Memórias e Heranças do Professor Nilton Fischer – homenagem do PPGEdu


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Em 19 de agosto o PPGEDU realizou, com a presença de colegas, amigos, ex-orientandos e familiares, uma homenagem aos 10 anos sem o professor Nilton Bueno Fischer.

A homenagem contou com depoimentos de alguns professores do Programa e de outros programas brasileiros (no vídeo abaixo), além de homenagens presenciais.

O texto abaixo, de autoria da professora Rosa Maria Bueno Fischer, abriu a tarde e deu o tom do encontro.

Acesse aqui vídeo em Homenagem Prof. Nilton Fischer

10 anos sem Nilton

PPGEDU/19 de agosto de 2019

 

Rituais falam, sobretudo, de tempo e de passagens. Datas marcam começos, às vezes finais, encerramentos. Hoje, estamos aqui para fazer o que muitas vezes nos é dado viver. Em ocasiões como esta, nos vemos às voltas com a recuperação de nossas memórias, individuais e coletivas – particularmente as coletivas.

Para todos aqui presentes, mas de modo especial aos novos alunos que chegam a este Programa, penso que é relevante comentar, inicialmente, algo que talvez muitos aqui percebam ou vivam cotidianamente. Falo do sentimento que por vezes nos toma, de que nossas existências possam de algum modo perder-se, hoje, diante de tanta coisa a ver, a ler e a fazer. Ainda mais diante do horror que vivemos hoje, principalmente quanto às notícias relativas aos rumos da educação no Brasil.

Um evento como este, que celebra a memória do professor Nilton Bueno Fischer, tem a ver com algo mais amplo, com um modo especial de resistência: a necessidade urgente de recuperar os rastros do que somos e fomos, ou daquilo que temos sido até aqui. A pergunta de Foucault, de Nietzsche e tantos outros – afinal, como nos tornamos o que somos neste exato presente? – essa pergunta anima visceralmente este encontro. Para os que não sabem, já estivemos nesta mesma sala, um mês após a morte do Nilton, depois 5 anos passados. E, agora, 10 anos depois daquele triste 2009. Estivemos e estamos para contar e recontar o vivido. Sim, para recontar como forma, como gesto de resistência.

Para que fazemos isso? Seria para cultuar um passado? Para cultuar uma pessoa – neste caso, uma pessoa não só notável mas tão querida e tão íntima? Para não esquecê-lo jamais?

Um pouco disso, sim. Mas não só isso. Desde Adorno e Freud, passando por Ricoeur, Bergson e Benjamin, aprendemos sobre a enorme relevância de elaborar o que nos sucedeu, no esforço genuíno de abandonar a repetição e criar algo novo no presente, para além do saudosismo, da melancolia ou até do ressentimento. Operar com lembranças e memórias significa empenho, trabalho, dedicação, esforço de compreensão – não apenas em relação ao passado, mas principalmente ao presente. Trata-se de buscar um jeito de respirar ar novo, pra seguir adiante.

Nilton (os colegas, alunos e orientandos dele sabem bem, e nós de sua família igualmente) criava e recriava o passado no presente. Funcionava assim. Gostava de ser assim. Herdeiro de Paulo Freire, de José de Souza Martins, de tantos outros pensadores, Nilton refazia os itinerários desses estudiosos e os “pegava à unha”, como costumava dizer, plenamente herdeiro deles, na medida exata em que os recriava.

É preciso dizer que este Pós tem a cara do Nilton. É o Pós da multiplicidade. Do pensamento aberto e complexo. Herdamos do Nilton seu jeito de transitar pelas mais ínfimas manifestações populares, sua alegria em curtir o encontro com intelectuais refinados, do mesmo jeito que se alegrava com os papeleiros e recicladores, com alunos de todos os níveis. Sabemos (a aprendemos com ele) que  sua alegria nesses tão diversos encontros era rigorosamente a mesma.

Como escreveu Chico Buarque, numa de suas canções dos anos 1960, “tem mais samba no encontro que na espera”, “tem mais samba no chão do que na lua”, “tem mais samba no homem que trabalha”, “tem mais samba no som que vem da rua” – “porque o bom samba não tem lugar nem hora, o coração de fora samba sem querer”. E Chico termina: “Vem que passa teu sofrer, se todo mundo sambasse seria tão fácil viver”.

Sambar aqui, claro, é pura metáfora. Se todo mundo sambasse, se todo mundo se encontrasse, se todo o mundo viesse pra rua, se todo o mundo pensasse, criasse, se todo mundo pusesse os pés no chão, sem deixar de olhar a lua… seria … não sei, seria “mais fácil viver”.

Lembro (e muitos recordam isso) que uma das características marcantes do Nilton é que ele sofria muito com o verão úmido e escaldante de Porto Alegre. Com qualquer verão, aliás. E um dia friozinho como o de hoje é a cara dele. Às vezes fico pensando que isso tinha uma razão de ser: temperaturas altas significavam calor demais para ele, justamente ele, um ser humano, profundamente humano, cheio de calor por dentro, incendiado de carinho pelas pessoas, intenso em cada gesto seu. E, junto a isso, um pesquisador que não se esqueceu de ser criança, curioso que era com cada grão de areia, com cada som que lhe vinha da rua. Ah, se todo mundo sambasse como Nilton, com certeza, seria tão mais fácil viver.

Rosa Maria Bueno Fischer

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