Francisco Mauro Salzano

SALZANO, Francisco Mauro.Memórias - Programa de Pós-Graduação em Genética e Biologia Molecular. Depoimento concedido no dia 10 de agosto de 2009, no Departamento de Genética à historiadora Naida Menezes. Porto Alegre, 10 de agosto de 2009.

 

Historiadora – Professor Salzano, quando a Genética entra na sua história?

Salzano - Pois é, eu já contei essas histórias outras vezes, mas acho que tu não sabes... Eu estava no terceiro ano do curso de História Natural, naquele tempo não tinha o curso de Ciências Biológicas, e estava meio preocupado porque o ensino da disciplina de Zoologia era muito fraco. Então, nós montamos um grupo de estudo, que estava composto de três ou quatro pessoas, para estudar Zoologia, isto lá nos idos de 1950.

O Cordeiro, que vivia bisbilhotando tudo que estava acontecendo lá, era no porão da Faculdade de Direito que estava localizado o laboratório que ele tinha fundado e também a maior parte do curso de História Natural, ele nos viu lá estudando e foi verificar o que a gente estava fazendo e o que não estava fazendo. Ele perguntou e a gente: “Não, estamos estudando Zoologia e tal”. E ele disse: “Ah não! Mas o importante mesmo é Genética” (risos).

Aí ele me convidou para dar um seminário sobre divisão celular e saiu... Uma semana depois, não aconteceu nada, e eu fui lá falar com ele: “Vem cá, e o livro para eu estudar para dar o seminário?” Ele disse: “Ah! Não precisa seminário, o melhor é tu vires aqui trabalhar no laboratório”.

Então eu e uma colega minha do mesmo grupo começamos a trabalhar no laboratório dele. A minha emoção quando passei as mosquinhas de uma garrafa de meio de cultura para outra foi imensa e foi amor à primeira vista! Então, desde aquela época comecei a trabalhar como voluntário. Eu tinha um emprego na Secretária de Saúde, mas dava tempo para trabalhar lá com ele, no grupo.

Historiadora -O senhor ainda estudava?

Salzano -  Estava na graduação. Estava terminando naquela época o Bacharelado em História Natural. Eram três anos, depois vinha Licenciatura que era um ano a mais. No Bacharelado eram as disciplinas específicas e Licenciatura era a parte didática. Fundamentalmente, a grande maioria dos estudantes ensinava para o ensino secundário.

Então, nisso era o segundo semestre, eu terminei o curso e estava ainda na dúvida entre o que fazer e o que não fazer. Teria de todo jeito que fazer Licenciatura, quando aconteceu uma coisa que foi muito importante para mim. Havia uma outra pessoa que estava trabalhando com o Cordeiro e que estava destinada a ter uma Bolsa de Aperfeiçoamento para a Universidade de São Paulo. Era uma bolsa que a Reitoria da Universidade de São Paulo fornecia e já tinha sido combinado com o Cordeiro e com o Pavan, que coordenava o trabalho de pesquisa em Genética em Drosophila...

Historiadora - Qual era o primeiro nome?

Salzano - Crodowaldo. Já tinha sido combinado entre eles que iria um bolsista daqui para lá e acontece que na última hora essa pessoa resolveu largar a Genética e fazer um vestibular para Medicina. Então, o Cordeiro não tinha nenhum outro candidato e foi conversar comigo, se eu gostaria de fazer esse estágio lá. Aí eu disse que sim, e o Cordeiro escreveu para o Pavan. O Pavan respondeu com uma carta manuscrita da seguinte maneira: “Está bem, se o jovem é promissor, pode vir. Porém, ele vai receber só dois cinco avos da bolsa porque já temos outras pessoas que também deveriam utilizá-la e ele que não pense que é o máximo da Ciência porque pesquisador tem que sofrer mesmo” (risos).

Historiadora - Escreveu assim mesmo?

Salzano - Isso. E aí eu disse: “Mesmo assim vou”. Aí fui para lá, passei um ano em São Paulo. A bolsa era dois mil e alguma coisa, aquela moeda da época que eu nem sei mais qual é. A bolsa total era cinco, então ficou dois para mim e dois para outra pessoa, que depois ficou famosa na Ciência brasileira, ainda é, o professor Isaías Raw, que é bioquímico. O outro mil que restava era para um bolsista chileno que estava lá e ficou com a pior parte.

Mas apesar de ser só uma fração da bolsa dava para viver modestamente, né? Eu morava em uma pensão, em um quarto com cinco pessoas, mas dava para sobrar dinheiro para ir ao teatro, essas coisas.

Quando eu voltei, o Cordeiro já  tinha conseguido uma bolsa do CNPq. Era uma das primeiras bolsas que o CNPq estava dando em nível nacional. Então, eu recebi essa Bolsa de Aperfeiçoamento. Eu voltei em fevereiro de 1951, o dinheiro da bolsa só saiu em abril, mas o diretor da Faculdade de Filosofia – o laboratório estava localizado na Faculdade de Filosofia – era uma pessoa formidável, que dava muito apoio para nós. Ele tirava dinheiro do bolso dele para me pagar, porque eu tinha decidido casar também em março, logo depois que eu cheguei.

