Vera Lucia da Silva Valente Gaiesky

GAIESKY, Vera Lucia da Silva Valente. Memórias. Depoimento concedido no Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio Grande do Sul à historiadora Naida Menezes. Porto Alegre, 23 de abril de 2010.

 Historiadora - Professora Vera, quando começa a sua relação com a Biologia, com a Genética? É antes da faculdade?

Vera Gaiesky -Bom, a minha relação com a Genética é uma relação de amor (risos) desde o segundo grau. Eu sempre quis ser pesquisadora na área de ciências biológicas, nem sabia o que é que era, mas eu tive acesso muito cedo a livros, livros que o meu avô tinha como (a coleção) “Tesouros da Juventude”, ainda em português arcaico. Eu ia passar férias e lia aqueles livros com a maior avidez. Na escola eu não posso dizer que tive muito estímulo, mas no segundo grau comecei a me interessar por Genética, tive fundamentos de Genética. Então, eu não tive dúvidas, no fim do segundo grau, sobre o que eu queria fazer, na época, o curso era História Natural. Depois, ele se transformou, houve a mudança de currículo, mas a minha turma acho que foi a última formada em História Natural.

Terminei o curso em 1970, que se chama, atualmente, Ciências Biológicas, mas dede o segundo semestre de 1969 eu comecei a estagiar na Genética, lá na antiga Genética do Bairro Centro. Naquela ocasião, o professor Cordeiro veio dos Estados Unidos e deu um curso de curta duração teórico prático sobre desenvolvimento, gens de desenvolvimento no modelo Drosophila, a mosca, e eu sempre gostei de bicho, queria trabalhar com bichos, sou a legítima aluna que entrou porque gosta de bichos! Fiz a disciplina e quando terminou, aliás, fiquei encantada com a parte experimental, o professor Cordeiro me convidou para estagiar. Na verdade, ele estava querendo fazer uma triagem de alunos que pudesse começar a introduzir nos métodos que tinha aprendido nos Estados Unidos. Aí, eu comecei a estagiar, acho que foi lá por setembro de 1969, depois fiquei o ano todo de 1970 estagiando. A minha formatura foi em março, a minha turma é de 1970. Nesse meio tempo, o curso de Pós-graduação estava se estruturando. Eu me formei em Biologia, História Natural na época, e já comecei o mestrado em março.

Eu digo que praticamente não saí da UFRGS, entrei como estudante e fiquei como professora. Salvo um período curto, entre 1973 e 1974, que tinha acabado a bolsa de mestrado e 75, quando eu voltei já como auxiliar de ensino, em um concurso público que foi feito. Então, eu fiquei, praticamente, nem dois anos fora da UFRGS. Nesse período, eu lecionei na antiga Faculdade Católica de Medicina, Genética, como professor horista, no ano de 1974, e ainda, no inicio de 75 eu comecei como professora lá, eu era professora substituta. Tive um cargo no Estado, mas não tive dúvidas de que o que eu queria fazer é o que eu faço até hoje.

Aí, em 1975 houve essa possibilidade de entrar como mestre, ainda muito novinha. Entrei muito jovem, com 27 anos, como professora, e aí eu fiz meu próprio doutorado já como professora da universidade, que foi de 1984, acabei terminando em 84. Comecei lá por 77, fim de 77, 78 e teve alguns percalços nesse período, o professor Cordeiro, que era meu orientador no doutorado, ele foi para o Rio de Janeiro e eu fiquei sem orientador, depois veio um professor chileno Danko Brncic, não sei se já chegaram a te falar sobre ele. Foi uma pessoa muito importante para nós, ele começou a assumir a minha orientação. Ele era uma pessoa que tinha... Um cientista muito conhecido, mas que tinha vindo para o Brasil com aquelas condições muito difíceis que estavam no Chile, inclusive fecharam a faculdade em que ele trabalhava. Então, ele veio como professor visitante e começou como meu novo orientador. Quando estava tudo estruturado para começar o doutorado o chamaram de volta, porque abriram a universidade. Então, atrasou um pouquinho o início do meu doutorado. Acabei começando e fui orientada pelo professor Aldo que, gentilmente, se dispôs a me orientar, mesmo que não trabalhasse com o assunto que eu trabalhava. Foi muito importante para a minha formação, a orientação do professor Aldo, foi ótima! Desde então, eu fiquei por aqui, já orientei mestres, doutores, graduandos, já foram 73 alunos... Eu até anotei aqui para ver... Doutores eu já tenho uma turma bem grande espalhada por esse Brasil inteiro. Tenho quatro ex-doutores na Universidade Federal de Pernambuco, tenho 18 doutores já formados. Tenho dois ex-mestres que estão na PUC, um ex-aluno na Unisinos, o professor Vitor Valiati fazendo um trabalho lindo na Unisinos. Dois, na verdade porque tem uma ex-mestre também na Unisinos.

Historiadora - Se formaram aqui e foram trabalhar lá?

Vera Gaiesky -Todos com formação sob a minha orientação. E tem na Universidade Federal de Santa Catarina, tem na FEEVALE o professor Luciano, e também uma turma dos mais jovens que ainda estão fazendo formação aqui ou em outras universidades. O professor Elgion Loreto da Federal de Santa Maria, a Mônica, que agora entrou para a Universidade Federal de Pelotas, e mais três que foram agora para a nova Universidade do Pampa. Então, os filhos estão se espalhando, como eu digo, os filhos científicos estão se espalhando por aí.

Historiadora -E o que a senhora acha que eles levam daqui?

Vera Gaiesky -Olha, eu acho que uns 90% desse povo todo que eu tive a satisfação de orientar, acho que levam uma coisa muito boa, saem com uma formação muito boa.

Eu trabalho em uma área que dá muita mão-de-obra, tem que trabalhar muito dentro do laboratório. É um trabalho que tem uma parte muito gratificante e tem a parte rotineira. Quem passa pela rotineira e consegue achar interessante, sai muito bom. Eu sempre digo, eu repito para eles, o que o professor Cordeiro me dizia - trabalhamos com Drosophila que é o organismo que praticamente serviu de modelo para a Genética, como ciência - então o professor Cordeiro sempre dizia que quem faz a formação trabalhando com Drosophila trabalha com qualquer problema, com qualquer organismo. Eu acredito plenamente nisso e acho que os meus alunos saem com isso. Mesmo quando eles vão para outras instituições que têm outro tipo de exigência, ou universidades privadas que têm uma linha direcionada de trabalho, quando vão trabalhar, ficam com uma formação muito boa. Eu sou muito orgulhosa da minha prole científica, acho que eles são muito bons, acho que vale o investimento. Muito trabalhoso? Foi. Tem sido? Tem sido. Mas nós persistimos.

Historiadora - Em relação ao laboratório, como ele era, quais as diferenças?

