro/as têm pela frente.

 

Eu concluo estes relatos e percepções deste terceiro encontro da capacitação com a esperança da Liziane: “Há várias ideias e há várias mãos” – expressão que buscava chamar principalmente aos jovens, independente da idade, a lutarem por uma pluralidade em todos os segmentos da sociedade.

 

*Alguns dados da live:

  • Mais de 240 comentários 
  • 19 compartilhamentos
  • 101 curtidas
  • 617 pessoas assistiram ao evento.