Historiadora - Que idade o senhor tinha, mais ou menos?

Salzano - Então, 51, eu nasci 28... 23, 24... Tem que fazer as contas. É, casei com 23 anos. Mas em junho de 1951 eu consegui uma vaga para o Curso de Ciências Naturais, eram cinco vagas ao todo, e entrei, então, como Instrutor de Ensino e estou aqui até hoje.

Historiadora - O senhor falou que era ligado à Faculdade de Filosofia, mas continuava lá nos porões do Direito?

Salzano - Então, o que aconteceu? Acho que talvez o Cordeiro já tenha falado disso... O professor Bernardo Geisel, que era o diretor da Faculdade de Filosofia, se empenhou muito para que saísse um prédio para a Faculdade. Esse prédio foi construído e é o que está agora ao lado da Reitoria lá no Campus Central. Uma ala dele ficou para a História Natural. Nós ficamos lá então durante algum tempo, nem estava completamente pronto e a gente já foi para lá, acho que foi em 54. Lá ficamos por vários anos, mas aí o espaço ficou pequeno.

Então, o Reitor da Universidade, o professor Eliseu Paglioli, conseguiu alugar dois andares em um prédio que era fronteiro à Santa Casa, na Rua Annes Dias, onde a gente ficou. Dois andares de um prédio comercial, depois mais um foi alugado, e o que era para ser provisório ficou por muito tempo, quase vinte anos, até que a gente veio para cá, para o Campus.

Historiadora - Quem ficou lá nesses três andares? Era só o pessoal da Genética?

Salzano - Sim, só a Genética. Em toda essa trajetória, a gente formou um grupo compacto dentro primeiro do Instituto de Ciência Naturais, era o Instituto que estava a parte da Faculdade de Filosofia, então, era um Seção do Instituto. Depois, então, quando foi extinto o Instituto de Ciências Naturais e foi fundado o Instituto de Biociências, na Reforma Universitária, parece que foi em 1968, então a gente ficou como um Departamento de Biociências. Inicialmente, também, nós estávamos com só esse prédio aqui, e agora recentemente houve expansão para mais um prédio. Então, há sempre um processo de expansão indicando entusiasmo dos pesquisadores e o interesse que se tem em desenvolver pesquisa de alto nível.

Historiadora - Essas primeiras pesquisas que o senhor participou sobre o que eram? Qual foi seu interesse?

Salzano - No início, portanto, eu comecei trabalhando com a Drosophila, que era o organismo de escolha da maioria dos geneticistas da época. A Genética do Brasil se organiza basicamente através de três pessoas, a gente denomina “Santíssima Trindade”. Eram dois da área aplicada e um era o professor André Dreyfus, da USP. E o Dreyfus, que era um autodidata, convidou o Theodosius Dobzhansky que era o grande expoente na época, fundador de toda a teoria atual da Evolução Biológica, e que veio para São Paulo para trabalhar com o Clodowaldo Pavan. O organismo dele era a Drosophila, essa mosquinha da fruta.

Eu, então, também continuei nessa direção, primeiro em São Paulo, e depois na volta, só queem outras espécies que não tinham sido pesquisadas lá ou aqui pelo Cordeiro. E foi nesse organismo, basicamente em três espécies dele, que eu preparei minha tese de doutorado, que foi defendida na USP.

Havia possibilidade de doutorado à distância, então, eu fiz toda a parte experimental e redação aqui, e fui defender lá em São Paulo, sem antes [sic] fazer dois exames de qualificação. E depois é só a defesa de tese. Na defesa estava o professor Dobzhansky, que era a grande autoridade, foi grande honra tê-lo como examinador, o Cordeiro, o Pavan e o Antonio Brito da Cunha, que foi o meu orientador mais direto em São Paulo. Além de um não-geneticista que foi também uma pessoa muito importante na área de fisiologia animal que era o professor Paulo Sawaia.

Historiadora - O senhor falou na Santíssima Trindade, quem seriam os três?

Salzano - Então, André Dreyfus era um. O outro era Friedrich Brieger, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, lá de Piracicaba, e o outro era Arnaldo Krug, que era do Instituto Agronômico de Campinas. Então, estavam mais na parte aplicada: o Krug trabalhando mais na Genética de café, e o Brieger na de milho e também em orquídeas e outras coisas.

Historiadora - Então em São Paulo é que começou?

Salzano - Tudo começou em São Paulo, depois, então, a coisa foi se diversificando. Partiu primeiro desse grupo que o Cordeiro participou, que era um grupo internacional e que ficou lá um ano. Ele voltou, então, em 48 e montou o Laboratório, e depois vieram várias outras pessoas de fora. Uma pessoa importante que me direcionou na pesquisa lá em São Paulo, boa parte do meu doutorado foi a partir de investigações que nós fizemos juntos, foi o professor Hampton Carson. Também foi uma pessoa bem conhecida na área de Genética, desenvolveu todo um programa de pesquisa especialmente nas Ilhas Havaí, Estados Unidos, com Drosophila.

