No momento em que o NER completa 30 anos, Rafael Cristaldo nos presenteia com um texto que consegue mostrar como pesquisar religião é sempre aprender coisas novas, novidades que ao mesmo tempo nos transformam e nos provocam. Nesse sentido, suas confissões são mais do que pessoais.
[…] Hoje varro de dentro para fora
no meio dessa Pestilência.
Mil caem ao meu lado,
dez mil a minha direita, atingido
sou por tudo que rasteja
e respira no mundéu,
e ainda busco as vozes do além
e do aquém, qual híbrida
mula, crente e ateu.
Saudades de Deus, Ricardo Domeneck
Em algum momento da minha vida, aprendi sem contestação e sem surpresa que Deus não existe. Acho que essa “notícia” não foi bombástica e nem sequer reveladora porque fui criado num lar apenas levemente católico. Então, tudo bem, ok. Mas sou brasileiro, expressões idiomáticas envolvendo Deus, Jesus e Nossa Senhora fazem parte do meu vocabulário do dia a dia. E, além disso, até pouco tempo atrás, ia para a missa quando queria pedir alguma ajuda ao divino. Deus não existe, mas corro atrás dele. Em algumas noites difíceis, até peço para que ele não me deixe acordar. Mas, apesar de Deus não existir, eu tenho alguma espiritualidade que acredita Nele. Hoje, também tenho alguma fé batuqueira que chegou por meios pessoais e profissionais.
Em 2020, quando entrei na minha primeira bolsa de iniciação científica com o professor Emerson Giumbelli, pesquisamos santuários católicos. Quando essa pesquisa iniciou, minha amiga M se mostrou uma grande católica. Conversando sobre catolicismo, M, uma mulher negra, me contou sobre a influência católica que a sua avó materna, também uma mulher negra, lhe empregou. Desde cedo na vida de M, as duas iam juntas à missa e participavam da vida paroquial. Assim, enquanto eu aprendia sobre o catolicismo academicamente, também aprendi sobre o catolicismo como vivido por aquelas duas mulheres.
Mas há ainda um outro aspecto da fé delas: ela é totalmente sincrética. Isso porque, além da parte católica, há a parte batuqueira. M é filha de Iemanjá; sua cabeça foi entregue a esse orixá através de uma promessa antes do seu nascimento. E faz parte dessa promessa que M participe, anualmente, da procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, que acontece em Porto Alegre/RS nos dias dois de fevereiro.
Assim, além de católica, a família de M é totalmente ligada ao Batuque, à Quimbanda e à Umbanda. Desse modo, a festa de Navegantes para elas não é uma só, mas duas. Há uma santa e há um orixá sendo cultuados.
Numa das procissões que acompanhei – enquanto pesquisador – junto da família de M, vi ela se ajoelhar para conversar com a sua avó – uma católica filha de Iansã – que estava sentada numa cadeira de plástico. Alguns minutos depois, M me perguntou se eu tinha notado, percebido, que aquela não era a sua avó, mas a sua preta-velha. Entidade, inclusive, que aconselhou a família de M por muitos anos. Ela era levada muito a sério.
Depois de estudar o catolicismo, passei, ainda como bolsista de iniciação científica, a me deter sobre o Batuque. Eu não sabia nada sobre essa tradição e as vias do meu aprendizado foram muito mais pessoais do que acadêmicas. E, como coincidência divina, ao mesmo tempo que comecei a estudar o Batuque, M se mostrou uma profunda conhecedora dessa religião (termo êmico). Afinal, M e sua família também levam essa fé consigo – vide a promessa para Iemanjá. E, em 2024, quando entrei no mestrado para pesquisar um ritual do Batuque, M se iniciou num terreiro de nação jeje. Na mesma noite do seu primeiro bori, eu estava em Pelotas/RS, acompanhando uma obrigação pela primeira vez.