Vera Gaiesky -Diferenças? Bom no laboratório o espaço físico era muito pequeno, nós todos praticamente trabalhávamos juntos, tinha um compartilhamento. Não havia o laboratório do Fulano. Não! Os laboratórios eram de uso comum, todos nós usávamos, compartilhávamos equipamentos. Mas havia um espírito de colaboração muito grande no nosso laboratório, eu digo nós os que trabalhavam sob a liderança do professor Cordeiro, somos muito professores trabalhando nessa área, depois foi mudando, o Departamento mudou bastante. Era muita gente, existia um espírito... Obviamente tinha conflitos, em todos os lugares que existem pessoas existem conflitos, mas eu acho que sempre tinha um... Nós enxergávamos mais longe, porque era muito orgulho fazer parte desse grupo, eu sempre me senti muito orgulhosa de trabalhar, fazer parte... Quando entrei como professora, jovem, eu vi que tinha que fazer a minha parte porque a instituição era séria, era muito boa. E claro, obviamente houve... Temos que nos afirmar, nos impor tanto dentro como fora, mas o trabalho, quando começou a se sobressair, a ser reconhecido lá fora, na comunidade científica nacional e internacional, aí nós ficamos mais tranquilos e soubemos que tínhamos uma contribuição importante.

Historiadora - Tinha alguns equipamentos que agora não se utilizava mais, o que é que era? A fabricação... Onde vocês conseguiam?

Vera Gaiesky Muitos...  que eu posso dizer, que eu brinco sempre, é que nós temos umas relíquias que são as autoclaves hospitalares. São as mesmas daquele tempo, elas são tão caras que todos os auxílios que tem vindo são insuficiente para comprar uma. Essas são tão boas que quando estragam, vem a manutenção, arruma e nós continuamos com grandes autoclaves do tempo ainda da Fundação Rockfeller. Depois, nós conseguimos financiamentos individuais, quando viemos para o Campus do Vale. Nós já tivemos duas vezes, sendo uma renovação. Tivemos um auxílio da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) para montagem, para equipar os novos laboratórios e agora estão saindo esses últimos grandes projetos como o Pronex. Saiu um nosso no Pronex agora. O professor Salzano tem o instituto de Ciências e Tecnologia, Instituto de Milênio, eu não participei, eles participaram, e agora está saindo para nós o Promex. Eu sou coordenadora do Programa. Então, esses auxílios, digamos, temáticos, eles tem ajudado bastante a equipar, e o material de consumo é muito caro. Agora, acho que com a mudança, com as novas tecnologias de estudo do DNA os insumos são muito caros, as substâncias químicas são muito caras. Mas nós vamos levando: pede dez ganha cinco para os projetos, pede mais um e ganha, e vai levando assim também com as bolsas para os alunos. Sempre dá, bem ou mal, com períodos mais difíceis, períodos mais fáceis, temos levado.

Eu, particularmente, sou uma pessoa muito persistente, sou teimosa, sou muito persistente e acredito no que faço. Agora, não foi fácil ser levada a sério porque mulher... Houve uma época em que tinha alguns estereótipos, tinha que andar... Eu andava toda pintadinha e toda arrumadinha, e isso não caía muito bem. Eu tinha de provar que podíamos trabalhar bem e também pintar a unha de vermelho, sabe? Essas coisas. No começo havia uma ideia um pouco equivocada, mas sempre trabalhei bem, fiz grandes amigos aqui dentro.

Historiadora - Por falar em grandes amigos, os professores comentam do intervalo, que era um ambiente, assim, bem legal...

Vera Gaiesky -Pois é, isso eu acho que se perdeu quando viemos aqui para o campus porque lá era tudo muito pequeno, então mesmo que o setor de Genética Humana ficasse no andar de cima era tudo muito pequeno. Lá nós tínhamos uma sala de convivência comum e aqui, talvez em função da própria arquitetura do campus, que não tem escada interna, banheiros fora, eu acho que isso dificultou um pouco a convivência do departamento como um todo. Agora, que estamos em andares e prédio diferentes isso se perdeu – opinião minha. Lá havia os cafés em comum, todo mundo ia, a troca de informações era feita de uma forma mais informal, cada um subia com a sua xicrinha, lanchávamos nas mesas do laboratório, isso também é uma coisa que se perdeu muito. Tem um grupo que sai todos os dias às dez da manhã e às quatro da tarde para tomar um cafezinho no restaurante lá do prédio da Faurgs (Fundação de Apoio da Universidade Federal do RS). Mas eu não tenho esse hábito, porque quando a gente começa aqui, acho que até em função desse tipo de trabalho que nós fazemos, que vamos para a bancada, aí não dá para parar bonitinho às 10 horas. Para nós é longe, se perde muito, se perde bastante, quebra a concentração. Eu costumo levar meu computadorzinho para o laboratório, enquanto um está trabalhando eu faço as coisas, vou no microscópio, olho, sabe? Eu gosto de participar bastante do andamento do trabalho de todo mundo e isso eu acho que se perdeu, realmente. E muitos dos colegas aqui do setor, do andar de cima, muito se aposentaram, se aposentaram muito cedo. Acho que em função, naquela época, daqueles sustos das aposentadorias daqueles planos, acho que foi do Presidente Fernando Henrique que teve aquele problema...

Historiadora - Década de 1990?

Vera Gaiesky -É, fim da década de 90. Muita gente saiu para garantir a sua aposentadoria, e no fim as coisas mudaram bastante. Então, houve um esvaziamento, eu acho, de um grupo importante de colegas que foram para outras instituições privadas e tudo. Agora, isso realmente fazia muita falta, o professor Cordeiro estimulava para que nós participássemos de todos esses eventos, nós estávamos juntos. Quando vinha alguém de fora ele chamava todos nós para jantar fora, para conversar, fazia atividades na casa dele, feijoadas para convidar o pesquisador de fora, que era para o aluno também ficar à vontade. Aí, quando vinha para o laboratório nós já conhecíamos. Isso eu continuo fazendo, continuo mantendo projetos com a colaboração de pessoas de fora. Eu tenho trabalhado muito bem com muitas pessoas de fora que, eventualmente, vêm. Agora, em junho, vem um pesquisador da Espanha, tem uma colega do Uruguai que vem sempre, aí os alunos também vão.

Eu procurei manter aquilo que eu acho que foi muito bom na minha formação. O professor Cordeiro, na época, fazia assim (perguntava): “Quem é o melhor pesquisador na área tal”? Ele ia lá, arrumava recursos, trazia a pessoa e botava junto com os alunos. Dizia: “Assim um monte de gente vai se beneficiar. Se um tiver que ir depois vai”. Ele tinha essa capacidade de liderança, de motivar as pessoas, e isso aí foi muito importante. Agora mudou muito, mudou consideravelmente, não digo para melhor, não digo para pior. Algumas coisas eu digo que para pior, óbvio, outras para melhor. Nós demos um pulo de qualidade, viemos para cá e conseguimos mais recursos para trabalhar, mais espaço. Aí, as pessoas puderam expandir as sua linhas de pesquisa, puderam pegar mais alunos, porque antes não tinha como. Conseguiram pegar vários alunos para orientar, cada um dos orientadores. Então, isso expandiu, foi muito bom, foi sem dúvida, um grande progresso, mas se perdeu um pouco daquele espírito de família que se tinha... Famílias com brigas (risos), mas famílias acima de tudo, com um plano de vida comum, um ideal de ciência, aquela busca de excelência, porque sempre fomos muito cobrados, muito cobrados! Havia aquele compromisso, quem ficou aqui, muitas pessoas jovens que fizeram formação aqui, quem se dispôs a ficar realmente tinha um vínculo muito forte. Bom, eu tenho tempo para me aposentar e não me aposento, acho que vou até a compulsória (risos). Ainda mais quando olho o exemplo do Salzano, então, dá para ver que quando nós gostamos do que fazemos isso é muito importante.