Aí terminou o doutorado e havia essa dúvida do que eu ia fazer em continuação. A Fundação Rockefeller, que nos apoiava fortemente naquela época, fornecia uma bolsa de pós-doutorado para mim. Aí eu conversei com o Cordeiro sobre que opções eu devia tomar para este pós-doutorado, e a gente decidiu que uma opção importante seria a Genética Humana, que era uma área que não tinha muito apelo intelectual na época, porque não se pode fazer cruzamento dirigido em espécie humana, tem pouca prole, enfim, uma série de situações que não favoreciam a investigação genética. Mas isso naquela época. No momento que surgiram técnicas que possibilitavam a investigação mais detalhada do material genético humano, a Genética Humana começou a se expandir vigorosamente, especialmente na época em que eu estava terminando o doutorado, que foi em 55, 56.

Então eu fui para os Estados Unidos e passei um ano lá, trabalhando com Genética Humana, na Universidade de Michigan, em Ann Harbor. E no final do meu estágio lá, conversando com o professor que me orientou lá, o professor James Neel, ele me argumentou que o melhor estudo seria fazer estudos com grupos indígenas, porque eram grupos que só se poderiam estudar no Brasil. Quando eu voltei nós iniciamos um trabalho de colaboração das populações ameríndias em geral, especialmente na América do Sul, que se desenvolveu por várias décadas.

Mas concomitantemente com isso eu achava que era importante também estudar aspectos de Genética Médica e variabilidades normais também de populações não-indígenas. Durante todo esse tempo, é isso que eu tenho feito. Embora a ênfase principal tenha sido populações indígenas, eu tenho também trabalhado com a variabilidade genética em grupos urbanos, Porto Alegre, Rio Grande do Sul em geral, várias localidades do Brasil. Na parte de Genética Médica, que não havia nada, havia necessidade de se desenvolver aconselhamento genético para famílias que tinham alguma pessoa com uma doença hereditária na família e não sabiam qual seria o risco de ter uma nova criança na família afetada. Então se montou aqui um serviço de aconselhamento genético que funcionou por vários anos, até que a Genética foi formada também no Hospital de Clínicas e essa parte passou lá para o Clínicas.

Também, ao longo dos anos, eu tenho colaborado com uma série de pesquisas em outros organismos, que não a espécie humana e nem a Drosophila, que envolveram as coisas mais diversas, começando com pastagens nativas do Rio Grande do Sul, indo para diferentes tipos de animais domésticos e selvagens, outras espécies de vegetais.

No momento, por exemplo, acabei de orientar uma tese de doutorado sobre Genética e conservação de onça pintada, que é um negócio bem diferente, né (risos)? E também tem um grupo de colaboração com a professora Loreta Freitas sobre evolução vegetal. São áreas diferentes, parecem muito diversificadas, mas o foco sempre foi o estudo da variabilidade genética em diferentes organismos e sua implicação evolutiva, evolucionária. E aqui estamos!

Historiadora - Como era esse laboratório antigo, que o senhor trabalhou primeiro? Como foi a transformação da tecnologia também que vocês tinham para trabalhar? Dos porões até lá a Annes Dias?

Salzano - Antes disso em São Paulo, o Departamento de Biologia teve um prédio que ficou famoso, que estava situado na Alameda Glete, que era uma mansão de um milionário que doou para a USP, e ali tinha se montado nos diferentes andares os Laboratórios da Genética, da Botânica, da Zoologia, etc. Então, na época, o que se fazia em Drosophila era o estudo de cruzamentos direcionados, verificar o que ocorria na prole desses cruzamentos, de maneira direta para verificar a viabilidade das moscas, se morriam ou não morriam, se eram mais férteis ou menos férteis, e também a parte de Citologia, porque a Drosophila tem como característica muito importante seus cromossomos – o  material que é responsável pela transmissão dos genes –, são muito grandes, são chamados de cromossomos gigantes. Então ela possibilitava o estudo desses cromossomos em nível citológico, foi o que eu fiz durante esse tempo também.

Na década de 1950 há uma mudança de paradigma e uma transição importante nos métodos de análise que passam a ser de natureza bioquímica e, então, se desenvolve a chamada técnica de eletroforese, que separava as moléculas de acordo com a sua carga elétrica e a cromatografia que também separava essas moléculas por gradientes de diferentes tipos. Isso causou uma revolução no estudo da Genética. Então era o estudo do material proteico, da proteína que é o material que os genes formam. Até que a partir do final da década de 50 para diante surge a possibilidade de estudar o DNA em si, o material genético em si. Isso causa outra revolução, outra necessidade de adaptação de técnicas, enfim, todo um novo mundo ao qual a gente teve que se adaptar para montar pesquisas que ficassem, se não na ponta, pelo menos pertinho da ponta, do conhecimento mundial.

Historiadora - Na década de 50 o senhor começa a dar aula também?

Salzano - Ah! Lógico. Já no primeiro semestre de 1951 eu já comecei a dar aula na graduação. O ensino de pós-graduação só começa a se organizar em 54, quando está sendo fundada a CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior, que é um órgão do Ministério da Educação que se destinava justamente a desenvolver programas de melhoria dos profissionais da área. Então, uma das duas primeiras bolsas que a CAPES deu para pessoas de fora do país virem para cá e passarem um ano aqui foi para o nosso grupo. Vieram esses professores o William Millstead e o Townsend, que tinham sido antigos estudantes de Dobzhansky e de outro grupo forte lá dos Estados Unidos e que então passaram um ano aqui trabalhando conosco e montaram os primeiros cursos de aperfeiçoamento em Genética, que nós conseguimos desenvolver.