O que estou tentando mostrar aqui é que minha jornada acadêmica não é distanciada, ela é extremamente pessoal. E aí, eu me volto para uma questão pessoal que eu levo comigo – devidamente escondida – para o campo: a crença.
A família de M se pauta pela fé e pela espiritualidade. M e sua vó são médiuns. No terreiro, vejo dezenas de orixás ocuparem os corpos de seus filhos. Deus não existe, mas estou vendo algo – que não compreendo inteiramente – acontecer bem na frente dos meus olhos. Deus não existe, espíritos não existem, outro mundo não existe; mas eu não sou louco, M e sua vó são sãs, os orixás do terreiro passam por testes e eu ouvi coisas que aquele cavalo não poderia saber sem me conhecer muito bem. Não é possível que eu seja louco e que eu ache todas essas pessoas são loucas também.
E quando estou em algum terreiro, o vício das ciências antigas e antiquadas me faz perguntar o que se passa nas cabeças das pessoas que estão em transe. O que está se passando lá dentro e que eu não experiencio. Uma vez perguntei para minha psicóloga sobre o transe e a experiência de estar em transe e a sua resposta foi linda: “algumas perguntas não devem ser feitas”.
Duvidando ou não, acreditando sim e acreditando não, virei cliente de uma mãe de santo, a mãe de M. Entre 2024 e 2026, foram três jogos de búzios, uma limpeza de Bará, uma frente de frutas para Xangô, uma cabeça para Iemanjá, duas frentes para Ossanha, uma frente para Odé, e duas limpezas de final de ano mais o saquinho de proteção. Os motivos que me levaram a procurar ajuda no Batuque foram variados: inseguranças, a procura por respostas que a minha psicóloga não podia dar, o medo de perder minha mãe que estava no hospital, a crença e os aconselhamentos de M. Nessas ocasiões, eu fui crente. Pedi, rezei do meu jeito, cultuei como pude, fiz o que podia, e recebi. Minha resposta automática? “Graças a Deus”.
Também, quando estou nos terreiros, espero pelo passe das entidades e dos orixás. E, recentemente, tive a oportunidade de participar da partilha do axé (através do sangue) em duas obrigações. Nessas ocasiões também fui e sou crente. Peço e peço com força que os orixás – e Deus – me deem caminhos abertos, saúde e sucesso no que preciso.
Pessoalmente, acredito e duvido – e pelo menos fico tranquilo sabendo que sem um pouco de dúvida a fé não é necessária. Profissionalmente, enquanto antropólogo, acreditar ou não, não é uma questão. Nos terreiros, as coisas estão postas, a fé está posta, e eu não posso, não devo, não quero, trair aquelas pessoas. O que eu observo é verdade. A fé está lá, muito bem materializada em orixás que dançam, que sabem de coisas, que são consultados e fiéis que batem cabeça para corpos que, naquelas horas, são deuses. Fiéis que se envolvem com a religião implicando seus tempos de lazer e de trabalho, com o seu dinheiro que pode, muitas vezes, ser escasso. Os batuqueiros não são loucos. O que é feito por essa fé, pelo menos nos terreiros em que circulo, é feito de forma sincera, franca e responsável. Uma vez, quando saíram os resultados do Censo de 2022, meu atual orientador, Vítor Queiroz, disse, em uma atividade do Núcleo de Estudos da Religião da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (NER/UFRGS), que se os clientes, os não-iniciados que participam dos rituais, e os que se iniciaram e depois saíram (porque nunca se perde o vínculo energético), fossem contados no censo como integrantes dessas tradições, elas teriam um número muito maior de adeptos. Se um recenseador me perguntasse AGORA se tenho alguma religião, direi que não porque não sou iniciado. Mas é bem provável que na mesma semana, por motivos pessoais e/ou acadêmicos, eu esteja em algum terreiro pedindo alguma coisa para as entidades, para os orixás e, claro, para Deus.
Rafael Cristaldo é doutorando no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (UFRGS)