Historiadora - E ainda sobre o professor Cordeiro...

Vera Gaiesky -O professor Cordeiro é um grande líder, ele é o meu modelo. O que o professor Cordeiro fazia, ele ficava sempre criando, parece que quando conseguia um resultado do experimento se desinteressava pelo problema e ia para um outro. E eu não, eu sempre que me interesso por aquilo vou até o fim. Mas o professor Cordeiro era uma pessoa muito, muito entusiasta! Ele criou um programa de pós-graduação no Rio de Janeiro. O pessoal brinca que era “antes de Cordeiro e depois de Cordeiro”. Ele foi para Brasília e formou um grande grupo na Universidade de Brasília, depois eles voltaram para cá devido à Revolução. O grupo passou por uns bons traumas porque eles tiveram que sair e fecharam a Universidade e depois ele voltou para cá com todo o pique. Foi a época em que isso aqui cresceu bastante. Depois, ele se desinteressou e foi montar no Rio de Janeiro. É uma pessoa muito inquieta, realmente muito inquieta, mas foi um grande líder e me influenciou imensamente. Eu tinha discussões com ele, claro, mas... Ele chegou a ter 22 orientados uma vez, então, era difícil ele se lembrar o que tínhamos dito na última entrevista, por isso, eu comecei a dizer: “O senhor escreve” (risos) . Foi uma mente muito criativa, muito...

Historiadora - E aquele tempo em que eles trabalharam com energia nuclear, o que ficou na memória?

Vera Gaiesky - Pois é, eu não cheguei a participar desse grupo da Engenharia, eles faziam irradiação das mosquinhas dentro de capsulazinhas, como se fossem cápsulas de remédio, eles irradiavam para avaliar o efeito mutagênico das radiações com animais recém vindos da natureza. Eram trabalhos imensos, muito trabalhosos que havia muita manipulação em laboratório.

Havia grupos, nós tínhamos excelentes funcionários, também, de apoio. Sempre teve um grande empenho do professor Cordeiro para que tivéssemos funcionários de apoio e técnicos e temos ainda, tivemos uma equipe bastante grande.

Historiadora - Lembra de algum funcionário?

Vera Gaiesky - A Nena Morales, Nena Basílio Morales. A Nena é uma pesquisadora, ele foi com o professor Cordeiro para os Estados Unidos, também, e ela frequenta as nossas festas de Natal das aposentadas, nós nos encontramos, eu tenho fotos delas. Foi uma grande pessoa a Nena Basílio Moraes, uma excelente funcionária.

Historiadora - E qual era a função dela?

Vera Gaiesky -Ela era técnica de laboratório, mas segurava aparelho conosco, os grandes experimentos. Ela mantinha material, mantinha os bichinhos vivos, a manutenção de material difícil, biológico difícil, podia deixar com a Nena que ela recuperava, foi uma pessoa muito importante. Tivemos a Vera Rodrigues que foi uma funcionária muito boa também, a Dona Juraci, que nós chamávamos de Dona Jura, que é uma pessoa maravilhosa, o seu Ramila.

Historiadora - Qual era esse ultimo?

Vera Gaiesky - Danubio Ramila, que participava de trabalhos de campo conosco. Eram funcionários que realmente estavam desde o início da organização, pessoas muito, muito interessantes. A Vera, a Dona Jura e Nena, e o seu Ramila também estão aposentados, mas elas, eventualmente, ainda vêm aqui. Tem fotos lindas, se querem eu posso até dar para... Em 2008, quando eu fui indicada para a Academia Brasileira de Ciências, fizeram uma festinha aqui para mim e elas vieram. Os funcionários abraçavam também o nosso departamento e sempre foram muito respeitados e muito valorizado o trabalho deles. Então, é uma coisa muito boa. Lógico que passaram períodos... Houve uma época, acho que foi no governo Collor, em que ficamos sem dinheiro nenhum para a pesquisa, mas foi um período, assim, horrível, em que nós reciclávamos tudo, e foi um período difícil. Mesmo assim, continuou o laboratório cheio de gente jovem, isso no meu e imagino que no dos outros também.

Depois, o grupo da professora Helga, o grupo da Vegetal, começou a trabalhar com projetos de área aplicada de plantas, então já tinha recurso de outra ordem. O Salzano sempre teve por causa dos contatos. O grupo se diversificou muito, chegamos a ser cinco professores trabalhando com a Drosophila aqui no setor, ainda aqui depois da mudança. Nós nos mudamos para cá em agosto de 1990, fomos o último grupo que veio, porque nós precisamos manter as câmaras de cultivo. E tinha um entusiasmo igual, todo mundo trabalhava parelho, então eu acho que isso foi um sucesso, nós tínhamos uma equipe muito coesa. Nós, que fizemos a nossa formação naquela época, também sentimos que precisávamos uns dos outros porque realmente era muito trabalhosa a produção. Isso nós conseguimos manter, o que foi muito importante.

Historiadora - E quando o professor Cordeiro tinha outros projetos fora daqui, vocês mantinham contato?

Vera Gaiesky - A gente mantinha contato, mas foi, claro, um pouco traumático quando ele foi embora, e foi mais ou menos rápido para o Rio de Janeiro e fiquei só eu. Para mim, no meu caso, eu fiquei sem orientador, as minhas colegas que tinham terminado um pouco antes, que é a professora Marly, já falecida, a professora Alice. Elas já estavam com a sua formação básica pronta, então, trocaram de orientador, mas eu fiquei numa situação... Eu era professora nova, estava em estágio probatório, nem podia sair para doutorado, tinha que trabalhar. Eu fiquei muito perdida e realmente senti muita falta. Tanto que o próprio projeto que eu queria desenvolver na época, que acabou não sendo o tema da minha tese de doutorado, mas eu acabei retomando depois, porque era uma proposta que me interessava muito. Eu, particularmente, fiquei bem perdida, mas, em seguida veio esse professor chileno o Danko Brncic. Tem fotos dele, ninguém te falou do Danko?

Historiadora - Talvez tenham falado.