Isso se fazia dentro de um esquema de funcionamento da Pós-Graduação na Faculdade de Filosofia, que não era um sistema formal. Era semelhante ao da Filosofia, Ciências e Letras de São Paulo, no qual se trabalhava para um doutorado. Não havia cursos formais, o que havia era trabalho de laboratório e tal, para montagem, para uma tese de doutorado.

Historiadora - Então quem fazia graduação poderia depois fazer o doutorado na pós-graduação?

Salzano - Direto. Não havia uma institucionalização da pós-graduação. Isso era do âmbito de cada uma das unidades universitárias. Só algum tempo depois, no início da década de 60 é que então se institucionaliza a pós-graduação no Brasil. Então, o segundo curso a ser credenciado pelo CNPq e depois pela CAPES – naquela época tinha também o serviço de credenciamento do Conselho Nacional de Educação – foi o nosso. O primeiro foi a USP de Ribeirão Preto, depois o nosso.

Então, a partir daí, desses cursos de aperfeiçoamento desses professores e também os que o Cordeiro deu, e outras pessoas, se montou o nosso programa. Então, ele também está vinculado inicialmente a outros grupos do Instituto de Ciências Naturais, na época eu era diretor do Instituto, fui eu que montei a primeira solicitação de credenciamento para o Conselho Nacional de Educação e que incluía além da Genética outras áreas. Mas eles acharam que deveria ser só a Genética.

Historiadora – Eles, a CAPES, no caso?

Salzano – Havia uma divisão aí. A CAPES não era quem credenciava na época. Quem credenciava era esse Conselho. Havia uma duplicidade, porque o CNPq também estava credenciando núcleos de excelência – não sei se era esse nome exato, mas era parecido – e que seriam responsáveis por esses programas de pós-graduação. Só posteriormente ficou o negócio centralizado na CAPES.

Historiadora –Na Pós tem pessoas que vem do curso de Agronomia, de Medicina... Quem são os primeiros que começam a fazer a Pós-Graduação? Era só o pessoal da História Natural ou já tinha pessoas de outras áreas?

Salzano – O Núcleo sempre foi aqui o Departamento, pessoas que estavam se  formando sob a orientação do Cordeiro e minha, principalmente, mas desde o início a gente tinha colaboração com a Faculdade de Agronomia. Um dos cursos do nosso Programa era dado por uma pessoa da Bioestatística da Agronomia e uma das primeiras doutoras que se formou sob minha orientação trabalhou também em regime de colaboração com a Agronomia – um programa que havia lá sobre as pastagens nativas.

Historiadora – Quem era essa doutora?

Salzano – Maria Irene Baggio de Moraes Fernandes. Agora ela separou do marido e ficou só o Maria Irene Baggio. Ela foi contratada aqui pelo Departamento, mas depois optou por trabalhar na Embrapa de Passo Fundo, tem um centro forte de trigo lá, nacional. Agora se aposentou e está na Universidade de Passo Fundo. Ela foi uma das pessoas que fez a ponte entre o nosso grupo e a Agronomia.

Posteriormente houve também interação com o pessoal da Medicina, mas isso já um pouco mais tarde. Acho que basicamente são esses... Em época mais recente ainda tem o pessoal da Biotecnologia. O Centro de Biotecnologia é montado e não havia na Universidade uma estrutura que pudesse absorver as pessoas que estavam querendo organizá-lo. Então o Departamento de Genética se ofereceu para abrigar esses professores, especialmente dois, Diógenes Santos e Arnaldo Zaha. Depois eles foram responsáveis pela montagem de todo o curso de Biotecnologia e as disciplinas de biotecnologia da Universidade, o Centro de Biotecnologia daqui e também o Programa de Pós-Graduação que eles têm agora de Biologia Celular, Molecular.

Então nós temos interagido com diferentes grupos e à medida que foi passando o tempo houve essa diversificação. Primeiro houve contratação de pessoas de diferentes áreas da Genética e diferentes formações que então constituíram o núcleo, bastante diversificado atualmente. Nós praticamente abrangemos toda a área da Genética, Biologia Molecular, desde microrganismos até a espécie humana – sem que isso implique qualquer hierarquia, isso não significa que somos mais importantes do que qualquer bactéria.

Historiadora – Qual a repercussão do trabalho feito aqui? O que o senhor salientaria?

Salzano – Em geral a Genética brasileira é privilegiada porque ela se inicia, a parte não aplicada, sob essa colaboração, essa égide, inclusive, do professor  Dobzhansky, que é uma pessoa internacionalmente conhecida. Então ela teve essas condições históricas para uma repercussão importante internacional, das pesquisas realizadas aqui. Posteriormente, quando o professor Neel começou o trabalho com grupos indígenas, isso também teve uma repercussão muito grande porque era o momento no qual se estava montando, isso na década de 60, a ideia de que podia se estudar grupos caçadores e coletores, em um nível sócio-cultural não muito diversificado, para investigar problemas de evolução humana. Então o nosso grupo de Porto Alegre, com essa ponte em Ann Habor, Michigan, foi um dos primeiros a montar esquemas de estudo dessas populações visando esse objetivo: microevolução em populações humanas. Isso teve bastante repercussão. Até hoje os ameríndios, os indígenas da América do Sul são um dos grupos mais bem estudados geneticamente em todo o mundo, devido a essa peculiaridade, digamos, histórica.

