Percorrendo trajetórias: a vivência dos cotistas diplomados

Texto por Bruna Ferreira (Psicologia) e imagem por Fayola Bispo (ADM. Pública e Social) – bolsistas do Por Dentro da UFRGS.

“Cota

[…]

é só a gota

entusiasmo na rota

afirmativa

que ameniza as dores da saga

suas chagas de desigualdade amarga […]”

Luiz Silva (Cuti), “GOTA DO QUE NÃO SE ESGOTA” livro Negroesia, 2007

 

O sétimo dia da capacitação “10 anos da Lei de Cotas nas Universidades Federais: construindo o futuro” ocorreu no dia 28 de setembro de 2021. O circuito formativo é promovido pelo DEDS/PROREXT e parceiros, e teve como convidades da mesa o autor negro Jeferson Tenório (Letras), a advogada negra Aline Amaral da Silva (Ciências Jurídicas e Sociais), a enfermeira e médica indígena Kaingang Lucíola Belfort (Medicina), a assistente social e indígena Kaingang Angélica Domingos (Serviço Social) e contou com a mediação da mestre em Educação negra Rita de Cássia dos Santos Camisolão (DEDS/UFRGS).

 

A capacitação teve como objetivo apresentar as trajetórias de alunos graduados após a implementação da Lei de Cotas, suas vivências enquanto sujeitos negros e indígenas na universidade, na pós graduação e no mercado de trabalho.

 

Pudemos conhecer trajetórias de afetos e desafetos, marcadas por conquistas individuais e coletivas, mas também por inúmeras adversidades e resistência. Os convidados trazem em suas falas relatos sensíveis de racismo, exclusão, solidão, violência, estranhamento e ausência de reconhecimento de suas subjetividades, produções e práticas não-hegemônicas, além de atravessamentos como a maternidade e dificuldades financeiras. Ainda assim, trajetórias de acolhimento e suporte em diversos âmbitos.

 

“Todo radical surge do status quo até se tornar o status quo, e então começa tudo de novo” Cara Gente Branca (2021)

 

Ao decorrer da transmissão do evento, recordei-me desta frase dita por um personagem da série Cara Gente Branca, uma produção da Netflix. A conquista da implementação da Lei de Cotas foi um marco revolucionário para as populações impactadas pelo racismo, pelo capacitismo e pela vulnerabilidade social; o que permitiu que a universidade esteja hoje no campo do desejo e da possibilidade de sujeitos e famílias que nunca antes imaginaram acessá-la. Entretanto, mostra-se necessário avançar em âmbitos para além do acesso e permanência no ensino superior, é necessário orientar caminhos e garantir oportunidades no mercado de trabalho; para que as próximas gerações possam desfrutar do avanço, de uma melhor experiência no âmbito profissional, e então promover e progredir em outras discussões.

 

Atualmente, a UFRGS possui o Serviço de Orientação Profissional, link do site, um projeto de extensão que promove atendimentos individuais, maratonas e grupos na área da orientação profissional e aconselhamento de carreira, atendendo jovens que estão no processo de decisão quanto ao seu futuro profissional, adultos em transições de carreira ou que desejam planejar suas trajetórias profissionais e aposentadorias.

 

Como graduanda e pessoa negra, é estimulante ouvir pessoas que produzem subjetividades semelhantes e suas trajetórias reais, que não são lineares, que passaram por incertezas e questionamentos, trajetórias passíveis de identificação. Realizo-me através de todas estas pessoas que concluíram a graduação e hoje encontram-se realizadas atuando em suas respectivas áreas. Ouço e agradeço a todes aqueles que vieram antes de mim.

 

Se interessou?! A capacitação está disponível na íntegra, assista AQUI.

 

Quer conhecer mais nosses convidades?

Livros de Jeferson Tenório: O beijo na parede. Porto Alegre: Sulina, 2013. 3.ed. Porto Alegre: Sulina, 2015. (romance).

Estela sem Deus. Porto Alegre: Zouk, 2018. (romance).

O avesso da pele. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. (romance).

 

Sugestão de leitura de publicação de Angélica Domingos: POLÍTICAS INDIGENISTAS: CONTRIBUIÇÕES PARA AFIRMAÇÃO E DEFESA DOS DIREITOS INDÍGENAS: acesse aqui

 

Indicação de Lucíola para conhecer o Instituto Kaingáng – INKA: link aqui