Vera Gaiesky -O Danko foi uma pessoa muito importante que ficou um ano e meio aqui, não chegou a dois anos, mas ele assumiu a disciplina de Evolução que era o professor Cordeiro quem dava. Houve uma geração, entre um ano e meio e dois anos, que ele influenciou imensamente. Era uma pessoa muito carismática, um excelente pesquisador. Veio como visitante e a ideia dele era se erradicar aqui, porque estava sem condições de trabalho. A faculdade estava fechada, e ele meio assustado, meio traumatizado com os eventos lá no Chile. Depois eu fui ao Chile, em 1979, depois fui em 1982 e ele me mostrou. Eu vi in loco, os diplomas na parede da faculdade com furos de tiros, porque teria entrado o exército atirando e ele ficou muito traumatizado. Ele é falecido, mas a sua esposa é uma grande escultora, a Rosa, ela tinha... Toda a vida profissional dela estava lá. Quando eles reabriram a faculdade, quando se deram conta de que tinham feito uma coisa meio estranha chamaram ele de volta e, obviamente, ele foi. De novo eu comecei uma outra linha de pesquisa e de novo eu fiquei sem orientador. Foi quando o professor Aldo, um pesquisador jovem, que trabalhava com organismos diferentes, mas assuntos relacionados, muito gentilmente se dispôs a me orientar. Aí, nós fizemos um bom trabalho, somo amigos até hoje. A minha trajetória não foi das mais leves, ela teve vários percalços, mas nem por um momento eu pensei em desistir, era isso que eu queria e pronto.

Historiadora - Falaste em saídas de campo...

Vera Gaiesky - Isso, muitas saídas de campo!

Historiadora - Como eram?

Vera Gaiesky -Nós tínhamos que ir a campo para pegar os bichos, em primeiro lugar. Eu comecei a ir a campo com o professor Danko. Nós começamos a pegar o meu carrinho. Íamos com ele ou com a caminhonete da Universidade procurar lugares onde poderia ter, ele não era daqui. Quando eu trabalhei com o professor Cordeiro eu não trabalhei no campo, eu trabalhei no laboratório de Citogenética. Quando comecei a trabalhar com populações naturais, com o Danko, que me propôs Citogenética de Populações Naturais, nós tínhamos que coletar os bichos. Nós fomos para o Parque Saint-Hilaire. O Parque Marinha do Brasil, eu acho que nem tinha sido urbanizado. Nós íamos para o Morro Santana, íamos para a praça. Começamos a fazer o material. E aí, fiz disciplinas também com ele. Foi uma pessoa que marcou muito o Danko Brncic, ele faz parte da história desse programa. Talvez essa nova geração não o conheça, mas os mais antigos conhecem bem. E aí ele ficou nesse período e influenciou, temos trabalhos publicados juntos. Nós fizemos um trabalho, que seria o preliminar para a minha tese, e quando eu ia começar ele voltou, então foi de novo uma outra mudança. Mas, aí, eu já tinha autonomia, estava numa fase em que eu consegui recurso da Capes para ir.

Eu fui para o Chile conversar com o Danko, então, seguimos numa boa colaboração. Tanto que até hoje eu tenho trabalhos em colaboração com colegas que ficaram lá no Chile também. Então, nós fomos seguindo o trabalho de campo. A minha tese de doutorado eu fiz já sob orientação do professor Aldo, no Parque do Turvo, que é lá em Tenente Portela. Fui durante quatro anos, a cada três meses nós ficávamos 15 dias lá.

Historiadora - Por que a senhora ficou tanto tempo lá?

Vera Gaiesky -Porque lá é uma reserva florestal que tem uma flora e uma fauna muito bem preservada. Eu ia junto com o grupo que trabalhava com o professor Aldo, trabalhavam com borboletas. Então, nós íamos, não tinha acostamento, então, realmente parecia um rali em alguns momentos. Mas fui e quando eu já tinha meu material, que eu trabalhava com as minhas moscas, quando tinha enchido os meus vidros, aí eles me levavam para Tenente Portela, para pegar ônibus e vir a Porto Alegre. Eram quase 12 horas de ônibus, praticamente sentada em cima de uma caixa de isopor com os vidrinhos, com os meus bichinhos. Ou então, eu esperava. Se não era um período muito produtivo eu esperava que eles terminassem e voltava junto com todos, senão eu vinha de ônibus. E era lá no Parque do Turvo, depois no Parque do Itapuã, lugares que tivessem flora e fauna bem melhor preservadas. Fiz muito trabalho de campo, assim, com bota e no meio do mato. Eu fugi de onça, porque no parque tinha onça. Foi muito bom.

Historiadora - Não chegaram a ver nenhuma?

Vera Gaiesky -Vi, nós sentíamos o cheiro, víamos a pegada, nós víamos fezes. Em um das últimas vezes que eu fui, era fim de tarde e nós a vimos estendida, coisa mais linda! Realmente era um lugar muito selvagem. Foi muito bom para a minha formação pessoal, depois eu comecei a orientar e diversifiquei muito as linhas de pesquisa. À medida que os meus colegas se foram... Por exemplo, a professora Marly, logo que nós mudamos aqui para o campus, ela ficou doente, ela faleceu muito breve. Aí eu assumi os orientados da professora Marly. De uma hora para outra, eu tinha, assim, oito ou sete orientados, e eu comecei a diversificar. Eles já tinham alguns temas, e eu tive que aprender alguns tipos de métodos. Foi um desafio bom, eu era bem jovem, acho que essas coisas estimulam. Os outros foram saindo e acabei ficando de responsável por esse laboratório. Mas o departamento se mantém, até então acho que ficou só eu responsável por esse grande grupo, mas na pós-graduação um professor da minha mesma área é o professor Elgion Loreto, é professor de Santa Maria, mas ele é professor aqui pelo programa também. Os alunos dele fazem a parte experimental aqui dentro do laboratório. Nós continuamos com uma boa colaboração, ele fez a formação dele aqui também, nós acabamos ficando muito próximos, então...

Historiadora - Em relação à Pós-graduação em Genética, não temos um data precisa de quando começou, não é?

Vera Gaiesky -Pois é, na minha memória foi assim: eu já comecei a estagiar aqui no segundo semestre de 1969, e no início de 1970 já veio um grupo, duas colegas de Santa Maria, que vieram para... Acho que ainda estava por sair a regulamentação do programa, mas elas já vieram fazer mestrado. Tanto que eu participei, ajudei na parte experimental de uma delas, que é a Ana Bortolon. Quando eu me formei, efetivamente, no fim de 1970... Deve ter sido nesse período, entre 69 e 70 a regulamentação, tanto que eu tive bolsa, tive bolsa naquela época. A minha ideia, na minha memória, é entre 69 e 70, acho que é nesse período que teria sido a regulamentação. Lembro-me do professor Cordeiro ir muito a Brasília. Era uma época em que houve, realmente, um estímulo para a formação dos cursos de pós-graduação no Brasil. O governo militar investiu essa parte de pós-graduação. Aí é que começou, eu me lembro do curso de pós-graduação ter muitos alunos e depois já vieram vários de diferentes áreas, mas a minha ideia é que teria sido nesse período.

Historiadora - E como era a rotina de alguém que fazia mestrado?