E isso é verdadeiro com relação a outras áreas de pesquisa que, em geral,  têm tido uma boa repercussão internacional. Estamos publicando em revistas de fator de impacto alto, enfim, somos considerados um grupo de excelência na Ciência brasileira.

Desde 1960 a gente tem um programa de colaboração com o grupo de Belém do Pará. Nessas fotografias estão representados dois grupos de pesquisadores. Primeiro, na maior, são alguns dos docentes do Departamento de Genética da Universidade Federal do Pará, em Belém, e nas duas fotos menores, estão os grupos de bolsistas e colaboradores de duas das professoras. A professora Maria Paula Schneider (que está a minha direita) fez o doutorado comigo e o mestrado com o Cordeiro, aqui em Porto Alegre, e depois foi para lá, está com um grupo forte lá. A outra, a professora Andria, é casada com um outro pesquisador, que está lá no fundo da fotografia, o professor Sidney dos Santos, que também foi meu orientado no mestrado. Eles fizeram doutorado em Ribeirão Preto, mas também têm uma ligação muito forte com o nosso grupo. Então, é um dos grupos de excelência que se formaram, basicamente, a partir do nosso. É uma grande honra.

Historiadora – Eles vinham até aqui, vinham para cá, para o Rio Grande do Sul? Ou vocês iam para lá.

Salzano – Pois é, inicialmente... A história é curiosa. Tinha um professor, era um médico pediatra muito famoso em Belém do Pará, que se tomou de amores pela Genética e resolveu trabalhar em Genética. Então, ele escreveu para cá, pedindo um ano de aperfeiçoamento, e veio para cá, trabalhou comigo. Quando voltou, então, montou toda essa estrutura lá. Não havia na época nem curso de Ciências Biológicas, foi ele que fundou, montou todas as disciplinas necessárias, e foi montando o grupo de Genética. E a partir daí, sob a coordenação dele vieram vários alunos de lá.

Historiadora – Ele veio para cá na década de 1960?

Salzano – Sessenta e poucos... Sessenta e cinco, acho. A partir de lá, várias pessoas recrutadas por ele, vinham para cá, faziam mestrado e doutorado, voltavam para lá, e foi formando um grupo muito forte. Atualmente continuamos com um programa de colaboração basicamente em Genética Humana.

Historiadora – Assim como o Pará, tem algum outro estado que o senhor acrescentaria?

Salzano – Nós temos pessoas formadas pelo nosso grupo espalhadas por todo o mundo. Lógico, principalmente na América Latina. Tem um ou dois que estão nos Estados Unidos, na Austrália, lugares mais remotos. Na Europa... Mas programas de colaboração continuados foram além de Belém. No Brasil, temos tido também colaboração forte com o grupo de Curitiba, tem se estendido por décadas. Alguma coisa com São Paulo, mas não muito forte. Ribeirão Preto, sem dúvida. Houve época em que além de Belém, estive colaborando com o pessoal de Manaus. No nordeste também tem várias pessoas que se formaram aqui e tiveram melhor ou menos sucesso no desenvolvimento das pesquisas lá.

Na América Latina tem grupos que foram e alguns ainda continuam trabalhando conosco, no Uruguai, na Argentina e na Venezuela. Mas a rede de colaboração que a gente com o resto do mundo sempre foi muito grande. Incluindo tanto pesquisadores da Europa, especialmente dos Estados Unidos, e até do Japão. Eu publiquei há uns anos atrás um trabalho em colaboração com um grupo japonês. Então, é uma colaboração ampla que é na verdade um paradigma atualmente. Não se consegue mais fazer pesquisa de ponta com grupos isolados, é necessário redes de pesquisadores. Não pode na Genética, não quer dizer que em outras áreas as coisas não sejam diferentes.

Historiadora – O senhor poderia falar um pouquinho da organização da Pós-Graduação: no começo era só pesquisa, depois começou a ter aula? Quem participava de uma pós, qual era a sequência de um estudante?

Salzano – O modelo que foi criado pelo Conselho Federal de Educação era de que tinha que haver cursos além do trabalho de tese. Então, desde o início havia disciplinas, em maior ou menor quantidade, e a parte de tese. Isso continua até hoje. Ao longo do tempo a gente foi, de acordo também com as políticas da CAPES, foi reformulando a quantidade de requisitos necessários, de cursos, por exemplo, necessários para obter o grau. No início, a pós-graduação brasileira, em geral, se notabiliza por uma ênfase para o mestrado. As pessoas que estavam estabelecendo essa política consideravam que ainda não estávamos bem preparados para um doutorado forte. Muitos poucos programas tinham curso de doutorado. Se dava uma ênfase muito grande ao mestrado. Se a pessoa tinha um mestrado ela já tinha uma porta semi-aberta para um curso na Universidade. Só posteriormente que isso foi mudando, com o aumento da ênfase no doutorado. Nós seguimos essa mesma tendência.