Vera Gaiesky - Bom, nós tínhamos, na verdade, o acesso, o ingresso naquela época era por convite e análise de histórico escolar. Não é como agora que chegam a fazer prova escrita e chega a ter 90 candidatos. Eu entrei por convite, o professor Cordeiro me convidou para ficar. Nós tínhamos disciplinas e uma carga-horária de disciplinas bem pesada. Havia a parte experimental, tínhamos que escrever projetos e apresentar em um seminário que era movido a muitas expectativas, apresentávamos em um seminário formal, e tudo era mais formal naquela época, mesmo. Tinha que mandar com 15 dias de antecedência ou uma semana, um resumo com cópias para todo mundo, era mimeografado aquilo. Nós fazíamos um texto mimeografado, e todo mundo lia.

Historiadora - Todo mundo quem?

Vera Gaiesky - Todo o departamento, todos os professores, todos os colegas, isso é uma coisa que se perdeu um pouco. Ficou grande demais, nós ficamos muito separados. Aquela instituição Seminário, que ainda existe, se perdeu um pouco. Era realmente um momento em que todo o mundo ia, então nós participávamos de tudo o que todo mundo estava fazendo , dávamos palpites, éramos estimulados a dar palpites. Então, para nós que éramos estudantes, e depois como profissional, era motivo de muita ansiedade, porque nós éramos julgados com muita severidade, era muita severidade mesmo!

Havia as entrevistas semanais, tínhamos que fazer resumos sobre o que líamos, uma serie de coisas que agora nem se justifica mais. Precisávamos ler tantos trabalhos, tantas separatas, por isso que temos tanto papel. E tinha que escrever, fazer um resumo, contando para o professor sobre o que é que viu, o que achou e tudo.

Historiadora - Isso para...

Vera Gaiesky - Para as leituras das disciplinas, mas isso era uma atividade à parte, era uma prestação de contas com o orientador. Nós tínhamos que sentar e mostrar o que fizemos durante toda a semana na parte do laboratório, o que fez, o que estudou, que trabalhos leu e qual foi o significado, o que tu entendeste desse trabalho. Nós fomos muito cobrados, sem dúvida.

Historiadora - Com o professor Cordeiro?

Vera Gaiesky - O professor Cordeiro era muito durão (risos)! Era muito, muito rígido, mas ele era uma pessoa que deixou uma marca, acho que essa rigidez se impunha na época, foi importante. Depois mudou, toda a sociedade mudou, as pessoas ficaram mais relaxadas. Até no vestir tinha que ter cuidado quando éramos jovens, pulseirinha batendo não podia porque fazia barulho. Foi uma mudança, basicamente na sociedade. Mas o bom para nós foi essa linha, essa linha de conduta, e acho que isso realmente causou muito sucesso. Se eu tivesse que começar novamente, encarando, acho que eu encararia também, acho que é por aí.

Historiadora - Havia o seminário e depois começavam a se preparar para a defesa?

Vera Gaiesky -Aí fazia a parte experimental do trabalho e depois tinha que analisar os resultados e fazer a estatística. Naquela época, não tinha computador. A minha tese de doutorado, aquela cor de vinho ali, que é de 1984, demorou bastante, porque eu acumulava com as atividades de professora. Eu tive A Com Louvor, que era um grau excepcional, porque entrou a análise computacional. Eu passava todos os meus dados, ia lá para o CPD, tinha o professor Neron do CPD que ouvia o que eu precisava, que tese eu precisava fazer, porque eu tinha muitos dados, para ver o que tinha sentido um com o outro. Ele me dava umas folhas imensas em que eu passava os meus números, como zero, que tinha que botar quando era zero. Depois passava aqueles cartões perfurados para anotar com um lapisinho e depois, era linguagem Fortran, eles processavam. Aí vinha um bloco de papel, desses formulários contínuos com quantidades enormes de folhas, e lá atrás estavam os resumos. Então, eu consegui fazer uma análise estatística muito sofisticada, porque já tive acesso aos computadores do Centro de Processamento de Dados da UFRGS e tinha um professor disponível para isso. Mas, era muito... Nós escrevíamos à mão, depois tinha uma pessoa que digitava. O mestrado foi digitado em estêncil para ser rodado, aí o doutorado já foi em máquina elétrica e depois tirado xérox. Se nós queríamos mudar - discutia com o orientador e queria fazer uma mudança no texto - tinha que cortar e colar com fita adesiva para que o datilógrafo conseguisse colocar na ordem certa. Tinha um erro, pronto! Tanto, que na minha tese de doutorado saiu um erro de concordância no primeiro parágrafo, eu quase morri! No fim, nós olhamos, olhamos e não vemos mais. Eram muito mais artesanais as coisas, sem dúvida!

Consequentemente demorava muito mais e não seria como agora que o grau de cobranças que nós temos, publicações, tem que sair tudo logo. Nesse sentido, nós trabalhávamos mais tranquilos, tínhamos mais tempo. Quando a tese estava pronta apresentávamos, quando achávamos que estava , o aluno e o orientador. Quando achávamos que estava no ponto, que os resultados estavam coerentes, aí escrevíamos e fechávamos. E as teses eram escritas na forma das teses antigas, com histórico, se mostrava erudição, tinha que ter muito conhecimento.

Quanto à possibilidade de conseguir as referências bibliográficas também, era muito engraçado. Não tínhamos nada no computador, nós pegávamos umas fichinhas na Biblioteca Central que tinham três vias com papel carbono, e anotávamos o que precisávamos. Deixei aqui para te mostrar, isso aqui ainda existe, seriam esses livrinhos da Life Science, os Courrent Counts. Courrent Counts é uma publicação que vem com os principais títulos das principais revistas das áreas de conhecimento. Então, nós procurávamos, olhávamos tudo, procurávamos o assunto, achávamos, e aí escrevíamos nesses bloquinhos para mandar para a Biblioteca Central, para eles procurarem. Às vezes levava três meses para vir do exterior, porque não tinha a revista no Brasil, então era tudo muito demorado, o ritmo realmente era outro. Agora é uma facilidade, uma maravilha, vamos preparar uma aula, precisamos de uma figura, entra lá na internet e acha qualquer figura, mas, as coisas eram assim mais artesanais.

Tivemos uma base muito boa, procurávamos sempre a excelência. Isso eu me lembro, era quase um refrão: “Temos que procurar a excelência, nunca está bom o suficiente”. O professor Cordeiro, nesse sentido, era muito rígido, nunca estava bom. Por isso é que publicávamos pouco com o professor Cordeiro, porque ele nunca dava por pronto os trabalhos, sempre fazia mais, mais e mais. Mas isso foi muito bom, fez com que ficássemos exigentes, criou espírito crítico. Mas foi um momento da história da ciência.

Nós íamos a todos os congressos, nós íamos todos juntos. Isso era muito engraçado, congresso no Rio de Janeiro, um monte de gente jovem, quando terminavam aquelas apresentações de trabalhos, que eram diretamente do nosso interesse, nós dávamos um jeitinho de sair lá pelas quatro horas da tarde para pegar um final de praia. Mas isso realmente dava muito problema porque os orientadores controlavam (risos)! Não podia, tinha que ficar dentro do congresso todo o tempo. Então isso é muito... Os congressos também ficaram famosos, assim, porque eram ocasiões onde nós éramos muito avaliados, nós estávamos sempre sendo avaliados, na verdade.

Nós trabalhávamos sábado, de manhã e de tarde, trabalhávamos no domingo, não tinha horário, tinha que vir domingo. Bom, agora eu venho menos no fim de semana, mas se for preciso venho, se tem algum aluno que está fazendo experimento e precisa da minha orientação eu venho. Mas é um trabalho muito envolvente, que realmente temos que gostar, tem que gostar muito mesmo, porque é muito forte, se exige muito também. Eu sempre trouxe filha junto para o laboratório e elas achavam que não era vida trabalhar desse jeito (risos)! Seguiram outras opções profissionais. Eu ficava feliz: “Vamos mostrar os bichinhos, vamos mostrar as plantinhas”. Nunca se entusiasmaram achavam muito sofrido.

Historiadora - E desses congressos, quais são os mais famosos?

Vera Gaiesky -Olha, obrigatório era o congresso nacional, o Congresso Brasileiro de Genética, esse continua até hoje, todo mundo vai. Esse é um hábito importantíssimo. Na Sociedade Brasileira de Genética temos contato com outros colegas e temos grandes amigos, também, em outros estados, porque nos conhecemos desde muito jovens. O Congresso Brasileiro de Genética sempre. Houve uma época em que nós tivemos, e agora foi retomada, uma Associação Latino-americana de Genética, a LAG, também, essa era a cada dois anos, em algum país da América Latina, nós íamos bastante. Depois, os congressos das áreas especificas, que aí podiam ser fora do país ou em países do Prata. Mas aí já era mais... Não eram eventos em que todos participavam.

Historiadora - Aqui não tinha?

Vera Gaiesky -Aqui também. Aqui, há quatro anos, começaram os eventos de Internacionais de Evolução, aqui do programa, teve em 2007 e 2009. Tem um grupo que trabalha, da área em que eu participo, o grupo das Drosophilas, das mosquinhas, que nós estamos já no sexto. Em Novembro foi o sexto congresso, também a cada dois anos. Foi em Florianópolis, em 2003 foi aqui, eu organizei. A Genética Humana Médica tem um Congresso à parte, é um congresso de Genética Médica. Eles vão também ao Congresso de Genética, mas tem esse evento. O pessoal das plantas também tem simpósio de biotecnologia de plantas. Então são áreas que... E de uns anos para cá tem também na Genética, que a professora Nance começou, por sinal ela está aposentada. A Nancy começou uma linha nova de Imunologia que trabalha com várias interfaces, com a Medicina, com grupos de hospitais que fazem bancos de órgãos, cultura de tecidos. É um grupo que já tem uma outra história, que já veio depois, que já sofreu um outro tipo de influência, mas foi um grupo que cresceu bastante.

Nós somos poucos, agora ficaram muito poucos daquela geração original, eu digo que sou a F1, como se diz em Genética, a F1 do Cordeiro. Então, os F1s estão ficando poucos. Na ativa estou eu, da Drosophila, F1 do Cordeiro, o Aldo, que é F1 do Salzano, que depois mudou para trabalhar com animais. Ele fez doutorado em Genética Humana e depois foi trabalhar com insetos. Aqui de cima, dessa geração, ficou eu, o Aldo e a professora Helga, que também já está aposentada. Na ativa somos nós os dois aqui em cima. Depois, tem outros professores jovens. No andar de baixo, ficou ali da primeira geração, na ativa, não aposentado, acho que a professora Sídia, que na verdade é lotada no Departamento de Estatística, a Sídia, a Mara está aposentada, mas continua trabalhando e, olha, eu acho que da primeira geração seriam esses, porque muita gente saiu.

Historiadora - E quanto ao doutorado, tinha o mestrado com as disciplinas e seminários, e o doutorado?

Vera Gaiesky - O doutorado funcionava mais ou menos como o mestrado, só com a diferença de que nós tínhamos mais tempo, quatro anos, ou mais. Eu levei quase cinco para fazer o meu porque eu fazia junto com as minhas disciplinas, as minhas atividades, eu dava disciplinas já como professora. Tínhamos disciplinas, mas aí eram menos, para completar os créditos, nós já fazíamos, eram quatro anos para fazer o mesmo que teria feito no mestrado. Tinha disciplinas, mas eram menos, os seminários que precisávamos fazer, e o trabalho experimental, e aí tinha que fazer um trabalho e publicar até o fim da tese. No mestrado era mais folgada a exigência, e agora voltou a ser de novo. Então funciona mais ou menos da mesma forma, claro que tínhamos mais tempo, estávamos mais tranquilos, já tínhamos passado pelo stress do mestrado, já sabíamos trabalhar. Sempre digo para os meus alunos quando eles passam do mestrado: “Agora vocês vão trabalhar mais tranquilos”. O mestrado é o sufoco.

Funcionava mais ou menos da mesma forma, tinham seminários que tinha de apresentar para o departamento e eu acabei defendendo só em 1984. Era para começar em 78, acabei começando em 79 o meu doutorado, fim de 79, depois, teve uma seca horrível não apareciam os bichos, porque precisam de umidade, então perdi bastante tempo. Mas eu dava muitas disciplinas, eu comecei jovem e continuo amando dar aulas na graduação.

Historiadora - Na graduação?

Vera Gaiesky -Na Graduação também. Tem várias colegas que dizem: “Ah, eu quero me aposentar porque não aguento mais aula na graduação”. Eu continuo gostando, continuo dando aula na graduação e na pós-graduação. Só que agora, claro, eu dou menos disciplinas, porque eu sou titular, eu não tenho mais que fazer as progressões funcionais, os professores jovens precisam dar mais aula porque eles precisam contar esses pontos para as progressões funcionais deles. Em termos de aulas, eu estou dando aulas em uma situação ideal para mim. Tenho uma turma, uma disciplina de graduação e dou uma disciplina de pós por semestre. Essas de pós são condensadas em um período só, então quando chegar no mês maio vou ficar só com a disciplina de graduação, e eu gosto muito. Depois, eu também estou pegando turmas que já estão se formando, então já são mais adultos.

Historiadora - A senhora dá aula de que?

Vera Gaiesky -Genética do Desenvolvimento, por isso esses livros todos aqui. É uma disciplina muito interessante e no Laboratório nós trabalhamos com Biologia Evolutiva, trabalhamos com populações de espécies que são aqui dessa região tropical. Um desses bichinhos, meu obscuro objeto de desejo, como eu brinco, com que trabalho desde a época do professor Cordeiro, é uma mosquinha aqui da América, ela vai até a Argentina e vai lá para cima , ela é americana, na verdade, vai até a Florida ou México. Esse foi o único bichinho para quem houve um projeto de sequenciamento de 12 espécies de Drosophila, e essa foi a única que foi daqui. Eles me chamaram para participar desse projeto. Até escolher qual era a linhagem, como é que ia ser para posicionar as regiões sequenciadas nos cromossomos. Foi um trabalho muito importante para nós, foi um reconhecimento. Esse bichinho realmente mostrou que as nossas aqui dos trópicos são muito diferentes de outras espécies que eles estudaram, mostrando características especiais do genoma, possivelmente refletindo uma longa existência num ambiente diferenciado.