Historiadora – Formaram mestres primeiro e depois...

Salzano – Não, desde o começo nós tivemos os dois programas juntos, o mestrado e o doutorado. Consideravam que nós tínhamos nível também para atribuir graus de doutorado. Mas o número de doutores que se formaram no início era relativamente pequeno. A ênfase era no mestrado forte, e a gente queria que os mestres tivessem primeiro uma experiência profissional antes de ingressar no doutorado. Com isso, o número foi relativamente pequeno durante algum tempo. Só depois quando a CAPES resolveu modificar a política e considerar que a ênfase devia ser mais no doutorado do que no mestrado é que a gente também multiplicou o número de candidatos no doutorado, que agora está praticamente o mesmo. Antes era uma proporção de dez mestrados para um doutorado. Agora nós temos praticamente o mesmo número de mestrado e doutorado.

Historiadora – Voltando à questão do laboratório, ele tinha funcionários também ou eram os próprios bolsistas que administravam, que cuidavam?

Salzano – Desde o início os laboratórios eram da Universidade. Então havia funcionários da Universidade, técnicos e laboratoristas, que nos auxiliavam. Mas na proporção, havia muito poucos auxiliares técnicos em relação ao número de docentes que estavam trabalhando. Grande parte dos trabalhos era feito pelos bolsistas mesmo. Esse foi o grande ponto de virada da Ciência brasileira em geral: a institucionalização da Pós-Graduação. Porque aí podíamos ter grande quantidade de mão-de-obra especializada para realizar as tarefas laboratoriais que eram necessárias para a investigação científica. Com isso a produção brasileira pulou, nesses últimos decênios, de um negócio muito modesto para uma posição mais ou menos razoável.

Historiadora – O senhor lembra de algum desses técnicos, desses primeiros que trabalharam junto no laboratório?

Salzano – Bom, teve um que foi muito ligado a mim, o professor Girley Simões, porque ele fazia toda a parte laboratorial, uma pessoa de excelente capacidade técnica e individual, e também me acompanhava em tudo que era trabalho de campo. Então nós percorremos juntos todo o Brasil estudando grupos indígenas. Formou-se uma amizade muito grande entre ele e eu.

Historiadora – Ele era funcionário da Faculdade?

Salzano – Era funcionário da Faculdade. Começou recebendo verbas especiais que eu tinha, mas logo depois ele foi contratado pela Universidade. Ficou até a aposentadoria. Infelizmente depois se afastou, e agora nem sei o que está acontecendo com ele. Ele era casado com uma funcionária, Neiva Simões, que também fez um trabalho importante na área de Genética Vegetal. Era um casal muito simpático, muito ativo. Ela infelizmente faleceu já.

Historiadora – Aproveitando que o senhor falou dos dois, essa parte da sociabilidade, eu vi umas fotos de encontros, jantares, como era?

Salzano – Desde o início a gente sempre optou por uma sociabilidade grande. É um dos poucos grupos de investigação no Brasil em que houve pouca briga. Não digo que não houve briga, mas em geral as diferenças de opinião eram resolvidas de uma maneira que não fosse extrema. Durante muito tempo a gente sempre fez festas de fim de ano, quando tinha algum evento especial, de congraçamento dos docentes, alunos e funcionários. É uma atividade que foi muito mais ativa antigamente do que agora. Talvez porque agora o grupo está muito grande e é mais difícil de reunir todo mundo em uma festa dessas.

Como fonte de material escrito, tem tudo aqui. Tudo isto aqui são relatórios anuais do Departamento, que começam lá na década de 1960, em 63 e vão até 2003. Em 2003 o pessoal achou que não dava mais para fazer. Está tudo contado, tim-tim por tim-tim.

Historiadora – O professor Claiton falou de ratinhos. Quando entram as pesquisas em animais, como vocês faziam para guardar?

Salzano  O início com a Drosophila foi porque ela era pequenininha e podia ser cultivada em vidros de laboratório. Até hoje tem um monte de vidros de cultivo de Drosophilas lá no setor coordenado pela professora Vera Gayeski. Posteriormente, alguns grupos optaram por estudos em camundongos, mas isso em época relativamente recentemente. Antes disso se realizou bastante trabalhos em Casas de Vegetação. Nós temos uma aqui no Campus, próximo ao edifício aqui, no qual foram cultivadas plantas. Há também um insetário aqui, não sei se está junto, se está anexo a nossa Casa de Vegetação, que é  um borboletário. E um grupo relativamente pequeno ainda trabalha com aranhas, e algumas aranhas já invadiram... Saíram de lá e invadiram o Departamento, mas não houve nada mais sério (risos).

Historiadora – Do seu trabalho, o que mais teve visibilidade? O que o senhor salientaria?

Salzano – Como eu disse, essa parte de estudos de grupos indígenas foi sempre meu principal foco. Houve um trabalho também que teve bastante repercussão, um novo tipo de hemoglobina que a gente descobriu, pela década de 60/70, chamada hemoglobina Porto Alegre, e que tinha umas diferenças importantes com relação a outros tipos, por isso teve também boa repercussão internacional. Serviu como modelo também de como as moléculas se agregam nesse tipo de situação: de mutações em uma determinada região que faz com que as moléculas se agreguem de maneira diferente. Isso foi uma descoberta importante, feita há bastante tempo e que eu tenho salientado também sempre nos meus currículos.

Historiadora – Essas saídas de campo, como era? O senhor ia até uma comunidade? Como era esse dia-a-dia da pesquisa?

Salzano – Eu comecei indo a comunidades indígenas aqui do Rio Grande do Sul. A gente fazia o acesso através de caminhonetes, jipes. Posteriormente, quando a gente começou a estender o interesse para o Brasil central e a Amazônia, aí a gente teve que ir de avião até determinado local depois pegar aviões pequenos, chamados teco-teco para alcançar as aldeias, muitas delas completamente isoladas, impossível de chegar por terra. Às vezes só se podia por água, aí levava dias, semanas, e o material biológico que a gente coletava, sangue ou saliva, era facilmente deteriorável, então nós tínhamos que, após o momento de coletar, imediatamente voltar para a base para processá-los e estudá-los. Isto então requeria viagens por ar, fundamentalmente.

Uma delas foi especialmente interessante porque foi a partir de um navio oceanográfico norte-americano, que chamava Alpha Helix, que é um nome baseado em estudos moleculares humanos, inclusive. A gente fez todo o percurso desde, não bem o início do rio Amazonas, mas na encruzilhada entre Brasil, Peru e Colômbia. De Letícia, que é a cidade colombiana, e fizemos toda a viagem de lá até a Foz do Amazonas, coletando principalmente na área relacionada com estados do Amazonas. Então um estudo muito completo.

Historiadora – O barco era a base então?

Salzano – O navio era um navio oceanográfico para pesquisa mesmo. Tinha laboratório, tinha ar-condicionado. Então, havia facilidade de processamento das amostras lá e envio, em determinadas localidades em que parava, pelo ar, para outras localidades, tanto no Brasil como nos Estados Unidos.

Historiadora – Então tinha cientistas brasileiros e norte-americanos?

Salzano – Sim, isso foi verdadeiro não só nessa excursão como em várias outras em que participaram colegas tanto dos Estados Unidos quanto da Europa, que fizeram trabalho de campo junto comigo e outros colegas.

Historiadora – No caso desse navio, foi um projeto desenvolvido por vocês aqui?

Salzano – Foi parte desse trabalho de colaboração que eu mencionei entre Porto Alegre e Ann Harbor, lá nos Estados Unidos. Esse professor, o James Neel, conseguiu que parte da viagem do Alpha Helix que tinha programação relacionada com outros eventos, outras pesquisas, fosse feita para a Genética.

Historiadora – Quando o senhor começou aqui no Rio Grande do Sul, o senhor era bem aceito? Quando chegava na comunidade indígena, como se comunicava?

Salzano – Em geral a gente sempre teve boa receptividade. Lógico, sempre houve regulamentação quanto a estudos em grupos indígenas. Havia necessidade da licença da FUNAI. Antes era o SPI, mas eu acho que peguei praticamente só, não me lembro... Antes era o Serviço de Proteção aos Índios e depois FUNAI, Fundação Nacional do Índio, que regulamentava o acesso. Não era qualquer um que podia entrar em uma reserva indígena e fazer o que queria. Era preciso apresentar um plano de estudos, que era aprovado em seus aspectos éticos e quaisquer outros, e depois a gente tinha como ponto, entre a comunidade indígena e nós, o serviço, os postos indígenas da FUNAI, e em alguns casos a gente trabalhou também com missionários, tanto católicos quanto protestantes, que tinham missão, que tem missões ainda entre esses grupos, que serviam de ponte...

Historiadora – Eles serviam de base também?

Salzano – Serviam de base para o trabalho. Sempre também tendo o máximo de cuidado para que eles fossem informados sobre o que a gente estava fazendo, de forma que estivessem à vontade, se não quisessem participar.

[Pausa. Uma professora conversa rapidamente com o Professor Salzano]

Historiadora – O senhor tem compromisso a gente pode deixar para outra hora.

Salzano – Não, é um café que a gente toma...

Historiadora – Ah! O café, o seu Claiton me comentou.

Salzano – Sempre também relacionando essa parte genética com o apoio na área de saúde. A gente sempre levava medicamento, muitas vezes também faziam parte da equipe médicos, que davam assistência de saúde a esses grupos como forma de retribuição à colaboração que eles forneciam. Foi sempre um negócio bem agradável. Uma ou duas vezes houve alguma situação meio conflituosa, mas nada muito sério. Realmente essa animosidade que agora existe de grupos indígenas e organizações não-governamentais em relação à Genética é uma coisa relativamente recente que tem prejudicado o nosso trabalho e que, no meu ponto de vista, é um exagero causado por atitudes extremas que podem ter sido ocasionadas por uma resposta a um comportamento eventualmente não-ético de algumas pessoas, mas sem dúvida não do nosso grupo, que sempre pautou suas atividades pelo cumprimento às determinações éticas.