Foi um trabalho muito bonito que eu tive a oportunidade de participar e aí mais três orientadas minhas que estavam também participaram e isso vai abrindo portas para todo mundo, o trabalho teve muita repercussão internacional, isso é muito bom! Quando alguém que nunca vimos pessoalmente, que não sabe quem nós somos, escreve elogiando o trabalho, achando uma maravilha, querendo continuar em contato, querendo fazer um trabalho junto, realmente atingimos o objetivo, não é? Isso é importante porque todos esses trabalhos agora, eles saem junto com os alunos e, por exemplo, são os alunos que vão botar a mão na massa, digamos assim, que estão fazendo a parte experimental, que estão estudando vários problemas relevantes. Isso vai dando possibilidade de treinamento para eles, possibilidade de nós fazermos mais interações, isso é muito bom. Eu espero, assim, que até pelo menos a minha compulsória, que deve levar uns sete anos e meio, que eu consiga fazer um bom trabalho e é muito bom já ter uma história para trás.

Teve vários colegas, passou muita gente por aqui, muita gente de todas as áreas da pesquisa, que se espalharam pelo mundo e foram viver em lugares diferentes. Quando nós vamos aos congressos é uma festa por relembramos vários momentos. Temos fotografias de quando éramos bem jovens, nós nos demos conta que éramos os estudantes e agora somos os professores. Chegam os alunos: “Ah! Professora, posso tirar uma foto com a senhora? Gosto muito do seu trabalho”. É porque realmente o tempo passou muito ligeiro e nós passamos, é a minha geração que está numa fase, em termos de ciência do Brasil, em postos de liderança, orientando muita gente, é muito bom.

Historiadora - Professora, pensando estritamente sobre a pós...

Vera Gaiesky - A pós-graduação, tu estás preocupada com a história do pós-graduação...

Historiadora -udo o que a senhora falou é fundamental. Agora eu estava pensando, em relação à estrutura da pós, os funcionários, algum funcionário que querias lembrar...

Vera Gaiesky - Na verdade, o grande funcionário com atividades diretamente relacionadas com o pós, é o Elmo. Tu já o conheces, é a alma da pós-graduação, é excelente. Tivemos outros funcionários antes, mas acontece que ficava difícil separar, porque a pós-graduação e o Departamento de Genética eram, praticamente, uma instituição só. Os funcionários que trabalhavam no Departamento eram aqueles que participavam diretamente dos projetos da pós-graduação, era tudo muito em comum. Eu não consigo estabelecer uma linha divisória de alguém que só trabalhasse para a pós ou só para o departamento. Os funcionários do departamento assumiam as funções relacionadas, claro que tinha uma senhora que era secretária que ficou menos tempo. Mas da pós-graduação mesmo, o funcionário que vem o nome como uma excelência, mesmo, é o Elmo Cardoso. Antes teve o Seu Eschilleti que ficou pouco tempo, acho que quando começou a se estruturar a pós-graduação , mas ele se aposentou, saiu em poucos anos. O Elmo era estagiário, era estudante, veio estudante para cá. Seu Eschilleti, agora não me lembro nem o nome dele completo1, mas isso deve ter nas fichas. Ele foi o primeiro secretário, era muito brincalhão... Tocava o telefone, ele dizia assim:

  • Casa dos Genes. Instituto de genes(risos).

  • Desculpe o engano.

  • Não , não aqui é....

Ele era uma pessoa muito engraçada! Tivemos um funcionário... Mas também não era da pós-graduação, era do departamento, o Seu Moacir, que era motorista. Nos levava nos trabalhos de campo das teses também. Ele levava o pessoal para aulas práticas, levava os professores para dar as aulas do departamento mas, ele ficava a disposição dos estudantes da pós-graduação. Era difícil, assim, uma linha divisória. Era tudo muito em comum.

É claro, sempre teve colegas que não se vinculavam à pós-graduação. Nós tínhamos colegas que não queriam a pressão, vários que não chegaram a orientar, que trabalhavam, que faziam pesquisa, que davam aula, mas que não chegaram a orientar pelo seu perfil psicológico. Eles não se adequavam porque nós sempre sofremos pressões, obvio. Desde então, eram os prazos, tínhamos que terminar, tem que apresentar o projeto, o projeto tem que ser aprovado e lido por muita gente, tem que conseguir recursos para o trabalho, tem que fazer as teses, as teses tem que ser publicadas. Nós tivemos vários colegas que não chegaram a se vincular ao pós-graduação. Mas também não me consta que tenha havido qualquer tipo de reclamação por parte dos colegas que não eram ali do pós-graduação pelos serviços prestados pelos funcionários para os que eram, ou pelo atendimento aos alunos. Era considerado, assim, um continuum. Depois, tinha a secretária de departamento, a Virgínia, que ficou muito tempo, mas a Virgínia atendia basicamente o departamento. Já o Elmo até hoje... Os departamentos não tem mais uma secretaria própria, foi tudo para o Instituto de Biociências acho que com a paciência do Elmo, ele atende até alunos de graduação, quando nós vemos ele está atendendo. Mas não houve, não me lembro de uma linha divisória. Todo mundo participava junto de tudo. Nas festas de fim de ano se assava peru no Laboratório do centro da cidade, o peru era feito na estufa, passava o dia inteiro assando peru nas festas de fim de ano, que eram comuns.

Historiadora- No centro, na Rua Professor Annes Dias?

Vera Gaiesky -É, ali na Rua Annes Dias. E ali era muito engraçado porque, obvio, era tudo muito enjambrado em relação às instalações. De vez em quando alguma coisa dava um curto e saia todo mundo correndo, descia 15 andares carregando as folhas de papel das teses escritas embaixo do braço!

 

Historiadora - Mas nada chegou a acontecer, não é?

Vera Gaiesky - Não. Uma vez apareceu fumaça, então saímos todos, depois nós conseguimos voltar, eram umas substâncias químicas que o professor Flavio Lewgoy trabalhava, não sei se já ouviste falar do Professor Flávio...

Historiadora - Entrevistei-o.

Vera Gaiesky - Ele tinha umas estantes muito antigas de madeira, como aquela ali... Ela cedeu e caiu, então caiu um vidro com uma substância química, não me lembro agora o nome, e levantou fumaça. Na verdade, não era fumaça de queimado, era um processo químico mesmo. E saiu todo mundo correndo!

O professor Flávio foi um dos que chegou a trabalhar aqui, veio para Campus e chegou a trabalhar aqui dentro onde agora tem o laboratório de Biologia Molecular. Havia o sub-laboratório dele dentro do laboratório geral. Então, nós trabalhamos muito tempo.

O professor Flavio Lewgoy foi um dos primeiros que o professor Cordeiro convidou para trabalhar. O Departamento de Genética começou no porão da Faculdade de Direito, com o Lewgoy, Salzano e o professor Casemiro Tondo, que era da Biofísica. Aí, eles começaram a trabalhar e o Cordeiro foi para o Rio de Janeiro trabalhar com o Dobzhansky, que foi um cientista russo da Evolução. Na verdade o pessoal brinca que nós estamos na linha direta do Dobzhansky que foi orientador do Cordeiro, que me orientou, e eu orientei meus alunos, então, somos da linha direta do Dobzhansky. Depois, ele voltou, esteve nos EUA, também, naquela época, e depois criou o Departamento de Genética em volta das moscas, aí o Salzano foi fazer doutorado com o Neel e quando voltou ele se estabeleceu.

Começou com o Laboratório de Drosophila e foi crescendo, foram abrindo as linhas, a própria Genética Vegetal e a pós-graduação foi uma consequência natural. Era um momento político em que havia interesse do governo de implantar o programa de pós-graduação, e foi uma geração toda que começou. Nós todos, da minha geração, conseguimos nossos empregos, digamos, as nossas carreiras como mestres porque não tínhamos ainda feito doutorado. E isso agora... Imagina, agora não se consegue mais.

Os esforços para formar os primeiros mestres foram muito importantes para a ciência brasileira em geral, em todas as áreas, e para nós também. Eu me lembro do Professor Cordeiro indo para o Rio de Janeiro, indo para Brasília. Ele era filho de general, não se intimidava muito com os generais! Ele ia lá para Brasília e chamava, e usava todos os recursos para formalizar a pós-graduação. Por isso que começou tão rígido, tinha que ser uma coisa muito boa, nós fomos o campo de prova. Várias pessoas defenderam antes, já tinham praticamente a sua tese feita sem que o curso tivesse sido regulamentado. A professora Helga, o professor Edmundo Kanan Marques, o professor Fernando Rocha, não sei se chegastes a entrevistar, o Israel Roisenberg, também, que está com um problema, está em coma. Então, esses quatro, que eu me lembro bem, defenderam as suas teses praticamente logo depois que o pós-graduação se estruturou porque eles já tinham os trabalhos. Acho que foi a tese da Helga que foi defendida de toga, com toda a sobriedade, depois foi ficando mais à vontade.

Historiadora - Tinham alguns cursos, né?

Vera Gaiesky -Isso, eram cursos, não tinha uma regularidade, quando tinha um oportunidade eles faziam cursos e contavam como créditos para o mestrado. Acho que a minha geração foi a primeira que pegou disciplinas em um programa mesmo, de ter tantos créditos, tantas disciplinas. Os professores se organizavam e davam, acho que fui da primeira geração, e era bem pesado, nós tínhamos muitas leituras, precisávamos ler com antecedência tantas coisas e tínhamos máquinas de fax, que chamávamos de termo-fax. Os papéis ficavam amarelos.

Então, começou muito rígido e acho que isso está na base da formação, tinha que ser um curso de excelência, tínhamos que ser especialistas: “Temos que seguir a excelência”. Este era o lema. Nunca estava bom, naquela época não tinha recursos... Fotografia: a fotografia estava ótima, mas o fundo estava... Não presta! Não conseguíamos que a foto ficasse boa. Agora, nós vamos no photoshop, limpamos aquele fundo sujo e deixamos a imagem que queremos mostrar. Naquela época, tínhamos que começar tudo de novo, então foi sempre essa busca. Realmente, foi uma saga para se criar tudo que se criou, depois começaram as novas exigências da Capes. Aí, o tempo de titulação era muito longo, os mestrado eram de dois anos, podia-se prorrogar por mais três e mais seis meses, aí os doutorados levavam sete, oito anos. Começou a haver uma preocupação, uma diretriz da Capes de diminuir o tempo de duração. Aí, foi um esforço muito grande para todo mundo se adequar, porque tinha trabalhos que envolviam quatro anos de pesquisa a campo... Nós tivemos que redimensionar os nossos projetos, pensar em uma objetividade maior.

Depois, eram várias... Tem que ter um número X de alunos por orientador, número de publicações por ano, também, começou a ser muito, muito cobrado. Sei que houve um esforço prático e nós chegamos ao nível sete, que é o nível máximo. Daí, toda a preocupação em manter o nível sete, que é o máximo, mas isso foi produto de várias tentativas de irmos nos ajustando às novas realidades e recursos também. A concorrência por recurso está muito maior, então nós temos que nos adequar.

O curso tinha que ter as disciplinas obrigatórias, tinha as disciplinas eletivas, podia fazer algumas disciplinas em outros cursos de pós-graduação, uns colegas iam fazer na Bioquímica. Essas eram as eletivas, mas tinha um núcleo que era obrigatório, todo mundo tinha que fazer e acho que foi bom, sabe? É claro que o conhecimento está indo para outras áreas, mas nós tínhamos que conversar uns com os outros, independente das suas áreas de pesquisa, porque nós tínhamos uma formação em comum. Era outro momento, não dá para dizer se era melhor ou se era pior, era bem diferente, mudou muito.

O que mais posso dizer do curso? Claro, que o curso, depois que começou a ser pontuado, porque antes não tinha nota, o cursos chegou a um nível mais alto...

Historiadora - Quando surge o mestrado, aí surge também essa questão da nota?

Vera Gaiesky -Para poder ser liberado, para abrir para o Doutorado, vários parâmetros são medidos , como por exemplo, tempo de titulação, publicações dos professores, se na publicação do professor o aluno está junto, para mostrar que houve investimento na formação do aluno. E isso foi importante porque quanto maior a nota, digamos assim, o conceito do curso, mais dotação de bolsas vem. Então, pode pegar mais alunos, se pega mais alunos tem mais trabalhos. Mais trabalhos mais publicações, é um continuume tem que manter a média.

O grau de pressão realmente aumentou, estamos sempre sendo pressionados para nos ajustar, mas, sem dúvida, tem certo stress que eu acho bom porque nós também vamos atrás, e foi isso.

Historiadora - A senhora gostaria de dizer mais alguma coisa?

Vera Gaiesky -Pois é, eu quero pensar o que poderia te acrescentar, acho que uma coisa importante é dizer que tivemos excelentes funcionários, nossos funcionários pegavam parelho nas teses dos alunos, por isso digo que eles eram funcionários do departamento, mas encaravam os trabalhos de tese tanto como se fosse uma trabalho para o professor. Tinha uma integração muito grande dos funcionários, tivemos excelentes funcionários.

Tivemos alguns períodos... Por exemplo, o professor Cordeiro se afastou, nós tivemos forte influência do Danko Brncic, uma pessoa maravilhosa. Nós tivemos, isso foi uma constante, muitos estrangeiros vindo. Sempre tivemos contato com professores estrangeiros, professores de fora. Éramos obrigados a falar inglês, ficávamos com vergonha, mas falávamos, tinha sempre um contato com uma realidade... Um mundo maior, digamos assim. E essa obrigatoriedade de ir a congressos, isso era muito importante.

Nós professores, e eu enquanto estudante e depois como professora e orientadora de professor jovem, tivemos uma formação, um preparo, um ambiente muito favorável para crescer, para pensar grande, para se impor, mostrar, aprender a argumentar, foi muito bom. Então, foi isso e sou parte, eu acho, da primeira geração da pós-graduação.