Inclusive em 1964, antes... Na década de 1960, a gente se reuniu na Organização Mundial de Saúde para montar o que era necessário para esse tipo de pesquisa e as garantias de comportamento ético que deveriam ser seguidas pelos pesquisadores e pelas pessoas que seriam pesquisadas. Tem toda a documentação à respeito.

Historiadora – O senhor falou que casou-se, não? Como era viajar e cuidar da família? O senhor morava sempre aqui? A sua base era Porto Alegre...

Salzano – Não, sempre tive aqui em Porto Alegre. Na verdade, a vizinhança sempre foi relativamente pequena. O meu pai tinha uma casa, um sobrado, ali na Rua Venâncio Aires, perto do Pronto Socorro. Depois, em uma determinada época a gente fez um arranjo com uma construtora que construiu um edifício lá, a partir daquele terreno, que ficou para a família. Então, desde praticamente meu nascimento, eu nasci em Cachoeira do Sul porque a minha mãe ia lá só para ter os filhos. Para ter a assistência da madrasta

Historiadora – A mãe dela era de lá...

Salzano – Não era mãe, era madrasta. Era irmã da mãe que tinha morrido. Um negócio interessante. Então, praticamente toda a minha vida eu vivi ali. Fiz parte do curso do primeiro grau no Instituto de Educação. Eu caminhava até ali pela Redenção. Depois o secundário no Júlio de Castilhos que era no prédio em que agora é a Faculdade de Economia.

Historiadora – Ah, que pegou fogo, né?

Salzano – Exatamente. E depois entrei para a Faculdade ali também, no Campus Central, então tudo por ali mesmo.

Historiadora – E essa estada no Julinho, como eram as aulas de Biologia lá? Foi ali que o senhor decidiu seguir por essa área?

Salzano – Não bem. Quando eu estava no final do segundo grau, eu não sabia bem o que fazer. E meu pai, que era médico, queria que eu fizesse Medicina. Mas eu estava entusiasmado mais com Literatura, cultura, cinema, essas coisas. Achava realmente que a minha vocação era para ensino. Então, no momento de fazer vestibular eu, seguindo a vontade paterna, fiz vestibular para Medicina, mas também para História Natural. Aí rodei na Medicina, entrei na História Natural e resolvi continuar na História Natural, apesar do interesse do meu pai, né? Mas ele nunca forçou a barra, dizendo que eu devia tentar de novo Medicina, ele era muito liberal nesse ponto de vista. E no final, meus dois filhos se formaram médicos e fizeram a vontade do avô.

Voltando ao segundo grau, eu queria ser professor apesar de ter um professor de química no Julinho que era muito calmo. Para subir a escada que vai para a aula, ele levava acho que meia hora. Depois ele ficava parado olhando para a gente assim, mais uns quinze minutos antes de começar a aula. Mas depois ele ia confraternizar conosco em um café em frente. A gente tomava café juntos e ele dizia para nós: “Vocês peguem qualquer carreira, menos de professor”. Ele não gostava da carreira. Estava li forçado (risos). Então se alguma influência tivesse do secundário seria negativa e não positiva. Como eu disse, eu estava mais interessado no início por essas coisas de cultura, mas quando chegou o terceiro ano é que me dei conta que eu ia me formar e não sabia muita coisa, aí a influência do Cordeiro foi decisiva para a minha escolha profissional.

Historiadora – Em relação a suas viagens internacionais, participação em algum Seminário, o que o senhor lembra, o que lhe marcou?

Salzano – Inicialmente, internacionalmente, eu passei um ano lá nos Estados Unidos, em Ann Harbor, que é uma cidade universitária, muito agradável, mas muito fria também, quatro meses abaixo de neve. Mas era um grupo muito bom, tive uma estada ótima lá. Estava com a minha esposa e o meu filho mais velho e a minha pequena tinha um ano quando nós fomos para lá.

Depois eu passei também um mês fazendo aperfeiçoamento em Oxford, na Inglaterra. Também uma estada excelente, alguns anos depois da estada em Michigan. Estada longa também, muito tempo depois eu passei três meses em Salt Lake City, nos Estados Unidos, como professor visitante, a cidade dos Mormons. E também tive uma experiência muito agradável lá.

Em geral, as experiências que eu tive fora foram bastante produtivas... Eu já circulei por quase toda a Europa, Estados Unidos, América Latina, eu só não estive no Japão, na Ásia e na África. Devido a essa possibilidade de intercâmbio que sempre houve, eu fui a lugares onde os professores tinham vindo aqui, passado um mês aqui, aí eu voltava lá... Tinha os programas de colaboração. Isso também facilitou bastante a adaptação, o contato, etc.

Historiadora – Mais alguma coisa o senhor gostaria de deixar registrado?

Salzano –Acho importante que se esteja preocupado com a memória do Curso. Não há uma tradição muito forte no Brasil para a preservação do conhecimento, dos estudos históricos em geral. Só posso dizer que estou muito contente que esteja acontecendo. Nós estamos fazendo um trabalho equivalente lá na Sociedade Brasileira de Genética, chamado Projeto Memória, para montagem da história da Genética e, mais especificamente, da Sociedade Brasileira de Genética. Eu tenho preparado vários textos a respeito. Como eu disse, tenho escrito algumas coisas sobre a história da Genética Humana e da Genética Geral no Brasil.

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